Mary estava com medo de que Roger fosse como Willoughby, de Razão e sensibilidade, e de que ela estivesse agindo como a ingênua Marianne Dashwood, uma das duas personagens principais do livro de Jane Austen.
Porém, ao mesmo tempo em que estava temerosa, ela não poderia estar mais feliz. Gostava mais de Roger do que considerava prudente. "Posso quebrar a cara, entretanto, enquanto Roger me fizer feliz, não vou querer ficar sem ele", ela pensava.
– Quem é você e o que fez com a Mary? - Michelle e Sarah perguntaram quando a amiga anunciou o namoro.
– Sou uma versão mais corajosa dela. - a garota respondeu. - Ainda que esteja com um certo receio.
Ele não era o cara romântico com quem ela sempre sonhara. No entanto, ainda não havia aprontado nada. Mary achava que podia dar um voto de confiança a Roger.
Nos ensaios dos High Numbers, o clima era de curiosidade. Os colegas de Roger ansiavam por conhecer a garota que havia conseguido um compromisso sério com aquele conquistador barato.
Roger não teve opção a não ser levar Mary com ele a um dos ensaios.
– Pessoal, essa aqui é a Mary, minha namorada. - ele a apresentou.
– Oi, rapazes. - ela falou, tímida. - E eu já conheço o Keith, Rog.
– Conhece? - Roger estava surpreso.
– Sim. Bebi umas doses com ela e as amigas uma vez... Sabe, naquela festa. - o baterista completou, achando que Roger ia lhe dar um soco, por ter mencionado a ocasião em que este havia preferido ficar com outra garota em lugar de Mary.
– Ah... Sim. - o vocalista limitou-se a lançar-lhe um olhar torto. - Bom, Mary, o narigudo é o Pete, e aquele caladão ali é o John.
Mary riu discretamente, e falou:
– Muito prazer, Pete e John.
– O prazer é meu. - respondeu Pete.
– Igualmente. Pode me chamar de Ox, se quiser. - John disse a Mary.
– Ok. - Mary concordou. Reconheceu o baixista que havia achado bonito na primeira vez em que havia visto os High Numbers, mas disfarçou. - Acho melhor não atrapalhar vocês, meninos. Vou me sentar naquele banquinho no canto para ver vocês ensaiarem.
E assim ela fez. Mary só tinha olhos para Roger, mas não pôde deixar de notar que John a olhava disfarçadamente. Contudo, ele não se deu conta de que havia sido descoberto, e Mary preferiu deixar aquilo para lá.
Passaram-se algumas semanas. Mary estava sentada no sofá de seu apartamento com Roger. Michelle e Sarah não estavam. Ao perceber o olhar malicioso de Roger e que uma das mãos dele estava sobre sua perna, ela perguntou:
– O que você está querendo, hein?
– Vamos para o seu quarto? Lá eu te explico.
– Não precisa explicar. Já entendi.
– Ah, é? - ele deu uma risadinha.
– Não vá pensando que eu sou fácil, rapaz, porque eu não sou. - ela falou, levantando-se.
– Onde você vai?
– Pegar uma coisa no meu quarto.
– Eu vou junto.
– Nem pense nisso.
– Tá bom, eu fico.
Mary olhou-o desconfiada. Entrou no cômodo e pegou a tal coisa: uma bala de menta. Era viciada naquelas balas e não gostava de dividi-las com ninguém. Ia saindo, quando Roger entrou em seu caminho.
– Afe, Roger, como você é chato. Pare de fazer gracinha. - ela tentou abrir a porta do quarto, que ele havia fechado ao entrar. - Está trancada! Cadê a chave, seu filho da mãe?
– Eu joguei em cima do guarda-roupa. - ele riu.
– Safado. - ela resmungou. Antes que pudesse subir na banqueta da penteadeira para pegar a chave, Roger jogou-a na cama.
– O que eu estou querendo é você... - ele sussurrou no ouvido dela.
– Quer saber? Dane-se tudo. - ela falou.
– Agora você está falando minha língua, linda.
Roger beijou o pescoço de Mary e tirou os óculos dela. Ela fechou os olhos e suspirou. Entregou-se a ele, e ele a amou com paixão. Quando tudo terminou, Mary adormeceu nos braços de Roger.
Despertaram com o barulho do telefone. Roger atendeu.
– Alô? Sim, é a casa dela, sou o namorado dela... Está bem, um momento.
– Quem é? - ela quis saber.
– Seu amigo... Tom Parker. - ele passou o fone para ela.
– Alô? - Mary atendeu.
– Olá, Mary. Eu tenho uma boa notícia...
– Que notícia, Tom?
– Consegui uma gravação para a banda!
– Sério, cara?
– É sim.
– Você avisou o Andy e o Rob?
– Claro... Vamos gravar um compacto daqui a dois meses, pode ser?
– É óbvio, Tom!
– Ok... Vou te deixar voltar para os braços do vocalista dos High Numbers... Eu tô de olho, garota.
– Cala a boca, Tom. - ela riu. - Até logo.
– Até. - Tom respondeu, e desligou.
– O que foi? - Roger indagou.
– Os Parkers vão gravar um compacto! - ela falou, muito alegre com a notícia.
– Parabéns. - ele falou com um sorriso.
– Obrigada. - ela sorriu também, e aconchegou-se nos braços de Roger.
Dois meses depois, chegou o dia da gravação do compacto. O lado A seria It Will Never Be The Same, composição de Tom e Mary. O lado B seria um cover de All Shook Up, de Elvis Presley.
A empolgação de Mary era visível. Assim como os High Numbers, os Parkers estavam próximos de conseguir um contrato e, portanto, ter que ir para Londres. Desse modo, ela poderia ir para a capital com Roger. Estava muito apaixonada.
Quando a gravação finalmente terminou, ela disse a Tom:
– Você cantou muito bem. Até parece o próprio Elvis!
– Não exagere, Mary... Você se saiu muito melhor. Soou como Scotty Moore!
– Ok, ok, todos nós parecemos Elvis e a TCB Band. - o baixista, Andy, riu.
– E os High Numbers, Mary? Você sabe se eles vão gravar algo? - quis saber Rob, o baterista.
– Sim. Uma música chamada "Zoot Suit". O outro lado se chama "I'm The Face", eu acho. - ela respondeu.
– Diga ao Roger que desejamos sorte. - falou Tom.
– Sim, vou dizer. - ela falou.
Ao chegar em casa, Mary encontrou Roger procurando algo para ver na televisão. Eles estavam morando juntos havia uma semana.
– Oi... - ela cumprimentou, sussurrando no ouvido dele.
– Oi. - ele cumprimentou de volta, sussurrando também. Em seguida, abaixou um pouco a alça da blusa dela e lhe beijou o ombro.
– Espera um pouco... - ela o interrompeu.
– Que foi?
– Que cheiro de perfume feminino é esse em você? Não é o meu perfume, tenho certeza!
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