Bob certamente
iria dizer a Fanny que aquilo era perda de tempo. Mas o que ela poderia fazer
se Mike Nesmith não saía de seus pensamentos?
Ela queria
procurar o Monkee. Perguntar-lhe o porquê da traição para com Alice. O casal
parecia tão unido... Pelo menos Alice estava feliz com Bob. Fanny ficava
contente pelo amigo. Ela gostava de Alice. Mas tinha que admitir a si mesma: não
gostava de saber que não era mais o objeto do amor de Bob. Estaria ela...
Apaixonada por ele? Deu de ombros e tomou uma decisão. Pegou o telefone. Discou
o número do hotel em que ela sabia que os Monkees sempre se hospedavam em
Londres. Ser amiga pessoal da banda tinha suas vantagens.
- Alô? – disse o recepcionista.
- Olá. – respondeu Fanny. – Meu nome é Fanny Fitzwilliam e
eu gostaria de falar com Mike Nesmith. Poderia passar a ligação para o quarto
dos Monkees, por gentileza?
- Você com certeza é apenas uma fã que descobriu onde eles
estão.
- Sim, sou uma fã, mas também amiga da banda! Passe a ligação,
por favor! É urgente!
- Está bem, está bem. – disse o recepcionista, um pouco de
má vontade.
Fanny
esperou um pouco. E então uma voz grave falou:
- Alô?
- Nez? Sou eu, Fanny.
- Olá, Fanny! – disse ele. – Como você está?
- Eu estou bem, obrigada. E você?
- Também.
Houve um silêncio de alguns minutos. Até que Fanny quebrou o gelo.
- Nez...
- Sim?
- Preciso falar com você sobre um assunto importante.
A garota quase podia
ver as sobrancelhas de Mike franzirem.
- Que assunto?
- Tem a ver com a Alice. É tudo
que você precisa saber por enquanto.
- Ok... Onde nos encontraremos?
- Que tal meu quarto de hotel?
- Está bem. – disse Mike. – Onde
fica?
Fanny passou o endereço a ele
e ficou combinado que Mike iria até lá no dia seguinte às 15h. Conforme
combinado, Fanny ouviu uma batida na porta às 15h do dia seguinte. Ela se
levantou de sua poltrona e abriu a porta. Viu o rapaz alto, e como sempre,
sentiu-se intimidada. Fanny, por ser baixa, se sentia intimidada diante de
pessoas muito mais altas do que ela.
- Hã... Oi, Mike. – disse ela.
- Oi, Fanny. – ele deu um pequeno
sorriso para ela.
- Entre. – disse ela, acenando num
gesto convidativo.
- Com licença. – disse ele,
entrando. Já ia se sentar numa das duas poltronas, quando viu uma coisa preta e
peluda em cima da poltrona. – Opa! Quase me sento em cima do seu gato, Fanny!
Acho que não fomos apresentados.
- Este é o Voltaire, Nez. – disse
Fanny, pegando o gato das mãos de Mike. – Voltaire, este é o Nez.
O gato deu um pequeno miado e pulou
do colo de Fanny, indo se enrolar para cochilar em cima da cama da jovem.
- Ele me lembra o Galahad. – disse
Mike.
- Quem é Galahad? – Fanny
perguntou.
- O gato da Alice. – respondeu o
Monkee com um suspiro. – Foi meu último presente antes de... Bem... Você sabe.
- Era sobre isso que eu queria
falar com você, Nez.
- Sobre eu ter traído a Alice?
- Sim. Eu não entendo porque fez isso. Errar é
humano, mas cometer o mesmo erro duas vezes é burrice!
- Eu sei. Marie Greyhound me disse
isso.
- Desculpe, Mike, mas realmente
não consigo compreender como foi capaz de trair uma garota de quem você
realmente gosta.
- E você acha que sou capaz de
compreender isso, Fanny? Quem me dera!
- Bem... Não posso culpá-lo. Todos
nós fazemos coisas tão estúpidas...
- Posso supor que esteja se
referindo a um dos seus namorados?
- Sim. Ray Davies me traiu com a
Nora.
- Com a Nora? – os olhos de Mike
se arregalaram. – Mas vocês não são amigas?
- Sim, nós somos. Não houve
animosidade entre nós por isso pelo motivo de que nós duas nos sentimos
enganadas.
- Puxa... – Mike olhou para baixo.
– Coitada da Nora... Eu já fiz isso com ela, agora o Davies... Ela não merece
isso.
- Ninguém merece. – disse Fanny. –
Bem... Sabe... Tenho que confessar uma coisa.
- O quê?
- Eu... Eu acho que gosto do Bob,
Nez. Mais do que simplesmente como amigo.
- E agora ele está com a Alice.
- Isso aí.
- Frances, posso presumir que quer
saber se tenho planos de tentar reconquistar a Alice?
- Você é espertinho, Michael.
* * *
- Onde esteve a tarde toda, Mike?
– perguntou Davy a Mike quando ele finalmente voltou ao hotel dos Monkees. –
Bob e Bert já iam mandar a cavalaria atrás de você!
- Estive com a Fanny.
- A Fanny? – Micky sorriu
maliciosamente para Mike. – Eu achava que quem gostava dela era o Peter.
- Eu só a acho muito bonita,
Micky, você sabe disso! E além do mais, já tenho a Erin. E ela é perfeita. –
Peter deu um pequeno suspiro ao falar da namorada, que ele precisou deixar em
Los Angeles.
- Só que eu não fui visitá-la com
as intenções que você está pensando, Micky. – disse Mike. – Ela quer minha
ajuda para recuperar o Dylan.
- O Dylan? – Davy indagou. – Mas
ela teve mesmo um rolo com ele?
- Não. Mas todo mundo sabe que ela
gosta dele mais do que como amigo. Ela me confessou isso. E ela quer que eu
recupere a Alice para que ela possa ficar com Dylan.
- Unindo o útil ao agradável. –
disse Peter.
- Exatamente. – concordou Mike.
- E você vai ajudá-la? – quis
saber Davy.
- Vou. – afirmou o Monkee do
gorrinho.
- Só uma perguntinha a mais... –
começou Micky. – Você acha mesmo que a Alice vai aceitá-lo de volta depois da
sua canalhice sem tamanho?
- Não sei. Mas a esperança é a
última que morre, meu amigo.
* * *
- Você resolveu pedir ajuda ao
Mike Nesmith para fazer o Dylan voltar a gostar de você, é isso? – perguntou
Elinor à irmã mais nova.
- Sim. – confirmou Fanny.
- Maninha, eu não quero ser chata
nem nada, mas... Isso não vai rolar.
- Por quê, Elinor?
- Ora, Fanny, porque tem
absolutamente tudo para dar errado! Você acha que Alice vai querer o Nesmith de
volta depois do que ele fez? Eu não iria querê-lo!
- Bem, eu... – Fanny esfregava o
braço, nervosa. – Estou apostando que Alice ainda gosta do Nez. Elinor... Ele
está arrependido. Isso é visível nos olhos dele. Você sabe que sempre fui boa
em perceber as coisas “no ar”, por assim dizer.
- Sim, eu sei. E Fanny, eu posso
estar errada, mas estou sentindo que os planos não vão ter os resultados que
você e o Nesmith estão esperando.
- E que resultados você acha que
terão?
- Não faço ideia. Mas uma coisa
afirmo: você não vai ter Dylan e ele não vai ter Alice.
Fanny mordeu o lábio.
Esperava que a irmã estivesse errada.
* * *
Mike estava nervoso. Iria
à casa de Alice naquela tarde para tentar conversar com ela. Se ela ao menos o
recepcionasse, seria uma vitória. Respirou fundo e tocou a campainha. Ela abriu
a porta, e assim que o viu gritou:
- Vá embora!
- Alice, por favor... – ele tentou
segurar a porta. – Eu estou arrependido, não sei o que deu em mim...
- Não sabe, é? – ela ironizou. –
Pois eu sei muito bem o que deu em você! Ca-na-lhi-ce! Vá embora já! Ou você
vai me obrigar a chamar o Bob?
- Eu acabo com o Dylan em
segundos.
- Claro, claro. – Alice resmungou.
– Vou dizer uma última vez: vá embora, Robert Michael Nesmith! Eu te odeio!
Entristecido, Mike decidiu
ir embora. Contudo, ainda tentaria mais uma ou duas vezes. Enquanto isso, Fanny
conversava com Bob:
- Bob, eu sei que você gosta muito
da Alice, mas você não acha que ela ainda sente algo pelo Mike?
- Hum... Por que acha isso, Fanny?
- Sei lá... Ela o amava demais até
saber do que ele fez...
- Bem, isso é fato. Mas creio que
o amor que ela sentia se transformou em ódio.
- Não podemos excluir essa
possibilidade. – Fanny reprimiu um suspiro resignado. Fazer Bob voltar a ser
apaixonado por ela seria mais difícil do que imaginava.
Naquela tarde, Mike foi até o
apartamento dela.
- Nada feito, Fanny. Alice não
quer me ver, nem mesmo pintado de ouro. Ela me odeia do fundo da alma. Sabe, há
uma coisa que me intriga.
- O quê? – Fanny perguntou.
- Por que você não me despreza?
Era o que eu merecia, visto o grande erro que cometi.
- Bem, eu... Não sei, Mike. Eu
acredito quando você diz que está arrependido. Posso ver o sentimento de culpa
nos seus olhos. Eu sou muito... Intuitiva. Você está totalmente corroído pela
vergonha que sente de si mesmo.
- Sim. – ele abaixou a cabeça. –
Eu não mereço ter o amor de mais nenhuma mulher, depois da minha canalhice.
- Você foi mesmo um canalha,
Nez... Mas todo mundo merece uma segunda chance. Bem, no seu caso uma terceira.
– ela deu uma risadinha, arrancando um sorriso do Monkee.
- Você é muito legal, Fanny. – ele
disse.
- Obrigada. Eu faço o meu melhor.
Fanny levantou-se,
ligou o rádio e mexeu no botão das estações, até que reconheceu os primeiros
acordes de True Love Ways, de Buddy
Holly.
- Venha, Nez, vamos dançar. – ela
estendeu sua mão para ele.
- Eu não danço. – disse ele. –
Você acha que um cara alto e desengonçado como eu consegue dançar?
- Eu também não sou nenhuma
pé-de-valsa, Nesmith.
- Tudo bem. – ele tomou a mão
dela.
Just you know why
Why you and I
Will by and by
Know true love ways
Sometimes we’ll sigh
Sometimes we’ll cry
And we’ll know why
Just you and I
Know true love ways
Throughout the days
Our true love ways
Will bring us joys to share
With those who really care
Sometimes we’ll sigh
Sometimes we’ll cry
And we’ll know why
Just you and I
Know true love ways
Throughout the days
Our true love ways
Will bring us joys to share
With those who really care
Sometimes we’ll sigh
Sometimes we’ll cry
And we’ll know why
Just you and I
Know true love ways
Ao fim da música, Fanny disse:
- Sabe, até que você não dança
mal, Mike.
- Você também. – ele sorriu.
- Eu... Queria achar um cara que
me mostrasse o verdadeiro jeito de amar.
- Você vai achar. Já eu... Acho
difícil que eu encontre a garota que vai me mostrar isso.
- Será mesmo? Eu tenho certeza que
você achará. – Fanny ficou na ponta dos pés e conseguiu dar um beijo no rosto
de Mike.
Para
ambos, aquele beijinho foi algo especial.
* * *
Os Monkees
precisaram voltar aos Estados Unidos. Mike, desde aquele dia em que dançara com
Fanny e ganhara dela um beijo no rosto, não parava de pensar nela. Ela era uma
garota adorável. Comentou isso com os amigos.
- Mike está apaixonado, ora, ora.
– Micky riu.
- Xi, Peter, ele vai roubar a
Fanny de você. – Davy disse.
- Não tem problema. Já estou bem
feliz com a minha Erin. – Peter sorriu.
- Eu não sei bem se estou
apaixonado... – Mike estava um pouco duvidoso.
- Ah, está sim. – Davy falou,
autoridade que era no assunto. – Você tem bom gosto, Fanny é uma bela pequena...
Não deixem Di saber que eu disse isso. Ou ela vai me matar.
Davy e
seus amigos caíram na gargalhada. Enquanto isso, na Inglaterra, Fanny também
não parava de pensar em Mike. Chegou à conclusão de que havia aceitado que ela
e Bob eram apenas amigos. Decidiu que iria aos Estados Unidos atrás dele. Mas
antes, ligou para ele.
- Você vai vir aos Estados Unidos,
Fanny? Bem... Se quiser, pode vir nos ver em Hollywood Hills.
- Hollywood Hills?
- A casa do Davy e da Dianna.
Vamos passar a semana aqui, escrevendo o roteiro para o nosso filme.
- Que legal! Mas não vou
atrapalhar vocês, Nez?
- Claro que não! Você é nossa
amiga, é bem-vinda.
Encorajada assim por Mike, Fanny arrumou as malas
e partiu para os Estados Unidos. Chegando a Los Angeles, ligou para a casa de
Davy, cujo número Mike havia lhe passado. Pegou com o dono da casa o endereço e
um táxi a levou até lá. Tocou a campainha. Foi atendida por Dianna.
- Olá, Fanny. – a namorada de Davy
sorriu.
- Oi, Dianna. – Fanny devolveu o
sorriso. Então sentiu duas coisas peludas roçarem suas pernas. Olhou para
baixo. – Não sabia que vocês tinham gatos, Di.
- Pois é, nós temos. Estes são o
Odisseu, meu gato, e a Penélope, a gata do Davy.
- Quando eles derem cria vocês vão
chamar um dos filhotes de Telêmaco? – Fanny perguntou, em meio em uma risada.
- Provavelmente sim. – Dianna
respondeu, também rindo. – Mas, entre, Fanny! Sinta-se à vontade.
A dona da casa
conduziu Fanny pelos corredores. A decoração tinha um estilo inglês, o que era
de se esperar, visto que tanto Dianna quanto Davy eram ingleses. Os gatinhos
seguiam sua dona e a visitante. Até que Dianna abriu a porta de uma saleta.
Fanny viu os Monkees sentados no chão, em meio a lápis, papel e vários
cigarros. Escreviam e liam atentamente. O primeiro a erguer os olhos do caderno
onde rascunhava algumas cenas para o filme foi Micky.
- Vejam só quem chegou! – exclamou
ele, animado. – Olá, Fanny!
- Oi, Micky. – Fanny devolveu o
cumprimento entusiasmado do Monkee maluquinho.
Mike levantou a
cabeça, e ao ver Fanny não pôde impedir um sorriso de se formar em seus lábios.
- Oi, Fanny. – ele disse, ficando
um pouco corado.
- Oi, Mike. – ela o cumprimentou,
também enrubescendo.
Davy e Peter a
saudaram, e Fanny retribuiu as saudações deles. Estava ansiosa para ficar a sós
com Mike. Precisava dizer a ele o que sentia. Passou o dia com Dianna e os Monkees,
conversando e rindo. Trocava alguns olhares com Mike timidamente. Num certo
momento, todos os outros saíram da saleta, deixando os dois sozinhos, como se
houvessem entendido que eles precisavam de alguns instantes a sós.
- Fanny, eu queria dizer algo a
você.
- Eu também gostaria de te dizer
algo, Nez.
- Você primeiro. – disse ele, com
um sorriso.
- Não, diga você.
- Fanny... – Mike pegou a mão dela
e beijou. – Eu estou apaixonado por você. Eu entendo perfeitamente que você não
me corresponda, mas...
Fanny não o
deixou completar a frase. Beijou-o ardentemente. Dianna e os outros Monkees
observavam tudo por uma fresta da porta, e sorriam. Mike e Fanny haviam
descoberto o verdadeiro jeito de amar.

