A
cada dia que passava Davy estava mais irritado e infeliz. Parecia que Amber
testava sua paciência. Sempre exigindo mais dos empregados e dele do que seria
razoável, sempre tratando todos mal. Abria o coração para seus amigos nas
cartas, especialmente para Louise, contudo, nada lhe trazia verdadeiro alívio.
Somente Dianna poderia restituir a
sua paz de espírito... Mas como? Ela sumiu após a primeira e única noite de
amor do casal. Davy sabia que ela havia fugido por medo de que Amber
descobrisse tudo. Poderia ao menos ter dito a ele aonde foi... Ele a seguiria
por onde fosse. Abandonaria a vida nobre, se fosse preciso, apenas para ficar
com ela. Não via demérito algum em trabalhar para poder viver ao lado da mulher
amada.
Certo dia, Amber adentrou o gabinete
de trabalho dele. Ela tinha um sorriso enorme no rosto.
- Atrapalho, maridinho?
- Na verdade, sim. O que foi, Amber? – Davy foi ríspido. Não
aguentava mais Amber.
- Eu estou grávida, maridinho.
Davy ficou atônito diante de tal notícia.
- O quê?
- Foi o que você ouviu, meu querido. Vou ter um filho seu.
O jovem conde não sabia como reagir. Achou que a mãe de seu filho
merecia um mínimo de cortesia, então beijou a mão dela, dizendo:
- Bom, então vá para seu quarto repousar. Estou ocupado...
- Não vou atrapalhá-lo mais, Davy. – Amber deu mais um
daqueles sorrisos que irritavam Davy.
Quando ela saiu, Davy soltou um longo suspiro. “Um filho dela? Por que
dela, que tanto odeio? Por que não da Di? Se Di me desse um filho eu seria o
homem mais feliz do mundo... Quanta saudade dela...”.
Ele foi ao estábulo, e pediu a Manuel Neuer, marido da cozinheira
Felicity, que selasse seu cavalo favorito. Subiu no lombo do cavalo e se
lembrou de quando conheceu a amada.
Chegou ao local onde a viu pela primeira vez.
- Foi aqui... – ele murmurou. – Ela estava ali, perto
daquela árvore, sentada, esfregando o tornozelo. Depois disso minha vida nunca
mais foi a mesma.
Ele foi até a parte mais alta do promontório, apeou-se, amarrou o cavalo
na árvore, colocou as mãos em concha e gritou:
- DIANNA! ESTEJA ONDE ESTIVER, EU AINDA TE AMO!
Lá embaixo, na
vila, na casa do advogado Peter Noone...
- Davy? É você? Me chamando?
A jovem foi
até a janela e olhou na direção do promontório. Avistou o vulto de um homem
pequeno, e também o de um cavalo. Ela pensou em responder ao chamado, porém, o
homenzinho subiu no cavalo e foi embora.
- Oh, Davy... Que saudade, meu amor. Queria ver você, contar
sobre o bebê. – Dianna baixou os olhos para o ventre, que já estava crescendo,
e fez ali uma carícia. – Será que você vai se parecer com seu pai, meu filho?
Noone vai matar nós dois se for assim...
Três dias
após haver tido certeza absoluta de que estava esperando um filho, Dianna
correu até Peter Noone, o único pretendente que tinha. Não mencionou sua
gravidez, apenas disse a Noone que finalmente aceitava seu pedido de casamento.
Como Noone sempre teve um comportamento obsessivo em relação a Dianna,
conseguiu que se casassem apenas duas semanas depois.
Na noite de
núpcias, Dianna não teve escolha senão se entregar a ele. Assim, quando sua
gravidez começou a dar amostras, pôde convencer Noone de que era ele o pai da
criança. Pareceu-lhe que ele não teve desconfiança alguma.
Assim como
Davy era infeliz com Amber, Dianna o era com Noone. Ele não queria deixá-la
sair e só permitia que ela recebesse a visita de Erin, pois a prima de Dianna
era viscondessa, desde que havia se casado com Peter. No entanto, Dianna sempre
mandava cartas para Alice e Emma e elas lhe mandavam cartas também.
***
No
casarão, enquanto isso, Amber já pensava como faria para conseguir uma criança
para fingir ser seu filho recém-nascido, findos os nove meses de suposta
gravidez. Ela passou próxima ao quarto da cozinheira Felicity e de seu marido,
o cavalariço Manuel.
- Manu... Estou esperando um bebê!
- É verdade, fraülein?
- Sim, meu amor, sim!
- Estou tão feliz!
Amber sorriu maleficamente. Já tinha a
criança.
***
Em Londres, fazia quatro dias que
Micky havia se casado com sua noiva arranjada. O nome dela era Suzan Hardison e
havia surpreendido o jovem barão. Sua esposa era bonita, inteligente e gentil.
Ele não poderia querer nada melhor... Exceto que sua mulher fosse Emma. “Vou
aprender a lidar com isso”, ele pensava.
Percebia que, assim como acontecia com ele, a situação de casamento
arranjado intimidava a pobre Suzan. Durante a festa, ela se encontrou arredia.
Não quis dormir com Micky naquela noite. Ele não a forçou a nada. No entanto,
ele desejava conquistar a simpatia de sua baronesa, e quem sabe o amor, mais
tarde. Assim, fez o que sabia fazer de melhor: ser engraçado.
“Gosto
do barão Dolenz”, pensou Suzan. “Gosto de quem me faz rir”. Naquele quarto dia,
após o jantar, Suzan se mostrou mais aberta com o marido. Quando iriam se
recolher, Micky se preparava para deixá-la no quarto dela e ir para o seu.
Beijou a mão da esposa, dizendo:
- Boa noite, senhora. Até amanhã.
- Oh, senhor, eu... Por favor, não me leve a mal, mas...
Gostaria de passar a noite em meu quarto?
Micky se surpreendeu com a atitude da
esposa. Porém, longe de se indignar, ficou admirado. Os tempos estavam de fato
mudando... Ela o conduziu para dentro do cômodo. Uma vez lá dentro, ela lhe deu
um beijo quente.
- Senhora...
- Me chame de Sue,
meu marido.
- Então me chame
de Micky, minha esposa.
Voltaram a se beijar.
Sue soltou-se do marido e abriu o robe, revelando uma bela camisola de seda...
Que logo ela removeu. Micky estava encantado. Abriu seu robe também, e logo
tirou sua camisa e sua calça de dormir. Estavam os dois apenas de roupa íntima.
Aproximaram-se, e um ajudou o outro a se livrar das peças.
Um não podia acreditar
na beleza do corpo do outro. Micky carregou a mulher para a cama dela, onde a
deitou suavemente. Deitou-se por cima, passando a mão pelas pernas dela.
- Está preparada,
Sue? – quis saber ele, os lábios no pescoço dela.
- Sim...
Tiveram início as estocadas.
Sue afagava os cabelos do marido, e o tocava em várias regiões.
- Ooooh, Micky...
- Sue... – ele apalpava
levemente os seios de sua baronesa.
Os gemidos e beijos foram
se intensificando até atingirem o orgasmo. Separaram-se, arquejando.
- Está arrependido por me desposar, Micky?
- De modo algum, Sue. Está arrependida por se tornar minha
esposa?
- Eu tampouco, Micky.
Trocaram mais um beijo e adormeceram.
***
Mike estava com um problema ainda maior do que o de Micky. Alana gostava
de Mike como pessoa, entretanto, não estava disposta a gostar dele como marido.
Seu único pensamento era seu antigo namorado, o cavalariço Chris Hillman, com
quem havia tido que terminar, devido ao casamento.
O jovem duque ainda pensava muito em sua amada Alice. Porém, a forma
como ela o havia dispensado cortava seu coração. “Oh, Alice... Eu não queria
ter magoado você dessa maneira... E agora acho que serei ainda mais
infeliz...”.
No almoço, certo dia, disse a ela:
- Senhora, gostaria de cavalgar comigo amanhã, após o
desjejum?
- Após o desjejum? Não, senhor, me perdoe, porém, tenho
outras coisas a fazer.
- Após o almoço, então?
- Será possível que o senhor só pense em comer e cavalgar,
duque Nesmith? – Alana falou, mordaz.
- Não, sra. duquesa. – Mike respondeu, percebendo que sua
esposa não era fácil.
Ele foi para seu gabinete de
trabalho, de onde não saiu até o chá. Não tinha sequer uma pista do que a
esposa ficou fazendo durante todo aquele tempo. E ela também não parecia
disposta a lhe dizer.
E assim se passaram vários dias, com Mike e Alana se encontrando apenas
nas refeições. Seus poucos diálogos eram marcados com tímidas tentativas de
aproximação da parte dele, com profunda cortesia, e cortes e respostas dela,
permeados de ironia. Ele começava a desistir.
Certa vez, todavia, Mike
passava próximo ao quarto da esposa quando ouviu um som maravilhoso de violino.
“Não sabia que tocava violino, minha esposa...”, pensou ele. Abriu muito
cautelosamente a porta, para que ela não ouvisse. Viu Alana em pé no meio do
cômodo, de costas para a porta, tocando seu violino. “Como ela fica ainda mais
bela ao tocar...”. Suspirou um pouco mais alto do que devia, o que atraiu a
atenção da violinista.
- Duque! – ela se virou para a direção do som, e se
assustou.
- M-mil perdões, duquesa... Mas sua música era bela
demais...
Pela primeira vez na vida, Alana não sabia o que dizer em resposta.
- O senhor... O senhor gosta da minha música, duque? – ela
inquiriu, olhando para os próprios pés.
- Sim! A senhora toca violino maravilhosamente, duquesa! –
disse Mike, com sinceridade.
Alana encarou os lindos olhos castanhos do marido.
- Bem... Obrigada. – sorriu, encabulada.
- É a verdade. – ele devolveu o sorriso. – Eu também toco
violino... E piano. Amo música.
- Eu também amo música! Se importaria de tocar algumas peças
de piano para mim esta noite, duque? Após o jantar?
- Será uma honra... Minha esposa. Mas somente se tocar mais
violino para mim. Chame-me de Mike, se quiser.
- Está bem, meu marido. Também ficarei honrada. Chame-me de
Alana, Mike.
Outro casal
arranjado que acabava por se apaixonar.
***
Passaram-se mais
alguns meses. Emma estava vivendo em um vilarejo mais distante, com seus pais.
Os pais de Emma entenderam a situação dela, embora não houvessem ficado muito
felizes ao saber que a filha se apaixonou e se entregou a um rapaz da nobreza,
ainda que o sentimento fosse recíproco.
Chegou o dia da
ex-ajudante de cozinha dar à luz. Deitada em sua cama, a moça fazia o máximo de
esforço possível, auxiliada por sua mãe, Lauren. Após o que lhe pareceu mais de
uma hora, Emma pôde ouvir um chorinho.
- É um menino, Emma! Um lindo menino! – disse sua mãe,
colocando o bebê nos braços da filha.
- Ele é mesmo lindo, mamãe. – Emma beijou a testa do
pequeno. Ele era loiro de olhos azuis como ela, no entanto, em tudo mais seu
filho parecia com o pai.
A jovem
decidiu nomeá-lo Christian. Após amamentar seu bebê, Emma o fez dormir, com a
ajuda de sua mãe. Assim que ele caiu no sono, Emma colocou-o no bercinho e
sentou-se para comunicar a novidade às suas amigas. Escreveu para Erin, para
Alice, e, por fim, para Dianna.
Di,
Finalmente meu filho
com Micky nasceu. Ele é lindo, minha amiga! Sempre quis um bebê lindo assim. Só
lamento que Micky nunca poderá saber que tem este filho... Certamente terá
muitos filhos com a esposa, entretanto, do meu pequeno Christian nunca tomará
conhecimento...
E como está você? Logo
você também dará à luz seu filho, não é? Está preocupada? Seu marido não
desconfia de nada?
Emma
Dianna enviou a seguinte resposta à amiga:
Emma,
Fico muito feliz por
você, minha amiga querida! Imagino que seu filho seja mesmo um lindo bebê, pois
você também é muito bela! Por que acha que Micky não poderá saber sobre
Christian? Erin me disse que a baronesa Dolenz é um doce de pessoa, ela a
conheceu. Talvez ela aceite seu bebê... Se ela fosse como Amber, então haveria motivo para recear...
Eu estou bem. E
obviamente estou preocupada, qual mulher que vai ser mãe pela primeira vez não
fica preocupada? Ainda mais eu... Tenho medo de que meu bebê se pareça com
Davy. Noone não parece desconfiar... Porém, se a criança se parecer com o
pai... Não sei o que será de nós dois.
Dianna
***
Dianna
não fazia ideia disso, no entanto, Noone sabia que o filho que ela esperava não
era dele, mas sim do Conde Jones... Marido da grande amiga de Noone, Amber.
- Amber ficará muito satisfeita em saber disso... – ele riu
maleficamente.
Foi
até o casarão, onde foi recebido por Amber. Ela usava panos enrolados por
dentro do espartilho para simular um ventre em crescimento e assim enganar o
marido.
- Como vão você e seu bebê, Amber? – ele perguntou, irônico.
- Vamos muito bem. – ela respondeu. – Davy não desconfia de
nada.
- Sabia que ele de fato vai ter um filho?
Amber ficou chocada.
- O quê? Como sabe disso?
- Minha esposa... A preceptorazinha que você tanto odiava...
Ela está grávida e ele é o pai, não eu.
- Eu duvido, Noone!
- Mas está nas cartas que ela manda para as amigas, Amber!
Eu li!
- Ela pode ter engravidado de você e está pensando que Davy
é o pai!
- Em nenhum momento ela deixa menção de dúvida nas cartas!
- Essa criança vai nascer logo, não vai? Espere que a
maldita da Dianna dê à luz e venha me dizer o que concluiu! Se o bebê se
parecer com Davy... Você deve me avisar... E eu acabarei com ele!
***
Dianna estava no quarto, no meio da madrugada, lendo à luz de vela.
Estava começando a sentir dor.
- Você quer vir logo, não é, meu filho? Ai...
A dor crescia mais e mais. Até
que tornou-se insuportável. Gritou pela criada.
- JESSIE!
O quarto da criada ficava ao lado. Ela irrompeu no quarto.
- Sim, senhora?
- Jessie... Me ajude, por favor... Meu bebê... AAAH!
- Calma, senhora, eu já venho! – disse Jessie, indo buscar
toalhas para limpar a criança e lençóis limpos para colocar na cama após o
parto.
Dianna murmurou.
- Oh, Davy, enquanto nosso filho vem ao mundo você mal
imagina... Dorme tranquilo...
No casarão, Davy
sonhava. Sonhava que estava numa casa, nem muito grande nem muito pequena, bem
mobiliada e decorada, durante a noite. Ele via algumas criadas correndo para cá
e para lá. Viu que elas carregavam toalhas e lençóis. Elas entraram num quarto,
e Davy seguiu-as. Ouviu gritos femininos de dor.
A mulher que
gritava... Era ela. Dianna. E... Ela estava parindo uma criança. Davy estava atônito. Correu até Dianna e
pegou a mão dela.
- Di...
- Davy... Ai... O que faz aqui?
- Ao menos cheguei na hora de ver o nosso filho. – ele
sorriu e beijou a testa da amada.
Dianna
empenhava toda a sua força no trabalho de parto. Até que ouviu-se um choro de
bebê.
- Nasceu, sra. Noone! É menina! – exclamou Jessie.
A jovem mãe
odiava ser chamada de “sra. Noone”, porém, não tinha o que fazer. A criada
colocou a bebê nos braços da mãe.
- Oh... Ela é linda, uma princesinha! – Dianna disse. E
chorou de emoção ao olhar nos olhinhos da pequena. Grandes, castanho-escuros,
encimados por sobrancelhinhas grossas. “Você tem os olhos do seu pai, meu
amor!”. – Aaaai, por que continua
doendo?
- Senhora... Vejo a cabecinha de outro bebê vindo. – disse
Jessie.
- Você tem um irmãozinho, minha pequena. – Dianna murmurou
para sua filhinha. Voltou a fazer força.
Veio mais um
choro. Outra menina. Idêntica à irmã. Com os olhos do pai. Enquanto isso, no
casarão, Davy despertou. Aquele sonho em que Dianna dava à luz gêmeas só podia
ser um reflexo do desejo dele de ter filhos com ela. Pensou em Amber, dormindo
no quarto ao lado. Tinha que se contentar que seria dela que teria um filho.

