domingo, 1 de outubro de 2023

All The King's Horses - Capítulo 7

 Boa tarde! Hoje, trago mais um capítulo de uma fanfic que não é atualizada já faz oito anos, minha fanfic medieval All The King's Horses. Espero que gostem e boa leitura! 


(Fanny’s POV) 



        A princesa Frances havia tomado uma decisão. Ela lideraria as tropas das Terras do Leste no lugar do pai. Até então, as tropas tanto do Norte quanto do Leste estavam sob comando de Sir George Harrison, do Norte. O rei Edmund havia prometido se juntar ao exército em duas semanas. 

         No entanto, o pai da jovem princesa estava muito velho para ir à guerra. Frances não queria que ele se arriscasse. “Se Elinor vai governar no lugar do papai um dia... Eu guerrearei no lugar dele! Elinor não sabe lutar, e eu não sei governar, então é assim que será! E Sir Dylan irá me ajudar, como sempre fez!”. 

      Ela foi falar sobre isso com a mãe e a irmã. Contava com elas para convencer o pai. 


- Frances, querida filha... Você sabe que seu pai nunca irá concordar com isso! – a rainha Helen disse. 

- Por quê, mamãe? Só por que sou mulher? Ora! Elinor é a futura rainha, não é? Papai acredita que mulheres são capazes de governar sem homem algum as auxiliando, ele há de concordar comigo que uma mulher também pode muito bem lutar numa guerra! 

- Frances está certa, mamãe! – Elinor disse. 

- Obrigada, querida irmã. – Frances sorriu para a irmã mais velha. 

- Não estou dizendo que seu pai duvida das suas habilidades de combate, minha filha. O que estou dizendo é que ele não concordará que você vá lutar no lugar dele. 

- Assim ele continua a duvidar de minhas habilidades! Pensa que não sei me defender sozinha!

- Frances... 

- Mãe! Eu não nasci para ficar aqui, presa neste castelo! Ah, mamãe... Eu quero viajar, conhecer outros lugares, sentir o vento batendo no meu rosto e bagunçando meu cabelo enquanto cavalgo! Ademais... A troco de quê papai me deixou receber treinamento com armas, senão para lutar? 

- Bom... Está certa, Frances. Perdão, minha querida. Eu só estou preocupada com você. 

- Não se preocupe, minha mãe. Como Frances disse, ela sabe se defender muito bem sozinha. – Elinor abraçou a rainha Helen.  – Já a vi lutando contra os guardas, especialmente contra Sir Dylan, e ela realmente se sai muito bem!

- Os guardas de seu pai não machucariam sua irmã, mesmo que fingindo estarem numa batalha de verdade... Muito menos Sir Dylan! 

- MÃE! –as princesas exclamaram em protesto. 

- Além disso... Frances, você é uma garota! Lembre- se de que nem todos os homens levam uma mulher guerreira a sério! Podem atacar você de forma sanguinária justamente por vê-la como alvo fácil. Podem desprezá-la... 

- Mãe! Não vou ser um alvo fácil... Porque não irei lutar como princesa Frances!

- Não? 

- Não! O exército de papai e o das Terras do Norte saberão da verdade, entretanto... Para os inimigos, eu serei príncipe Francis! 


     

     Então, Frances foi falar com seu pai a respeito de sua decisão, salvaguardada pela mãe e a irmã, que a ajudariam a argumentar com o rei Edmund. 


- Minha filha, sua coragem é louvável, mas...

- Papai, por favor. – Frances cortou. – O senhor decidiu que criaria suas duas filhas para assumir as suas responsabilidades quando o senhor morresse. Como Elinor é a mais velha, desde criança ela foi educada para ser uma rainha e governar as Terras do Leste com a mesma bondade e justiça do senhor. Como sou a mais nova, recebi educação não apenas científica e artística, como também bélica. Desde muito pequena, aprendi a cavalgar, a empunhar uma espada, portar uma lança, usar um escudo para me defender, atirar com arco e flecha... Papai, graças a isso, eu passei a amar essa vida! Sempre sonhei em lutar! E o senhor sabe disso! Meu pai... Se eu ficar presa neste castelo, de que terá adiantado o senhor ter me preparado a vida inteira para substituí-lo como general? 

- Frances, eu a criei para me substituir como general quando eu morrer!

- Papai, o senhor vai me perdoar, mas está velho demais para ir lutar na guerra! Deixe-me ir no seu lugar!


       O rei olhou para a princesa mais nova, em seguida para a rainha e para a princesa mais velha. Ergueu as sobrancelhas para Helen e Elinor. Elas acenaram afirmativamente com a cabeça. Edmund, então, olhou para Frances. 


- Minha princesinha. – o rei sorriu para ela. – Não sabe como estou morrendo de orgulho de você neste momento. Venha. Vou lhe dar algumas coisas. 


     A rainha Helen e a princesa Elinor trocaram um olhar e um sorriso, enquanto viam o rei Edmund e a princesa Frances saírem da sala do trono e irem até o arsenal pessoal do rei. 

     Ao entrarem no arsenal, Frances ficou boquiaberta. A coleção de armas de seu pai era fascinante. 


- Papai, eu nunca... Nunca vi armas tão reluzentes em minha vida!

- Estão assim reluzentes porque não se mancharam de sangue.  Há muitos anos que as Terras do Leste não entram em guerra contra ninguém... Bem, eu nunca imaginei que passaria isso para alguém, mas... 


     O rei abriu um velho baú. Tirou de lá uma cota de malha grossa, um elmo e uma armadura completa, feitos de ferro sólido. Pareciam ter sido feitos para Frances.


- Minha primeira armadura. – disse o rei Edmund. – Tem um valor afetivo muito grande para mim. Eu nunca a passaria para ninguém... Mas, ah, minha filha... Eu vejo que você realmente nasceu para ser uma guerreira. Eu... Era um pouco franzino quando jovem... Esta armadura deve lhe servir, bem como a cota de malha. 


    Frances pediu ao pai que fechasse os olhos. Ela tirou o vestido que usava e colocou a cota de malha sobre as roupas de baixo. Precisaria de roupas mais adequadas para usar antes de vestir a cota quando fosse lutar. Em seguida, vestiu a armadura e disse ao pai que ele podia abrir os olhos. 


- Como eu imaginava. Caiu como uma luva. – o pai disse. 

- É mesmo, pai?

- Sim. Agora... Vamos ver o elmo. 


     O rei colocou o elmo na cabeça de Frances. Coube perfeitamente.  Em seguida, ele pegou uma espada e testou seu peso e balanço. Julgou-a ideal para a filha. Fez o mesmo com uma lança e um escudo. 


- Aqui está, filha. Seu armamento completo.

- Obrigada, pai. – Frances sorria.

- Agora, minha filha... Se você vai se passar por homem... Terá que cortar o cabelo. 

- Eu sei, papai. 

- Não está desapontada por isso?

- Não. Gosto do meu cabelo longo assim, mas... Eu irei lutar! Valerá muito a pena!


    Mais tarde, em seu quarto, Frances estava diante da penteadeira, sentada na banqueta. A rainha Helen segurava a adaga que Frances havia ganhado do pai aos quinze anos. Elinor estava ao lado, assistindo. A mãe indagou:


- Pronta, Frances?

- Pronta. 

    Helen começou a passar a adaga pelos cabelos da filha. Vários pedaços de cabelo preto caíam no chão. A mulher deixou o cabelo da filha o mais curto possível. Frances olhava surpresa para o rosto que via no espelho. 


- Agora sim. Estou pronta para ir à guerra como príncipe Francis, sobrinho do rei Edmund. Sir Dylan e eu partimos ao amanhecer. 



(Alice’s POV) 

    


   Alice era penteada pela mãe, Lady Lilian Stone, diante do espelho de sua penteadeira. Estavam de volta ao Forte Stone, com uma segurança reforçada, para celebrar o noivado da jovem com o tal nobre germânico. 


- Vamos, minha filha, anime-se. – dizia Lilian, preocupada por ver a filha tão cabisbaixa. 

- Ah, mamãe, a senhora sabe, estou preocupada com o papai e o Jim. 

- Eu sei. Também estou. Mas não é só por isso que você está tão triste. 

- Bem... Confesso que não.

- Quer me dizer por quê?


   A moça hesitou em contar à mãe sobre o verdadeiro motivo de sua tristeza. Decidiu revelar apenas uma parte da verdade. 


- Eu... Não quero me casar com esse germânico. 

- Não posso culpá-la, Alice. Eu também não iria gostar de me casar com um homem que eu não amo. É uma injustiça, mas quem liga para os desejos de uma mulher nos dias de hoje? Haverá um dia em que nós seremos livres, inclusive para escolher nossos maridos! Mas... Você pode rezar para aprender a gostar do seu marido. 

- Mas, mãe... Eu nunca vou poder gostar do meu marido. 

- E por quê, querida?

- Bem... Porque já amo outro homem. 


     Lilian surpreendeu-se com a revelação de sua filha. 



- E... Quem é esse homem?


   

     Alice suspirou profundamente antes de responder: 


- Lord Michael Nesmith. 

- Alice! Ele...

- Eu sei, ele é noivo da minha amiga Emma. Mas, mamãe, quem pode controlar o coração? Ademais... Emma não gosta dele como seu futuro marido. E ele não gosta dela como sua futura esposa. 

- Como sabe disso?

- Emma me disse que gosta de Michael, mas não pode imaginar-se casada com ele pelo resto da vida. E quanto a Michael não desejar se casar com Emma... Eu sei porque ele próprio me disse.

- Alice, está me dizendo que...

- Sim, mamãe, eu tenho um relacionamento proibido com Lord Michael Nesmith. Mamãe, nós nos amamos, nos amamos muito!

- Eu não duvido disso, minha filha, mas esqueça isso! 

- Como? Mamãe, a senhora nunca amou como eu amei! Sei que se casou com o papai por arranjo!

- Sim, minha querida, mas aprendi a amar seu pai...

- Não é a mesma coisa! Eu não vou aprender a amar o germânico, não quero aprender! Estou preocupada com Michael... Ele pode morrer em batalha... Ah, não quero nem pensar nisso! 

- Pois não pense! Alice, você deve cumprir com suas obrigações, e é sua obrigação casar-se com Gerhard Müller!

- Começo a acreditar que a senhora não acredite que seja uma injustiça de fato que as mulheres não possam escolher com quem vão se casar! Que não julgue revoltante que os homens sejam mais favorecidos! 

- Alice, muitas vezes nem mesmo os homens escolhem suas noivas! Várias vezes, quem faz o acerto são os pais, como no seu caso e de Gerhard Müller,  ou no de Lord Michael Nesmith e Emma!

- Mamãe, eu me recuso a me casar com esse tal de Gerhard Müller! É injusto, revoltante, que dois jovens precisem se casar apenas para manter as convenções! Convenções essas muito retrógadas, ao meu ver! 

- Alice! 

- Me recuso terminantemente! E tenho dito!


   Antes que a mãe de Alice pudesse pensar em algo para responder, o pajem entrou, avisando que o nobre germânico e sua comitiva haviam chegado para a festa de noivado, e aguardavam pela noiva e sua mãe.  Os menestréis e jograis contratados para se apresentar, bem como os convidados, também já estavam presentes. Faltavam somente as anfitriãs. 


- Agora não tem escolha, minha filha. – disse Lady Lilian. 


   Alice fez o maior esforço do mundo para que lágrimas não escorressem de seus olhos grandes e azuis. 


(Louise’s POV) 


   Louise não podia, não queria acreditar. Ela, o Monty Python e os menestréis liderados por Alana haviam sido contratados para se apresentar justamente na festa de noivado dele. De Gerhard. A jovem rebelde se sentia como se fogo corresse por suas veias e algo freasse sua garganta, impedindo-a de falar, quem dirá cantar!     

    Era tão terrível... No dia em que se conheceram, a garota jogral havia sentido que ter fugido do casamento com Sir Geoffrey Beck havia sido uma decisão correta. Havia valido totalmente a pena abandonar aquele cavaleiro no altar. 

    Gerhard era belo, forte, corajoso, gentil. Ou seja, não devia nada a nenhum valoroso cavaleiro dos Quatro Reinos. E o melhor de tudo: ele parecia estar tão encantado por Louise quanto ela estava por ele. A comitiva dos alemães havia seguido a caravana dos menestréis e jograis durante cerca de um mês, que era o tempo que durava a viagem da região das Terras do Sul onde os dois grupos haviam se encontrado até a região das Terras do Norte onde se situava o feudo de Lord Stone. 

  Durante esse tempo, Louise e Gerhard haviam se aproximado muito. Louise, a cada dia, sentia o amor preencher mais seu coração, até que precisou deixar o sentimento transbordar. Escreveu uma cantiga para Gerhard. 


Certo dia, veio, 

De uma terra tão distante,

Um jovem nobre e garboso. 


Ele não era nada feio. 

Deste coração apossou-se em um instante, 

Este coração meu, sempre de liberdade desejoso. 


Nunca sonhei com este sentimento,

Tão pungente. 

Poderia a minha 

Aliar-se a outra liberdade?


Fujamos, guerreiro que domina meu pensamento! 

Fujamos para além de onde se vê o sol poente.

Seremos um único ser que caminha. 

Rumaremos juntos em busca, se é que existe, da felicidade.



 Pensava em cantá-la naquele dia. Gerhard certamente entenderia o recado. 


(Elinor's POV) 


   Enquanto Frances se preparava para cumprir o papel esperado dela enquanto nova comandante do exército das Terras do Leste, liderando os soldados na guerra, em auxílio às tropas do Norte, Elinor se preparava para sua própria missão. 

   Como era a futura rainha, a jovem havia recebido treinamento em inúmeras áreas. Uma das em que mais se destacava era a diplomacia. E o rei Edmund, que já começava a sentir o peso da idade, decidiu tirar proveito desse talento de sua filha mais velha e herdeira. Decidiu enviar a princesa em uma missão diplomática às Terras do Oeste. 

    O Oeste estava apoiando o Sul. O plano de Edmund era relativamente simples: enviaria Elinor para negociar com o rei Jacques Villeneuve, de maneira a convencê-lo a retirar o apoio às Terras do Sul, assim enfraquecendo seu exército e acabando com a guerra. 

  Os Quatro Reinos haviam passado um século em completa paz, era o dever dos quatro reis fazer o que estava ao seu alcance para restaurá-la e mantê-la. E, uma vez que Elinor um dia seria a rainha das Terras do Leste, era importante que aprendesse a exercer seu dever o mais cedo possível. 

   A princesa ficou muito contente por seu pai ter-lhe confiado uma missão tão importante. Daria o seu melhor para cumprir o que era esperado dela e deixar o rei orgulhoso. 

    Para acompanhar a princesa Elinor, Edmund enviava uma grande comitiva de ministros, cortesãos, criados e soldados. Contudo, a princesa acreditava que somente uma pessoa era necessária para escoltá-la na viagem: seu escudo juramentado, Sir John Paul Jones. 

  O rei havia escolhido os dois mais valorosos cavaleiros de sua guarda pessoal para servirem como escudos juramentados de suas filhas. Ele já era considerado um excêntrico por ter decidido que sua filha mais velha seria sua herdeira, em vez de seu sobrinho, Lord John Fitzwilliam. Quando souberam que o critério que o rei havia utilizado, após a escolhas de seus dois melhores guardas para servirem às suas filhas, para decidir qual protegeria qual princesa, havia sido a compatibilidade entre as personalidades, os nobres tiveram ainda mais certeza de suas manias. 

  Sir Robert Dylan era tido e havido como o mais poderoso cavaleiro da guarda real, apesar de ter apenas 18  anos. Quando o rei decidiu que ele seria o escudo juramentado de uma de suas filhas, todos, inclusive o próprio cavaleiro, pensavam que a ele caberia a missão de proteger a princesa herdeira, Elinor, que na época tinha 14 anos. Mas ele foi escolhido para ser o protetor da princesa Frances, de apenas 12 anos. 

    A decisão do rei havia se mostrado acertada, pois as personalidades de Sir Dylan e da princesa Frances combinavam perfeitamente. Ele era sério e profundamente dedicado às suas funções. Ideal para proteger a obstinada e corajosa princesa mais nova, o que ele já fazia havia seis anos.

   Elinor, por sua vez, era protegida pelo mais velho e mais sábio cavaleiro da guarda do pai, Sir John. Entretanto, o velho cavaleiro acabou contraindo uma doença perigosíssima e morreu. Seu lugar na guarda foi ocupado pelo filho, que também se chamava John e já havia demonstrado ser um cavaleiro de tão grande valor quanto seu pai. 

   O jovem Sir John também herdou do pai o cargo de escudo juramentado da princesa Elinor, que ele já ocupava havia dois anos e exercia honradamente. Elinor confiava nele com tudo que tinha e, por isso, considerava que apenas ele era mais do que suficiente para a tarefa de acompanhá-la e protegê-la em sua missão. Além disso, davam-se muito bem. 

  Ao contrário da irmã mais nova, voluntariosa e intempestiva, a princesa Elinor era serena, mas sabia perfeitamente quando precisava ser incisiva. Sir John era calmo como ela, mas não permitia ser desafiado. A combinação perfeita entre princesa e cavaleiro protetor.

  A comitiva da princesa Elinor partiria numa bela manhã de junho. Ela estava ansiosa para mostrar ao pai que estava muito bem preparada para assumir o trono, caso algo acontecesse a ele. A possibilidade era remota naquele momento, mas nunca se podia ter total certeza. 

  Enquanto aguardava que os pajens e cavalariços terminassem de checar se estava tudo pronto para partir, a princesa pensava no fato de que, muito provavelmente, se precisasse subir ao trono, seu casamento com Robert seria apressado. Sabia que alguns nobres do reino não eram totalmente favoráveis ao fato de que uma mulher seria a próxima líder do país. Provavelmente, pressionariam-na a se casar com seu noivo o mais cedo possível para garantir um herdeiro masculino para o trono.

  E se começassem a articular para derrubá-la e colocar Robert no trono, e em seguida o filho? Ou pior, se articulassem para colocar seu primo em seu lugar? "Ah, eu não vou dar esse gostinho a eles", pensava a princesa. "Vou provar que sou digna de ser a rainha. E vou atrasar ao máximo possível meu casamento. Não vou permitir ser deposta em favor do meu próprio marido". 

   Não que Elinor não amasse seu noivo e não quisesse se casar com ele. Ela queria, e muito. Mas queria também demonstrar que podia governar por si própria, como seu pai sabia muito bem. Robert seria apenas seu consorte real. Ele estava ficando impaciente para se casarem, porém, Elinor havia conseguido convencer o noivo a esperar até então. Agora, tinham de aguardar o fim da guerra. Além disso, tinha havido aquele curioso incidente no torneio… 

 Duas semanas antes, a rainha Helen havia organizado um torneio para celebrar o aniversário de seu marido. Vieram guerreiros de todo o reino para mostrar suas habilidades e medir forças. Entre eles, é claro, Lord Robert Plant, o noivo de Elinor. Os cavaleiros da guarda real também estavam entre os competidores. 

   Durante a entrada dos competidores na arena, no último dia do torneio, quando haveria a justa, Elinor pôde ter um vislumbre de como seu noivo era querido pelas damas da corte. Não era para menos. Muito alto, muito loiro e muito garboso, Robert atraía a atenção feminina por onde passava. E ele tinha as habilidades bélicas esperadas do herdeiro de uma família de longa tradição guerreira, como era o clã dos Plant.

    Quando ele passou pela arquibancada, montado em seu corcel, várias das damas ofertaram-lhe lenços e fitas. Ele os aceitou galantemente, como era esperado de um cavaleiro cortês como ele, e os atou à sua lança e aos arreios de seu cavalo. Mas isso não significava que Elinor gostava de ver seu noivo ganhar tantas prendas de outras mulheres. 

  Por fim, ele parou diante da tribuna real. Elinor levantou-se de seu trono, altiva, e veio até a frente. Era o momento de ela, a noiva de Lord Robert, a princesa herdeira das Terras do Leste, oferecer uma prenda ao seu noivo já carregado de presentes. 

   Elinor tirou de seu dedo um anel com uma grande safira. E depositou-o nas mãos do noivo, dizendo:

-  Aceite este anel, Lord Robert Plant, como um símbolo de meu amor e desejo de boa sorte neste torneio. 


       Ele fez uma grande reverência. 


- Aceito este presente com a maior de todas as alegrias, gentil princesa. - beijou o anel. - Sou o homem mais afortunado deste reino por tê-la como noiva. 


   O anel fora feito para caber no dedo pequeno e magro de Elinor, não servia para Robert. Por isso, ele o passou como se fosse um pingente pela corrente de ouro que trazia ao pescoço. E seguiu seu caminho para aguardar sua vez de justar. 

    Em seguida, veio Lord James Page, velho amigo da princesa. Ele também foi apanhado por uma chuva de prendas das damas. Elinor balançou a cabeça ao vê-lo parar diante de onde sua esposa, Lady Victoria, esperava para ofertar-lhe o seu presente, um anel de jaspe verde.  "Pobre Victoria. Mal imagina que James a trai e não é nem a metade tão cortês quanto deveria, sendo um cavaleiro". Ele parou diante da tribuna real. 


- Concederia ao seu velho amigo a honra de uma prenda, Alteza? - perguntou ele a Elinor. 

- Apenas meu desejo de boa sorte. - respondeu ela, friamente.

- Muito bem. - o cavaleiro respondeu no mesmo tom e seguiu seu caminho. 

     

      Então, vieram os cavaleiros da guarda real. À frente deles, seu capitão e escudo juramentado de Frances, Sir Dylan, que recebeu de sua senhora a prenda de um belo medalhão de prata. 

   Depois dele, o escudo juramentado de Elinor, Sir John. Passou pelas damas da corte, mas nenhuma ofereceu-lhe um presente. Elinor viu de relance, na arquibancada, uma de suas amigas, Lady Susan Morris, mexer-se em sua cadeira e pegar seu lenço de seda, como se pretendesse ofertá-lo, mas não o fez. Elinor perguntou-se por quê. 

    Ela tomou uma decisão. Quando ele passou diante da tribuna real, a princesa levantou-se mais uma vez. Nas mãos, seu mais belo e rico lenço de seda.


- Sir John, - disse ela - aceite este lenço como símbolo de minha amizade e gratidão por tudo que faz por mim, desde que se tornou meu escudo juramentado há dois anos.


  Ele olhou-a, evidentemente tomado de grande surpresa. 


- É uma honra muito maior do que a que faço jus, senhora. Cumpro apenas o meu dever.

- Cumpre-o com muita honra, sir. Aceite meu presente. - ela sorriu, mas tinha a firmeza digna de uma futura rainha em sua voz. 

- Com imenso gosto, Alteza. 


     Sir John tomou o lenço, beijou-o como se fosse a relíquia de uma santa (o que surpreendeu alguns, inclusive a princesa), guardou-o dentro de sua túnica e foi aguardar sua vez. 

    A justa teve início. Ao contrário da expectativa geral, nem Sir Robert Dylan nem Lord Robert Plant foram vitoriosos, embora fossem os favoritos, devido ao seu desempenho impecável nas provas anteriores. Sir John Paul Jones derrotou ambos. 

   Ele sempre fora um grande guerreiro, mas ninguém acreditava que pudesse duelar contra Dylan ou Plant e vencer. Foi o que aconteceu, no entanto. 

    Como grande vencedor do torneio, Sir John ganhou o prêmio de dez mil moedas de ouro, e a imensa honraria de nomear a "rainha do amor e da beleza". Era costume nos Quatro Reinos que, nos torneios, uma dama da plateia fosse escolhida pelo vencedor para receber esse título e ser coroada com uma grinalda de rosas vermelhas. 

  Todos sabiam que, se Sir Dylan ou Lord Robert ganhassem, Frances ou Elinor receberia o título. Eram belíssimas e, além disso, as filhas do aniversariante e princesas do reino. Sendo Sir John o vencedor, perguntavam-se quem seria sua escolhida. 

 Frances era a protegida de Dylan, mas não era segredo para ninguém que ele devotava a ela mais do que a simples lealdade de um escudo juramentado à princesa sua senhora. Mas e quanto a Sir John? 

  Ele recebeu das mãos da rainha Helen a coroa de rosas da rainha do amor e da beleza. Contudo, não precisou nem sequer cavalgar até onde estava aquela a quem ofertaria a coroa, pois ela estava bem ao lado da rainha. Era a princesa Elinor. 

  Seguro no cavalo apenas pelas pernas, ele estendeu as mãos para sua senhora, oferecendo a coroa, humildemente baixando a cabeça. 


- Essa é apenas uma pequena honraria que posso fazer-lhe, minha princesa. 


   Elinor pegou a coroa de rosas das mãos dele e colocou-a na cabeça. 


- E eu afirmo que é uma honra grande demais para mim, sir. - foi sua resposta. 


    De longe, viu a reação de Robert. Seu rosto tinha uma expressão contrafeita. Era claro que esperava ele mesmo fazer aquela honraria à sua noiva, e não que outro homem a fizesse, mesmo que fosse o escudo juramentado dela… 


- Preparada para a missão, senhora? - o fio do pensamento de Elinor foi cortado por Sir John. 

- Eu me preparo para ela desde o dia em que nasci, sir. - respondeu ela, tentando não aparentar estar tão ansiosa quanto de fato estava. 

- Sei que se sairá muito bem. 

- Preciso me sair. - ela deu um pequeno sorriso.


  A comitiva finalmente partiu. A princesa e seu escudo juramentado vinham exatamente no meio, mas uma certa distância os separava tanto da vanguarda quanto da retaguarda. Assim, podiam conversar com privacidade. 

- Esta guerra é um exemplo de como os homens acham que podem nos tratar como objetos. A princesa Mary Anne foi veemente ao recusar Lord Daltrey, e ele não se conformou. Então o que fez? Raptou a princesa e desencadeou uma guerra! Levou-a como levaria um baú de moedas ou joias. E Sir George a defende como tal. Mas admito que considero os atos dele louváveis e heróicos. Dizem que ele a ama. Age exatamente como nas canções de cavalaria, não posso deixar de ser-lhe simpática. 

- Seria estranho se uma dama sensível como a senhora não fosse. - Sir John sorriu.

- Mas… Eu ainda acredito que esta situação também possa ser resolvida por meio de negociações, e vou fazer o que estiver ao meu alcance. Gosto de ouvir canções e histórias sobre a guerra, mas não gosto de sua realidade. Temo por meu pai, minha irmã, meu noivo. E não gosto de carnificina, de qualquer maneira. Por isso, se puder buscar a paz por vias diplomáticas, farei isso. 

- Muito bem dito, princesa. Mas sou um guerreiro, e afirmo que, em uma situação como esta, moveria céus e terra, passaria mil inimigos no fio da espada, apenas para tê-la de volta. 


      Elinor olhou para seu cavaleiro protetor. Seus olhos azuis cintilavam como a safira do anel que oferecera a Robert. 


- Ter-me de volta? - ela estranhou aquela expressão. 

- Acreditei que tê-la coroado a rainha do amor e da beleza já tivesse deixado isso claro, Alteza. Eu vivo para protegê-la e servi-la, e faço isso não apenas com a lealdade de um cavaleiro seu servo, mas também com o ardor de um homem apaixonado. Você é a senhora de minha espada e de meu coração. 

- Sir John…

- Sei que está prometida a Lord Robert e o ama. Não espero que a senhora me conceda nada. Nada além do privilégio de continuar sendo seu escudo juramentado e dar minha vida pela minha princesa. O lenço que me ofereceu é meu bem mais precioso. 

- Eu não concederia tal honra a mais ninguém. - respondeu ela, comovida.

- Obrigado, minha senhora. 


   Ele se afastou um pouco, em sinal de respeito. Elinor ficou entregue a seus pensamentos. Sim, era claro que amava Robert. Era claro que estava temerosa de que o noivo morresse em batalha. Mas, ao mesmo tempo, agradecia aos céus que Sir John não tivesse partido com o exército e tivesse permanecido no castelo de seu pai… Ao lado dela. 

    Se ele morresse, o que faria? Sentiria como se… Um pedaço dela lhe estivesse sendo tirado. Naqueles dois anos em que conviviam, Sir John tornou-se tão querido para ela quanto seu próprio noivo. 


- Sir?

- Sim, minha senhora? 

- Aproxime-se, por favor. - pediu ela. 


   O cavaleiro emparelhou seu corcel cinzento ao palanfrém da princesa. 

- Encontre-me hoje à noite, no meu pavilhão, quando pararmos para repousar. 


     Entrar no pavilhão da princesa era um privilégio apenas do rei seu pai. Nem mesmo ao noivo dela isso era permitido. 


- Como desejar, princesa Elinor.