quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Oneshot: Dancing With Our Hands Tied

 Boa tarde, pessoal! Hoje, trago meu último post de 2023. Dez anos depois, temos a continuação de Heartbreaker, a minha fanfic do Led Zeppelin. Espero que vocês gostem da leitura e ano que vem teremos mais! 


 

  Aquele estava sendo o ano mais estranho da vida de Elinor Fitzwilliam Plant. Em março, deu à luz seu segundo filho com Robert. Achava que nenhum bebê seria mais bonito do que sua filha Mary Elizabeth… Até que nasceu Karac. 

  Ele era idêntico ao pai: os cachinhos dourados, os olhinhos azuis. Elinor era uma mãe muito orgulhosa. 

  Porém, sentia Robert estranhamente distante. Ela tinha engordado um pouco depois de ter Karac, realmente, mas nada drástico. E não achava que seu marido pudesse deixar de sentir atração por ela simplesmente porque tinha ganhado um pouco de peso. Estranho. 

    Também estava afastada de seu melhor amigo de longa data, Jimmy Page, mas por iniciativa própria. Quando descobriu que Lori Maddox, a nova namorada dele, ainda era adolescente, não quis mais ver Jimmy nem pintado de ouro. Não conseguia acreditar que seu melhor amigo pudesse ser… Um homem daquele tipo. Estava enojada. Assim, aproximou-se gradativamente de John Paul Jones. 

   Sabia que demoraria até que conquistasse com Jonesy a cumplicidade que um dia tivera com Jimmy, mas não podia manter a amizade com um homem como ele. 

  Seu mundo estava virado de cabeça para baixo. Para piorar, mal conseguia escrever. Escreveu um poema no dia em que Karac nasceu, falando de sua felicidade como mãe. Mas desde então, não escreveu mais.

 Queria poder conversar com Angie Smith, sua melhor amiga, sobre o que estava acontecendo em sua vida. Mas Angie tinha seus próprios problemas. O casamento dela com John Bonham não parecia estar em sua melhor fase. 


-  Crianças, mamãe está perdida. - ela suspirou, enquanto olhava Karac dormir e Mary Elizabeth brincava com sua boneca. 



                                       *** 




  John Paul Jones não conseguia dormir. Trocava de posição na cama, virava o travesseiro, se cobria e se descobria, sem sucesso. E volta e meia uma imagem surgia naquele turbilhão de pensamentos cansados, mas ainda assim insones: o sorriso de Elinor, a esposa de Robert.

    A pobre moça havia ficado desolada ao saber a verdade sobre Jimmy, que era seu melhor amigo desde a infância. O baixista suspeitava que ela tivera uma paixão pelo guitarrista em algum momento. 

  E agora se aproximara dele. John sempre gostara de Elinor e a considerava uma amiga. Percebeu que ela precisava de apoio, e provavelmente sentia falta de um melhor amigo do sexo masculino, já que sempre tivera um. Se podia ser esse amigo, ele seria. 

 Entretanto, os eventos se desenrolaram de maneira inesperada para ele. Via-se aguardando as visitas de Elinor ao estúdio ansiosamente… Da mesma forma que aguardava as visitas de sua ex-namorada, Susie Morris. 

  Embora Susie e ele fossem felizes e tivessem um filho, Simon, claramente não estavam predestinados a passar a vida inteira juntos. Terminaram como bons amigos. Desde então, ficara com algumas garotas, nada realmente sério. E sofria com isso, pois não era como Jimmy… Ou Robert. 

   Pobre Elinor. Se perguntava se deveria dizer alguma coisa, afinal, ela era sua amiga… Não. Causaria sofrimento desnecessário para ela, já que não tinha certeza de nada. 

   E John não queria ver Elinor infeliz. Porque entendia agora o que estava acontecendo: estava apaixonado por ela. Perdidamente apaixonado. 

   Perguntava-se se sua suspeita de que Robert estivesse traindo Elinor não era apenas um reflexo egoísta de sua paixão por ela, oferecendo uma justificativa para o injustificável. 

  Também tinha vontade de esganar Jimmy toda vez que este indagava a ele ou a Robert se Elinor falara dele. O desaforado. Se um dia Elinor de fato fora apaixonada por ele, como Jonesy imaginava, obviamente não fora correspondida. Jimmy só amava a si mesmo. E suas guitarras. Já o que ele sentia por Lori estava mais para uma obsessão doentia. 

    E o que ele, John, sentia por Elinor? Era amor? Era apenas desejo? Não podia negar que, ao mesmo tempo em que queria beijá-la, abraçá-la, protegê-la, às vezes imaginava-a chegando ao estúdio, olhando para os lados para se certificar de que não havia ninguém, e empurrando-o para dentro do quartinho mofado do térreo, um dos locais favoritos dos músicos que gravavam no estúdio para encontros do tipo… 


- Você é louco, John Richard Baldwin. - sempre se chamava por seu nome de batismo quando falava consigo mesmo. - Ela é casada! E ama o idiota do Robert, mesmo que provavelmente ele não mereça. 



    Precisava tirar aquilo do peito, mas não sabia com quem falar. Jamais falaria disso com Jimmy. Agora ele era mais seu colega de trabalho do que seu amigo. Bonzo também não, ele provavelmente daria com a língua nos dentes se bebesse demais. 

     Susie? Não. Por mais que ela e John fossem amigos agora, também era amiga de Elinor. E mesmo que não fosse, ele jamais se sentiria confortável contando para sua ex-namorada, mãe de seu filho, sobre estar se apaixonando por outra mulher… 

   É claro. Angie. A esposa de Bonzo era escritora, mas parecia ter um dom para a psicologia. Teria tido sucesso se tivesse escolhido essa carreira. Decidiu que conversaria com ela e tentaria buscar um alívio para aquela aflição. 



                                    *** 




    Jonesy marcou um encontro com Angie em um café, em um dia no qual o Led Zeppelin estava de folga. E bem longe dos locais que normalmente seus colegas de banda frequentavam. Não queria correr o risco de que nenhum deles presenciasse a conversa, nem mesmo Bonzo. Aquele seria um segredo entre ele e Angie. Ninguém mais podia saber, principalmente Elinor. 


- Então, Jonesy… Sobre o que queria falar comigo? - perguntou a escritora, tirando os olhos de seu mochaccino.



   Ele olhou para ela enquanto reunia coragem. Percebeu que Angie parecia cansada. Não haviam passado mais de quatro anos desde que ela se casara com Bonzo, mas também parecia consideravelmente mais velha. Quatro anos não é tanto tempo assim e, que Jonesy soubesse, ela ainda não completara trinta anos. 

 Sabia que o baterista estava atravessando um momento bastante difícil em sua relação com a bebida… E com outras coisas que vêm com a fama. Imaginou que isso estivesse afetando seu casamento. 



- Você está bem, Angie? - Jonesy perguntou, sinceramente preocupado. 

- Agradeço a preocupação, Jonesy, mas nós viemos aqui para falar do seu problema, não é? Os meus podem ficar para outra hora. 



     Ele entendeu o recado. Nada iria persuadi-la a contar o que estava havendo. Então, suspirou e começou: 


- Bom… Angie, você já se apaixonou por alguém que não devia? 

- É claro. Acho que todo mundo passa por isso ao menos uma vez na vida. Mas o motivo pelo qual nos apaixonamos por pessoas que não devíamos é bastante variável… Eu diria que os seres humanos, por mais que tenham medo do desconhecido, também são profundamente atraídos pelo perigo. Não sou psicóloga, mas já li muitos livros que tratam dessas questões. Quem é essa garota? Alguma groupie? 



  Jonesy ficou corado. Não que rejeitasse groupies completamente, mas definitivamente era o menos "requisitado" entre os quatro membros do Zeppelin. 



- Não… Se fosse uma groupie, acho que eu não estaria sofrendo… Pelo menos não tanto. Na verdade, Angie… Ela é casada. Com um amigo meu. Tem filhos com o maridp e é louca por ele. Agora eu sei como Eric Clapton estava se sentindo quando compôs Layla. Sempre gostei dessa música, mas, quando a ouço agora, sinto como se fosse um corte profundo na minha carne. É uma música tão visceral… Só uma pessoa naquela situação consegue de fato entender. 



       

   Angie ficou quieta, pensativa. Por um momento, John temeu que a escritora julgasse que ele estava se referindo a ela. Mas, quando Angie finalmente disse algo, ele precisou conter um suspiro de alívio. 



- É a Elinor, não é? 



    Era tão óbvio assim? Bonzo e Jimmy já teriam percebido? Robert já teria percebido? A própria Elinor? 


- Sim, é ela. Mas… Como…? 

- Eu sou escritora, Jonesy. Tenho que ser observadora. - ela sorriu. - Não pude deixar de perceber a forma como olha para ela quando estamos todos juntos.

- Bem… O que eu faço, Angie? Não tenho vocação para destruidor de lares. 

- Você tem duas opções: ou você conta tudo para a Elinor, correndo risco de ser rejeitado, ou sua paixão por ela fica só entre nós, e você sofrerá com esse sentimento não correspondido até encontrar uma mulher desimpedida que também queira você. 

- É… Parece que não tenho muita escolha. Você acha que… Se eu contar para a Elinor, ela vai me odiar? 

- Odiar é uma palavra forte demais, Jonesy. Acho que a única pessoa que Elinor odeia nesse mundo é a Georgiana Sparks, lembra-se dela?

- É claro… 

- Mas ela jamais te odiaria. Talvez fique um pouco desconfortável perto de você por um tempo. Mas não mais do que isso. 

- Bem… Vou pensar muito bem no que fazer. O "não" eu já tenho, não é mesmo? 

- Sim… - Angie se perguntava no que aquilo daria. Precisaria esperar para ver. 

                                  

                                    ***


   

    Ele ensaiou aquilo durante dias. Mas sentia que esqueceria tudo na hora H. Não podia mais esperar. Enlouqueceria se não confessasse tudo a Elinor. 

     John tinha certeza de que seria rejeitado, mas precisava que ela soubesse. Não sabia por que se sentia tão atrapalhado ao planejar o que diria. Já havia se apaixonado e tido namoradas antes. Até mesmo viveu junto e teve um filho com a última delas. 

  "Mas nunca senti isso antes. Ninguém nunca me inspirou uma paixão arrebatadora como essa. Eu amei a Susie… Mas não com essa loucura. E sinto que meu destino é mesmo a loucura, pois Elinor jamais vai deixar o Robert por mim. Nenhuma mulher em sã consciência deixaria um marido como Robert Plant para ficar com um magrelo, baixinho, nerd de instrumentos, como eu. Assim como o Clapton, vou me tornar a versão moderna de Majnun. Vou acabar escrevendo a parte 2 de Layla…".

  A gravadora do Led Zeppelin, a Atlantic Records, estava dando uma festa para comemorar seus 26 anos de fundação e, é claro, todos os artistas em seu catálogo foram convidados. Jonesy sentia que a festa seria a oportunidade que precisava para se declarar a Elinor. Não era a oportunidade perfeita, mas seria a melhor que conseguiria. 

  Elinor passou a noite de braço dado com Robert. Parecia que ele não estava disposto a sair de perto da esposa um minuto sequer. Jonesy já imaginava que seu plano iria por água abaixo. Ficou até um pouco aliviado, pois já estava ansioso demais para conseguir executá-lo. "Vai haver outra oportunidade…". 

   A certa altura da festa, estava bebendo em um canto, sozinho. Era o único do Zeppelin que estava desacompanhado. Robert e Bonzo haviam trazido suas respectivas esposas e Jimmy havia trazido Lori. "Pobre menina descabeçada", pensava Jonesy, ao ver a garota ao lado de Jimmy, sorrindo de orelha a orelha. "Se Jimmy trocá-la por outra, vai ser um livramento para ela, isso sim…". Então, viu passar por ele um vulto ruivo que julgou conhecer. "Aquela não é…? Lá vem ela outra vez…". 

  Mas nem pôde concluir esse pensamento, pois no mesmo instante, Robert se afastou de Elinor, não sem antes dar-lhe um rápido beijo na testa. "É agora ou nunca".



- Elinor? - ele se aproximou, mas não ousou chegar mais perto do que a distância de três passos dela. 

- Sim, Jonesy? - ela retribuiu seu olhar, curiosa.

- Eu… Posso falar com você um instante? 



      Ela arqueou a sobrancelha. Mas disse: 


- Claro… 

- Mas aqui não. Tem barulho demais. Vem comigo… 



   Elinor estava ainda mais intrigada. Era verdade que estava bem mais íntima de Jonesy agora, mas não a ponto de trocarem segredos… Elinor lançou um breve olhar para a direção onde estava Jimmy, e soltou um suspiro frustrado. De certa forma, ela se sentia traída por ele, após descobrir que seu antigo amigo tinha um caráter bem mais questionável do que pensava. 

 Jonesy parou em um canto onde havia um pequeno sofá. Não havia ninguém por ali. Ele fez um gesto para que Elinor se sentasse, e assim ela fez, sendo imitada por ele. 


- Bem… O que queria me dizer, Jonesy? 


   Ele fez um rápido esforço para se lembrar de tudo que havia ensaiado. Na verdade, era quase um pequeno discurso. 


- Elinor… Tenho estado num verdadeiro tormento nesses últimos meses. 


   "O que é isso? Jane Austen?", Elinor pensou, surpresa. Ela se perguntava o que ele diria em seguida. 



- Juro que não faço ideia de como isso aconteceu, mas quando me dei conta… Eu já estava apaixonado demais por você para recuar. Lutei contra os meus princípios, tentei me lembrar da minha amizade com o Robert… Mas nada adianta. Estou irremediavelmente perdido. Eu amo você, Elinor Fitzwilliam… Ardentemente.


    O que Elinor podia dizer diante disso? Parecia que ele tinha engolido o capítulo 34 de Orgulho e Preconceito. 


- Isso é alguma pegadinha? Robert levou mesmo a mal a piada que fiz sobre ele não conseguir ser romântico como Mr. Darcy, e pediu para você entrar na brincadeira de revanche dele?

- Não! Eu jamais brincaria com isso, Elinor… Estou mesmo apaixonado por você. Peço desculpas por ter te ofendido, mas eu precisava muito dizer isso… 


    Eles trocaram um olhar. Elinor pôde ver como os olhos de John brilhavam. Percebeu que ele estava falando sério. Havia uma profunda ternura naquele olhar. E melancolia. 

   John fitava Elinor, desesperançado. Supôs que ela ficaria ofendida com o que ele tinha a dizer, mas não pensou que ela poderia imaginar que se tratava de uma brincadeira de mau gosto. Era ousadia demais pedir um beijo, mas precisava. Estava fazendo um esforço hercúleo para não chegar mais perto. Tinha que respeitá-la. 

 Ela continuava a encará-lo, tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Foram apenas alguns minutos, mas parecia muito mais. 


- Elinor… Posso te pedir apenas um beijo? Só isso, nada mais. Juro que vou te deixar em paz daqui por diante. Não vou fazer nada além de te cumprimentar educadamente quando te vir. Mas não vou ter paz de espírito enquanto… Enquanto não puder te beijar, uma única vez que seja.



    Elinor estava atordoada demais. Ainda achava bastante absurdo que Jonesy, amigo de seu marido, ex-namorado de sua amiga, seu próprio amigo, estivesse apaixonado por ela, e expressasse isso em um discurso digno de Mr. Darcy. E agora ele pedia um beijo! 



- Não, Jonesy. - disse ela, resoluta. - Eu sou casada. Como você mesmo disse, você é amigo do Robert. Não posso fazer isso com ele. 

- Você está certa… 



  Ele baixou os olhos. Mas voltou a levantá-los. Jonesy simplesmente não conseguia parar de olhar para ela. Elinor ficava ainda mais linda com as faces afogueadas daquele jeito. Queria desviar o olhar, para mostrar que estava envergonhado por seu comportamento. Mas era totalmente impossível. 

   Se ele pudesse ver como seus olhos brilhavam! Que Elinor se lembrasse, nem os olhos de Robert brilhavam tanto assim quando ele a fitava. "O que ele está fazendo? Por que sinto pena? Eu deveria estar fervendo de raiva pelo atrevimento dele… Mas não estou". 


- Bem… - ela disse, por fim. - Um e apenas um. E vamos fingir que isso nunca aconteceu. - "Você ficou louca, Elinor?". 



     Ele não podia acreditar. 


- Posso…? Posso mesmo? 

- Sim. - respondeu ela, simplesmente, e fechou os olhos em seguida, aguardando.


   John lançou um rápido olhar pelos arredores para se certificar de que não havia ninguém por perto. Se alguém visse e contasse a Robert, ou o próprio testemunhasse a cena, seria o fim. 

    Os lábios dela o convidavam para o beijo. Não podia deixá-los esperando. Elinor, ainda de olhos fechados, sentiu os braços dele envolverem-na. Teria protestado, lembrando-o de que permitira apenas que ele a beijasse, mas… Parecia que havia sido feita para ficar ali, nos braços de John Paul Jones. E então… 

 O toque de lábios macios sobre os seus. Um beijo doce e intenso, mas ao mesmo tempo cuidadoso. Parecia que ele tinha medo de estragar o momento se fosse sôfrego demais. 

  Elinor não pôde deixar de compará-lo ao seu primeiro beijo com Robert. Os dois estavam bêbados, e Robert parecia querer engoli-la, em seu desespero embriagado. Aquilo era diferente. Muito diferente. E ela sentia algo se revolver dentro dela. Soltou-se de John.  


- Acho que já chega, Jonesy. Você conseguiu o que queria. - ela sorriu nervosamente. 


 Ele ainda olhava para os lábios dela. Certamente queria mais. Mas isso ele não poderia ter. 


- Vou me lembrar disso para sempre.



   "Acho que eu também…". 


- Bem… Preciso… Preciso achar o Robert. 



   "Não adianta, John. Elinor nunca vai ser sua. Nunca… Esse beijo não deve ter significado nada para ela. Não quando ela é casada com um dos homens mais desejados da Inglaterra. Ele é dela, e ela é dele". 

      Elinor se afastava a passos rápidos. Mas não adiantava, pois aquilo de que queria fugir, o sentimento que a engolfava, vinha de dentro dela. Era inútil. Ela se afogaria nele… 


- O que foi, Elinor? Parece que viu um fantasma! 

- Não enche, Jimmy. - ela passou como um raio por ele, e foi direto para Robert. 

- Onde você estava, meu amor? - quis saber seu marido. 

- Eu… Fui ligar lá para casa, mas demorei para conseguir achar um telefone. Queria saber como estão as crianças. 

- Você está branca feito papel, Lily. Tudo bem com eles? - ele ficou preocupado. Ah, como Elinor pôde fazer aquilo com um marido como Robert? Ele estava esquisito, mas normalmente era tão carinhoso…

- Tudo bem… Mamãe disse que Karac só chorou um pouco, não está acostumado a ficar sem mim por tanto tempo… 

- Se você quiser, vamos para casa. Não é mesmo bom para ele ficar sem a mamãe por tanto tempo. Lizzie já é maiorzinha, mas também deve estar sentindo nossa falta. 

- Vamos, Rob… - Elinor só queria dormir e esquecer aquilo tudo. Quem sabe fosse apenas um sonho maluco… 



  Ela não pregou o olho naquela noite. Felizmente, sua mãe não havia dito nada que pudesse comprometer a desculpa que dera a Robert. Mas, toda vez que fechava os olhos e tentava dormir, a lembrança do intenso olhar de John voltava à sua mente. 

   Robert, adormecido, abraçava-a pela cintura, e Elinor se lembrou de que horas antes havia estado nos braços de outro homem… De um amigo de seu marido… E de que havia gostado de sentir aqueles braços em volta dela. A boca dele se fundindo com a dela. Lembrar aquilo tudo enchia-a de… Calor. "O que está acontecendo comigo? Por que estou sentindo isso… Pelo Jonesy?". 

  Do outro lado da cidade, ele também não conseguia dormir, em uma mistura de alegria e agonia. Alegria porque havia beijado sua paixão, a mulher de seus sonhos, e agonia porque sabia que aquilo jamais se repetiria. Cultivaria a memória daquele beijo para sempre. 


                                  ***


  Elinor e Angie estavam juntas na casa da família Bonham, tomando chá, como costumavam fazer todas as sextas-feiras. Jason e Mary Elizabeth brincavam juntos, enquanto Zoe e Karac dormiam em seus respectivos carrinhos. 


- Você parece quieta, Elinor. - disse Angie, levando aos lábios a xícara com chá de mirtilo. Ela tinha um bom palpite do motivo para a quietude da amiga, mas queria confirmá-lo. 

- Estou preocupada, Angie. - respondeu Elinor, ainda de cabeça baixa, comendo um biscoito recheado com creme de avelã.

- Isso eu já percebi. Não se esqueça de que sou escritora… Assim como você. E não é a pressão da editora para que você escreva um novo livro que está te preocupando. 

- Isso também está me atormentando, mas, de fato, não é meu maior problema agora. 

- E qual seria? Sabe que pode contar comigo para tudo, Elinor. 



  Elinor bebeu mais um gole de seu chá e suspirou.


- Eu traí o Robert, Angie. - ela mal podia acreditar que conseguira tirar aquilo do peito. Mas não sabia se confessar de fato a aliviava ou a deixava ainda mais angustiada.



   Angie já suspeitava que tinha algo a ver com Jonesy, mas não imaginava que os dois haviam chegado a esse ponto. 

 Pensava que Jonesy houvesse apenas confessado seu amor por Elinor, e ela estava pensando em como rejeitá-lo sem magoá-lo demais. 


- É sério, Elinor? 

- Sim… Sabe a festa da gravadora? 

- Sim, claro. Mas você ficou perto do Robert a noite toda, eu vi…

- Não o tempo todo. Ele foi ao banheiro. Naquele momento, Jonesy me levou para um canto mais afastado, sem tanto barulho… E disse que estava apaixonado por mim. Ele soava como Mr. Darcy, Angie! Disse que não sabia como isso começou, mas que, quando se deu conta, já estava perdidamente apaixonado…



   A amiga de Elinor deu um sorriso malicioso. Jonesy sabia ser charmoso quando queria. E dizer algo digno de Mr. Darcy era com certeza a estratégia perfeita para conquistar Elinor Fitzwilliam. 



- E então?

- Então… Jonesy me pediu um beijo. A princípio, eu recusei. Disse que sou casada, que Robert é amigo dele… Você sabe. Mas havia tanta ternura naqueles olhos… E tanta melancolia… Eu percebi que estava realmente sofrendo. E não posso negar que ele me comoveu com a forma como se declarou… Não pude mais recusar. E o pior é que… Fiquei balançada com o beijo, Angie. Alguma coisa mudou quando Jonesy me beijou. Despertou algo que nem eu sabia que havia dentro de mim… Eu sou uma péssima esposa, uma péssima pessoa! Robert está estranho, mas eu sei que ele me ama, não merece isso! E eu ainda o amo demais, ele é meu Golden God, o pai dos meus filhos… Eu não sei o que fazer. - Elinor secou uma lágrima que despontou no canto de seu olho.

- Bom… Eu não posso te julgar, Elinor. Também tenho algo a confessar.  

- O quê, Angie? 

- Fiquei com o Jackie de novo. 



    Elinor ficou surpresa. O casamento de Angie estava tão abalado assim? 


- Mas e o Bonzo? 

- Ah, Elinor, se você acha que Robert está estranho, Bonzo está mais ainda. Ele anda bebendo demais, tenho tentado fazer o que posso para fazê-lo parar, mas ele não é criança, e não me ouve. Às vezes ele é até mesmo verbalmente agressivo. 

- Meu Deus… Angie, eu não imaginava…

- Bonzo é uma boa pessoa, no fundo. Eu sei disso melhor do que ninguém. Mas o fato é que estamos muito afastados. Talvez você e Robert ainda tenham solução, mas Bonzo e eu chegamos ao fim da linha. Não dá mais. Vou deixá-lo. E vou levar as crianças comigo, é claro. Se ele quiser manter contato com Jason e Zoe, e sei que vai querer, não vou impedir. Mas não consigo mais viver com ele. 

- E você vai ficar com o Jackie oficialmente outra vez? 

- Ainda não sei. Acho que ele quer isso, mas não tenho certeza se estou pronta para embarcar em outro relacionamento agora. Acho que preciso de um tempo para mim mesma. 

- Vai ser bom se fizer isso, Angie. 

- Também acho. Bom, e você, acha que Jonesy… Quer algo sério? 

- Talvez… A forma como ele falou comigo permite entender isso. Mas você sabe como são os homens. Dizem que estão loucamente apaixonados, que não vão conseguir viver sem você… Então, transam com você uma ou duas vezes e te trocam por outra. Você viu o que o Jimmy fez com a coitada da Vicky. Fiquei impressionada por ele ter ficado tanto tempo com ela, a ponto de terem os gêmeos. Até comigo ele agiu assim. Disse que jamais poderia viver sem ter minha amizade… E lá está ele, como se nada tivesse acontecido. Nem acredito que já fui amiga de um imbecil desses. 

- Mas Jonesy não é Jimmy, e você sabe muito bem disso, Elinor. 

- Sim, mas… E a Susie?

- O que tem ela? 

- Ela é nossa amiga, Angie. - Elinor suspirou. - Se eu tiver algo com Jonesy, como ela vai reagir quando souber? Sei que eles terminaram e são amigos agora, mas acho que Susie ainda não superou completamente, e vai ficar furiosa comigo, com toda a razão. Afinal, Jonesy é o pai do filho dela. Não sei como reagiria se eu me divorciasse de Robert e um tempo depois descobrisse que, sei lá, ele e a Vicky estão juntos…

- Sua reação seria muito mais civilizada que a do Jimmy, isso eu posso garantir. - Angie riu e bebeu mais um pouco de chá. 

- Ah, com certeza… - Elinor deu uma risadinha. 


                                 *** 



  O que estou fazendo é uma loucura. Mas não consigo controlar. Eu quero Jonesy… Preciso dele, preciso ser dele. Por isso, dou um jeito de encontrá-lo à tarde, na casa dele, durante o intervalo das gravações. 

 Visitei o estúdio e secretamente deixei um bilhete nas coisas dele. Robert deve estar almoçando no restaurante próximo ao estúdio, e nem imagina que… Mas eu não quero pensar em Robert. Ele não existe neste momento. Só Jonesy e eu. Mais ninguém. 

  Ele abre a porta para mim. Toma-me nos braços e eu tomo seus lábios. Beijo-o como se o mundo estivesse prestes a acabar. Separamo-nos para recuperar o fôlego. 


Elinor… Então, você me quer?

O que você acha? - sorrio e o beijo mais uma vez. - Não paro de pensar em você desde aquela noite…

É muito bom saber disso. Porque há meses que você é meu único pensamento. 



    Jonesy me conduz pelo apartamento. É bonito, limpo e confortável. Entramos no corredor e ele abre a porta de seu quarto. Continua me beijando. Fecha a porta do quarto e me encosta nela, me segurando pela cintura. Coloco os braços em volta do pescoço dele e o envolvo pela cintura com as pernas. Ele me segura ainda mais firme, pressionando os dedos sobre a carne macia dos meus quadris. 


- Você é tão… Gostosa… - sussurra em meu ouvido. 



  Faz algum tempo que não recebo um elogio desses de Robert. Nos últimos tempos, ele simplesmente chega em casa, me faz deitar na cama, beija, tira minhas roupas e as dele e vamos direto ao ponto. Beijos e carícias um tanto automáticos, sem palavras indecentes. Às vezes isso faz falta. 

   Eu passo a mão pelos ombros e costas largas de Jonesy. E ele continua a beijar meus ombros e pescoço, expostos com os movimentos que fazemos, e apertando ainda mais minha cintura e quadris. Com isso, o aperto que faço na cintura dele com minhas pernas também aumenta. 


- Você também é uma delícia. - sussurro de volta.

- Então, vamos lá.


    

    Ele me carrega até a cama como se eu fosse uma noiva e me deita nela com cuidado. Então, se debruça sobre mim. Permito que ele tire minha blusa e meu sutiã. 

   Jonesy faz menção de apalpar meus seios, mas eu ainda estou amamentando Karac, e eles estão muito sensíveis e pesados, então não deixo que ele faça isso. Ele simplesmente os acaricia e beija, e então começa a descrever círculos em volta dos mamilos com aqueles dedos longos e finos… Aaaah… É tão bom. Se uma mulher quiser um homem que saiba usar bem os dedos, deve ter um baixista como amante… 

     Dos seios, ele começa a trilhar todo o caminho até abaixo do umbigo com beijos. A essa altura, eu também já tirei a camisa dele, e acaricio toda a extensão de seu peito e costas, até retribuindo o que ele fez com meus mamilos. Ele geme em meio aos beijos que distribui em meu corpo.

    Nossos quadris estão praticamente grudados um no outro, separados apenas pelas barreiras de tecido, mas mesmo assim sinto o volume perto das minhas coxas, e me aproveito disso para provocar Jonesy, me esfregando nele. Também estou preparada. 

    Ele para o que está fazendo e removemos o restante de nossas roupas. Primeiro, os dedos mágicos de John Paul Jones abrem caminho, vasculhando tudo e me causando gemidos. 

  Mas essa é só uma pequena demonstração, pois, em seguida, Jonesy coloca a cabeça entre minhas pernas. Ele não é bom só com as mãos… Com a língua também… Parece até que quer me engolir inteira… Vou desmanchar de tanto prazer… Uma poça de tesão. Eu quero ainda mais… Ele para. 

    Penso em reclamar, mas Jonesy é um homem prevenido, e após tomar o devido cuidado, colocando o preservativo, finalmente faz o que eu estava quase implorando para que fizesse. 

  Ele me adentra. Tenho um espasmo involuntário com a sensação ao mesmo tempo dolorida e prazerosa. É um encaixe perfeito. Não consigo acreditar. 


- Aaaah… John… - não consigo chamá-lo de Jonesy. Ele é Jonesy nos momentos inocentes. Neste momento, ele é John. O meu homem. E sou a mulher dele.

- Elinor… Elinor…



    Sinto minhas paredes se fecharem em torno dele. Beijamo-nos e trocamos carícias cada vez mais intensamente, e o calor aumenta. Gememos, e ele vai e volta, vai e volta. 

   John diz que estou apertando-o e me chama de vários nomes, com as mãos nos meus cabelos. Linda. Gostosa. E outros mais indecentes. 

  Puxo a cabeça dele para o meio dos meus seios, puxando também seu longo cabelo castanho claro sem querer. Ele resmunga, e "revida" colocando mais força na próxima estocada. Tenho outro espasmo e gemo mais ainda.


- Safado… Quem iria imaginar… - brinco. 

- E você é uma santa! - ele devolve o gracejo. - Ahhh, Elinor… Eu… Vou gozar…


     E é exatamente isso que acontece. 


- John! - exclamo, quando meu orgasmo vem logo em seguida. Agarro-o no ombro com uma mão e o doce afago que fazia em seu cabelo com a outra se torna um puxão selvagem.



   Ele se esparrama sobre mim, ofegante. Também ofego sem parar. 


- Elinor… Meu amor… Eu te amo. - ele pega meu rosto em suas mãos e me beija, com avidez. Gotas de suor pingam de seu cabelo em mim, mas não ligo. Também estou banhada em suor. 

- Eu… Eu também te amo. - respondo, meu peito ainda subindo e descendo rapidamente. - Eu quero você para sempre, Jonesy. Seja meu, e eu vou ser sua. 

- Eu sou seu, só seu. Você me enfeitiçou, de corpo e alma.

- E você é o rei do meu coração, corpo e alma. Eu sou toda sua.


*** 



    Elinor apertou a campainha do apartamento de Vicky, um tanto nervosa. Estava feliz por poder revê-la, e também Susie. Todas as quatro tinham seus trabalhos e filhos, e desde que Vicky e Susie terminaram seus relacionamentos com Jimmy e Jonesy, Elinor e Angie não as viam mais com a frequência anterior. 

  Mas se perguntava como teria coragem de encarar Susie. Evidentemente, Susie não sabia nada sobre seu envolvimento com John… E, de certa forma, isso só piorava as coisas. 


- Elinor! - Vicky a abraçou com força. - Quanto tempo! Entre! Como Lizzie está linda! E esse é o Karac? Ele é a cara do Robert! 

- Sim… - foi tudo que Elinor conseguiu dizer, com um pequeno sorriso. 

- As meninas já estão na sala de jantar. Vem! 



   Vicky conduziu Elinor até a sala de jantar, onde viu Susie e Angie conversando, animadas. Ao redor da mesa, quatro crianças, da mesma idade de Mary Elizabeth, corriam. Jason Bonham, os gêmeos Scarlet e James Page, e… Simon Jones.

   Os filhos de suas amigas eram todas crianças adoráveis. Mas Elinor sorriu com especial carinho ao olhar para Simon. Ele tinha os mesmos cabelos castanhos claros e os mesmos olhos azuis de Jonesy. Tudo nele era igual a Jonesy, na verdade. O formato do rostinho, o sorriso. "Será que um dia… Vou ter um filho dele, e vai ser tão parecido com ele quanto Simon?". 

   Só então Elinor olhou para a mãe de Simon. Cumprimentou, abraçou e beijou Susie com afeto genuíno, mas, internamente, sentia um frio terrível. "Será que me chamaria de traidora se soubesse o que estou fazendo, Susie? Sei que você não tem mais nada com ele, mas…".


- E então, meninas? Quais são as novidades? - Vicky perguntou. - Seu novo livro já saiu, Angie? 

- Ainda não. Mas vai sair em breve, estou cuidando das últimas revisões com meu editor. 

- Que bom! E você, Elinor? 

- Ah, eu? Bom… Mal tenho conseguido escrever, na verdade. Só recentemente a fonte parece ter voltado a jorrar… 

- É terrível ter bloqueio criativo. - disse Susie. - Lembro-me de quando recebi uma comissão para as ilustrações de um livro infantil. Era uma historinha muito fofa, mas eu não conseguia desenhar nada. Acreditam que foi Jonesy que conseguiu me ajudar a sair dele? Era uma história sobre duendes, mas eu não conseguia de modo algum desenhar um duende harpista que me satisfizesse. Por coincidência, Jonesy estava aprendendo a tocar harpa na época. Eu o vi treinando, e aí… As ilustrações simplesmente começaram a surgir, como se saíssem do lápis por passe de mágica! 



    Agora, Elinor queria mais do que tudo vê-lo tocar harpa. 


- Você e Jonesy pareciam o casal perfeito, Susie… - Vicky comentou. 

- Parecíamos, mas não éramos. Ah, é claro que eu o amava. Demais. E sei que ele também me amava. Mas… Sei lá. Não era para ser assim. Foi bom enquanto durou. Talvez estejamos destinados a outras pessoas. 



    Angie trocou um rápido, mas significativo, olhar com Elinor. 



- Ao menos vocês não guardam mágoas… Não é? - Angie perguntou. 

- Não, de maneira alguma! Jonesy é um cara fantástico. A gente só não funcionava mais juntos depois de um tempo. Quero muito que ele encontre a mulher ideal para ele e seja feliz. E sei que ele quer o mesmo para mim.



    "Mesmo que seja eu? Mas sou mesmo a mulher ideal para John? É o que quero acreditar… Porque quero acreditar que ele é o ideal para mim, aquele que estou procurando incessantemente há tantos anos…". 


- Fico feliz por você não querer esfregar a cara dele no asfalto. Porque é isso que quero fazer com o Page. - disse Vicky. Ela não estava brincando, mas Elinor teve que rir. 

- Pode contar comigo. - disse ela. 

- Ele nos enganou direitinho, não é mesmo, Elinor? 

- E como… 

- Mas eu não quero falar do infeliz do pai dos meus filhos. Quero falar… Da França. Da Villa Nelcotte. Dos Rolling Stones. 

- Dos Rolling Stones ou de um Stone específico? - provocou Susie.


     

 A resposta de Vicky foi rir como uma adolescente. Era claro que sua relação com Mick Taylor estava indo muito bem, e a temporada na França havia-a consolidado.


- Sim, Susie. Tenho o prazer de informar que tenho um novo guitarrista favorito. 

- Já estava mais do que na hora! - Elinor exclamou.  

- Ah, Mick é maravilhoso, tudo que eu poderia querer. E ele gosta muito da Scarlet e do James, o que é um bônus. 

- Isso é ótimo mesmo, Vicky. - disse Susie. - Tem caras que fogem quando descobrem que você já tem filhos… Saí com uns caras desde que terminei com o Jonesy, mas basta mencionar o Simon que eles fogem igual ao diabo da cruz. Mas, Angie… Ouvi dizer que um certo jogador do Liverpool F. C. anda te causando… Sensações, é verdade? 

- Eu apenas fiquei impressionada com a forma como… Ele se tornou um homem de presença. - afirmou Angie. - Lembro-me de quando o conheci na casa dos McGold, uma vez em que os visitei com minha prima Nora. Bran era apenas um menino de doze anos na época. Jamais imaginei que ele ficaria tão alto e… Imponente. 

- Bom… Todos os meninos crescem, não é? Alguns se tornam belos homens. - Susie deu um sorriso malicioso. 

- É claro que ele é bonito, não sou cega. Mas isso não significa que vou ter algo com ele. Ainda sou casada com o Bonzo. E tem o Jackie. 

- Por enquanto. - Vicky provocou. 



  Mais tarde, Elinor dava uma carona para Angie de volta para casa. Assim, elas podiam conversar com privacidade.


- Angie, você acha que Susie vai reagir mal se e quando eu contar a ela sobre… O Jonesy e eu?

- Acho que não. - Angie respondeu, com sinceridade. - Ela é muito tranquila, você sabe. E você ouviu a forma como ela disse que gostaria de que Jonesy encontrasse uma mulher para fazê-lo feliz. 

- É, eu ouvi. Mas temo que Susie sequer cogite que eu possa ser essa mulher. 

- Ela pode ficar bastante surpresa, mas acho que não vai ficar com raiva de você.

- Espero que não. Você viu como o Simon está uma gracinha? Ele é a cara do pai. - Elinor sorriu.

- Vi sim. Não se preocupe, Elinor, um dia você vai ser a mãe do irmãozinho dele. 

- Será? 



      Ela apenas agradeceu a Deus que as únicas testemunhas daquela conversa eram quatro crianças, duas de poucos meses, e as outras duas, de três anos de idade. Todas as quatro dormiam tranquilamente no espaçoso banco de trás, depois de brincarem a tarde inteira.


- As coisas estão sérias entre vocês, não estão?

- Estão… Ele realmente me ama, Angie. E eu… A cada dia eu o amo mais. E quero estar sempre com ele. Aproveitamos cada brecha que temos. Robert nem sonha que venho me encontrando com Jonesy nos intervalos das gravações… Principalmente na casa dele. Mas, um dia, encontrei-o naquele quartinho mofado do térreo da Atlantic… - Elinor ficou ligeiramente vermelha. - Ninguém me viu chegar, nem ir embora. 

- Naquele quartinho? Ali mal tem espaço! Uma vez, Bonzo me levou lá, não podia esperar. - Angie riu. - Vocês estavam mesmo desesperados… 

- Admito que estávamos. - o rubor nas faces de Elinor ficou mais intenso.

- Mas vocês têm que ter cuidado. Não pensem que ninguém percebe que tem algo diferente. Bonzo comentou que Jonesy anda aéreo e não tem almoçado com eles todos os dias, como antes. 

- E ele comentou algo mais? 

- Bom… Não sei quanto a Jimmy e Robert, mas Bonzo está desconfiado de que Jonesy esteja se encontrando com uma mulher…

- Muito perspicaz, seu marido. 

- Ele não seria meu marido se não fosse. - Angie sorriu. - Sabe do que você e Jonesy precisam? 

- O quê? 

- Alguns dias sozinhos, longe de tudo. 

- Mas como vamos conseguir isso?

- Vocês poderiam ir para a fazenda da minha família, no interior da Escócia. E quanto à desculpa para ir para lá… Você é escritora, Elinor, use sua imaginação. 



    Enquanto esperavam o sinal abrir, Elinor teve uma ideia. 


- Eu poderia deixar as crianças com a minha mãe e dizer a Robert que preciso de inspiração para escrever meu novo livro. 

- Parece uma desculpa plausível. 

- Vou dizer a Robert que sei que ele vai estar muito ocupado, e não quero atrapalhá-lo, pedindo que vá comigo.

- Sim. Mas Jonesy teoricamente estaria muito ocupado também, não?

- Isso se ele não precisar visitar os pais em Kent, se você entende o que quero dizer. - Elinor deu um sorrisinho sapeca. 

- Você está se saindo melhor do que a encomenda, Elinor! Nem Isolda daria desculpas melhores. E ela era muito boa em justificar seus encontros com Tristão…

- É necessário, Angie. Pelo menos por enquanto. - ela tinha um certo tom agridoce em sua voz. 


***




  Jonesy não podia acreditar. Lá estava ele, numa fazenda no interior da Escócia, deitado na cama com Elinor em seus braços. Era muito mais do que ele podia esperar.

   Estava tão apaixonado que se sentia capaz de tomar qualquer decisão maluca sem pensar duas vezes. Logo ele, o mais centrado do Led Zeppelin. Uma ideia vinha se insinuando em sua mente. Por fim, resolveu contá-la a Elinor.



- Ellie… E se a gente viesse morar aqui? 



    Elinor sentou-se na cama e olhou espantada para ele. 



- Morar aqui? Você ficou louco, Jonesy? 

- Só por você, meu amor. 



     Ela continuava a olhar para ele, dessa vez sem esboçar reação. 



- Estou falando sério, Elinor. Estou cansado do Zeppelin, essa vida de rockstar não é para mim. No fundo, eu sou um trabalhador como qualquer outro. Ir para o estúdio é meu equivalente de ir para o escritório. Gosto do que faço, mas no fim do dia só quero mesmo ir para casa e relaxar com a minha família.  

 - Sua esposa de avental, toda afobada com o jantar? - ela perguntou, irônica. 

- Assim você me ofende, Ellie. Não sou tão burguês assim. Mas pense: eu saio da banda e passo a compor música para filmes, do conforto da minha casa nas Highlands. Posso viver a vidinha tranquila que eu sempre quis, com você, os seus filhos, e futuramente os nossos também. Recebendo as visitas do meu filho Simon. E ainda continuar fazendo o que gosto, que é compor e tocar. Mas sem precisar viver na estrada. Não parece ótimo? 

  - Parece… Mas… 

 - O que foi? 

  - Eu… Não sei… Para que isso aconteça… Eu preciso me divorciar do Robert.


     John sentiu como se um balde de água gelada tivesse sido jogado sobre suas esperanças. Pela primeira vez, parou para pensar que talvez Elinor o visse apenas como uma aventura.

   Ela era Anna Karenina, Lady Chatterley ou Madame Bovary, e ele, Vronski, Mellors, Rodolphe. A diferença crucial era que o Alexei Karenin, Lord Chatterley ou Charles Bovary dela era bem mais apaixonante que suas contrapartes literárias. 



- Ah. Claro. Você não quer se divorciar dele.  

- Não é isso, John! Eu amo você. - ela fez uma carícia em seu cabelo. - Mas é complicado, meus filhos são tão pequenos… Você e Susie também não ficaram preocupados com o Simon quando decidiram se separar?

- Se fosse o Jimmy propondo isso… Você aceitaria? 

- O que te faz pensar que eu aceitaria o Jimmy? - Elinor não conteve mais a irritação, afastando a mão dos cabelos de John. 

- Você sempre foi louca por ele. Ainda é. - foi a resposta amuada dele. 

- Posso ter sido apaixonada por ele um dia, mas foi há muito tempo atrás! Página mais do que virada. 



    Ele não queria, mas riu com o trocadilho acidental. Elinor percebeu e riu também. 



- Não vamos brigar, querido. Mas eu quero que você tenha paciência, ok? Não é uma decisão fácil, você sabe disso. - ela o beijou docemente e acariciou seu rosto.

- Tudo bem, Ellie. Você está certa. - ele sorriu para ela, beijando sua mão em seguida. 



    Até que ouviram um barulho estranho vindo da porta da casa de fazenda. Elinor ficou inquieta. 


- John, o que será isso? Um ladrão? - sussurrou ela. 

- Um ladrão? Aqui é tão afastado de tudo… - Jonesy soltou a mão de Elinor, procurando por algo que pudesse usar para defender a amada, se fosse necessário. Até que encontrou um pesado atiçador de lareira. - Vou ver o que é isso. 

- Eu vou com você. - disse Elinor. 



    Ele queria convencê-la a ficar onde estava. Por algum motivo, parecia sentir que já haviam estado em uma situação semelhante, o que não era verdade. Mas concordou em deixar Elinor ir com ele investigar.

  Pé ante pé, os dois caminharam até a sala. Ouviam o rumor de conversas lá. Entreolharam-se. 


- Que estranho… Será que alguém veio para cá e não avisou? 

- É mesmo estranho, Katze… 



  Eram uma voz masculina e outra feminina. Elinor e Jonesy entraram na sala e viram, parados na porta, um casal e algumas crianças. 


- Nora? - Elinor estava surpresa. 

- Elinor? - a surpresa da prima de Angie não era menor. 

- A Angie não disse que… Você estava vindo com sua família… 

- E ela não me avisou que… Tinha emprestado a fazenda para você… 



  Enquanto as duas mulheres conversavam, John e o marido de Nora, Sepp Maier, trocavam um olhar. O baixista parecia não saber onde se enfiar. Além disso, estava irritado. Parecia que seus três dias de total isolamento da civilização, em que ele e Elinor poderiam fingir ser as duas únicas pessoas no mundo, haviam chegado ao fim. E mal havia passado um dia e meio.

  Nora estava um pouco desconfortável, pois ela, Sepp e as crianças claramente estavam atrapalhando, mas não conteve a curiosidade, levando Elinor para um canto afastado: 


- Elinor… Desculpe-me perguntar, mas… Sempre pensei que você fosse casada com o Robert Plant. Não sabia que era com o John Paul Jones… 



  Elinor ficou tão vermelha quanto os cabelos de Sepp Maier.


- É… Na verdade… 

- Ah. - Nora pareceu entender. - Não diga mais nada. 



    Tudo que ela queria era sumir. 


- John e eu estamos de saída. Não temos direito de ficar aqui, agora que os donos da fazenda chegaram. 

- Não, Elinor! Faço questão. Vou com Sepp e as crianças para o chalé. 

- Nada disso. Vou com John para lá. Eu vi o chalé, não deve ser nada confortável para um casal com três crianças. 

- Se você insiste… 

- Garanto que ficaremos bem lá. - disse Elinor. - Agradeço por você não nos expulsar… Imagine chegar à fazenda da sua família para um merecido descanso e descobrir que… A amiga da sua prima se escondeu lá… - a voz de Elinor se reduziu a um fiapo: - … Com o amante.

- Eu não tenho direito de te julgar, Elinor.

- Bem… Obrigada, Nora. 



    E assim foi feito. Elinor e Jonesy ficaram no chalé durante os dois dias seguintes, desfrutando da paisagem e da companhia um do outro. No segundo dia, durante a tarde, Nora apareceu no chalé com um bolo de morango e um pedido de desculpas ao casal secreto por "ter atrapalhado". Eles asseguraram que ela, Sepp e os filhos não atrapalharam de maneira alguma... 

  


                                     *** 



 Elinor se sentia confusa e indecisa. Estava apaixonada por John, isso era claro como a luz do dia. Aqueles dias que estavam passando na Escócia não lhe deixavam dúvida alguma. 

 Mas também sabia de uma coisa: apaixonava-se muito fácil. Esse era um defeito seu. Por quantos homens havia se apaixonado nos últimos dez anos? Jimmy. Keith. Robert. Gostara de Graham, mas não se apaixonara por ele de fato. E agora, John. 

   Pensava que Robert era o amor de sua vida, que jamais se apaixonaria por outro homem depois dele. E lá estava ela outra vez. Entretanto, só se apaixonava por outro quando sofria uma decepção com seu atual amado. 

 Seu marido havia de fato feito algo para decepcioná-la? Não sabia de nada concreto, só sentia que ele já não era mais o mesmo com ela. 

   Mas isso justificava um divórcio? Não estava se voltando para Jonesy por mera carência? Era certo com os dois homens? Apenas suspeitava de Robert, e era evidente que Jonesy a amava, mas às vezes ela se perguntava se não estava usando-o para suprir o que Robert não lhe dava.

  É claro que não podia esperar perfeição. Até Mr. Darcy certamente continuou tendo seus defeitos após Elizabeth fazê-lo abrir os olhos. Mas realmente não estava satisfeita com a situação de seu casamento…

  O divórcio era a solução ideal? Uma conversa não bastaria? Talvez Robert nem tivesse percebido que Elinor o sentia distante… Mas havia Jonesy agora. Ah, Jonesy... 

  Tão doce e gentil. Tão sensível e talentoso. Bom com crianças. Bonito também. Elinor não podia ter se envolvido com ele. Não antes de saber se a situação com Robert era mesmo incontornável. 

  Mas agora era tarde demais. Tinha mergulhado de cabeça sem nem pensar. Estava escondida com ele numa fazenda nas Highlands. Faziam amor apaixonadamente, de um jeito que ela já não fazia com Robert havia algum tempo.

 Seu marido parecia pensar mais no próprio prazer quando faziam sexo agora. Talvez, por já conhecer Elinor muito bem e saber do que ela gostava na cama, Robert fazia sempre a mesma coisa, sem se preocupar muito se ela continuava gostando dos "métodos" dele, depois de quatro anos assim.

 Já com Jonesy, parecia que Elinor e ele tinham uma língua própria, que ela jamais poderia falar com qualquer outra pessoa. Ele a entendia e vice-versa, na cama e em qualquer outra situação. Nunca tivera essa cumplicidade com ninguém, nem mesmo com Angie… Ou com Jimmy, nos bons tempos. 

 Elinor e John escondidos de Robert nas Highlands, Tristão e Isolda escondidos do rei Marcos na Floresta de Morois. A diferença era que ela ainda amava Robert, ao passo que Isolda jamais amou o rei Marcos. E Isolda não tinha filhos. O que fazer? Como sair daquela confusão em que tinha se metido? 

   Mas tudo que é bom dura pouco. Os três dias acabaram e os dois voltaram a Londres. Elinor estava feliz por estar com os filhos de novo, mas não via a hora de poder se encontrar com Jonesy novamente. 

 Apesar de terem que se separar por ora, sentiam-se revigorados para seguir com suas vidas, escrevendo seus poemas e músicas, enquanto aguardavam o momento de se reverem.



                                      *** 




  Fazia algum tempo que Elinor não conseguia mais escrever. Estava em um sério bloqueio criativo, e a editora começava a pressioná-la para entregar seu novo livro.

  Seu livro de estreia havia sido um de crônicas, e em seguida publicou um romance de fantasia, mas agora a editora queria que ela lançasse uma coletânea de poemas. Tinha alguns, mas não considerava que o número fosse suficiente, e nem estavam tão bons assim… 

  Olhava para sua máquina de escrever, como se esperasse que as teclas começassem a se bater sozinhas, escrevendo os poemas que Elinor apenas imaginava, mas não conseguia colocar no papel. Fragmentos brevíssimos espiralavam em sua mente.

 Lembrou-se daqueles três dias na Escócia. Quando estava lá, sentiu pela primeira vez em muito tempo o ímpeto poético, mas não escreveu nada, pois não queria se afastar de John um minuto sequer, nem mesmo para escrever. Estava rodeada de esplendores naturais, com um homem maravilhoso sob todos os aspectos, sentindo-se amada e desejada… Era isso! 

 Saiu da janela, de onde observava as ruas cinzentas e cheias de carros de Londres. Sentou-se diante da máquina de escrever, o pensamento povoado com o verde da paisagem das Highlands e o azul dos olhos de Jonesy. E finalmente os versos começaram a surgir…

  Escreveu até ouvir Karac chorar. Olhou para a janela e viu que o céu já ganhava um tom róseo. Foi até o quarto das crianças e pegou o filho do berço. Conhecia aquele choro, sabia que era de fome. Então, sentou-se na poltrona do quarto de seus filhos para dar de mamar a seu bebê.

  Era a mãe mais feliz do mundo. Tinha dois filhinhos lindos e adoráveis, Elinor os amava mais do que tudo no mundo. Não podia deixar de ser grata a Robert por ter-lhe dado Mary Elizabeth e Karac… Ela o amava por isso. 

  "Jonesy tem razão, eu preciso me decidir. Eu o amo e não posso fugir disso. Quero estar com ele a todo momento. Mas, se estou com Rob ou penso nele, imediatamente meu coração se enche de amor por ele também. Se ao menos acontecesse alguma coisa que me servisse de sinal, de indicação do que fazer, de qual deles escolher…". 

  Ela ouviu o barulho de uma chave virando na fechadura da porta da casa. Mary Elizabeth largou seus brinquedos e disparou para a sala. 


- Papai! 



   Elinor sorriu consigo mesma. Deu uma olhada pela porta do quarto. Robert se abaixara para pegar Mary Elizabeth no colo e a enchia de beijos e cosquinhas. 


- Sentiu falta do papai, Lizzie? Papai também sentiu a sua… - Tudo que Elinor via era a confusão de cachos loiros, os de seu marido misturados aos de sua filha, e não pôde deixar de abrir mais seu sorriso. - Cadê a mamãe?

- Aqui, Rob. - Elinor respondeu. - No quarto das crianças. 



   Robert foi até lá, levando Mary Elizabeth no colo. Colocou-a no chão e se inclinou sobre Elinor, ainda sentada na poltrona, para beijá-la. 



- Olá, Lily.

- Oi, Rob. - ela olhou carinhosamente para o marido. 

- Tudo bem com você e as crianças? - ele se sentou cuidadosamente na caminha de Mary Elizabeth. 

- Sim… Finalmente consegui escrever um pouco. 

- Ah, que bom, meu amor! Posso ler? 

- Não enquanto o livro não estiver publicado. Você sabe as regras. - ela provocou. 

- Mas, Elinor, eu sou seu marido! Você podia abrir uma exceção… 

- Nem pensar. Você tem que esperar a publicação, como todo mundo, Robert. 

- Tudo bem, então. Mas você também não vai poder ouvir nosso novo álbum antes de todo mundo. 

- Acho justo. - ela riu. - Como vão indo as gravações, Rob? 

- De vento em popa! Hoje gravamos um take de uma música chamada "No Quarter". Você precisa ouvir o piano sintetizador que o Jonesy tocou… Incrível! Parece que ele voltou inspirado da visita que fez aos pais…



    Elinor foi tomada de surpresa, mas não deixou nada transparecer. Estava ficando boa nisso. 


- Ah… Que ótimo, querido! Tenho certeza de que o álbum vai ser um sucesso de público e de crítica.

- Eu também espero por isso, Lily. 



  Robert estava mesmo estranho. Às vezes ficava distante, e outras, como hoje, ficava carinhoso. E se o distanciamento dele fosse motivado por preocupação com os assuntos da banda? Talvez… Por que tudo tinha que ser tão complicado? Ou melhor, por que ela tinha que ter se complicado ainda mais? 


- Por que você não vem me ver no estúdio amanhã, Lily? - sugeriu ele.



  Seria uma oportunidade para ver Jonesy de novo. Fazia apenas um dia que não o via, mas já estava com saudades. Daria um jeito de ficar a sós com ele, nem que fossem apenas cinco minutos. 


- Vou sim. - respondeu ela, com um sorriso. 

- Ótimo. Vou falar para o Bonzo chamar a Angie também. 



   Elinor se perguntava se a amiga toparia, caso sua relação com o marido estivesse mesmo tão estremecida quanto ela dizia… Mas esperava que sim, pois Angie poderia dar-lhe cobertura.

  No dia seguinte, Elinor se dirigia com Angie à sede da Atlantic Records em Londres. 


- Pensei que você quisesse passar o mínimo de tempo possível com Bonzo agora, Angie. - observou ela. 

- Estou dando mais uma chance a ele, Elinor. Mas só mais uma vez. Se eu perceber que realmente não tem mais jeito… Adeus, John Bonham. 

- E "olá, Jackie Stewart"? 

- Isso já não posso afirmar com tanta certeza. Mas você está indo ao estúdio pelo Robert… Ou pelo Jonesy? 



         Elinor não disse nada, apenas sorriu. 



- Ah, Angie, eu sei que o que estou fazendo é errado, muito errado. Mas eu… Eu não consigo ficar longe dele. Vimo-nos pela última vez anteontem e já estou morrendo de saudades…


         A amiga sorriu para ela. 


- Você está mesmo apaixonada por ele, não está?

- Estou. E ao mesmo tempo… Ainda amo o Robert. Queria conseguir me decidir…

- Em algum momento, vai ter que tomar essa decisão, amiga. 

- Eu sei. Mas neste momento… Só quero ver Jonesy outra vez. 

- Soou como uma dama medieval cujo marido descobriu que ela tem um amante.

- Estou correndo esse risco, Angie. 



   Na recepção, a entrada delas foi imediatamente permitida, pois as duas costumavam visitar os maridos no estúdio com muita frequência, embora nem tanto nos últimos tempos. 


- Bons tempos, quando vínhamos aqui com Vicky e Susie… - Elinor suspirou. 

- Elinor, seja sincera comigo. 

- Claro, Angie. 

- Não são só seu casamento estremecido com Robert, seu affair com Jonesy e a pressão da editora que te angustiam dessa maneira. 

- O que você quer dizer? 

- Você sente saudade do Jimmy, não sente? 



    Elinor pareceu muito concentrada em um fio solto em seu casaco. 


- Elinor? 

- É claro que sinto, Angie. - ela respondeu, a contragosto. - Ele foi meu melhor amigo por mais da metade da minha vida. Sinto falta… Do Jimmy de antigamente. Você é a minha melhor amiga agora, Angie, não tenho motivo para não te contar. Você sabe que eu… 

- Você o amava.

- Loucamente. Jimmy foi meu primeiro e único amor durante dez anos. Até que percebi que ele jamais me corresponderia, e conheci o Keith Richards… Angie, eu sei que pareço volúvel… 

- Você não é volúvel, Elinor. Você só… Tem amor demais para dar. E, bom, se eu tiver que te criticar por algo… Talvez você espere perfeição demais.

- Concordo com você. Mas o fato é que quem Jimmy realmente é sempre esteve bem ali na minha frente, e eu demorei tanto para perceber… Eu só achava que ele era um galinha. Percebi que ele nunca gostaria de mim mais do que como uma amiga, e aceitei isso. Continuei amando Jimmy, como meu irmão. Mas agora… Nem disso ele é digno. 

- Sim, infelizmente. Mas, Elinor, deixe-me te aconselhar. 

- À vontade. 

- Não desista de Jonesy se ele não corresponder a todas as suas expectativas, ok? Ele não é um príncipe encantado, embora seja o mais próximo disso que possamos esperar de um rockstar.

- Estou bem grandinha para continuar acreditando em príncipes encantados, Angie. Mas admito que demorei para deixar de acreditar. Curiosamente, eu sempre soube que o Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa não existiam, mas só fui deixar de acreditar em príncipe encantado aos 20 e poucos anos… 


    Angie não pôde deixar de rir. Mais alguns degraus e elas chegaram à sala de gravação onde normalmente o Led Zeppelin fazia suas sessões. 

    Abriram a porta. Os rapazes pararam de tocar por um momento.


- Lily! - Robert exclamou, vindo em direção à esposa.

- Angie? - Bonzo parecia surpreso. Talvez ele também pensasse, como Elinor, que Angie queria distância dele. 



    Jimmy acenou brevemente para Angie, que retribuiu com o mínimo de calor que a educação exigia. Em seguida, ele olhou para Elinor, que, por sua vez, olhou na direção de Jonesy. 

    O baixista sorriu para ela, embora estivesse incomodado por Robert abraçá-la com força, e sua amada retribuir aquele abraço com um beijo que parecia bem apaixonado. 

   Ao se separar de Robert para poder respirar, Elinor retribuiu o sorriso de Jonesy. "Para mim nem um cumprimento frio que seja, mas para Jonesy, um sorriso de orelha a orelha, Elinor?", Jimmy pensou. 

     Pelo visto, Jonesy havia mesmo conquistado o título que antes era dele: o de melhor amigo de Elinor Fitzwilliam. "Mas houve uma época em que Elinor queria mais do que ser simplesmente minha amiga…". 

     Após Angie cumprimentar Robert e Jonesy e beijar seu marido, as duas jovens mulheres se sentaram no sofá para assistir, e o Led Zeppelin retomou seu ensaio. 


- Acho que encontramos o tom certo. - disse Jimmy. - Vamos gravar. 



    O restante da banda assentiu. Bonzo marcou o ritmo com as baquetas. 



- 1… 1, 2, 3, 4! 



     E começaram: 


I wanna tell you 'bout my good thing

I ain't disclosing no names but

He sure is a good friend, and

I ain't gonna tell you where he comes from

If i tell you you wont come again, Ooh, hey

I ain't gonna tell you nothin' but I do will, but I know, yeah

Now let me tell you 'bout my girl

I open up a newspaper and what do I see

Ahh, ahh see my girl, ahh, looking at me

Ooh, and when she walks, she walks, and lemme tell ya

When she talks, she talks

And when she looks me in my eye

She's my baby, Lord, I wanna make her mine

Ooh, tell me, baby, what you want me to do

And you want me to love you, love some other man

Ooh, they ain't gonna call me Mr. Pitiful, no

Ah, I don't need no respect from nobody, no, no

Ah yeah, no, no, ah

I ain't gonna tell you nothing, I ain't gonna tell you no more, no

She's my baby, let me tell you that I love her so and, and

She is the woman I really wanna love

And let me tell you more, oooh

She's my baby, let me tell you, she lives next door

She's the one a woman, the one a woman that I know

I ain't going, I ain't going, I ain't going to tell

I ain't going to tell you one thing

That you really ought to know, boy

She's my lover, baby, and I love her so, and

She's the one that really makes me whirl and twirl, and

She's the kind of lover that makes me feel the whole world, and

She's the one who really makes me jump and shout, oh

She's the kind of girl, I know what it's all about

Take it on

Take it, take it, take it

Ah, excuse me

Oh, will you excuse me

I'm just trying to find the bridge

Has anybody seen the bridge

Please

(Have you seen the bridge)

I ain't seen the bridge

(Where's that confounded bridge)




  Era uma canção no estilo de James Brown, e Elinor gostou muito. Mas se perguntava sobre a letra do início da música. Robert estava falando dela? "You want me to love you, love some other man…". Olhou para Jonesy. 

 Ele ficava tão bonito quando estava concentrado na música… Ainda mais bonito que de costume. Sacudiu a cabeça de leve para afastar o cabelo dos olhos, e aquele simples movimento tirou o fôlego de Elinor. Por uma fração de segundo, ele ergueu os olhos de seu baixo e olhou para ela.

  Percebendo o encantamento nos olhos de sua amante, Jonesy deu um sorrisinho. Não negava que ficava muito satisfeito quando Elinor demonstrava que o desejava. Ele continuou tocando, fitando Elinor em vez das cordas de seu instrumento. 

  Só esperava que Robert não percebesse. Ele também se perguntava, pensando na letra da música, se o marido de Elinor não desconfiava de algo… 

  Após terminarem a música, Eddie Kramer, o principal engenheiro de som, sugeriu uma pausa para fumar. Os demais engenheiros de som e os integrantes da banda concordaram. Angie, que também fumava, disse que iria junto. Assim, podia falar um pouco com o marido. Mas Elinor não fumava. 


- Vão lá, eu fico esperando. - Elinor disse, gentilmente. 



   Então, viu que Jonesy não havia se afastado de onde estava, ao passo que os demais já estavam se dirigindo à porta para sair. 


- Você não vem, Jonesy? - perguntou Bonzo. 

- Não. Vou fazer companhia para a Elinor. 



     Ela olhou para ele. 



- Pode ir, m… - engoliu um "meu amor" apressadamente.

- Não tem problema, eu fumo depois. 

- Você que sabe…



    Robert, Bonzo, Angie e Jimmy saíram, com os engenheiros de som. Antes de sair, o guitarrista deu uma olhada para John e Elinor. Ela devolveu o olhar.

  Assim que Jimmy fechou a porta atrás de si, Jonesy livrou-se do baixo, colocou-o sobre um suporte e foi até o sofá em que Elinor estava sentada, envolvendo-a nos braços e praticamente se deitando sobre ela. Ela o beijou vorazmente no mesmo momento. 



- Senti sua falta... - Elinor disse, quase sem fôlego, em meio ao beijo. 

- Eu também. - com uma das mãos, John acariciava os cabelos castanhos de Elinor, enquanto a outra entrava pela blusa dela.

- Você sabe que podia ter ido fumar com os outros… Não é? Eu não disse aquilo para fazer você ficar aqui dentro… Mas ainda bem que… aproveitou a deixa. - Elinor mal conseguia falar, pois Jonesy beijava seu pescoço. - John, não se empolgue demais, como vou explicar ao Robert se você deixar uma marca? 

- Fale a verdade. Você é minha agora. - ele continuava a beijá-la no pescoço, voltando para a boca, deixando também beijos no queixo e maxilares dela. Ela adorava a sensação do bigode dele roçando em sua pele…

- Sou, é? - ela suspirou. - E você, John Paul Jones? Você é meu? 

- Única e totalmente seu, Elinor Stephanie Fitzwilliam. 



       Ele começava a querer tirar a blusa dela. 



- John, acho melhor não… Daqui a pouco eles vão voltar. Se estivermos sem roupa, vamos levar mais tempo para poder fingir que estávamos só conversando inocentemente. 

- Tem razão, Ellie. Aliás… Gostei de ver que você estava olhando encantada para mim enquanto eu tocava. 

- Não tem como não ficar. - ela sorriu. 

- E mais ainda, que você quase me chamou de "meu amor" na frente de todo mundo. - ele provocou. 

- Se quiser, posso chamar você assim agora. 

- Chame, então. 

- Meu amor. Jonesy, John… Meu amor. - ela sorriu. Seu coração se enchia de um calor agradável quando o chamava assim. 



   Ele a beijou mais uma vez… Até que ouviram passos ecoando pelo piso de madeira do corredor. Alguém estava vindo. 

  Terminaram o beijo apressadamente e John pegou seu baixo, para fingir que estava mostrando uma linha para Elinor. Ela ajeitou a blusa e o cabelo e se sentou corretamente, fingindo concentração no que ele mostrava. 



- E aí, um acorde C… 



     A porta se abriu. Era Jimmy. "Eu preferia até que fosse o Robert…", Elinor pensou. 



- Voltou rápido, Jimmy. - disse John, com a maior naturalidade. 

- É que tive uma ideia para "The Ocean" e quis testar na guitarra antes que eu esqueça… 


     Ele pegou sua guitarra e, olhando para Elinor, perguntou: 


- Posso sentar do seu lado, Elinor?



    Dando o seu melhor para não demonstrar irritação, Elinor disse: 



- Claro. 



       Sem mais demora, Jimmy sentou-se ao lado de Elinor e começou a tocar. 



- O que você estava mostrando para a Elinor, Jonesy? 

- Ele estava me mostrando a linha de baixo que ele pensou para "The Song Remains The Same". - disse Elinor.

- Ah… 



   Jimmy dedilhava a guitarra, assim esperando obter a atenção de Elinor. Em outros tempos, ela não economizaria nos elogios. Mas agora, ela mal prestava atenção. 

   Jonesy sentou-se diante do piano e também começou a tocar uma música, que o guitarrista logo percebeu não ser nenhuma que estavam ensaiando. 

 Na verdade, nem era música popular. Era clássica. Provavelmente algo tirado de uma ópera. Às vezes esquecia-se de que Jonesy tinha formação em música clássica. 

    Elinor amava aquela ária. Era a "Canção para a Lua", da ópera Rusalka, de Antonin Dvórak. Era tão linda… Ainda mais linda se tocada no piano por seu amor.

   Ela esqueceu-se completamente de que Jimmy também estava na sala. Levantou-se do sofá e foi postar-se ao lado de John no piano, enquanto ele tocava primorosamente. Sabia que ele não escolhera a música por acaso. Contemplava, com adoração, os dedos dele percorrerem as teclas, como num transe. Um transe de paixão. 

   Jimmy observava. Jonesy tocava muito bem, de fato. Mas havia algo estranho naqueles dois. E ele descobriria o que era, ou não se chamava James Patrick Page. 

   Os demais voltaram para a sala de gravação. Robert ficou um tanto surpreso ao ver Elinor parada ao lado do piano, assistindo a Jonesy tocar. Sua esposa parecia impressionada, até mesmo encantada. Será que…? Algo pesou na consciência de Robert. Elinor não era nada boba. E se ela descobrisse tudo e decidisse que ia dar-lhe o troco? E se já tivesse descoberto, e estivesse fazendo ciúmes para deixá-lo com remorso? "Não, isso não é do feitio dela… Mas é bom ficar esperto…". 


                                     *** 



- Robert… Vem cá… - Georgiana o chamava com a voz mais lasciva de que era capaz. 



    Mas os pensamentos dele voavam para longe da ruiva e estonteante groupie. Não conseguia parar de pensar na cena que havia presenciado no estúdio no dia anterior… 

    É claro que Elinor podia estar apenas em meio a um êxtase artístico. Ambos eram artistas e muito sensíveis a isso. Ele entendia perfeitamente. Mas parecia que havia algo mais no enlevo de Elinor ao ouvir Jonesy tocando… Seria possível que sua mulher, sua Elinor… Estivesse traindo-o com um de seus amigos? Ou, ao menos, estivesse se apaixonando por ele? 


- Qual o problema, Golden God? - Georgiana sentou-se no colo dele, rebolando de leve. 

- Nada, Georgie, nada… 

- Está pensando na sua mulherzinha? Eu já te disse, ela não vale o seu tempo. 

- Não fale assim da Lily. - Robert começava a ficar irritado. 

- O corno é sempre o último a querer reconhecer a verdade! 

- O quê? 



      Evidentemente, ele mesmo andava pensando nisso. Mas ouvir da boca de outra pessoa… 


- É isso mesmo! A sua santa Elinor anda te trocando… Por alguém que você conhece muito bem. Ela está te apunhalando pelas costas! 



     "E não é isso que eu estou fazendo com ela?". 


- Quem foi que te disse isso, Georgiana? 

- Não importa. Mas eu sei. 



    Podia muito bem ser Jonesy. Elinor estava claramente enfeitiçada pela forma como ele tocava. Mas… E o desprezo que ela demonstrava por Jimmy agora? Não poderia…? Não seria nada espantoso se, além de Lori, Jimmy também… "Se for isso mesmo, eu mato aquele varapau". 

   Georgiana deitou-o na cama e começou a acariciá-lo e beijá-lo de forma provocante. Mas Robert não estava com a menor disposição para atender aos desejos dela naquela noite. Imaginava Elinor exatamente daquele jeito, enroscando-se em outro… Em Jimmy… 

    Ele sabia muito bem que sua esposa havia sido apaixonada pelo guitarrista um dia. Ela lhe contara, pois acreditava que em sua relação não podia haver segredos. E se ela tivera uma recaída? E se toda a indignação que sentia por saber do relacionamento do ex-amigo com a groupie adolescente fosse, no fundo, apenas ciúme? "Lily… Minha Lily não me ama mais?".



                                           *** 



   Mais tarde naquela semana, Elinor voltou ao estúdio. Sabia que era uma imprudência, mas não conseguia evitar a vontade louca de estar perto de Jonesy. E ele também não conseguia. 


- Será que não desconfiam da gente? - perguntou Elinor a ele, uma tarde, os dois espremidos no quartinho mofado do térreo. 

- Talvez. Mas nesse momento, quero que tudo mais se dane. Só quero você, Ellie. - e a beijou vorazmente. 

- Eu também só quero você, Jonesy. - sorriu, apaixonada. 


       

   E na semana seguinte, a mesma coisa. Ela não ia à Atlantic Records todos os dias, mas mesmo assim, Robert começou a estranhar a frequência com que Elinor ia até lá. E sua mente, já devidamente envenenada por Georgiana, via nisso a prova de que sua esposa estava traindo-o. Mas com quem? Tinha quase certeza de que era com Jimmy. E algo que viu aumentou ainda mais suas suspeitas.  

   Numa das tardes em que estava na Atlantic, Elinor estava no banheiro, enquanto os membros da banda fumavam. Enquanto ela voltava para a sala de gravação, acabou encontrando Jimmy, que também voltava da pausa para fumar. Ele sorriu para ela. Aquele sorriso, antes, era uma fonte de conforto para Elinor. Agora, irritava-a profundamente. Ele parecia tão cínico oferecendo-lhe aquele sorriso... 


- E aí, Elinor? 

- E aí, Jimmy? - respondeu ela, sem um pingo de animação, a cara fechada.

- Por que você me trata tão mal agora? O que foi que eu te fiz, Elinor?! 

- Para mim, nada. Mas estou muito decepcionada com você, Jimmy, e você sabe o motivo. 

- É por causa da Lori? Se eu terminar com ela, você volta a me tratar como antes? 

- Não, Jimmy. É tarde demais. - enquanto ele falava, Elinor seguiu seu caminho pelo corredor, e agora estava diante da porta da sala de gravação, a mão na maçaneta. Ele a segurou pelo braço, com firmeza, mas sem machucá-la. 

- Mas por quê? O que o fato de ela ser minha namorada mudou na nossa relação, Elinor? Nada mudou. Eu ainda te amo, como se você fosse minha irmã… 

- Tudo mudou, Jimmy. Agora eu sei quem você de fato é. Percebi que eu jamais te conheci, ao contrário do que pensei a vida inteira. Uma pena que demorei tanto.

- Elinor! Sou eu, o Jimmy de sempre… 

- E é por isso que eu não posso mais ser sua amiga. Você não mudou nada, e ter consciência disso dói demais. Se minha mãe soubesse quem você se tornaria depois de adulto, jamais me deixaria ser sua amiga. 

- Elinor… 

- Você se aproveita da inocência de uma menina! 

- Inocência? - ele riu, debochado. - Lori é tudo, menos inocente… 

- Ela é praticamente uma criança, Jimmy! Eu tenho repulsa de você! Sua barata nojenta, abominável e asquerosa! - ela tentou se afastar, mas ele ainda a segurava pelo braço. 

- Elinor, eu não sou esse monstro que você diz… 

- Você não entende… Você jamais vai entender como me machuca saber quem você realmente é, Jimmy. É como se você tivesse enfiado uma faca no meu coração e girado, me deixando sangrar até morrer. Eu te amo, como irmão, e acho que sempre vou amar, porque infelizmente não consigo esquecer os bons momentos que vivemos juntos esses anos todos… Mas não consigo gostar de você. Não mais. Agora, me deixa. 

- Elinor? Jimmy? 



   Robert apareceu no corredor. Olhava para a mão de Jimmy pousada no braço da esposa, e achava que entendia o que aquilo significava.


- Eu estava… Tratando de um assunto pendente com o Jimmy. - disse Elinor. Ele finalmente a soltou, e ela foi até o marido. 

- … Entendi. - Robert lançou um olhar nada amistoso a Jimmy.



  Elinor tentou desviar a atenção de Robert do que havia presenciado. Ela sentia que o marido estava propenso a entender tudo errado. 


- Achei que sua voz estava formidável nessa última música que gravaram, querido. - ela sorriu. 

- Obrigado, Elinor. - o fato de ele não a ter chamado de Lily era bastante revelador. - Não acha o mesmo da guitarra do Jimmy? 

- Bom… Ele tocou muito bem, como sempre. - Elinor não foi nem um pouco entusiástica ao dar sua opinião. Robert ainda estava desconfiado, mas achou que era mais inteligente não demonstrar.


    

  Jimmy, por sua vez, embora julgasse que Elinor estava exagerando na condenação a suas atitudes, ficaria por muito tempo "matutando" tudo que ela havia dito. 

  Ele havia sido sincero ao dizer que ainda amava Elinor como sua irmã, e realmente não queria tê-la decepcionado. Só podia lamentar a amiga tão valiosa e amada que perdera. 

  Mas não pôde deixar passar a oportunidade:  


- E quanto ao piano do Jonesy, hein, Elinor? - perguntou ele, provocador. 



 Elinor gelou por um momento. Jimmy teria percebido algo? Podiam não ser mais amigos, mas ele ainda a conhecia bem demais e sabia identificar todos os sinais de paixão em seu comportamento, pois vira-a se apaixonar por Keith e Robert, e também gostar muito de Graham, durante os longos anos de sua amizade… A única vez em que ele parecera não perceber nada foram os quase dez anos que Elinor passou apaixonada por ele… Ou então, ele percebeu, mas não quis ver. 

 Entretanto, ela não perdeu a presença de espírito ao responder: 


- Ele foi ótimo. Ele é ótimo em tudo que se propõe a fazer. - cuidou para que não soasse entusiasmada em excesso. 

- Ele realmente é. - Robert se viu obrigado a concordar. - Não sei o que faríamos sem ele… 



   "Eu muito menos…"



                                    ***



     Às vezes, em suas escapadas para a casa de Jonesy durante a tarde, Elinor e ele agiam quase como se fossem um casal comum de namorados, e não dois amantes que precisavam se esconder sempre que queriam estar juntos, com privacidade.

  Ficavam abraçados no sofá da sala dele, assistindo televisão, ouvindo música no rádio ou na vitrola, ou simplesmente conversando. Também trocavam beijos e carícias nesses momentos. 

   Numa dessas tardes, como de costume, John deixou que Elinor escolhesse o disco que iam ouvir. Ela acabou escolhendo Abbey Road, dos Beatles, e colocou-o para girar na vitrola. Quando começou Something, John, que havia feito aulas de canto quando criança e adolescente, mas tinha vergonha de sua voz, finalmente se soltou. 


- Something in the way she moves… Attracts me like no other lover… Something in the way she woos me… Don't wanna leave her now, you know I believe and how… 



    Elinor olhou para ele, um grande sorriso no rosto. 


- Você canta bem, Jonesy, não sei por quê tem vergonha da sua voz. - ela acariciou o cabelo dele. 

- Você só está apaixonada, Elinor. - ele corou. - Minha voz é péssima se comparada à do Robert. 

- Eu gosto. - ela beijou-o docemente. - E gosto muito dessa música também… Mas meu Beatle favorito é o Paul McCartney. 



   John não costumava ser acometido pelo ciúme, mas às vezes acontecia. E sentiu uma fisgada no coração ao ouvir aquilo. 


- Você chegou a conhecer os Beatles, Elinor? - quis saber ele.

- Na verdade, sim. Uma vez, quando ainda estava nos Yardbirds, Jimmy me apresentou a eles em uma festa. Quando Paul apertou minha mão e olhei naqueles olhos verdes, quase esqueci meu nome! Não podia acreditar que ele era ainda mais bonito pessoalmente… 


      

    Jonesy não conseguiu disfarçar o incômodo ao ouvir a amada falar sobre o outro baixista. 


- Ele deve ter sido mais uma das suas paixões… 

- Ah, não. - Elinor riu. - Nunca convivi com os Beatles para me apaixonar de verdade pelo Paul. Ele sempre foi um crush famoso para mim. 

- Elinor… Eu sou famoso. - Jonesy corou ainda mais.

- Eu sei. Mas é diferente, John. Você não está com ciúme dessa minha paixonite bobinha pelo Paul, está? 



   Ele preferia morrer a admitir abertamente, mas Elinor o conhecia bem demais. Não precisava dizer nada. 


- Ah, Jonesy! - ela riu, aquele riso que baixava todas as defesas dele. - Não precisa ficar com ciúme do Paul, não precisa ficar com ciúme de ninguém. Nem mesmo do Robert… Você é meu baixista favorito…. E o único homem que eu amo. 

- Você já amou tantos… - John ainda parecia inseguro. 

- E não vou amar mais nenhum outro. Depois de você, os outros são os outros e só, Jonesy. 



  Jonesy tomou Elinor nos braços e a beijou vorazmente.


- Você é minha e de mais ninguém. Ninguém vai tirar você de mim, eu não vou deixar…

- Eu sei que não vai. - Elinor sorriu. - Eu também nunca vou deixar que alguém me tire de você. 


                                         ***



  

    O dia estava lindo. O sol brilhava, o céu estava azul e límpido, sem uma nuvem sequer. Elinor se sentia tão feliz e animada que teve a ideia de fazer uma surpresa para Jonesy no estúdio. Apareceria lá sem dizer nada. Ela o amava tanto… 

   Ah, é claro que teria que dar atenção a Robert, que pensaria que a surpresa era para ele. Mas daria uma de suas “escapadas” com Jonesy na primeira oportunidade que surgisse…

  Havia um belo parque cujo portão de saída dava para bem perto da Atlantic. Elinor decidiu que cortaria caminho por ali. Quanto mais cedo chegasse, melhor. Queria tanto ver John… Sonhou com o brilho terno daqueles olhos azuis a noite inteira. Era tão bom amar e ser amada… É claro que sentira aquilo com Robert, mas com ele… Era diferente. Muito diferente, e muito melhor. 

    Parecia que ouvia o riso dele. Estava com tanta saudade que pensava que ele estava em todos os lugares… 

  Um jovem casal e seu filhinho faziam um piquenique. Pareciam conhecidos… Então Elinor os reconheceu: Simon, Susie… e Jonesy. Ele parecia tão feliz ao lado de Susie! Elinor pensava que Jonesy a amava, mas os três pareciam mais uma família de comercial de margarina juntos. E se ele voltasse para Susie? 

   Ele a viu, mas Elinor deu meia-volta e foi embora o mais rápido que suas pernas podiam levá-la. Não queria ver mais nada, não queria ver John Paul Jones nunca mais. 

     Elinor pegou as crianças na casa de sua mãe e voltou para casa. Enquanto eles cochilavam, cansados depois de brincar a manhã inteira na casa da vovó, e Elinor ter-lhes dado o almoço, ela ficou sentada no sofá, revendo a cena em sua mente e analisando-a quadro a quadro. Jonesy estava claramente muito contente. Ele, Susie e Simon formavam uma família outra vez. E ela, Elinor, havia sido apenas uma distração. Agora, John sabia que nunca deveria ter deixado Susie, e voltaria para ela.

    E ela fora uma idiota ao pensar que um dia se divorciaria de Robert para ficar com John definitivamente! Jogaria fora um marido maravilhoso como Robert para ficar com um homem que só a via como uma aventura? John lhe jurou um amor profundo, mas essa não era a verdade. Enganou a si mesmo, e Elinor também. Deveria ter imaginado desde o começo… John estava desesperado pelo término com Susie, e agarrou-se a um sentimento superficial por ela que confundiu com amor… 

     O telefone tocou. 


- Alô? Ellie? 



    Ela colocou o telefone de volta no gancho. E a essa se seguiram muitas outras ligações de John, sempre em horários em que Robert não estava em casa. Jonesy transformou aquilo em um ritual: durante uma semana inteira, no momento da pausa para fumar, ele ia até o telefone da recepção da Atlantic Records e ligava para a casa dos Plant, na esperança de que Elinor finalmente falasse com ele. Mas sempre que ela atendia e ouvia a voz dele do outro lado da linha, desligava sem uma palavra. 

   John sofria com a indiferença dela. Precisava explicar a Elinor o que havia visto no parque, mas ela não lhe dava chance de fazer isso. Então, decidiu que o único jeito seria ir vê-la pessoalmente. E foi o que ele fez. 


- O que faz aqui? Eu não quero te ver nunca mais, John. - e ela quase bateu a porta na cara dele, mas ele a segurou. 

- Elinor, eu preciso te explicar! 

- Explicar o quê? Que você percebeu que ainda ama a Susie, e vai me deixar para voltar para ela? Eu fui tão burra! Robert não merece o que fiz com ele… 

- Não, Elinor! Eu nunca menti para você! Não vou voltar para a Susie. Você é a mulher da minha vida, e só você… 

- Ah, é? Então por quê você estava fazendo um piquenique com ela e o Simon, parecendo a família mais feliz do mundo? - Elinor agora chorava, de coração partido e raiva. 

- Porque… Se tem uma coisa que ainda me une à Susie, é o amor pelo nosso filho. Aquele dia era o aniversário do Simon, Ellie. E ele disse que não queria uma festa, queria apenas fazer um piquenique com o papai e a mamãe. Como eu poderia negar um pedido do meu filho, Elinor? Sei que você não negaria nada à Mary Elizabeth ou ao Karac… 



      Ele tinha razão. 


- Ah, Jonesy… 

- Eu amo muito meu filho. E sofro por não estar com ele todos os dias, mas, ao mesmo tempo, não posso voltar para a Susie. Eu não a amo mais. Tenho carinho por ela, mas não consigo amá-la… Romanticamente. Nem ela sente mais isso por mim, na verdade. Está namorando um tal de Charles Lucas, que começou a alugar o apartamento em que nós dois morávamos... Mas o que importa é que apenas uma mulher me causa essa paixão louca, e ela é você, Ellie. “When I go away, I know my heart can stay with my love… It's understood… It's in the hands of my love… And my love does it good…”. 

- Uma música do Paul McCartney? Não é justo… - Elinor não sabia se ria ou se chorava. Fez ambos, enquanto abraçava Jonesy fortemente. Nunca mais iria soltá-lo.


    Ela fitou o amado, as lágrimas cintilando como pequenas pérolas em seus olhos castanhos. 



- Eu amo você, John, porque com você me sinto em casa. Você é como aquela sensação de chegar em casa, colocar uma roupa confortável e fazer o que você quiser, porque ninguém vai te julgar ou dizer que você deveria estar fazendo alguma outra coisa mais importante do que, sei lá, mergulhar nas páginas de um livro e se deixar ficar lá. Você é como um cobertor felpudo, uma xícara de chá de gengibre e mel, um bolo de maçã com canela. Conforto. Lar. Agora que tenho você, eu sinto que achei o meu lar. Posso ser eu mesma com você, Jonesy, e sei que estou tranquila e protegida. Você é o que eu procurei a vida inteira, e agora achei. É uma busca de outras vidas, creio. Eu devo ter te amado em outro lugar, outro tempo, e devo ter sido prometida a outro homem, mas era você que eu queria… Eu não tenho essa paz que sinto com você nem mesmo com o Robert, que é meu marido, é com quem eu tenho um lar no sentido mais primário da palavra. E o que eu senti pelo Jimmy e pelo Keith? Era como dirigir um carro em alta velocidade por uma rua sem saída. Era um fogo que corria pelas minhas veias, um fogo de destruição. O que sinto por você é fogo também, mas é um fogo aconchegante, de uma fogueira de acampamento ou de uma lareira. Que te reconforta e te dá alegria, você se sente preenchido por dentro. E se eu perder isso, por minha própria culpa… Eu nunca vou me perdoar.


 Ele havia ouvido tudo silenciosamente, profundamente tocado pelas palavras dela. Achava que era sua vez de responder. 


- Elinor… O que sinto por você é fogo também, é fogo que me revigora e me mantém vivo. E se eu perdesse você… Não sei se morreria, mas seria uma existência tão triste, tão miserável, que eu seria um morto em vida. Nada mais me deixaria alegre, nem mesmo essas pequenas coisas que você mencionou, como sentar-se na frente de uma lareira crepitante com um livro, um cobertor e uma xícara de chá. Ou… A música. A música perderia o sentido sem aquela que me dá a energia vital que é tão necessária para a arte. Elinor significa "luz", e é isso que você é: a luz da minha vida. Eu te amo mais do que tudo. 



   Elinor ainda chorava, mas abriu seu sorriso para ele e o abraçou fortemente. 


- John… Jonesy. Eu juro que nunca mais vou duvidar do seu amor por mim.

- Eu juro, Ellie, que te amo da mesma forma que devo ter te amado nessa vida passada de que você fala. Talvez você fosse uma princesa, e eu, o cavaleiro que devia protegê-la. Eu sei que morreria por você… 

- Ah, John… 

- Um dia, Elinor… Depois que você se divorciar do Robert, é claro, não se preocupe porque eu estou sendo paciente, como você pediu… Vou te dar a aliança de diamante mais bonita que você já viu. 

- Eu gosto de coisas brilhantes, mas me casaria com você com alianças de papel, Jonesy. Ou até com aneizinhos coloridos de plástico. 


    Eles riram. Então, ela tomou os lábios dele e beijou-o docemente, sabendo que jamais iria querer beijar outro homem pelo resto de sua vida. E essa era a melhor sensação do mundo para Elinor. Renderia um poema ou um romance maravilhoso, tinha certeza. 


                                   ***



- Ah, há quanto tempo eu não saía sem levar o Simon comigo! - Susie exclamou, sentada diante de Elinor à mesa de uma casa de chá. Ela bebericou seu chá de gengibre e limão parecendo muito satisfeita. Entre as duas, um prato de delicados biscoitos amanteigados cobertos de açúcar e canela. - Não que eu me importe, eu amo meu garotinho. Mas às vezes acho que nós, mães, temos direito a um tempinho para nós mesmas. 

- Concordo… 



  Elinor deu um sorrisinho amarelo. Não podia deixar de sentir uma ponta de culpa quando confiava os filhos aos cuidados de sua mãe, fosse para tratar de assuntos de negócios com a editora, fosse para sair com as amigas, fosse para… Encontrar Jonesy. É claro que sua mãe não sabia disso. Mas também sabia que, ao mesmo tempo em que era mãe, também era escritora, e tinha uma vida pessoal. Precisava conciliar isso da melhor maneira possível. Para isso, às vezes era necessário deixar seus filhos com outra pessoa por algumas horas. 

  - Com quem você o deixou? Sua mãe? 

- Ah, não! Deixei-o com o Jonesy. - explicou Susie. 

- O Jonesy? 



    Ela sentiu um arrepio na espinha. E se Susie tivesse contado a ele? Não queria que ele pensasse que ela estava agindo por ciúme… E outro pensamento lhe ocorreu: como John tinha tempo para cuidar de Simon, se Robert estava no estúdio? Ele também não deveria estar? Estranho… 



- Sim! Ele ama cuidar do Simon para mim. Sempre que ele pode, deixo que faça isso, pois os dois claramente adoram o tempo que passam juntos.

- Que bom… Ah, Susie… Falando no Jonesy… 

- O que foi? - Susie já tinha certeza do motivo pelo qual Elinor a havia chamado para tomar chá, mas não iria apressar as coisas, deixaria que a amiga falasse por si mesma. 

- É que… Eu… - estava intensamente ruborizada. - Eu sei que mereço, mas, por favor, Susie, não me julgue… - ela baixou a voz. - Jonesy e eu… Estamos tendo um caso, e eu não ia suportar mais continuar sem você saber, afinal, ele é seu ex-namorado, pai do seu filho, e nós somos amigas. Mas eu e ele nos amamos, e… Bom, é isso. 



       Elinor falou tudo aquilo de uma vez. Parecia uma metralhadora de palavras. Susie deu um sorriso, com pena da amiga.


- Eu já sabia, Elinor. 



       A escritora olhou para sua amiga ilustradora, incrédula.


- Você… Você já sabia?

- Sabia sim. John me contou. Ele disse que também não conseguiria ter paz enquanto não me contasse.

- E… Você não quer nos matar? 

- Por quê? Jonesy e eu somos apenas amigos agora. Amigos que por acaso têm um filho juntos, mas…

- Ah, Susie, isso é um alívio! 

- Fique tranquila, Elinor. Da minha parte, não existe nenhum empecilho para você ficar com o John. Além disso, eu tenho o Charles, e não poderia estar mais feliz com ele. Mas e o Robert? 

- Essa já é outra questão que preciso resolver…



                                   ***


    Elinor agora tinha certeza. Ela encontrara duas coisas muito suspeitas nas roupas de Robert, ao tirá-las do cesto de roupa suja. 

 Uma era um bilhete. Estava borrado e amassado, mas podia perfeitamente ler a mensagem: "Me encontra hoje à noite". Isso já bastaria para confirmar todas as suas suspeitas. Fazia muito tempo que não era para Robert que escrevia bilhetes românticos, marcando encontros furtivos. E aquela letra não era sua, de qualquer forma. 

     A segunda… Fios de cabelo ruivo em uma de suas camisas. Ruivo. Um tom que remeteu Elinor a memórias que ela não gostava de ter. "Será possível que aquela quenga voltou??? E eu aqui, me dilacerando por estar traindo o cretino!!! Eu mato os dois!!!". 

      Pegou o telefone. 


- Jonesy! - ela exclamou, assim que ouviu a voz do amante dizer alô. 

- Ellie? O que foi? 

- Não me esconda nada, pelo amor de Deus! 

- Esconder o quê? 

- O Robert tem uma amante? Anda se encontrando com uma groupie? Ele deu alguma bandeira desse tipo? 



      O baixista demorou um pouco a responder. 


- John? - insistiu ela. 

- Meu amor, antes mesmo de… Nós nos envolvermos… Eu estava desconfiado. Mas não disse nada, porque fiquei com medo de que você pensasse que fosse só uma intriga minha para te fazer vir para mim…

- Então ele tem mesmo uma amante? 

- Querida… - ele tentava ao máximo evitar o sofrimento de Elinor.

- John Paul Jones! Fala logo! 

- Na noite da festa… Quando nós estávamos juntos… Acho que Robert estava com Georgiana. Eu a vi de relance, entrando… E logo depois que a avistei, Robert se afastou de você… 



     Ela não disse nada. Apenas chorou. John não sabia se ficava irritado e enciumado por ela chorar por Robert, ou se tentava consolá-la, seu coração apertado por ouvir a amada chorando do outro lado da linha. 


- Ellie? 

- Desculpa, John. - ela mal conseguia falar. - É só que… 

- Ele não está aí, está?

- Não… Me pergunto se não está… Com ela. Ele disse que ia ficar até mais tarde no estúdio hoje… Mas acho que não, foi só uma desculpa…

- Quer que eu vá até aí? 

- Eu… Não sei se você devia… Ah, mas se ele descobrir, o que importa? Estamos quites, não é mesmo? 

- Sim… 



   Robert chegou mais ou menos uma hora depois. Jonesy acabou não vindo, o que ao mesmo tempo aliviou e irritou Elinor. Ela estava sentada no sofá da sala, com o bilhete e os fios de cabelo na mão. Sua vontade era picar aquele bilhete em pedacinhos e queimar os ditos-cujos na lareira, mas antes iria esfregar o maldito papel na cara do cafajeste do seu marido. 

  Mas ela não tinha tanta moral assim… E ele não merecia? Como podia saber há quanto tempo ele tinha esse caso com a lambisgoia? Talvez tivesse começado quando ela ainda estava grávida de Karac… Ah, ela ia esganá-lo. 


- Oi, Lily. - Robert sorriu para ela. Mas não era o sorriso de sempre. Elinor ia arrancar aquele sorriso arrogante do rosto dele no tapa. 

- Robert, será que você pode me explicar isso? - ela se levantou e, ficando na ponta dos pés, praticamente enfiou o bilhete de Georgiana na cara deslavada dele. 



 Ele ficou branco, porém, tentou fingir tranquilidade. 


- Ah, isso? É um bilhete de uma groupie, mas… 

- É claro que é um bilhete de uma groupie, Robert Anthony Plant! - ela gritou. 

- Mas eu não respondi. Ignorei. Não sou desses, diferentemente do Jimmy. Só tenho olhos para a minha Lily. 

- Mentiroso! Se você só tivesse olhos para mim, teria jogado o bilhete fora na hora!

- Eu esqueci, querida. 

- E eu também achei isso! - ela mostrou os três fios de cabelo ruivo que encontrara na camisa dele. 

- Lily…

- Quero saber como você vai explicar o que esses fios de cabelo ruivo estavam fazendo na sua camisa! Meus é que não são. 



      Robert achou que a melhor técnica de defesa era revidar o ataque. 


- Só se você me disser o que estava fazendo com o Jimmy, lá no estúdio, um dia desses! 

- Eu disse, naquele dia mesmo. Resolvendo um assunto pendente. 

- Um assunto pendente, claro. A sua paixão mal-resolvida por ele! 

- É claro que não! - ela ficou furiosa. - O Jimmy é parte do meu passado e é lá que ele vai ficar. 

- Ah, é? Então, quem é o seu amante? Eu sei que você tem um, Elinor! 



   Foi a vez dela de ficar branca. Porém, ao contrário de Robert, foi incapaz de responder prontamente.



- É o Jonesy, não é? Não pense que eu ignorei o jeito que você estava olhando para ele tocando piano! E eu sei que às vezes você pensa em outro homem quando transamos! Já percebi que você fica diferente em algumas noites… 

- E a sua amante é a Georgiana! Você também parece pensar em outra mulher quando estamos na cama, às vezes. 

- Então você admite?! Admite que está me traindo com um amigo meu?

- E você admite que está me traindo com aquela quenga?!



     Os dois se encaravam, as expressões faciais cerradas. 



- Robert, eu te amei com tudo que havia dentro de mim, ainda amo por ser o pai dos meus filhos. E você faz isso comigo?! Há quanto tempo isso está acontecendo? Eu ainda estava grávida quando começou? 

- Não, Elinor. Mas você não tem moral nenhuma! Eu também te amei, ainda amo, o mais profundamente que um homem pode amar uma mulher… E você me apunhala pelas costas dessa forma!

- Talvez não tenha moral nenhuma mesmo. Mas será que eu teria me envolvido com outro homem se você não tivesse começado a agir de maneira estranha? Agora eu vejo tudo muito claramente! 

- Lily, eu faço tudo por você e pelos nossos filhos. Estou disposto a esquecer e perdoar essa sua aventura… Com o Jonesy, o Jimmy ou seja lá quem for… Se você esquecer e perdoar a minha.

- Não sei se vou conseguir… Rob. - ela não pôde evitar chamar o marido pelo apelido, após ele tê-la chamado de Lily. - Se fosse qualquer outra mulher, eu provavelmente perdoaria. Mas logo a Georgiana? Logo ela? Foi um golpe duro demais para mim. 



    Ela se afastou, entrando no quarto das crianças e se trancando lá.


- Elinor! - Robert bateu na porta. - Vem cá! Vamos conversar… 



    Mas não houve resposta. Elinor abraçava o travesseiro de Mary Elizabeth e chorava, imaginando que abraçava Jonesy. E se ele aparecesse? Robert já estava quase certo de que era ele o seu amante, mas, mesmo assim, não queria nem pensar na reação do marido ao ver suas suspeitas serem confirmadas… Nunca torceu tanto para o amado não aparecer.


- Ah, John… O que vamos fazer? Ele descobriu tudo… Só precisa da prova cabal. 


       

  Como seu coração doía! Mas era uma dor diferente de outros momentos em que tivera o coração partido. Lembrava-se muito bem da noite em que vira Jimmy com Charlotte Martin, uma modelo francesa, e finalmente se convencera de que nunca teria o coração dele. Ou quando ficara sabendo que Anita Pallenberg deixara Brian Jones para ficar com Keith Richards, acabando com qualquer esperança sua de ter o guitarrista principal dos Stones para si… 

   Sua dor parecia muito, muito antiga. Parecia vir de outra vida. Apertou mais o travesseiro contra si. E uma estranha imagem surgiu em sua mente.

   Viu a ela mesma, e Jonesy. Seu cabelo estava dividido em duas longas tranças, com as pontas enroladas em largas argolas de ouro. Ela usava um longo vestido de brocado verde escuro com detalhes em fio de ouro, que cobria totalmente seus pés e estava bastante solto na região do ventre. As mangas também eram muito largas e quase roçavam no chão. 

   Abraçava Jonesy pela cintura. Ele vestia uma cota de malha e uma túnica bordada por cima da cota. Trazia o emblema de uma águia dourada em um fundo verde escuro. Ele estava armado com uma longa espada e um escudo de ferro. Carregava também um alaúde. Seus cabelos estavam ainda mais longos, e o estilo de seu bigode parecia mais… Medieval. 

   E ambos montavam um corcel cinzento. Jonesy esporeava o cavalo, que galopava freneticamente.


- Segure-se firme em mim, minha amada. Não me perdoaria se você sofresse um acidente e algo acontecesse a você ou ao nosso filho. 


   Elinor viu aquela estranha versão sua soltar rapidamente uma de suas mãos da cintura daquela versão de Jonesy e pousá-la na barriga, fazendo uma carícia. 

  Agora entendia porque o vestido parecia tão frouxo naquela região, ao contrário de todas as ilustrações de vestidos medievais daquele estilo que já vira. A Elinor da visão estava grávida. Grávida de um filho de Jonesy. E do que estavam fugindo? A Elinor da visão voltou a se segurar com as duas mãos e olhou para trás. 



- Robert parece ter ficado para trás, John.

- Mas não vamos descansar até termos certeza absoluta de tê-lo despistado! - ele atiçou ainda mais o cavalo. 



 

   A visão se dissipou e Elinor se sentia saída de um transe. O que fora aquilo? Um vislumbre de uma vida passada? Pois sem dúvida vira a si mesma e John, e estavam, ao que parecia, fugindo de Robert. Aquilo parecia confirmar o que sempre suspeitara: seu amor por John vinha de outras vidas. Era o sinal por que tanto pedira? Era ele que devia escolher? 

   Ficou sentada por um tempo na cama da filha, ainda abraçando o travesseiro e encarando o papel de parede colorido e alegre. Seu estado de espírito era o exato oposto. Mas, por fim, levantou-se, uma decisão tomada. Abriu a porta do quarto. 

    Robert estava sentado no sofá, um grosso livro de bolso barato em suas mãos. A capa dizia A Sociedade do Anel, de J. R. R. Tolkien. O livro favorito de Robert. Ele sempre o lia quando precisava de conforto, e Elinor sabia muito bem disso. 


- Robert? 



     Ele ergueu o olhar do livro para ela. 


- Sim, querida? Podemos conversar agora? 

- Sim, Robert. - ela suspirou, se sentando ao lado dele no sofá. Procurava a coragem dentro de si.



      Depois de um longo momento de silêncio, ela finalmente disse: 


- Robert… Eu quero o divórcio. 



        Ele estava atônito. 


- Divórcio? Mas, mas… Lily! Nós nos amamos! Nós temos uma família linda! Você não pode fazer isso comigo… Não pode fazer isso com as crianças!

- Você deveria ter pensado na nossa linda família antes de ter me traído com aquela biscate ruiva! - Elinor exclamou, indignada. 

- Eu sei que errei, Elinor. Não tenho problema em admitir. Fui fraco mesmo, um babaca. Encontrei a Georgiana em um pub perto da gravadora, um dia. Ela certamente teve muitos amantes durante esses anos todos, mas acho que o orgulho dela ainda estava ferido por não ter me conquistado. E, bom… Como eu falei, fui um fraco idiota. O Karac tinha acabado de nascer, você parecia não querer fazer nada…

- Você sabe quanto trabalho dá cuidar de um bebê recém-nascido, Robert Plant! Você não pode me culpar por não querer transar! 

- Eu sei, Elinor. Mas eu obviamente não estava no meu juízo perfeito, tendo bebido e usado… Umas coisas. 

- Ah, Robert… - mais do que com raiva, Elinor estava decepcionada. - Você é muito melhor do que isso. 

- Sabe o que é o pior? Eu sei muito bem disso, Lily. Não me orgulho do que venho fazendo nesses últimos meses, nem um pouquinho. 

- Ainda bem que sabe. 

- Mas não vou ficar com a Georgiana se você me deixar. Eu nunca… Eu nunca senti nada realmente romântico por ela. E no fundo sei que ela também nunca sentiu nada disso por mim…

- Robert, você destruiu nosso casamento porque pôs tudo a perder por uma mulher que nem sequer ama você! 



    Elinor não sabia se sentia raiva ou pena de seu marido. Afinal, ele também fora ludibriado. Em dobro. No fim das contas, talvez ela não fosse muito melhor do que Georgiana.



- Eu sei, Lily. - ele parecia… Envergonhado? Robert Plant envergonhado era algo raro de se ver. - Não posso culpar você por querer me deixar… 

- Robert, não posso mais ficar com você porque… Quando você se afastou de mim, em consequência das artimanhas da Georgiana… Jonesy e eu ficamos cada vez mais próximos, mais amigos… Até o dia em que ele se declarou para mim. Tudo mudou depois disso… 

- Então, Jonesy é mesmo o seu amante.

- Sim… Ah, Robert, realmente não sou melhor do que a Georgiana… Mas eu ao menos amo o John, de verdade… Não sei viver sem ele…

- Por essa… Por essa eu não esperava. Mas… Acho que não tem mesmo volta.

- Não. 

- Mas ainda vou poder conviver com a Lizzie e o Karac, não vou?

- É claro. Não vou te privar disso jamais… 

- Obrigado, Elinor. - ele deu um sorriso triste. - Bom… Espero que Jonesy saiba que conquistou a mulher mais maravilhosa que já existiu. E que eu a perdi porque fui um idiota que só pensou em si mesmo. 

- Não sou a mulher mais maravilhosa que já existiu, Robert. Mas Jonesy me ama, disso eu sei. 



   Elinor também sorriu, um sorriso agridoce. Estava triste por encerrar sua história com Robert, que, ao fim e ao cabo, havia sido uma bela história, não fosse o terrível ato final.

    Por outro lado, não podia deixar de sorrir, pois isso significava que sua história com John estava apenas começando, e aquela era uma história que Elinor tinha certeza de que seria a mais bela já escrita.



Um ano depois… 



   Se 1973 havia sido um ano estranho para Elinor, em 1974 sua vida estava completamente transformada. Divorciou-se de Robert, depois de quatro anos e meio de casamento. Havia sido um período muito sofrido para ambos, e difícil de explicar para seus pais, mas mostrou-se a decisão correta.

     Tanto ela quanto Robert se preocuparam com a reação das crianças. Eles eram tão pequenos… Não queriam traumatizá-los. Mas Mary Elizabeth e Karac pareciam aceitar bem a situação, e gostavam muito de passar o fim de semana na casa do papai. Robert havia se mudado para uma casa numa área rural a alguns quilômetros de Londres. Elinor levava as crianças para ficar com ele lá nos sábados e domingos, e Robert os trazia de volta à cidade na segunda-feira de manhã. 

  Quando a poeira baixou, Robert e Elinor conversaram novamente. Chegaram à conclusão de que não podiam mesmo continuar casados, depois de tudo que havia acontecido, mas podiam ser amigos. Estavam dispostos a isso, por si próprios e por Lizzie e Karac. E davam o seu melhor. Elinor esperava que, no momento certo, Robert encontrasse uma mulher que o faria sossegar de vez. 

   Ele terminou seu caso com Georgiana logo depois de ele e Elinor terem decidido se divorciar. A groupie surtou, mas, poucos dias depois, apareceu novamente nos clubes noturnos e pubs de Londres na companhia de Rod Stewart, e Robert teve a certeza de que havia apenas perdido seu tempo com ela. 

    Angie e Bonzo também haviam se divorciado, embora não tão amigavelmente quanto Elinor e Robert. Ela voltou para Jackie Stewart, e agora, tinham um filho, François. Mas Elinor sabia que a amiga estava fugindo de seus sentimentos pelo jogador do Liverpool F. C., Bran McGold, e decidiu que daria aquele empurrãozinho de que Angie precisava…

    Quanto a Elinor, ela havia se mudado para a nova casa de Jonesy, depois que ela e Robert resolveram vender a casa em que viveram enquanto casados. A casa de John era o lugar perfeito para criar os filhos, parecia um chalé no interior, e era tão pacífica… Lizzie e Karac enchiam a casa de alegria, enquanto riam e brincavam com Max, o galgo de Jonesy. Simon vinha no fim de semana para ficar com o pai, mas às vezes também vinha durante a semana para brincar com os filhos de Elinor. 

   As vendas de seu livro de poemas estavam indo muito bem, e Elinor já tinha planos para seu próximo livro. Queria se aventurar na literatura infantil dessa vez. Ainda não sabia como seria a história, mas já sabia que convidaria Susie para fazer as ilustrações. No Natal, Susie havia presenteado os filhos das amigas com lindos livrinhos escritos e ilustrados por ela e costurados à mão por Angie. O resultado ficou maravilhoso.

    Vicky estava feliz da vida com Mick Taylor, e Elinor, Angie e Susie apostavam quando ele a pediria em casamento. Ele já era mais presente na vida dos gêmeos do que o próprio pai… Jimmy mandava presentes para Scarlet e James com frequência, mas raramente os via. E Vicky, no fundo, achava melhor assim… Elinor lamentava tanto que seu antigo amigo pudesse ser desse jeito, mas não adiantava desperdiçar seu tempo pensando nisso. Tinha mais no que pensar. 

    Ainda mais porque, nos últimos tempos, sentia que havia algo diferente com ela. Ela já havia sentido algo assim duas vezes, conhecia muito bem seu corpo. Mas quis confirmar assim mesmo. E, quando viu as duas barrinhas, não pôde evitar se preocupar, afinal, Karac tinha pouco mais de um ano… Mas daria um jeito. Felizmente, tinha John ao seu lado. Precisava contar para ele.

  Ela o encontrou em seu estúdio caseiro, tocando mandolim. Era o instrumento que John mais tocava em casa, mais do que o baixo ou o piano. Dizia ele que era porque o mandolim era o instrumento mais fácil de carregar que tinha. Podia tocá-lo onde quisesse. Elinor entrou no estúdio. 


- Estou atrapalhando, John?

- É claro que não, Ellie. Você nunca me atrapalha. - ele colocou o mandolim de lado e abriu os braços para ela, convidando-a a se sentar no colo dele.



      Elinor fez isso, colocando os braços em volta do pescoço do amado e beijando-o. 


- O que foi? - Jonesy deu uma risadinha, beijando o pescoço dela. Ele não estava mais usando bigode, e seu cabelo estava bastante longo outra vez. - Ficou com saudade de mim, mesmo tendo me visto dez minutos atrás?

- Também. - ela sorriu. - Mas preciso te dizer uma coisa, meu amor.



       Ele ficou intrigado. 



- O quê, Elinor? 



   Elinor pegou a mão de John que estava entrelaçada na dela e pousou-a em sua barriga, com um sorriso ainda maior. 



- Entendeu, John?

- Sim… - ele retribuiu o sorriso e beijou-a ardentemente. - Ah, Ellie, eu te amo tanto… 

- Eu também te amo… 



      Então, ele fez sinal para que ela saísse de seu colo. Quando Elinor se levantou, Jonesy se ajoelhou e pegou a mão dela. 


- Desculpe por não ter a aliança de diamante que eu te prometi, meu amor, vou providenciar. Mas agora eu preciso saber. 



      O coração de Elinor estava muito, muito acelerado. 



- Elinor Stephanie Fitzwilliam, a cada dia eu tenho mais certeza de que você é o amor da minha vida, e eu não mudaria absolutamente nada em você, exceto seu sobrenome. Fitzwilliam é um sobrenome bonito, mas o que você acha de se tornar Elinor Stephanie Fitzwilliam Jones?

- Ah, John… - ela chorava de felicidade. - Eu acho uma ótima ideia.