Boa noite! Mais uma parte de Love Or Confusion para vocês, boa leitura!
Alguns dias depois, Melissa e Tracy estavam de volta à Escola Real de Balé. Mais do que nunca, os treinos eram intensos. Melissa estava determinada a obter o papel de Odette e Odile, não conseguiria ter paz de espírito até que os testes passassem.
Tracy estava mais tranquila do que a amiga quanto aos testes, mas também tinha suas preocupações. Por mais que gostasse de sexo casual, e inicialmente tivesse imaginado que era só isso que queria com Mitch, estava desapontada, pois haviam se passado cinco dias desde a noite em que ficaram juntos, e ele não havia dado sinal de vida. Não quis comentar nada com Melissa ou Valleri. Para as amigas, queria dar a impressão de que não se importava com a falta de notícias de Mitch.
Mas as amigas a conheciam bem demais para se deixarem enganar. Durante uma pausa no treino, Melissa pressionou:
- Tracy, admita, você não está bem. É por que Mitch não dá notícias há dias? E
- E eu lá sou mulher de me martirizar por que um homem transa comigo uma vez e depois desaparece? - Tracy retrucou, quase ofendida.
Melissa nada disse, apenas arqueou a sobrancelha.
- OK. - ela suspirou. - Eu não tinha a menor intenção de gostar do Mitch… Gostar de verdade. Só queria passar uma noite com ele, já que nós dois estávamos claramente interessados. Mas, depois que transamos… Acho que me apaixonei por ele. Logo eu, que não queria nada além de sexo.
- Que fofa! A Srta. Coração de Pedra finalmente está se apaixonando!
- Eu já me apaixonei antes. Hilton, Rod. - Tracy suspirou. - Aquele garoto do ensino médio. Mas não vou me iludir, Mitch não é o tipo de homem que não consegue nem falar de tão apaixonado, como Noel.
- Você acha que… Noel está mesmo apaixonado por mim? - Melissa ficou pensativa.
- E por que não estaria? Você é Melissa Mann, a bailarina mais bonita e talentosa do corpo de baile da Escola Real. E neta do escritor alemão, ganhador do prêmio Nobel, Thomas Mann!
Melissa riu diante da menção ao seu avô. Não achava que ser neta de um ganhador do Nobel de Literatura fazia alguma diferença para que um homem se apaixonasse por ela.
- Às vezes, queria que o vovô ainda estivesse vivo. Ele estaria bem velhinho, mas com certeza me daria um bom conselho. Mas não, Tracy, não acho que eu seja a mais bonita e talentosa aqui.
- Ah, é sim! - as duas moças ouviram a voz de um homem mais velho.
Rud Johnstone, um dos bailarinos mais antigos da Escola Real, entrou na sala de treino. Ele já tinha quase 50 anos e, mais uma vez, interpretaria o Conde Rothbart na montagem de O Lago dos Cisnes. Melissa achava que a única desvantagem de interpretar Odette e Odile seria ter de contracenar com ele.
- Nenhuma se compara a você, Melissa. - ele olhava para ela de uma forma que deixava a garota profundamente desconfortável. Tracy se aproximou mais da amiga. Esperava que Rud não fizesse nada mais do que falar, falar sem parar, como de hábito.
- Não exagere, Rud. - Melissa respondeu, secamente.
- Não é exagero, minha querida. Tenho certeza de que você será a nova Odette. Que prazer terei em contracenar com você…
- Mas não se esqueça de que a bailarina que interpreta Odette também interpreta Odile. Bem, Tracy e eu precisamos ir…
- Acho que você deveria… Vir até minha casa para conversarmos sobre O Lago dos Cisnes, o que você acha? - Rud segurou Melissa pelo braço, mais forte do que deveria.
- Já eu acho que não será necessário. - ela puxou o braço.
Ele começou a se irritar.
- Pare de se fazer de difícil, menina! Tenho certeza de que, se eu fosse um moleque da sua idade, estaria aos meus pés! Só vou deixar você em paz se já tiver algum namoradinho… Pelo que sei, você não tem.
Tracy havia sumido da sala. Melissa começou a suar frio, não acreditava que a amiga a tinha deixado ali sozinha. Será que havia ido chamar alguma das autoridades da Escola Real? A rigor, ele não tinha feito nada ilegal, mas não duvidava que poderia fazer. E mesmo assim, não era garantia que tomariam alguma providência. Provavelmente diriam a mesma coisa que Rud, que ela estava só se fazendo de difícil e que a proposta dele não tinha nada de mais.
Não disse nada, e tentou sair da sala. Afastou-se a passos largos, abriu a porta, e…
- Amor! - exclamou ela, agarrando Noel e dando-lhe o beijo mais estalado que pôde.
O baixista não estava entendendo nada, mas não podia reclamar, longe dele ousar reclamar.
- Rud, esse é o meu namorado, Noel! Ele veio me buscar para irmos ao cinema, não é, meu amor? - ela entrelaçou o braço no dele e encostou a cabeça em seu ombro, com o sorriso mais idiotamente apaixonado de que era capaz.
Aquilo era um sonho? Se era, Noel não queria acordar jamais. Mas entendeu que aquele homem precisava acreditar que ele era namorado de Melissa, e esse era um papel que estava mais do que disposto a interpretar.
- S-Sim! Hoje você escolhe o filme… - ele reuniu o máximo de coragem que pôde. - Minha linda. - e ficou vermelho.
Ela também ficou ligeiramente corada, mas se manteve no personagem, dizendo:
- Então, é melhor irmos se não quisermos perder a sessão, não é, Noel? Até mais, Rud! - ela apressou Noel para fora da sala e fechou a porta com estrondo.
Afastaram-se o suficiente da sala de treino para ficar fora do alcance da audição de Rud, e Melissa disse: o
- Noel, me desculpa por ter te beijado daquele jeito, é que…. Aquele idiota do Rud não queria me deixar em paz. Ele é o tipo de homem que só entende uma mulher não estar interessada se já tiver outro na parada. E, às vezes, não se conforma mesmo assim.
- Não tem problema… - "Pode me beijar assim o quanto quiser, eu não vou reclamar", pensou ele. - Se precisar, posso continuar fingindo ser seu namorado.
- Espero que ele me deixe em paz daqui para a frente. Diferente de outras mulheres, gosto de homens na minha faixa etária.
- E ele nem é o tipo que vocês consideram atraente, não é? Para mim, ele pareceu meio acabado. - Noel disse.
Melissa riu.
- De fato, ele já esteve melhor. Ah! - ela finalmente reparou nas flores que Noel tinha nas mãos. - Eu amassei suas flores, no meu desespero de me livrar dele, me desculpe...
- São… São suas flores, na verdade. - disse ele. - Gosto da ideia de uma bailarina receber flores nos bastidores do teatro. Vim aqui para te ver, e na recepção me disseram que você estava na sala de treino, aqui no segundo andar.
- Para… Para mim? - ela sorriu. - Que gentil, não ganho flores há tanto tempo…
- Por mim, você ganharia flores todos os dias. - Noel disse, sem nem pensar.
Ela sorriu, encorajadora, e Noel estendeu-lhe o buquê de flores amassadas, não sem antes tentar amenizar o estrago desamassando-as, como se ele fosse o culpado.
- Bem… Como eu disse, são para você.
- E são peônias! Minhas flores favoritas! Obrigada! - ela o beijou, dessa vez no rosto, e Noel gostou ainda mais desse beijo, pois foi genuíno.
- Não há de quê. - ele olhou para os próprios pés.
- Como adivinhou que as peônias são minhas favoritas? - ela cheirava as flores.
- Eu… Só achei que combinavam com você. São tão delicadas, e… E lindas…
De repente, Noel sentiu que precisava abrir o jogo. Ela tinha pedido que tomasse uma atitude, não tinha? Pois então, ele tomaria.
- Melissa, você é a garota mais linda que eu já vi. - disse ele, antes que perdesse a coragem.
Ela sorriu. Finalmente.
- Obrigada.
- E eu… Eu quero você. Não só por uma noite, como você parece ter pensado… Sei que não nos conhecemos direito ainda, mas eu… Eu quero seu amor, e quero conhecer você, quero muito. Quero dizer… Se você permitir.
- Eu permito. Desculpe por ter te chamado de banana… Entendo que você só é tímido. Eu também sou.
- Mas eu mereci. - ele deu um risinho. - Então… Você me dá uma chance, linda?
- Claro que sim. - Melissa aproximou-se dele e beijou-o, doce e levemente.
- Mas e o seu antigo namorado, aquele que Georgiana seduziu? - Noel perguntou, ao quebrarem o beijo.
- Não quero mais nada com Christopher, se foi capaz de me trocar por aquela lambisgóia. - respondeu Melissa, e voltou a beijar Noel como antes.
Mas Noel aprofundou o beijo, e ela não resistiu.
- O que você acha de a gente se conhecer melhor… No meu apartamento? - propôs ele. "Será que aquilo que Mitch disse sobre coxas de bailarina é verdade?", pensou. Estava ficando excitado.
- Que mudança! - Mel não pôde deixar de rir, parando quando percebeu… Alguma coisa perto de suas coxas. - Mas acho uma ótima ideia.
***
Tracy havia saído da sala de treino para ir atrás de alguém que pudesse punir Rud por importunar Melissa, mas não chegou a fazer isso, pois Noel não havia vindo sozinho até a Escola Real. Mitch veio junto, para ver Tracy.
Ela passava por um corredor, procurando por um diretor, quando ouviu uma voz que havia dias ansiava por ouvir.
- Boneca! Até que enfim te achei!
Tracy virou-se na direção de onde vinha a voz.
- Ora, ora, quem é vivo sempre aparece! - ela caminhou para ele, de braços cruzados e cara amarrada.
- Vim aqui para te ver, Tracy. - Mitch deu seu sorriso atrevido para ela.
- Depois de cinco dias sem dar sinal de vida, Mitch? - reclamou a garota.
- Eu…
- Esperava que você pelo menos ligasse depois de termos passado a noite juntos.
- Achei que você não se importasse. - respondeu ele, dando de ombros.
Pela primeira vez, ela parou para pensar que talvez estivesse exagerando com seu jeito despreocupado. Poderia acabar afastando aqueles que não queria afastar… Como Mitch.
- Bom... Foi falha minha. - Tracy admitiu. - No primeiro momento, pensei que só queria algo casual. Mas…
- Você não resistiu ao meu charme, eu sabia. - o sorriso atrevido voltou a dançar em seus lábios.
- E nem você ao meu, acredito.
- Não mesmo, boneca. - ele se aproximou e a enlaçou pela cintura. Tracy não achou nada ruim. - Prometo que vou ligar todos os dias a partir de agora.
- Acho bom. Agora… E se repetirmos a dose? Você me deixou querendo mais. - ela enrolou um cacho do cabelo dele em seu dedo. - E fomos interrompidos…
- É claro, Tracy. Devemos ficar com meu apartamento só para nós por algumas horas. Noel deve estar com Melissa agora, mas duvido muito que ele vá precisar do apartamento para… Fazer o que tem que fazer. Jimi e eu tivemos que encorajá-lo a simplesmente dar flores para ela, ele não vai dar um passo tão grande nesse momento…
***
Mas Mitch e Tracy ainda ficaram na rua por mais uma hora, dando a Noel e Melissa a oportunidade de chegar antes ao apartamento que o baixista e o baterista dividiam.
- Quando nos conhecemos, algumas semanas atrás… Não imaginaria que você é… Assim. - disse Melissa, ofegante, enquanto Noel a enchia de beijos por todo o corpo. Estavam deitados na cama dele.
- Normalmente, eu não sou. - reconheceu Noel. - Mas preciso de você, Melissa. Devo parecer asqueroso dizendo isso, mas…
- Jamais! Seria asqueroso vindo do Rud, mas de você, nem um pouco.
- Que bom. - ele continuou beijando-a. Dessa vez, nas coxas. Mitch tinha razão, coxas de bailarina eram a oitava maravilha do mundo. Bem torneadas e firmes.
- Mas, se precisa tanto de mim… Por que está demorando tanto, Noel? - ela já estava ficando impaciente. As preliminares pareciam mais tortura.
- Não está gostando? - por um breve momento, a antiga atitude insegura de Noel retornou e ele parou o que estava fazendo. Não queria de forma alguma desagradar Melissa.
- Estou… Muito. - Mel suspirou languidamente. - Mas… Acho que estou pronta. Vem.
Ela não precisou insistir, e Noel deixou de lado sua insegurança mais uma vez. Era mesmo seu dia de sorte. Duas semanas antes, parecia impossível para ele estar naquela posição com Melissa.
***
Valleri era mesmo uma Mackenzie. Os membros da família costumavam dizer que o maior defeito dos Mackenzie era que, quando amavam alguém, amavam até demais. Diziam que isso vinha de um antepassado dos tempos medievais, um soldado escocês que teria se apaixonado por uma princesa irlandesa, a prometida do duque a quem servia, e que o casal teria cometido loucuras para ficarem juntos. As gerações mais jovens da família não eram exceção.
Ela conhecia Jimi havia menos de dois meses, mas já estava perdidamente apaixonada por ele. E sabia que sua prima, Dianna, também se sentia assim a respeito de seu namorado, Davy. Teve a oportunidade de observar os dois juntos várias vezes e a paixão que os unia era palpável. Perguntava-se se era possível "pegar" seu amor por Jimi no ar, e se ele correspondia…
Sabia que artistas, normalmente, sentem as coisas de maneira diferente das demais pessoas. E que Jimi prezava muito a liberdade. Hoje, ele podia dizer que estava apaixonado por Valleri e queria ficar somente com ela. Mas poderia muito bem acordar no dia seguinte e desmanchar tudo, se achasse que estava sendo tolhido, ou aparecesse outra em seu caminho. Ele escrevera Highway Chile, afinal. A modelo sentia-se murchar por dentro quando pensava nisso.
Estendeu a mão para acariciar o rosto dele, e Jimi pegou a mão de Val na sua, sorrindo para ela.
- O que foi, Foxy? Você parece triste. Pensei que estivesse feliz por estarmos juntos.
- E estou, Jimi. - ela sorriu tristemente. - Mas estava pensando que… Bem, você é um artista. E você mesmo disse, na sua música: "Não posso ser amarrado". Você vai acabar se cansando de mim, mais cedo ou mais tarde, acho. Não quero ser egoísta, mas também não quero que você se canse de mim, Jimi. Porque acho que jamais me cansaria de você. Poderia ouvir você falar, cantar e tocar sua guitarra para sempre. Eu te amo.
Valleri nem sequer pensou na força daquelas três últimas palavras. Mas sabia que não eram da boca para fora, ela estava sendo sincera. E Jimi percebeu a sinceridade nelas, impossível não perceber.
- Eu também te amo, Val. - ele a beijou. - Não poderia me cansar da minha Foxy Lady, não se preocupe. Mais fácil me cansar dessa vida de tocar sempre as mesmas músicas, noite após noite.
- Será? Por que sinto que, quando me der conta, você não estará mais aqui ao meu lado? - ela não tinha a intenção de acusar Jimi de nada, mas essa era uma sensação de que não conseguia se livrar.
- Bom, Foxy, eu vivo sempre cada dia como se fosse o último, a gente nunca sabe o dia de amanhã, afinal de contas. Pode ser que amanhã eu realmente não esteja mais aqui, mas não porque eu queira, simplesmente porque pode acontecer.
- Somos tão jovens, Jimi, temos a vida toda pela frente!
- Tem razão, meu amor, mas ainda assim, gosto de viver como se não houvesse amanhã. Qualquer dia desses pode acontecer uma catástrofe nuclear, vai saber!
- Você lê ficção científica demais. - Valleri riu.
- Pode ser. - ele riu também. - Mas você não gosta da ideia de fazer amor sempre como se fosse a última vez?
- Gosto. Acho bom não perdermos tempo, então. Afinal, um reator nuclear pode estar prestes a explodir neste momento. - ela sorriu, e então sentou-se no colo do namorado, colocando as pernas ao redor dele.
- E teremos que nos adaptar à vida subaquática, pois a superfície vai ficar inabitável. Eu deveria escrever uma música sobre isso…
- Jimi, realmente nunca vai existir outro como você! Você é mesmo um enviado dos deuses. - ela o beijou.
- Pode ter certeza de que sou tão humano quanto você, Val.
***
- Bem-vinda ao meu humilde lar, boneca. - disse Mitch, desprendendo-se de Tracy para abrir a porta do apartamento.
Eles entraram. De fato, não era um apartamento grande nem muito luxuoso, mas era confortável, com papel de parede psicodélico, móveis modernos e coloridos e um móvel com uma vitrola e discos.
- Muito legal. - disse Tracy.
- Mas você ainda não viu meu quarto. - Mitch deu um sorrisinho malicioso.
Ele a pegou nos braços novamente e voltou a beijá-la. Entraram no corredor, ainda se beijando, e Mitch estava prestes a abrir a porta de seu quarto, quando…
- Você ouviu isso? - perguntou Tracy. - Parece… Alguém gemendo.
- Gemendo? Será que… Não é possível…
Mais uma vez Mitch se soltou de Tracy e caminhou pelo corredor, até a porta que ficava no fim do corredor, a porta do quarto de Noel. Encostou a orelha na porta. Tracy se juntou a ele, também encostando sua orelha na porta.
- Aaah… Noel! Isso… Continua… - dizia uma voz feminina, ofegante.
Tracy abriu a boca de espanto ao reconhecer a voz feminina.
- É a Mel! - sussurrou para Mitch.
- Que surto de coragem foi esse do Noel? - Mitch também estava espantado. - Bem… Vamos deixá-los e cuidar dos nossos assuntos, não é, boneca?
- É claro. - Tracy sorriu para ele.