quinta-feira, 3 de junho de 2021

Grindhouse Drabbles - Fanny Fitzwilliam

 



Grindhouse Drabble 1 - And Now For Something Completely Different



        Apesar da minha clara tendência à introversão, sempre tive facilidade para fazer amigos. Meus amigos mais antigos são minha irmã, Elinor, e nossos primos, John e Emily. No entanto, só conheci aquele que se tornaria meu melhor amigo já adulta, quando fui visitar meu então namorado, Paul Simon, na América. 

      Numa certa ocasião, Paul me apresentou a ele, o poeta, o trovador, o vagabundo: Bob Dylan. Naquela época eu era uma ardorosa fã de Bob e jamais sonharia me tornar sua melhor amiga. Porém, Bob e eu começamos a conversar e nos entrosamos melhor do que eu jamais poderia imaginar. Tão jovem, ele já atingira o status de gênio  e lenda. E me dizia que eu possuía doçura e inteligência raramente vistas. Os sentimentos de Bob chegaram a evoluir para algo mais forte do que amizade... Bob, eu também te amo. Mas não podemos ficar juntos. Temo não darmos certo e nossa amizade se perder para sempre. E eu prefiro morrer a deixar de ser sua amiga.  

        Ainda na América, fiz amizade com os Monkees. Fofos e divertidos, a companhia deles me faz muito bem. Mas sei que eu e eles jamais teremos a cumplicidade que tenho com minha irmã, meus primos ou Bob. 

          Voltei para a Inglaterra, para as aulas em Cambridge. Uma tarde, após a aula, fui ver uma esquete cômica que um grupo de alunos de Letras encenava no anfiteatro. Lá, encontrei Felicity McGold, outra amiga, que conheci numa greve estudantil. Ao fim da esquete, fomos conversar com os alunos que a encenaram. Voltei várias vezes para outras apresentações, até que um dia as esquetes não foram mais encenadas, pois o grupo obteve a graduação e foi embora. 

         Anos passaram e eu já não pensava mais no grupo cômico, embora lembrasse com nostalgia os tempos em que eles ainda estavam na universidade. Hoje, sou uma professora de Geografia em uma escola de ensino fundamental próxima dos estúdios da BBC. Estou feliz com meu namorado, Allan Clarke, vocalista dos Hollies. Bob ainda é meu maior e mais amado amigo. E agora minha lista de amigos aumentou. 

             Certo dia, eu saía da escola após o expediente, quando ouvi uma voz masculina um tanto aguda me chamar: 


- Ei, Frances Fitzwilliam!


            Virei-me na direção da voz. É muito estranho alguém me chamar de Frances. Será que era mesmo comigo, e não com outra Frances Fitzwilliam? 

             Quem me chamou era um rapaz louro, com uma carinha muito adorável, e uma expressão meio amalucada. Por algum motivo, ele me pareceu familiar. 


- Você é Frances Fitzwilliam, não é? - perguntou ele, agitado. 

- Sim, sou eu, mas...

- Eric Idle. De Cambridge, lembra? 


             É claro! Ele era um dos estudantes que encenavam as esquetes! Sorri para ele ao reconhecê-lo. 



- Claro que sim! - apertamos as mãos. - É um prazer te ver de novo, Eric.

- O prazer é meu, Frances. 

- Pode me chamar de Fanny. Eu prefiro. 

- Ok, então, Fanny. Escuta... Estaria interessada em atuar em uma esquete cômica? 

- Esquete cômica? - repeti, intrigada.

- Sim... Eu e os rapazes... Os mesmos que faziam as esquetes comigo na universidade... Graham, John, Michael... Bem, nós temos nosso próprio programa na BBC agora. 

- Mas isso é ótimo, Eric! - exclamei. 

- Bem... Obrigado. - ele corou. - O que eu gostaria de saber... Hã... Precisamos de uma garota para participar de uma esquete, mas a atriz que normalmente colabora conosco ficou doente de repente. Pode nos ajudar? 


               Eu? Atuar, ainda mais numa esquete cômica? Seria um fracasso. 


- Sinto muito, Eric. Nem mesmo em peças escolares eu atuei. Vou ter que deixar você na mão.

- Mas você só deve ter umas cinco falas na esquete toda. E são simples. Por favor, Fanny... O pessoal da BBC já estão no nosso pé. Temos que finalizar esse episódio, no mais tardar, amanhã. 

- Bem... Ok, vai. 


           Assim, eu fui até os estúdios com Eric e atuei como a acompanhante de Graham na esquete do garfo sujo, que integrava o episódio 3 da primeira temporada do Flying Circus

          Como eu trabalhava próximo dali, frequentemente ia ao estúdio, por convite dos rapazes, para ver os ensaios e gravações. Eu me divertia com as palhaçadas deles, em frente às câmeras e por trás delas também. Logo nos tornamos amigos. Cleese e Gilliam não eram muito próximos de mim, mas Graham, Terry, Michael e Eric eram uns amores, principalmente esse último. 

           Quase todos os dias, dois deles vinha me buscar após o trabalho para vê-los no estúdio. Sempre vinham Eric e mais alguém. Um dia, porém, Eric veio sozinho. E trazia flores. 


- Olá, Eric. - cumprimentei-o, alegre. - Para quê essas flores? E onde estão Michael, Graham, Terry? Não puderam vir? 

- Ah... Oi, Fanny. É que... Hum, estava pensando... Não gostaria de almoçar comigo? Sabe... Queria ficar a sós com você um pouquinho, e naquele estúdio jamais conseguiria isso. Além de que os caras fariam piada comigo. 


          Ah, não. De novo não. Já tinha visto esse filme, três anos antes. E, diferentemente do meu caso com Bob, eu realmente não sentia nada desse tipo pelo Eric. Ele era adorável e muito legal, mas só isso. Provavelmente não conseguiria pregar o olho à noite por tê-lo magoado, mas não havia outro jeito. 


- Eric... Eu fico lisonjeada por saber que você gosta de mim dessa maneira. E você è um dos caras mais fofos e legais que eu já conheci, mas...

- Mas você não gosta de mim da mesma maneira. Tudo bem, Fanny. 

- Eu poderia gostar, mas... É que eu já tenho namorado. - "E ainda tem o Bob", completei em meus pensamentos. 

- Oh! - ele estava genuinamente surpreso. - Fanny, eu... Eu lamento. Se eu soubesse que você tinha um namorado, eu jamais...

- Mas a culpa não é sua, Eric, é minha. Eu nunca mencionei o Allan para vocês. Você não tinha como saber. 


            Ficamos mergulhado naquele silêncio constrangido por uns poucos minutos. Eu o quebrei. 


- Mas... Eu aceito almoçar com você, Eric. Como amigos.


             Ele ainda ficou silencioso por uns instantes, contudo logo respondeu: 


- ... Claro, Fanny. Aceite as flores também. São um presente de um amigo. 

- Eu aceito sim, Eric. E agradeço muito. 


          Posso dizer, com muita alegria e orgulho, que sou amiga do sexteto mais excêntrico da Inglaterra. Principalmente de Eric Idle.