Na noite seguinte, Peter indagou a Davy:
- Você soube o que sua amiguinha moradora do Castelo Beckenbauer
fez?
Davy franziu suas grossas sobrancelhas.
- Não...
- Ela massacrou um grupo de caça-vampiros para salvar a vida
de Gerd Müller. Aparentemente, eles se
casaram.
- Massacrou? Lulu não é cruel assim, ela é bondosa... Se
estou vivo, foi graças a ela. – disse Davy.
- Só estou repetindo o que o grupo da mansão dos McCartney
me contou. – falou Peter.
- Espere aí. – disse Mike. – Ela se casou com Müller? Eu
sabia, aquele alemão execrável não amava Alice! – o lobo soltou um grunhido
angustiado.
- Mike, Alice amou você antes de... Bem, de descobrir seu
segredo. – disse Dianna. – Mas ela ficou
com medo.
- Ela nos contou que tinha se aproximado dos domínios do
conde na tentativa de entrar aqui na ilha e encontrá-lo. – continuou Emma.
- E Beckenbauer a mordeu... E a deu como noiva para o
chucrute desgraçado!
- Não fique assim, companheiro. – Mike deu um tapinha
amistoso nas costas de Mike. – Sabe, hoje Moore vai convocar todos os membros
da alcateia para decidirmos se abrigaremos uma moça que pediu refúgio aqui.
Quem sabe ela não conquista seu coração?
- Ninguém tomará o lugar de Alice no meu coração, Micky.
Dali a
uma hora, quando o grande relógio de pêndulo da sala de visitas bateu três
vezes, indicando as três horas da madrugada, o grupo saiu da mansão e
dirigiu-se a uma clareira no ponto mais central da floresta, onde normalmente
se reuniam os membros da alcateia.
Bobby Moore saudou-os quando ali chegaram. Sentaram-se no chão. O lobo
alfa limpou a garganta e disse:
- Uma boa noite a todos. Primeiramente, gostaria de
cumprimentar o novo membro honorário de nossa alcateia, srta. Dianna Mackenzie.
- Na verdade, sra. Dianna Jones. – Davy corrigiu Moore.
- Pois bem. – respondeu Moore. – Digo que a sra. Jones é
membro honorário da alcateia por não ser uma loba, mas sim uma vampira. Mas
vamos ao que interessa. Na noite de ontem, veio pedir-me refúgio a srta. Alana
Watson. Ela é uma loba. Venha adiante, srta. Watson.
Das sombras, apareceu uma jovem de baixa estatura, cabelos castanhos e
olhos dessa mesma cor. Ela tinha um ar calmo e doce. Não parecia uma loba...
Pelo menos não para Mike. Ela o percebeu olhando-a, e fitou-o de volta com um
sorriso tímido. Mike engoliu em seco.
- Bem, senhoras e senhores, podemos abrigar a srta. Watson?
- Claro! – disseram todos os moradores da Ilha dos
Lobisomens.
- Obrigada. – falou Alana com um sorriso um pouco menos
tímido.
*
* *
- Você gostou da nova moradora da ilha, não é, Mike? – perguntou Micky.
- É, hã... Ela é simpática. – respondeu Mike, embaraçado.
- Não dou alguns meses para ele trazê-la para viver na
mansão. – disse Davy.
- Eu também não. –
Peter falou.
- Eu já disse a vocês! Ninguém tomará o lugar do meu coração
que pertence a Alice! – Mike bradou.
- Mike... Companheiro, me escute. Eu sei que você amou muito
aquela vampira. Mas ela está morta. E mais: ainda em vida ela se esqueceu de
você. Havia Palin. E Müller.
- Ah, Micky, eu sei! – Mike rugiu. – Parte meu coração
lembrar-me disso! Mas não interessa se ela não me quis! Continuo a querê-la! –
ainda tomado pela dor, ele entrou como um furacão em seu quarto. Naquele dia
ninguém na mansão dormiria, devido aos uivos de dor no coração do lobisomem
infeliz.
Alguns dias depois...
Quando o Sol se pôs, os moradores da mansão despertaram. Dianna percebeu
que algo não estava normal em seu corpo. Talvez fosse o fato de que não era
mais humana... Não, não, aquilo não deveria ter causado o “atraso”. Procurou
Emma.
- Emma... Diga-me uma coisa.
- O quê? – a loba estava curiosa.
- Vampiras... Ficam naqueles dias? – inquiriu a vampirinha.
- Ora... Eu creio que sim.
Vocês nada mais são que mulheres que não suportam a luz do Sol e cheiro
de alho, fogem de água benta e crucifixos e se alimentam de sangue. Por que a pergunta?
- Porque já deveria ter vindo.
- Você e o Davy andaram aprontando... – Emma deu uma
risadinha.
Dianna corou.
- Bem, sim. No riacho. Umas noites atrás.
- O que o Conde Beckenbauer dirá quando souber que o vampirinho traidor
gerou um novo morceguinho? Estou feliz
por você, amiga. – A loba abraçou a amiga vampira.
- Obrigada. – Dianna sorriu. – Eu não vou deixar os vampiros
do conde pegarem meu bebê. – disse ela,
alisando o ventre.
- Só resta contar ao papai morcego. – Emma falou.
- Sim. – Dianna estava ansiosa para saber qual seria a
reação do marido. – Espere, papai morcego? Desde quando você faz piadinhas,
Emma?
- Dianna, veja com quem me casei.
- Está explicado. –
Dianna riu.
* * *
Todo o
clima amoroso na mansão estava matando Mike. Micky e Emma sempre apaixonados e
cuidando do filhote, Christian. Peter levara Erin para viver com ele na mansão
e eram agora recém-casados. Mike não aguentava mais passar pelo quarto do casal e ouvir
ruídos amorosos vindo de lá de dentro.
E os
vampiros Davy e Dianna, desde que descobriram que ela estava grávida, estavam
mais românticos do que nunca. Não se desgrudavam.
- Talvez... Talvez eu esteja ficando muito amargo desde que
Alice morreu. – ele murmurou para si
mesmo enquanto caminhava errante pela floresta certa noite.
Mike se
lembrava do breve período, quando ela era humana e não sabia que ele era um
lobisomem, em que ele foi feliz ao lado de sua amada. Pensava em torná-la sua
loba, e tinha quase certeza de que ela aceitaria. Mas antes ele precisaria
contar a Alice seu segredo.
(Flashback ON)
- Alice, você aceitaria se casar comigo?
- Oh, Mike, claro que sim! – os olhos e o sorriso da moça
resplandeceram.
- Mesmo sabendo de uma certa... Coisa sobre mim?
- Qual coisa? – ela ficou intrigada.
- Alice... Eu...
- Você o quê?
- Alice... Eu sou um lobisomem.
- O quê? – num primeiro momento a jovem não acreditou.
Então Mike assumiu a forma lupina diante dela. A moça deixou escapar um
grito, e ele voltou à forma humana.
- Mike... Não... Não posso acreditar que você é um monstro!
- Alice, meu amor... – ele tentou tocá-la no rosto.
- Não! Não me toque! Fique longe de mim! E vá embora! Não
quero vê-lo nunca mais!
- Alice, por favor! Vai deixar de me amar só por causa
disso?
- Só por causa disso? Tenho medo de que você me ataque!
- Querida, eu jamais machucaria você! Eu juro! Por favor,
não me deixe. – ele se atirou aos pés da
amada e abraçou-os.
- Eu amo você, Mike, mas não posso arriscar minha vida!
- Mas, minha amada, acredite quando digo que não ofereço
perigo para você!
- Sinto muito. – Alice soltou suas pernas dos braços de
Mike, chorando.
Mike foi embora, soltando ganidos vez ou outra. Alguns dias depois,
ficou sabendo que Alice havia aceitado o pedido de casamento de um jovem
lenhador chamado Michael Palin, que amava a moça há tanto tempo e tão
intensamente quanto o jovem lobo.
Aquilo foi o bastante para ele, principalmente por saber que Alice ainda
o amava e só aceitara o noivado com Palin para esquecê-lo. A tristeza que se
abateu sobre ele era tanta que o rapaz sabia que não suportaria continuar vivendo
no vilarejo. Fugiu para a Ilha dos
Lobisomens e pediu a Bobby Moore que o deixasse viver ali. O lobo alfa
permitiu. Mike conquistou a amizade de um jovem lobo chamado Micky Dolenz, e
passou a viver na mansão dele.
Depois de algum tempo, abrigaram um mago chamado Peter Tork e um
vampiro, Davy Jones. Os quatro tornaram-se grandes amigos. Mike e seus amigos,
então, souberam que o Conde Beckenbauer atacara e transformara em vampira uma
moça do vilarejo que passava perto de seus domínios, chamada Alice Stone. Isso
foi como uma facada no coração de Mike. E o coração dele ficou ainda mais
dolorido quando soube que o conde dera a jovem como noiva ao seu amigo Gerd
Müller, também um vampiro. Para deixar a situação ainda pior, as relações
amorosas entre lobos e vampiros eram terminantemente proibidas.
A partir daí, a solidão começara a tornar o lobo mais feroz. Ficou pior
quando viu os amigos se apaixonarem. Micky se casou com uma bela loba loira
chamada Emma Carlisle, e logo ela estava à espera de um filho. As amigas
humanas dela, as primas Dianna e Erin, vieram visitá-la, e acabaram conhecendo
Davy e Peter. Amor à primeira vista.
Quando as três jovens souberam que sua amiga de longa data, Alice, ainda
estava viva, a vampira passou a vir à ilha para vê-las. Sempre que a noiva de
Gerd Müller vinha à mansão, Mike se enclausurava no quarto, o som da voz de
Alice fazendo seu coração acelerar.
E então ela morreu. A vida não tinha mais sentido para o lobo. Porém,
não tinha vontade de tirar sua própria vida.
(Flashback OFF)
Mike rememorava todos esses acontecimentos, quando o som de gritos
atingiram seus ouvidos. A princípio, pensou que estava tendo alucinações e
ouvia os gritos de Alice outra vez.
Entretanto, percebeu que eram reais. Assumiu a forma de lobo e correu.
Chegou à região da floresta onde havia mandrágoras. Os gritos eram delas. Caída
no chão, com as mãos nos ouvidos, quase enlouquecida e surda, estava
Alana. Mike não podia deixar que a moça
morresse devido aos gritos daquelas plantas. Com patadas poderosas, tentando
resistir aos berros estridentes, esmagou as mandrágoras. Aos poucos, Alana
sossegava. Tirou as mãos dos ouvidos e levantou-se. Mike voltou à forma humana.
- Oh, Mike! Obrigada! – Alana sorriu para o jovem lobisomem.
- Eu não podia deixar aquelas plantas malditas te matarem,
podia?
- Bem... Não, creio que não.
- Claro que não! Bem, eu recomendo que fique longe dessa
região da floresta. Além das mandrágoras, há plantas carnívoras e insetos
gigantes.
- Plantas carnívoras? Insetos gigantes? – Alana arregalou os
olhos.
- Sim. Venha, vamos embora.
Alana deixou que Mike a conduzisse de volta à sua casa, do outro lado da
floresta.
- Então, Alana... Como veio parar na ilha?
- Minha mãe era uma loba. Quando meu pai descobriu isso, ele
nos abandonou. Eu era apenas um bebê. Nós duas passamos a vida nos mudando de
vilarejo em vilarejo, tentando nos proteger. Mamãe sempre me dizia que, quando
ela morresse, eu deveria procurar abrigo aqui na Ilha dos Lobisomens. No meu
caminho para cá, fiz amizade com dois jovens lobos chamados Edward Simons e
Harry Daniels. Entretanto, eles foram atacados por um grupo de vampiros, que
mais tarde descobri serem do séquito do Conde Beckenbauer. E não resistiram.
Segui viagem sozinha e cá estou eu.
- Entendo.
- Sabe... Odeio ser uma loba. Perdi o homem que eu amava por
isso.
- Eu também perdi minha amada por ser lobo.
- Eu soube que você era apaixonado por aquela vampira, Alice
Stone.
Mike
suspirou.
- Sim, eu era. Ainda sou.
- Desculpe, este assunto é delicado, eu não deveria ter
tocado nele.
- Não, não, está tudo bem. Eu... Preciso me resignar. Ela
está morta, e, mesmo que ela ainda vivesse... Não seria minha.
Chegaram à casa de Alana.
- É aqui que eu vivo. – disse ela.
- Bem, está entregue, sã e salva.
- Obrigada, Mike. Você é muito gentil.
O jovem lobo tomou e beijou a mão da moça.
- Disponha.
- Até logo. – disse ela, entrando.
- Até logo.
* * *
Três meses depois...
Dianna, agachada, colhia flores perto da mansão quando ouviu o som de
passos se aproximando dela. Ela ergueu os olhos.
- Olá, Dianna.
- Peter Noone. – Dianna disse com desprezo. Ele era um dos
vampiros do séquito do Conde Beckenbauer. Um dos que desejavam vingar a “ofensa”
que seu marido infligira ao vampiro-mestre. Contudo, Noone tinha um motivo a
mais para querer se livrar de Davy: amava Dianna.
- Como vai, minha amada?
- Ia bem, até você aparecer. – disse ela, se levantando com
certa dificuldade, devido ao ventre, que começava a ficar saliente.
- Ah, meu anjinho com presas, por que me trata assim? – ele enlaçou
Dianna pela cintura.
- Largue-me, seu maldito! Eu sou casada! Estou esperando um
filho!
- Eu posso ser um marido muito melhor, Dianna. E cuidarei do
seu bebê como se fosse meu.
- Eu nunca me casaria com você, seu parvo! Davy! Davy! Ah! – Noone agarrou-a e
tapou sua boca com a mão, antes que o marido a ouvisse. Dianna bem que tentou
resistir, e poderia acabar com ele, mas a condição de grávida a impedia. Ficava
impossibilitada de aplicar golpes no vampiro.
Com seus poderes, Noone
conseguiu transportar Dianna para longe, para o outro lado da floresta. Contudo,
não antes de Davy aparecer na soleira das portas da mansão, atraído pela esposa
chamando-o.
- Noone! Solte a minha esposa! – ele bradou, e correu para
tentar libertá-la. Foi tarde. Noone desapareceu, levando Dianna com ele.
Logo Davy viu o que Noone fizera. Transformara a si próprio e Dianna em
morcegos. Ele voava, e carregava Dianna presa nas patas traseiras.
- Ai de você se machucar minha mulher e meu bebê, seu
energúmeno! – Davy esbravejou. Assumiu a forma de morcego e voou no encalço de
Noone.
Após uma longa perseguição nos céus, Noone finalmente pousou, num ponto
da floresta do qual Davy preferia ficar longe: o local onde havia as plantas
carnívoras e os insetos gigantes. Ele viu que lá embaixo estavam os asseclas de
Noone: Derek Leckenby, Karl Green, Keith Hopwood e Barry Whitwam. Todos
vampiros. Todos servos do conde. Todos loucos para matar Davy.
Ao assumir forma humana, Noone
depositou Dianna cuidadosamente no chão. Ela não parecia machucada, entretanto,
Davy estava receoso. Ele pousou e assumiu forma humana. Ao vê-lo, Dianna correu
para ele.
- Meu doce vampiro! Que bom que está aqui! – ela o beijou.
- Você está bem, Dianna? – ele segurou a mão dela e colocou
a mão livre sobre o ventre dela.
- Estou bem. O bebê também. – respondeu a vampira.
- Vejo que ele está bem. – Davy sorriu. – Senti-o se mexer.
- Porque ele sentiu sua mão. – Dianna estava tão feliz
quanto o marido.
- Odeio atrapalhar o momento em família, mas devo pedir que
se despeça do seu maridinho querido, Dianna. Ele vai morrer. – Noone exibiu seus
caninos em um sorriso cruel.
- Não, ele não vai! – Dianna soltou-se de Davy, furiosa, os
olhos se avermelhando e as presas despontando.
– Eu farei o que puder para protegê-lo!
- Querida. – Davy segurou seu pulso. – Não faça isso. É
perigoso para você e nosso filho.
- Mas, Davy...
- Eu vou ficar bem. Vou acabar com esses imbecis.
- Você, Jones? Tão baixinho assim? – Noone debochou.
- Por que não cala essa sua boca grande, Noone? - Davy odiava comentários sobre sua pouca altura.
No entanto, uma das vantagens de ser um vampiro era a força descomunal. Trocou
socos com cada um dos companheiros de Noone, que, mesmo sendo também vampiros,
mais altos e estando em maior número, eram menos ágeis.
Jogou cada um deles dentro das “mandíbulas”
das plantas carnívoras monstruosas. Todavia, faltava o líder. Noone já estava
se acovardando, porém, iria manter-se firme na decisão de matar Davy e tomar
Dianna para si.
- Keith, Derek, Karl e Barry eram uns palermas. A mim você
não vence, Jones!
- É o que vamos ver. – Davy mostrou os caninos. Ele e Noone
se atracaram. Chutou as canelas de Noone, derrubando-o. Ele disse, olhando
irado para o rival: - A sua sorte é que não gosto de sangue humano, e muito
menos sou canibal, Noone. De outra maneira, já teria sugado o seu sangue. Por
isso... – ele agarrou Noone e olhou na direção das plantas carnívoras.
- Não, Jones! Eu faço qualquer coisa para que não me dê como
alimento para aquela coisa!
- Cale essa boca maldita! – Davy socou Noone.
Após
fazer isso, Davy arremessou Noone na “boca” da maior das plantas carnívoras. E
esse foi o fim do vampiro loiro.
- Davy! – chamou Dianna. Ele foi até ela. – Agradeço por me
salvar, meu amor, mas... Creio que a punição que aplicou a Noone e seus amigos
foi um pouco... Radical.
- Esses mentecaptos mereceram.
- Bem... – Dianna beijou
o rosto dele. – Obrigada mais uma vez,
meu doce vampiro. Estou exausta... E o bebê... O bebê chuta e se mexe tanto que
parece que há dois dentro de mim!
- Sinal de que ele está mesmo bem. – Davy sorriu.
- Sim. – Dianna devolveu o sorriso. – Vamos embora daqui,
por favor.


