O jovem alfaiate Davy Jones passeava
pela cidade com seus amigos Mike Nesmith, Micky Dolenz e Peter Tork, também
jovens e modestos comerciantes. Eles conversavam animados. Até que ouviram uma
voz ordenar:
- Afastem-se! Abram caminho para a carruagem da princesa!
Eles foram para
o calçamento. E uma bela carruagem, puxada por duas parelhas de cavalos baios,
passou. No assento da carruagem, majestosa, estava a princesa Dianna, a filha
do rei Lawrence. Era uma linda donzela. Tinha longos e sedosos cabelos louros,
grandes olhos castanhos e um sorriso tão luminoso que talvez até pudesse cegar.
Davy estava
paralisado diante de tão doce visão. Seus amigos zombavam dele.
- Parece até que Davy viu um fantasma! – Mike riu.
- Um fantasma não, um espírito! – falou Micky.
- Um espírito do amor... Uma Graça... – disse Peter, que era
dado à poesia greco-romana clássica, a qual ele lia em livros emprestados da
biblioteca da cidade.
- Me deixem em paz! – Davy reclamou. – Mas, de fato... Ela é
tão bela... Mas nunca vai olhar para mim. Sou só um alfaiate. Eu faria qualquer
coisa para que ela sorrisse para mim... Até mesmo matar um gigante!
- Essa eu quero ver! – os amigos riram ironicamente.
- Um homem apaixonado tem a força de milhares! – Davy
retrucou.
***
De volta à sua
alfaiataria, Davy pôs-se a trabalhar. No entanto, as moscas o infernizavam.
Afastou-as com uma mão, depois a outra, mas não teve sucesso. Elas vinham de
todas as direções. Por fim, resolveu acertá-las com as duas mãos. E sete moscas
caíram no chão.
- Uau! Sete!
Ele
abriu a janela de sua alfaiataria para contar seu “grande feito”. E, no mesmo
momento, dois homens conversavam:
- Você já matou um?
- Eu não!
- Eu matei sete com um golpe só! – Davy exclamou, orgulhoso,
mesmo sem saber exatamente do que os homens falavam.
- SETE?! – os homens olharam para ele com espanto.
Davy sorriu em confirmação, mas então os
homens saíram correndo. E o jovem alfaiate baixinho ficou sem entender nada.
Enquanto isso, se espalhavam pela cidade os boatos de que um jovem e pequeno
alfaiate era capaz de matar sete gigantes com um golpe só...
***
Davy
estava fazendo uma bainha quando seus amigos entraram como um furacão na
alfaiataria.
- Davy, você precisa vir rápido!- disse Mike.
- Eu? Mas eu estou cheio de encomendas!
- Mas é o rei que está te convocando! – Micky exclamou.
- O rei?! – o pequeno alfaiate arregalou os olhos.
- Sim, Sua Majestade, o rei Lawrence. – Peter falou. – Agora
vamos!
Pouco depois,
Davy estava na sala do trono, diante do rei Lawrence, sua esposa, a rainha
Susan, e seus dois filhos: o príncipe Giles e a princesa Dianna.
- Então, meu rapaz... – começou o rei, chamando a atenção de
Davy. – É verdade que você matou sete com um só golpe?
Davy ficou
nervoso. Deu uma olhada rápida para a bela princesa, e viu os olhos dela fixos
nele.
- Bem... Sim, Majestade, isso mesmo! – Davy falou, tentando
parecer empolgado, embora não entendesse por que o rei estava tão impressionado
por ele matar sete moscas com um só golpe.
- Mas como? – indagou a rainha.
- Bem... Eu estava sozinho. Eu vi quando chegaram, e percebi
que estava cercado. Estavam aqui, ali, em toda parte! Uma porção deles! Vinham
da esquerda, da direita! A luta começou. Eu ataquei! Estavam bem em cima de
mim! E então, eu acabei com eles! – e ele fez um floreio com a tesoura.
Os cortesãos
aplaudiam e davam hurras. A rainha e a princesa pareciam impressionadas, mas
não podia se dizer o mesmo do príncipe. Com gestos da mão, o rei pediu
silêncio, e inquiriu:
- Valente alfaiate, qual é o seu nome?
- D-David Jones, Majestade.
- Meu caro David Jones, eu o nomeio o matador oficial do
gigante!
Davy ficou
espantado. Quem poderia ter dito ao rei que ele era um matador de gigantes?
- G-gigante? M-mas, M-Majestade... Eu não posso... – Davy
resolveu começar a explicar que era um mal-entendido.
- E sua recompensa será uma saca de moedas de ouro!
- Oh, não, senhor, muito obrigado, mas eu não posso aceitar!
– Davy protestou.
- Duas sacas! Três! Quatro... – e então o rei olhou para o
seu lado direito... Onde estava o trono da princesa. – E o meu mais valioso
tesouro: a mão da minha filha Dianna em casamento!
A princesa
olhou para Davy e deu o mais lindo dos sorrisos. O rapaz corou como um rubi, e
arregalou os olhos. Por essa ele não esperava!
- A... A mão da princesa?! – ele não acreditava.
Dianna
levantou-se de seu trono e caminhou até ele. E fez algo que ninguém esperava:
cobriu o rosto do alfaiate de beijos. Davy estava até um pouco tonto quando ela
o soltou, mas exclamou:
- Não se preocupe, Majestade! Eu acabo com esse gigante com
uma mão nas costas!
- Muito bem! – o rei estava muito contente. – Você vai
passar a noite aqui. Vou lhe fornecer todo o armamento de que precisar. E, uma
vez que você tenha acabado com o gigante, marcamos a data do casamento!
À noite, houve
um belo banquete para comemorar a escolha de um campeão para enfrentar o
terrível gigante que ameaçava a cidade. Davy não conseguia acreditar na sua
sorte. Estava temeroso, mas não podia deixar transparecer naquele momento.
Então, veio a
hora de se recolher. Quando Davy ia para o quarto em que passaria a noite, ele
sentiu que foi puxado para um canto escuro do corredor onde ficava o aposento.
Era a princesa.
- Alteza! – ele exclamou, assustado.
- Desculpe, meu amor. – ela disse, dando uma risadinha. – Eu
não quero que ninguém nos veja. Eu só queria... Bem... Te desejar boa sorte.
E ela o
beijou ardentemente. Davy sorria como um bobo quando ela o soltou.
- Eu espero ser digno do seu amor, Alteza.
- Me chame de Dianna. E não se preocupe, David, eu sei que
você vai conseguir. – ela acariciou o rosto dele. – Você é meu he... Ou melhor,
o herói do reino.
- Pode me chamar de Davy. – ele sorriu. Esperava que a
princesa estivesse certa.
- EI! QUE DESPUDOR É ESSE? – era o irmão da princesa, o
príncipe Giles.
- Eu só estou abraçada com meu noivo, Giles. – disse Dianna
ao irmão, ríspida.
- Ele ainda não é seu noivo, Dianna. Só depois que ele matar
o gigante... O que eu duvido. Não sei como conseguiu enganar meus pais e a
minha irmã, pivete, mas a mim você não engana não! – o príncipe esbravejou. –
Eu vou pagar para ver você derrotar esse gigante! E depois que ele morrer, não
diga que eu não avisei, maninha! Agora, vá dormir!
- Você não manda em mim, Giles! – a princesa resmungou. E,
para provocar o irmão, ela deu um novo beijo ardente em Davy. – Boa noite e boa
sorte, meu lindo noivo.
E entrou no
quarto. Giles olhou Davy de alto a baixo e também entrou em seu quarto. Por
fim, Davy entrou no quarto destinado a ele. Precisava pensar num plano.
***
De manhã, Davy
tomou café na companhia do rei e de sua família. O rei e a rainha eram
simpáticos com ele, o príncipe olhava com desconfiança, e a princesa... A
princesa era só sorrisos.
O rapaz estava
com medo de fracassar. Porém, não se preocupava se o rei o mandaria prender ou
executar, ou se ficaria sem a saca de moedas de ouro. Só uma coisa o preocupava:
decepcionar a princesa. Se falhasse, a princesa Dianna não seria mais sua
futura esposa. Ele não só provaria não ser digno dela, como também partiria seu
coração. E não conseguia imaginar aquele rosto estampado com a mágoa, em vez do
sorriso encantador.
Pegou as armas
que o rei lhe forneceu e saiu do castelo, deixando uma multidão que o aplaudia
e incentivava para trás. Mas ele olhou para apenas uma das pessoas: Dianna, que
acenava para ele com um lenço imaculadamente branco do alto de uma das torres.
Ela jogou um beijo, e Davy teve certeza de que, se não estivesse de elmo, todos
veriam seu rosto corado.
Os portões do
castelo foram fechados. Agora o jovem alfaiate só podia contar com as armas
dadas pelo rei Lawrence e com sua própria inteligência para derrotar o terrível
gigante. Ele se afastou do castelo, contemplando as grandes muralhas de pedra e
a pesada porta de folha dupla.
- É isso, Davy. – ele disse a si mesmo. – Ou você dá um
jeito de liquidar esse gigante, ou você vai apodrecer numa masmorra. E o que é
pior, Dianna nunca mais vai olhar na sua cara.
O rapaz
respirou fundo e desembainhou a espada que o rei havia lhe dado.
- Eu fiz uma promessa. E vou cumprir. Por minha honra... E
pela princesa Dianna!
Sentindo-se
ligeiramente mais confiante, Davy caminhou até onde supostamente poderia
encontrar o gigante. Estranhamente, nenhum sinal da monstruosa criatura. O que
era pouco comum para um gigante. Até que... A terra começou a tremer. E o céu
escureceu. Mesmo as pessoas e os animais nas colinas mais distantes começaram a
sumir.
O gigante se
aproximava. Davy procurou um lugar para se abrigar. E resolveu se esconder num
canteiro de abóboras próximo. Dali, Davy pôde ver o gigante se sentar no chão,
provocando um terremoto, e recostar-se numa pedra. Então, para o desespero do
rapaz, o gigante dirigiu sua atenção para as abóboras, agarrando várias delas e
jogando dentro de sua imensa boca. Por pouco Davy não foi agarrado e
transformado em almoço de gigante.
E foi se
proteger dentro de um poço. O balde era grande o bastante para que o pequeno
alfaiate coubesse ali de cócoras. Contudo... O gigante agarrou o poço e o
arrancou do chão. “É o meu fim...”, pensou o rapaz. Então, quando estava
prestes a ser engolido, Davy teve uma ideia desesperada. Agarrou-se à úvula do
gigante. O rapaz pendurado na sua “campainha” fez com que o gigante
soluçasse... E o expelisse. Agarrando-se
dessa vez à corda do poço, Davy teve uma ideia: costurar o gigante.
Usou a corda
do poço para pular para fora e pousar na cabeça do gigante. Pegou agulha e
linha na bolsa presa ao seu cinturão. Amarrou um pouco do cabelo do gigante com
a linha e pulou por todo o corpo dele, costurando sua roupa de forma que seus
braços e pernas ficassem impedidos. E assim o gigante foi ao chão.
Com o
impacto, o gigante bateu a cabeça. E foi fatal. Davy não podia acreditar no que
tinha feito.
- Eu... Eu consegui! – ele exclamou, espantado. – Vou poder
me casar com a princesa!
Ele
correu até o castelo, e anunciou ao rei, assim que foi admitido no salão do
trono:
- Majestade, eu consegui! O gigante está morto!
- Eu sabia que podia confiar em você, sr. Jones. – o rei
sorriu.
- Meu pai, se me permite fazer um comentário... – interveio o
príncipe Giles.
- Permissão concedida, meu filho.
- Eu gostaria de ver o corpo do gigante. Para ter certeza de
que esse rapaz não está nos enganando.
- Tudo bem... – o rei suspirou. – Vamos lá... Se o senhor
concordar, sr. Jones.
- Perfeitamente, meu rei.
– Davy disse.
Ele levou toda a corte até onde estava o
corpo do gigante. O príncipe Giles ficou muito contrariado ao constatar que, de
fato, o jovem alfaiate havia liquidado o gigante, e assim, se casaria com sua
irmã.
Dianna, por outro lado, era só felicidade.
Abraçou e beijou Davy diante de toda a corte. Dali a poucas semanas,
realizou-se uma bela cerimônia de casamento, com muita pompa e circunstância.
E foi
assim que um jovem e pequeno alfaiate se tornou um dos mais altos dignitários
de todo o reino, além de ganhar uma bela esposa apaixonada por ele, e que ele
também amava muito.