Boa tarde! Hoje vou postar o último episódio da minissérie Hittin' The High Seas! Acredito que vai deixar saudades... Boa leitura!
Poseidon estava furioso. Davy
Jones havia ido embora da ilha de Ogígia. O deus dos mares acreditava que, com
seus encantos, a ninfa que lá vivia, Nami, seria capaz de reter o corsário por
toda a eternidade.
Refletindo a ira de seu
senhor, o mar estava agitado. Anfitrite apresentou-se diante do marido e disse:
- Meu amado esposo, não tem motivo
para se encolerizar!
- Como não? Aquele corsário me
insultou! E o amigo dele teve a audácia de galanteá-la!
- Sei disso. Mas já se passaram
muitos anos. Eu já esqueci a ousadia de Micky Dolenz.
- Mas não quer que ele continue
longe da esposa, para punir o insulto da mãe dela a você e suas companheiras
nereidas?
- Diferentemente de você, não sou
vingativa. Pelo menos, não tanto. Poseidon, não viu durante todos esses anos as
preces das esposas desses corsários, rogando a você e a Afrodite que trouxessem
os maridos delas de volta? Você não pode fingir que não ouviu o apelo de
Dianna, a esposa de Davy Jones!
- Anfitrite...
- Deixe-os em paz! Eles aprenderam
a lição! E já lhe digo que, se ousar atrapalhar a última viagem desse
quarteto... Não poderá adentrar meu quarto por tempo indeterminado!
Diante dessa ameaça da
esposa, o senhor dos mares não teve escolha senão obedecer.
***
As filhas de Davy
caminhavam no jardim de sua casa. Pensavam no sonho que a mãe tivera alguns
dias antes.
- Será mesmo que papai vai voltar?
– perguntou Cecilia à sua irmã.
- Eu não sei, Cece, mas gostaria
muito de que esse sonho fosse de fato um aviso dos deuses. – respondeu Becky.
- E é.
As gêmeas ouviram uma suave
voz feminina atrás delas. Viraram-se para ver quem era. Viram uma jovem baixa,
de cabelos loiros e olhos azuis, que tinham um brilho astuto.
- Quem é você? – indagou Cece.
- Eu sou Atena. Sou a protetora de
seu pai. E, por ele, protejo vocês e sua mãe desde que ele deixou Manchester.
- Senhora... Nosso pai... Ele está
vivo? – quis saber Rebecca, aflita.
- Sim. Davy Jones está vivo. E
muito em breve estará de volta ao lar!
- Mais exatamente quando? –
Cecilia ficou empolgada.
- Mais em breve do que imaginam. –
respondeu a deusa, e desapareceu.
As duas irmãs trocaram um
enorme sorriso. Correram para dentro de casa para contar a boa nova à mãe.
Encontraram-na no quarto.
- Mamãe, mamãe! – elas chamavam.
- O que houve, meninas? Que
alegria é essa? – Dianna estava surpresa com a afobação de suas filhas.
- Papai! Ele vai chegar logo! –
exclamou Cecilia.
- Como... Como sabe disso, Cece?
- Atena. – explicou Rebecca. – Ela
veio falar conosco. Disse-nos que era a protetora de papai e que ela nos
protege desde que papai partiu para o mar. E que ele está vivo e logo voltará
para nós!
- Davy... De volta? Logo? Será
mesmo possível? – Dianna sentiu o coração bater aceleradamente. Agora ela
aguardaria ansiosamente pela volta do seu marido.
***
Após tantos anos, Davy e
seus amigos estavam finalmente retornando ao seu lar.
- Estou tão ansioso! – exclamou
Micky. – Quero ver como está Emma. E minhas filhas. Ami e Georgia devem estar
tão lindas quanto a mãe! E Christian! Estou louco para ver o meu garoto!
- Seu filho deve ser tão louco
quanto você, Micky. – Mike gracejou.
- E o que me diz do seu filho, Mike? Aposto que Jason deve
ter herdado esse seu jeito quase taciturno!
- Eu só sei de uma coisa: os
filhos do Peter devem ser tão atrapalhados quanto ele. – Davy disse com uma
risada.
- Talvez Alexander e Thomas sejam
mesmo atrapalhados... Mas certamente eu tenho a mais bela das filhas! Sally
puxou Erin. – Peter retrucou.
- Nada disso! Minha Jessica deve
ser a mais linda das meninas! – protestou Mike. – Só pode ser, já que é filha
da Alice.
- E quanto a Ami e Georgia? Filhas
de Emma só podem ser as mais bonitas criaturas! – Micky exclamou.
- Não! Ninguém se compara a
Cecilia e Rebecca! Atena me mostrou-as, elas são idênticas a Dianna!
Lindíssimas, portanto. – Davy disse.
Finalmente, Micky, do
cesto da gávea, exclamou, em uma
explosão de contentamento:
- TERRA À VISTA! CHEGAMOS!
- Chegamos?! – os outros três
manifestaram sua imensa alegria. Parecia bom demais para ser verdade.
- Sim! É o porto de Manchester! –
respondeu Micky, empolgadíssimo.
- Peter! Vamos! Leve-nos depressa
ao cais! – Davy estava ansioso demais.
- Calma, Davy! Os ventos não estão
tão rápidos assim! Mas dentro de quinze minutos aportaremos, não se preocupe!
Dentro do prazo previsto
por Peter, chegaram ao seu destino. Os marinheiros já não eram os mesmos dos
tempos em que os quatro amigos viviam ali. No entanto, ainda eram os mesmos
taberneiros. Entraram na estalagem que costumava ser sua favorita.
- O de sempre, Finkle! – gritou
Davy ao entrar no estabelecimento.
- Ora essa! Será que estou ficando
doido ou é mesmo o capitão Jones que entra na minha taberna? E ora, ora! Os
comandantes Nesmith, Dolenz e Tork!
- Somos nós mesmos, Finkle! –
disse Mike, com um sorriso. Sentou-se num banco defronte ao balcão, pegou uma
garrafa de gim e um copo, e despejou um pouco do líquido no copinho.
- Como...?
- Os deuses traçaram um destino
cheio de aventuras para nós. – resumiu Micky.
- Sabe como estão nossas famílias?
– indagou Peter.
- Oh, sim! – respondeu Finkle. –
Quero parabenizá-los, senhores, todos têm filhas lindas e adoráveis, apesar de que
as srtas. Jones são donas de geniozinhos bem difíceis. E os filhos dos comandantes
são rapazes de grande valor. Trabalhadores, devotados às suas mães e irmãs.
Cuidam muito bem dos negócios dos senhores.
- Escute, Finkle... Um homem
chamado Peter Noone não tem rondado minha esposa? – Davy quis saber, a raiva do
rival tomando-lhe conta.
- Sim, capitão. Quando se
completou um ano de sua ausência, esse sujeito chegou das Antilhas, trazendo
sua corja. Noone declarou que era um antigo pretendente da sra. Jones e vinha
reclamar o que lhe pertencia por direito... Ela.
- Pertencia-lhe por direito... Ela
nunca o quis! Vou mostrar a ele o que lhe pertence por direito! – Davy se
exaltou.
- Acalme-se, Davy, pelo amor de
Deus. – Peter pediu.
- Por mera cortesia, pois é uma
perfeita dama, a sra. Jones recebeu Noone em sua casa. O biltre não foi bem
recebido, como ficou claro pela sua expressão contrafeita. No entanto, ele
insistiu. E continua insistindo, depois
de dezenove anos sendo expulso da sua casa, capitão. Os capangas dele também
têm intenções nada boas. Keith Hopwood e Barry Whitwam pretendem desposar suas
filhas, capitão, assim que Noone desposar sua mulher.
Ao ouvir isso, a mão de
Davy encrispou-se ao redor do copo que segurava. Micky arrancou-o da mão do
amigo antes que ele quebrasse o copo.
- E mais... Derek Leckenby cobiça
a sua esposa, comandante Nesmith.
- O quê???? – Mike perguntou,
indignado, cuspindo o gim que havia acabado de beber. – Poltrão!
- Sabe-se lá o que ele pretende
fazer com os seus filhos, comandante. Comandante Dolenz... A sra. Dolenz é alvo
das investidas amorosas de Karl Green.
- Eu vou ensinar a esse presunçoso
uma lição que ele jamais vai esquecer! – bradou Micky. – E o que ele vai fazer
com meus filhos?
- Só Deus sabe.
- E Erin? Alguém tem más
pretensões em relação a ela? – quis saber Peter.
- Sim. Um alemão, amigo de Noone e
sua súcia. Metido em negócios escusos. O nome dele é Philipp Lahm.
- LAHM???? AQUELE CHUCRUTE DE
NOVO??? – Peter quase perdeu a cabeça.
- Dizem que ele pretende casar a
srta. Tork com um dos seus amiguinhos suspeitos. E mandar os srs. Alexander e
Thomas para algum regimento na Alemanha.
- Está bem claro que vamos ter que
lidar com gente da pior espécie. – disse Davy. – Rapazes... Eu tenho um plano.
Vamos para minha casa. Obrigado, Finkle. Você continua servindo o melhor gim do
porto de Manchester.
Davy e seus companheiros
saíram da taberna e tomaram o rumo da casa de Davy, que não ficava muito longe
do porto. Davy sorriu ao ver que o portão continuava pintado de branco, como
nos velhos tempos. Eles viram seis cavalos amarrados às árvores.
- Os cavalos dos interesseiros. –
resmungou Mike.
- Sim. – Davy praticamente rosnou.
– Espero que Di não tenha trocado a fechadura. – ele tirou um grande molho de
chaves do bolso. Arriscara a vida muitas vezes para salvar as chaves de sua
casa. Colocou uma chave coberta de ferrugem na fechadura do pesado ferrolho do
portão. Apesar de muito enferrujada, a velha chave executou seu trabalho. – Ótimo. – ele sorriu.
Os corsários entraram na
propriedade de Davy.
- Vamos entrar na casa já? –
inquiriu Micky.
- Não. – respondeu Davy. – Tenho
um plano para acabar com a raça desses seis sanguessugas. Mas antes preciso fazer
uma visitinha ao meu velho jardineiro. Ele é o meu criado mais confiável.
Dirigiram-se, então, à
casinha do jardineiro. Davy bateu à porta. O velho criado, que ostentava uma
barba branca, esbugalhou os olhos ao ver quem estava à porta.
- Capitão Jones! Os deuses sejam
louvados! O senhor está de volta!
- Sim, eu estou, meu velho Harvey.
– Davy disse com um sorriso.
***
Cecilia e Rebecca
estavam na sala de visitas da casa, a primeira entretida lendo um livro, a segunda
tocando piano. Subitamente, Atena surgiu no meio da sala.
- Cecilia, Rebecca, vão à casa do
jardineiro, o sr. Harvey. Uma surpresa as aguarda lá. – disse ela.
Sem hesitar, as
garotas largaram o que estavam fazendo e obedeceram à deusa. Chegaram.
- E agora? Eu bato ou você bate,
Cece? – Rebecca estava um pouco nervosa.
- Vai ficar com medo agora, Becky?
Deve ter algo a ver com papai! Deixa que eu bato! – Cecilia estava
impaciente... Como sempre.
A gêmea mais
velha bateu à porta. O sr. Harvey atendeu.
- Srta. Cecilia, srta. Rebecca,
bem-vindas à minha humilde casa!
- Sr. Harvey... Atena nos disse
que uma surpresa nos aguardava aqui... – explicou Rebecca, um pouco sem graça.
- Sim, senhoritas, sim! Entrem! – disse o senhor, dando espaço para
as duas jovens.
Então, elas
se depararam com algo apenas sonhado. Um homem de meia-idade, baixo, muito
parecido com a pintura de um homem de pouco mais de vinte anos que havia no
quarto da mãe das gêmeas, olhava para elas fixamente, com um grande sorriso no
rosto e os braços abertos.
- Cece! Becky! Venham dar um
abraço no seu velho pai!
- Papai?! – elas não acreditavam.
- Sim, meus anjinhos, sou eu!
As gêmeas não sabiam
o que dizer. Hesitavam em se aproximar
daquele homem, que continuava a sorrir e com os braços abertos. Cecilia, sempre
mais apressada, cansou de hesitar. Correu para o corsário e o abraçou. Derramou
lágrimas. Davy beijou o topo da cabeça dela.
- É ele, minha irmã! É ele mesmo!
É o nosso pai! Tem cheiro de maresia, como a mamãe diz! – disse Cecilia à irmã.
Becky não relutou mais.
Juntou-se ao pai e à irmã no abraço, todos chorando. Os amigos de Davy e o sr. Harvey sorriam
diante do reencontro familiar. Davy soltou suas filhas, dizendo:
- Não me digam quem é quem, eu vou
dizer. Você, a estouvadinha que logo me abraçou, só pode ser Cecilia. Era a
mais agitada. Durante a madrugada eu tinha que arrumar seus cobertores e
colocar as meias de volta nos seus pés. Também era a mais gulosa. Mal largava o
peito da sua mãe! Estou certo ou não?
- Sim, meu pai. – Cecilia sorriu.
- Eu sabia! E você, Rebecca,
continua a mais quieta. Eu morria de preocupação porque quase não chorava.
Quando me levantava para arrumar Cecilia, também ia verificar se você estava
bem. – disse Davy com um sorriso.
- Bem-vindo de volta, papai. –
Rebecca falou simplesmente, também sorrindo.
- Obrigado, querida. – Davy pegou
a mão da filha e beijou, logo fazendo o mesmo com Cecilia. – Vocês estão
lindas, minhas filhas. Não que não fossem lindos bebês, mas agora parecem sua mãe!
- Venha conosco para dentro de
casa, papai! Mamãe vai morrer de tanta felicidade! – disse Cece.
- Depois, minha filha. Eu tenho um
plano para pegar os interesseiros que andam rondando sua mãe e suas tias.
- Eu contribuirei para seu plano.
– disse Atena, surgindo de súbito.
- Senhora Atena! Sou tão grato por
tudo que me fez! Me ajudaria uma última vez?
- Não será a última vez que o
ajudarei, Davy. Sempre vou prestar meu auxílio quando ele se fizer necessário.
Por essa razão e outras, David Jones, eu o amo por sua astúcia. Qualquer homem
ausente por muito tempo logo iria abraçar sua esposa e suas filhas. Contudo,
cego pela saudade e pela impaciência, acabaria não percebendo os intrusos e
eles tramariam contra sua vida. Só você sabe como agir na hora certa.
- Obrigado, senhora. – Davy acenou com a cabeça. - Eu pensei em...
- Adentrar a casa disfarçado?
- Exatamente. Meus companheiros e
eu em disfarces, melhor dizendo.
- Eu proverei os disfarces. –
Atena estalou os dedos, e uma espessa camada de névoa branca envolveu Davy e
seus companheiros. Quando ela baixou, os quatro corsários não eram mais homens
na casa dos quarenta anos. Eram idosos.
- Senhora, jamais se deve duvidar
de um deus, mas não crê que alguém poderá nos reconhecer? – quis saber Micky.
- Somente se prestar muita atenção
aos detalhes, meu caro Micky Dolenz. – disse Atena com um sorriso. – Cecilia, Rebecca, conduzam seu pai e seus
tios aos jardins. É lá que sua mãe e suas tias estão testando os intrusos.
- Testando? – indagou Mike.
- Sim. Testando-os para verificar
se fazem jus aos senhores. Se podem lutar tão bem como vocês.
- Eu garanto que Lahm não. – falou
Peter. – Conheço muito bem aquele chucrute covarde.
- Vocês têm minha benção. Mas o
primeiro passo é de vocês.
Tão subitamente como apareceu, Atena se
foi. As filhas gêmeas de Davy e os corsários se despediram do sr. Harvey e as
jovens conduziram os homens até os jardins.
- Mamãe! – chamou Cecilia, quando
avistaram as mulheres mais velhas e os interesseiros.
- Sim, Cecilia? – Dianna
perguntou, muito tranquila. Ela sabia que Noone não passaria no teste. Ninguém
sabia manusear a velha pistola de Davy, somente ele próprio.
- Estes senhores ficaram sabendo
que o sr. Noone e seus companheiros estão passando por testes para provarem sua
força e habilidade, e que portanto são dignos das senhoras. Eles desejam
participar do teste também.
Dianna, Alice, Emma e Erin
olharam surpresas para os velhos homens. Se mal acreditavam que Noone e sua
horda passariam no teste, duvidavam mais ainda daqueles visitantes. Contudo,
Dianna fitava, confusa, o homem mais baixo.
Algo no olhar dele, fixo a ela...
- Sra. Jones, se me permite,
quando a vi poderia jurar que era irmã destas mocinhas aqui, não a mãe. É tão
bela! Parece ainda estar na flor da idade! – Davy não pôde perder a
oportunidade de galantear sua esposa. As gêmeas e os amigos de Davy reprimiram
sorrisos.
Ela ficou muita surpresa
com a atitude daquele senhor.
- O-obrigada, senhor...?
- Fields, às suas ordens, minha
senhora. A senhora e suas amigas permitem que meus amigos e eu também
realizemos os testes?
- Sr. Fields, como ousa galantear
minha futura esposa? - esbravejou Noone,
indignado.
- NÃO SOU SUA FUTURA ESPOSA,
NOONE! – Dianna gritou. – VOCÊ AINDA NÃO REALIZOU O TESTE, E NADA GARANTE QUE
PASSARÁ! Bem, Alice, Emma, Erin, vocês têm alguma objeção à participação do sr.
Fields e dos seus companheiros em nossos testes?
- Não. – responderam as amigas de
Dianna em coro. Estavam intrigadas com os outros três homens.
- Pois bem. Podem participar, sr. Fields, e...?
- Jameson. – disse Mike.
- Huston. – Micky falou.
- E Firth. – Peter inventou um
nome falso por fim.
- Certo. Primeiramente os homens
que estavam aqui antes farão os testes, e em seguida os senhores.
Os corsários disfarçados
assentiram. Faziam o possível para manter o controle diante das esposas. Viram
que, para o teste, elas haviam escolhido suas armas favoritas para os
pretendentes gananciosos manejarem. Não era qualquer um que seria capaz de
lidar com aquelas armas.
Derek Leckenby tinha que acertar um
alvo, a quinhentos metros de distância, com a espingarda favorita de Mike.
Alice sabia que aquela arma, com bronze celestial na composição, um presente
dos deuses para seu marido, obedeceria somente a ele. O comparsa de Noone errou
feio. Alice não reprimiu um sorriso.
Em seguida, Karl Green tentaria
lançar a faca favorita de Micky, de prata estígia, no galho de uma árvore
próxima ao portão da propriedade. Com aquela faca, Micky havia degolado a
Medusa mais de vinte anos antes, e havia usado a cabeça do monstro para
petrificar o Kraken, o animal que comeria Emma como punição pela audácia da mãe
dela ao dizer que sua filha era mais bela do que as nereidas. A faca não se
cravou no galho. Ricocheteou ao atingi-lo e caiu no chão com um som metálico,
um pouco abafado pela grama. Green praguejou baixinho.
Philipp Lahm tinha uma missão
difícil. Para isso, foram trazidas a lira de Peter, um presente do próprio
Apolo, e Susie, a velha cadela de Davy. Ela estava realmente muito velha.
Contava com vinte e dois anos, enquanto a maioria dos cães vive no máximo
dezesseis anos. Dianna e as filhas acreditavam que Susie apenas esperava pela
volta de Davy para morrer, pois ao ver o dono morreria feliz. Lahm deveria
fazer a cadela, que apesar de velha era anormalmente agitada, dormir.
Ao entrar no jardim e
reconhecer o cheiro de seu dono, Susie ficou ainda mais agitada, parecia que
era filhote mais uma vez. Correu para ele, quase derrubando Davy no chão e
lambendo-o, abanando o rabo.
- Calma, garota, calma. – disse
Davy, acariciando a parte de trás das orelhas da cadela. – Assim. Boa menina.
- É incrível... Só meu marido era
capaz de causar tanta empolgação em Susie, e também de acalmá-la... – Dianna
murmurou.
- Tenho um certo talento com
animais, sra. Jones. – disse Davy, embora achasse que Dianna logo juntaria dois
mais dois. Não podia se esquecer de que sua esposa era tão astuciosa quanto ele
próprio.
- Sim... Bem... Herr Lahm, vamos,
realize seu teste.
- Sim, Frau Jones. – disse Lahm,
empunhando a lira de Peter. Começou a dedilhar as cordas, mas o som produzido
foi tão horrível que Susie passou a persegui-lo, tentando mordê-lo.
- Bem... Agora só falta... Você,
Noone. – Dianna disse, com voz enfadada, ao entregar a pistola favorita de Davy
a ele.
-Você verá, querida Dianna, que
não sou incompetente como meus parceiros. – Noone deu um sorriso presunçoso. –
Pode ir preparando nosso enxoval.
- Não vou preparar enxoval nenhum!
Pare com esse palavrório e realize logo esse teste infernal! – Dianna rosnou.
“Nunca abaixa a cabeça... Por isso
amo essa mulher!”, pensou Davy. Noone fez pontaria. Seu teste era relativamente
simples. Acertar na mosca um alvo pendurado na parede da casa, a oitocentos
metros. Todavia, Dianna sabia que Noone
falharia. Ele puxaria o gatilho, mas as balas de ouro olimpiano não seriam
disparadas. Somente Davy podia fazer a pistola disparar as balas. Ao notar que
a arma não disparava, por mais que puxasse o gatilho, ficou furioso.
- DIANNA! VOCÊ CARREGOU ESSA
PISTOLA?
- É claro que carreguei, imbecil!
– ela respondeu, tomando a arma da mão dele, abrindo o compartimento das balas
e mostrando-as a ele. – É você quem não é digno de atirar com ela!
Alice, Emma e Erin entregaram os
artefatos de seus maridos para eles próprios, sem saber. Dianna recolocou as
balas na pistola e entregou-a a Davy. As quatro mulheres, atônitas, assistiram
a Mike, Micky e Peter realizarem os mesmos testes que os capangas de Noone, e
serem bem-sucedidos. Mike acertou o alvo
com sua espingarda de bronze celestial. Micky fez sua faca de prata estígia
cravar-se no galho. Peter tocou sua lira, produzindo um lindo som que fez Susie
adormecer.
- Não é possível... – cochichou
Alice para as amigas.
- Somente... Somente nossos
maridos poderiam usar esses objetos corretamente... – Emma falou.
- Ou esses homens são abençoados
pelos deuses, como nossos maridos, ou... – Erin não conseguiu completar a frase, ansiosa.
- Ou são eles? – Dianna completou
pela prima. – Oh, meus deuses... Davy, será possível?
As quatro amigas assistiram,
atentas, ao “sr. Fields” empunhar a pistola, verificar as balas, ficar na
posição, mirar e puxar o gatilho. Não houve dúvida. Uma bala foi disparada... E
atingiu o alvo. Os interesseiros e as mulheres não tinham palavras. Dianna foi
a primeira a se manifestar.
- Por favor, acabe com isso logo!
Não sei como está parecendo tão velho, mas... Qual era o apelido que eu usava
para meu marido quando estávamos sozinhos, sr. Fields? Me diga! Agora!
- CUDDLY TOY! Era assim que
chamava seu marido! Era assim que me chamava, Dianna! – Davy disse, sorrindo
para ela.
- EU SABIA, EU SABIA! DAVY! - ela exclamou, derramando lágrimas de
alegria.
Correu para seu marido, contudo,
antes de alcançá-lo, ele foi envolvido em névoa branca, ao mesmo tempo que seus
amigos. Quando a névoa se dissipou, lá estavam eles, com sua verdadeira
aparência, a de homens de quarenta anos.
- Melhor assim, não acha, Di? –
Davy disse a ela.
- Tanto faz... Não me importa sua
aparência, mas você de volta para mim! Meu amor, meu marido, meu Davy! – Dianna
abraçou seu marido e beijou-o com ardor, com paixão, como ansiava havia duas
décadas. – Nossas filhas... Elas...?
- Elas sabem de tudo, Di. – disse
Davy, enxugando as lágrimas da esposa e as suas próprias.
Mike e Alice, Micky e Emma e
Peter e Erin também se beijavam apaixonadamente. Noone e seus companheiros não
podiam crer no que viam.
- Ora, ora, então voltou, Jones! –
Noone falou, com seu sorriso debochado.
- Sim, eu voltei. – Davy falou. –
Você e seus capangas podem deixar as mulheres em paz.
- Nunca! Você me tirou Dianna, ela
será minha!
- Ele não me tirou de você! Nunca
quis ser sua esposa e você sabe disso! – Dianna exclamou, irritada.
- Ah, por favor, Dianna! Por que
acha que seu marido não voltou antes? É óbvio que ele não queria uma mulher
cujo corpo ficou deformado após dar à luz gêmeas! Na viagem ele conheceu
mulheres belas e atraentes... Foram elas que o retiveram! – Noone sabia o
quanto Dianna era ciumenta. Decidiu se aproveitar disso.
- Eu me recuso a acreditar nisso!
– Dianna exclamou. – Sei que Davy me foi fiel em todos esses vinte anos!
- Sim, eu fui! Nada pode mudar o
que sinto por Dianna! – Davy abraçou a esposa por trás.
- Ah, o amor verdadeiro... Tão
comovente... MAS NÃO PARA MIM! LUTE CONTRA MIM SE FOR HOMEM, JONES! – Noone
sacou um florete.
- EU ACEITO, SEU FALASTRÃO
INVEJOSO! – Davy bradou em resposta, sacando o seu.
Todos se afastaram, dando espaço para
os combatentes. Davy e Noone lutaram furiosamente. Noone era mais alto, mas
Davy era mais ágil e habilidoso, e acertou um golpe feio no adversário. Os
comparsas de Noone se aproximaram para ajudá-lo, contudo, foram impedidos por
Mike, Micky e Peter, que passaram a lutar contra eles, na base de socos, chutes
e pontapés.
As duas lutas prosseguiam
ferrenhas... Até que Noone abriu um talho na barriga de Davy.
- CUDDLY TOY! – Dianna encheu-se
de medo.
- PAPAI! – as gêmeas gritaram.
- Diga adeus a Dianna e às suas
filhas, Jones. – Noone tinha um sorriso cruel no rosto.
Os amigos de Davy pararam de
bater nos sequazes de Noone, temendo pelo amigo.
- Não... Atravessei o oceano
durante duas longas décadas para revê-las... E NÃO IREI PARA O PALÁCIO DE HADES
TÃO CEDO!
Davy pôs-se de pé com um salto e
continuou chocando seu florete contra o de Noone, ignorando o ferimento. Então,
algo que ninguém esperava aconteceu. Uma bala, vinda de algum lugar atrás de
Noone, atingiu-o, e foi parar bem em seu coração. Ele tombou, sem vida, aos pés
de Davy, que então olhou para o pistoleiro... Ou melhor, a pistoleira.
- DI!
- AGORA ESSE VERME NOJENTO VAI NOS
DEIXAR EM PAZ! EU NÃO VOU DEIXAR QUE
NADA TIRE VOCÊ DE MIM, DAVY! NUNCA MAIS!
Derek Leckenby, Keith Hopwood,
Barry Whitwam, Karl Green e Philipp Lahm perceberam que, sem seu líder, não teriam mais nenhuma
chance. Fugiram como covardes, carregando o cadáver de Noone com eles.
- Acho que esses sacripantas vão
nos deixar em paz. – Mike falou com um sorriso.
- Sim, mas... Temos que cuidar
desse ferimento. – disse Dianna, se ajoelhando ao lado do marido, que tentava
estancar o sangue tampando o talho com a mão. – Você não pode morrer, Davy... –
ela beijou-o suavemente.
- Di, calma... – ele tentou
tranquilizá-la.
- Ele não morrerá, sra. Jones.
Dianna viu uma jovem
loira, baixa e de cintilantes olhos azuis, que tinha um belo sorriso.
- Quem... Quem é a senhorita? – a
esposa de Davy estava aturdida.
- É Atena, minha protetora! – Davy
sorriu para a deusa.
- Você ainda tem muitos anos para
viver, David Jones. – a deusa sorriu, aproximando-se de Davy e acenando com a
mão, fechando a ferida.
- Obrigado, senhora. - Davy fez
uma reverência à deusa e beijou a mão dela.
- Não me agradeça, Davy. Agora,
sugiro que você e seus amigos aproveitem a companhia de suas esposas e
filhos... E falando em filhos...
- O quê? – Dianna intrigou-se.
- Os deuses lhe darão a graça de
trazer mais uma criança ao mundo, Dianna Mackenzie-Jones. – Atena sorriu.
- O quê? – Dianna espantou-se. –
Mas estou com 42 anos... Tenho duas filhas adultas...
- O que não impede nada. – Atena
respondeu, e então sumiu.
- Bem... – Davy pegou a esposa nos
braços com um sorriso malicioso. – Então vamos conceber essa criança, Di.
- Você não mudou nada, Davy... – Dianna afagou o rosto do marido.
Davy carregou a esposa para
o quarto, enquanto seus amigos se dirigiam às suas respectivas casas,
acompanhados das esposas, e as gêmeas conversavam animadamente entre si sobre o
futuro irmãozinho...
Cena pós-créditos Marvel!
Nami caminhava pela praia,
sozinha como sempre, sonhando acordada com Davy. Ela amou demais o marinheiro,
ainda amava. Não queria tê-lo deixado ir... Mas sabia também que ele ficaria
mais e mais infeliz em Ogígia conforme o tempo passasse. E também não era certo
prolongar o sofrimento da esposa e das filhas do amado. Ele já estava ausente
havia tempo demais.
Ela viu um corpo sendo
carregado pelas ondas em direção à praia de Ogígia. “Davy? Será possível que os
deuses...?”. Então o corpo finalmente chegou à areia. Era um homem, mas não
Davy. Nami massageou o peito do náufrago
para que toda a água que ele havia engolido saísse de seus pulmões. Ele
despertou, tossindo, e ao olhar nos olhos amendoados da ninfa, disse:
- Obrigado, linda criatura. Meu
nome é Eric Clapton. Onde estou e quem é você?
- Eu... Eu sou Nami. E esta é
minha ilha. Seu nome é Ogígia.