domingo, 29 de janeiro de 2023

Beautiful Girl (Fairy Tale)


Boa noite! Hoje temos nossa primeira postagem de 2023, e é mais uma oneshot da série Fairy Tale! O conto adaptado de hoje? Branca de Neve e Os Sete Anões. Espero que gostem! Boa leitura! 



 


Fairy Tale: George e Mary Anne (Branca de Neve)



   Há muito tempo, num reino distante, vivia um jovem príncipe chamado Paul. Ele contava os dias para completar 21 anos de idade e poder assumir o trono de seu pai, que morrera um ano antes. Enquanto Paul não subia ao trono, o reino era governado pela jovem rainha viúva. 

 A rainha, Patricia, era só um pouco mais velha que Paul e seus irmãos, Michael e Mary Anne, que eram gêmeos. Apesar de Patricia, ou Pattie, ter idade para ser sua filha, o falecido rei encantou-se por ela e a desposou. O casamento, porém,  não durou muito, pois o rei logo veio a falecer. 

 E coube a Pattie, que já tinha mais de 21 anos, assumir o cargo de regente enquanto o príncipe Paul aguardava seu 21° aniversário. 

 Pattie tinha uma beleza incomparável. Os nobres do reino não censuraram o rei por escolher uma esposa como ela. Em seus aposentos, ela tinha um espelho mágico que, quando a rainha lhe fazia a pergunta "Espelho, espelho meu, quem é mais bela do que eu?", sempre respondia: "Ninguém, sois vós a mais bela, Majestade". 

   No entanto, um dia, ao ser novamente perguntado, o espelho respondeu: 


- Famosa é a vossa beleza, Majestade. Porém, há uma menina entre nós, com tanto encanto e suavidade, que eu digo: ela é mais bela do que vós.


 - Quem é ela? Revela seu nome. - ordenou a rainha ao espelho, seu orgulho ferido.


- Lábios como a rosa, cabelos como ébano, pele branca como a neve. 



    A descrição poderia ser de qualquer jovem no reino, mas a rainha logo adivinhou de quem se tratava. 


- Mary Anne! 



   De fato, a princesa a cada dia se tornava mais bela. A rainha e sua enteada, pela proximidade de idade, se davam bem, mas agora Pattie a vigiaria muito de perto. Mesmo porque os interesses pessoais de Pattie estavam envolvidos. 

 Tinha um grande orgulho de sua resplandecente beleza, e além disso… Havia um amigo do príncipe Paul, George, príncipe do reino vizinho. 

  Ele era um rapaz sensível, generoso e atraente e, pelo que se comentava, estava encantado pela princesa. Se dependesse da rainha, ele se casaria com ela, não com Mary Anne. 


***




  Naquela tarde, a princesa Mary Anne estava recebendo a visita do seu pretendente, o príncipe George. Assim como Paul, ela aguardava o dia da coroação com ansiedade, pois, após o irmão se tornar rei, ela poderia se casar.

 Mary Anne era uma jovem inteligente e que gostava de se envolver diretamente na política do reino, embora muitos não considerassem isso adequado para uma princesa. Não que ela se importasse. 

  Por mais madura e independente que fosse, a princesa ainda era uma romântica. Assim, sonhava casar-se com seu príncipe, e já estava ficando impaciente. 

 Os dois caminhavam próximos a um poço que havia no pátio do castelo. George disse, aproximando-se dela:


- Quer saber um segredo, Mary Anne? Promete não contar?



    Ela sorriu para ele.



- Qual segredo, George?



     Ele sussurrou no ouvido dela:



- Estou apaixonado por você. 



      Mary Anne riu. 



Esse é o grande segredo? Eu já sabia. - ela colocou os braços ao redor do pescoço do amado e o beijou. 


- Nunca é demais dizer novamente à minha futura noiva que eu a amo. 



   Pattie observava tudo que se passava no pátio de uma janela dos seus aposentos, e já arquitetava um plano. 


*** 



   A rainha não havia nascido com má índole. Pelo contrário, era conhecida como uma moça doce e bondosa. Sabia que era bela, mas até então, tudo que sua beleza havia-lhe conseguido havia sido um casamento com um rei idoso, em que não foi feliz. 

  Perguntava-se por que o pai, um conde, havia concordado em selar um acordo com o rei oferecendo a mão dela em casamento ao próprio, e não a um dos príncipes, jovens e belos. Porém, o rei faleceu antes mesmo de completarem seis meses de casamento. Pattie já não era mais a mesma. Estava bem mais infeliz do que era antes de se casar. 

  Assumiu o cargo de regente enquanto Paul não podia subir ao trono, e pensava no que aconteceria depois que o enteado fosse coroado. Pensava em casar-se novamente, com outro nobre, mas que desta vez fosse jovem. Só queria buscar sua felicidade. 

   Um dia, Paul recebeu no castelo a visita de um amigo, um príncipe do reino vizinho. Ele se chamava George, era alto, de delicados sentimentos, belo e um exímio tocador de alaúde. 

  O príncipe apresentou o amigo à madrasta e à irmã. Se até então Pattie e Mary Anne tinham uma relação de amigas, a relação acabou ali. Pelo menos no que dizia respeito a Pattie. A jovem rainha apaixonou-se perdidamente pelo príncipe tocador de alaúde, mas todos podiam ver que ele só tinha olhos para a princesa. E que ela correspondia aos seus sentimentos.

 A partir daí, Pattie tornou-se ciosa de sua beleza. Tratava de realçá-la ainda mais com penteados diferentes a cada dia, maquiagem, joias e roupas cuidadosamente escolhidas. Contudo, nada disso parecia surtir efeito. O príncipe George continuava a olhar apenas para Mary Anne, cuja beleza aumentava a cada dia sem que a princesa fizesse esforço algum nesse sentido. 

  No dia em que o espelho finalmente disse-lhe que Mary Anne a havia superado em beleza e que viu sua enteada e seu amado trocando beijos e juras de amor no pátio do palácio, Pattie tomou uma decisão. O ciúme a havia transformado por completo. Decidiu que faria de tudo para livrar-se de Mary Anne e ficar com George.

  Chamou o caçador real e ordenou-lhe que levasse Mary Anne para um passeio na floresta. 


- E lá, meu fiel caçador… você a matará! - exclamou ela, um brilho cruel surgindo em seus olhos. 



    O caçador, impressionado e espantado com a mudança na rainha, protestou: 



- Mas, Majestade! A linda princesa! O que ela lhe fez? Sempre foram amigas… 


- Cale-se! Se falhar, será você quem morrerá!


- Sim, Majestade. - o caçador abaixou a cabeça, resignado. 


- E para eu ter certeza de que não houve falhas, traga o coração dela aqui! - e mostrou uma caixa belamente adornada, com um fecho de ouro imitando um coração transpassado por uma espada. Era uma bela peça, mas que provocou arrepios no caçador. 



    Com o coração pesado, o caçador fez como a rainha havia ordenado. Levou a princesa para um passeio. Mary Anne não entendeu porque precisava que ele a acompanhasse, mas como seu temperamento era avesso a conflitos de qualquer tipo, não disse nada. 

   No meio do passeio, a princesa deparou-se com um filhote de passarinho caído do ninho. Apiedada, ela prontamente se abaixou e ao levantar colocou o passarinho de volta no ninho. Enquanto ela estava de costas, o caçador cautelosamente se aproximou, de faca em punho. 

  Subitamente, ela se virou para ele, e ao ver a faca apontada para ela, gritou assustada. O caçador, vendo que estava prestes a fazer algo horrível, deixou cair a faca e prostrou-se diante da princesa.


- Não posso fazer isso! Perdoe-me, imploro a Vossa Alteza, perdoe-me!


Mas o que está acontecendo? Por que ia me matar? Não estou entendendo… 


- A rainha! Ela se tornou má, invejosa, nada pode detê-la! 

- A rainha! - Mary Anne repetiu, incrédula. Eram tão amigas, Pattie era quase como uma irmã para ela desde quando ficou noiva do rei...



 O que poderia ter motivado tão radical mudança? Então Mary Anne se lembrou de alguns olhares de Pattie para George… Entendeu e lamentou profundamente. 


- Vá, menina! - instou o caçador. - Fuja! Esconda-se na floresta! 



    Atordoada e assustada, Mary Anne atendeu ao apelo do caçador. Correu mata adentro, tropeçando na barra do vestido, amedrontada mas procurando se controlar. Animais da floresta, como coelhos, esquilos e passarinhos, a acompanhavam. Até que a jovem avistou uma cabaninha com telhado de palha. Cansada, foi até lá, imaginando que talvez o habitante da casa pudesse conceder-lhe abrigo e talvez algo para comer. 

   Ela bateu na porta várias vezes, mas parecia não haver ninguém ali. Então espiou pela janela empoeirada. Não viu vivalma.


- Não tem ninguém, e a janela está coberta de poeira… Será que está abandonada? - falou ela para os animais. 



   A porta não estava trancada. Ela entrou e se deparou com uma grande desordem. A julgar pelo estado da casa, de fato não devia estar ocupada. Porém, não havia outros indícios de que os moradores tivessem deixado a casa às pressas, por exemplo.


- Que estranho… Como uma casa tão suja pode estar habitada? Vou limpar isso aqui, e quem sabe a pessoa que mora aqui me deixe ficar pelo menos por esta noite… 



     E foi o que Mary Anne fez, ajudada pelos seus amigos animais. Logo a casa estava impecável. Ainda mais cansada, decidiu procurar uma cama para se deitar um pouco. 

    Entrou num quarto com sete camas pequenas, pareciam camas de criança. "Será que sete crianças vivem aqui sozinhas? Coitadinhas…". Então ela se deitou atravessada sobre três das camas, pois nenhuma delas lhe servia. 


**** 


    Distante dali, no palácio, os príncipes Paul e Michael estavam preocupados com a demora da irmã para voltar do passeio. O príncipe George, mais ainda. Tinha um pressentimento de que algo havia acontecido com sua amada. E a rainha, para manter as aparências, afirmava também estar aflita. 


- Se Mary Anne não aparecer até a hora do jantar, liderarei uma equipe de busca pelos arredores para encontrar minha irmãzinha! - declarou Paul. 


  "Pode liderar quantas equipes quiser, meu querido enteado. Tudo será em vão", pensou maleficamente a rainha. À noite, o caçador entregou à rainha a caixa que ela havia lhe dado. Porém, o que havia dentro dela não era o coração da princesa, e sim o de um veado. 

 Satisfeita, sem saber que estava sendo enganada, Pattie guardou a caixa. E já se preparava para fazer seus avanços com George no dia seguinte. 

    

                                 ***



    Na floresta, os donos da casa supostamente abandonada onde Mary Anne buscara abrigo voltavam para casa. Era um grupo de anões que trabalhavam numa mina de diamantes ali perto. Eram sete. Ao abrirem a porta e acenderem uma vela, depararam-se com a casa tão limpa que o piso refletia suas imagens como um espelho.


- Entraram na nossa casa! - exclamou Roger Daltrey, o mais irritadiço dos anões. - Aposto que roubaram a louça! A pia está vazia!


Se foram mesmo ladrões, foram muito gentis em limpar tudo para nós! - observou Mitch Mitchell, que estava sempre feliz, não importava o que acontecesse.


- Não, Roger, a louça não foi roubada. Está limpa e guardada no armário. - disse Paul Simon, o anão que compunha lindas canções.


- Estão ouvindo uma respiração? Parece alguém dormindo… - Davy Jones, o menor de todos os anões, perguntou. 


- Sim… - Bob Dylan, o líder, finalmente falou. - Vamos averiguar isso, rapazes. 



    Então, Roger, Mitch, Paul, Davy e os outros dois anões, Terry Jones e Ringo Starr, seguiram seu líder, Dylan, escada acima. Pé ante pé, para não alertar o invasor, se aproximaram de seu quarto. 

  Dylan abriu a porta, que estava apenas encostada, com um empurrão muito leve. Entraram no quarto, sempre na ponta dos pés, segurando a respiração. Perceberam um vulto de alguém deitado sobre suas camas.


- Mas esse invasor é muito do folgado… - resmungou Roger. Ringo o acotovelou para que ficasse quieto. 



    O líder dos anões trouxe a vela para perto do rosto do invasor, puxou muito devagar o lençol que o cobria… E, para o assombro dos anões, revelou uma jovem. Uma jovem tão linda que todos eles perderam o fôlego. 


- Como ela é linda! - exclamou Davy. 


- Belíssima… - concordou Simon. - Parece um anjo! 


- Anjo? - Daltrey resmungou outra vez. - Ela é mulher. Mulheres são traiçoeiras. - mesmo assim, ele não conseguia tirar os olhos dela, e isso o irritava ainda mais. 


- Não acho que uma garota como essa poderia fazer mal a alguém, Roger. - disse Mitch. 


- Não teria tanta certeza. - Roger insistiu. A maior prova de que as mulheres eram terríveis era que ele simplesmente não conseguia olhar para outra coisa naquele quarto que não a garota deitada nas camas. 


      

  Com o burburinho da conversa dos anões, a jovem abriu os olhos. E ficou espantada ao se ver subitamente rodeada de homenzinhos. Ela não pôde evitar uma exclamação de surpresa. E eles também se espantaram por ela ter despertado de repente. 


- Bem…. Boa noite. - disse ela, polidamente. 


- Boa noite, senhorita. - respondeu Dylan.


- Eu… Imagino que sejam os moradores desta casa. Então não são crianças, afinal. Sinto muito por invadir a sua casa assim, mas eu estava tão cansada de correr pela floresta...


- Correr pela floresta? - perguntou Terry. 


- E qual é o seu nome? - quis saber Ringo.


- Ah, sim, me desculpem! Meu nome é Mary Anne.


- Mary Anne? A princesa? - indagou Davy.


- Bem… Sim. - confirmou ela. 


- É uma honra receber a princesa em nossa humilde residência. - Dylan se curvou, no que foi imitado por todos os outros, até mesmo Roger. 


- Obrigada. - ela sorriu docemente. 


- Mas por que estava correndo, princesa? - novamente perguntou Paul Simon.


- Porque… Estava fugindo da minha madrasta, a rainha. 


- A rainha?! - os anões não gostavam muito da rainha. A mina de diamantes em que trabalhavam pertencia a ela e ela não era exatamente uma boa patroa. 


- Ela quer me matar… Só porque nos apaixonamos pelo mesmo príncipe, e ele me escolheu… - Mary lamentou. - Ela sempre foi minha amiga, até George aparecer… 



       Roger pensou que aquele príncipe devia ser um grande metido a besta. 


- Isso é mesmo muita crueldade. - Ringo disse.


- Posso ficar aqui? Eu cuido da casa para vocês. Lavo, passo, costuro, cozinho… 


- Você sabe fazer tudo isso, sendo uma princesa? - Mitch ficou surpreso. 


- Meu pai achou que era importante que eu aprendesse. - explicou ela. 


- Pode ficar, Alteza. - disse Dylan. - Mas não precisa se submeter a essas tarefas, não são dignas de alguém como a senhorita. 


- É o mínimo que posso fazer para retribuir a sua gentileza. - disse Mary Anne, sorrindo e se levantando. - Agora, que tal jantarmos? 



   E ela desceu as escadas em direção à cozinha, seguida pelos anões. Todos estavam encantados por ela, principalmente Daltrey, embora ele preferisse morrer a admitir isso… 


                             *** 



    Alguns dias depois, no palácio, os irmãos e o noivo de Mary Anne estavam desolados. Procuraram a jovem por toda parte, sem sucesso. 


- E eu cheguei a pensar que celebraríamos o seu casamento com ela, George… Jamais imaginei que faríamos um funeral. - Paul tentava conter as lágrimas. Ele amava muito sua irmã. 


- E nem sequer temos corpo para velar. - Michael fungou. - Se soubesse que aquilo ia acontecer…



 Os dois príncipes, furiosos com o desaparecimento da irmã, mandaram prender o caçador que a acompanhara em seu passeio naquele dia. 

   O caçador não tentou protestar, pois, apesar de não a ter matado, ele aceitou o encargo imposto pela rainha, o que era tão ruim quanto se de fato tivesse. 

  George estava ainda mais quieto do que o normal. Paul e Michael respeitavam a dor do amigo e evitavam falar sobre Mary Anne com ele. O príncipe passou a trajar apenas vestes negras, bem como os irmãos de sua amada.

 A rainha, apesar de também passar a se vestir de preto, parecia ser a que menos sofria. Seus dois enteados estranharam, pois Pattie sempre fora muito amiga de Mary. Mas cada um lida com o luto de forma diferente. O que não imaginavam é que Pattie não podia estar mais contente… 

 Ela não perdeu tempo para colocar seus planos em relação a George em ação. Um dia, vestida, penteada e maquiada com esmero, aproximou-se de George, que tocava uma triste melodia em seu alaúde. Qualquer outra pessoa perceberia que não era um bom momento, mas Pattie, cega em sua obsessão por George, não se deu conta disso, ou então não se importou. Provavelmente a segunda opção. 


- Anime-se, George. - disse ela, sedutora. - Tenho certeza de que Mary Anne iria querer ver você feliz, não sofrendo assim. Há muitas mulheres nesse reino que o desposariam sem hesitar… - "E eu mataria uma por uma", pensou ela. - A noiva ideal pode estar mais perto do que você imagina. 


- Acontece que não desejo desposar nenhuma outra mulher, Majestade. - respondeu George. - Serei fiel até que possa me juntar a ela. 



    A rainha ficou furiosa, mas não manifestou reação alguma àquelas palavras. Foi para seus aposentos, falar com seu espelho mágico. 


- Não é possível que ele continue me ignorando dessa maneira! Sou a mulher mais bela de todo este reino! Não sou, espelho? Quem é a mais bela de todas? 


- Sois belíssima, Majestade. - respondeu o espelho. - Mas não é a mais bela de todas. 


- Como assim? - a rainha esbravejou. 


- A princesa Mary Anne ainda vive. No meio do bosque, na casa dos sete anões, a beleza de Mary Anne floresce, protegida pela sombra das árvores. 


- Isso é impossível! Tenho o coração dela guardado em uma caixa! 


- O que o caçador vos deu foi uma caixa com o coração de um veado, Majestade. 



  Pattie jogou a caixa na lareira e, tomada de ódio, desceu para os subsolos do castelo, onde, escondida de todos, praticava magias malévolas. 




                               *** 



 Como dissera o espelho, a cada dia que passava, escondida na casa dos anões, Mary Anne ficava mais linda. A princesa era muito grata e ficou muito amiga deles… Exceto de um. Roger Daltrey continuava mal-humorado e a tratava de forma seca. Os outros anões tentavam fazê-lo ser mais gentil com ela.


- Mary Anne é a criatura mais doce do mundo e você a trata desse jeito, Roger! - Davy exclamava. - Como tem coragem? Isso é ingrato da sua parte, sabia? 


- Ela me irrita. - Roger respondeu. - E você é um coração mole, Davy. Não pode ver um rabo de saia que se derrete todo. Ela não está nem aí para você, só fala daquele príncipe. 


- Ah, eu sei. - Davy respondeu. - Fico feliz em ser amigo dela. Mas por que ela te irrita? Acho que já sei. É porque você também se derrete todo por ela e não quer admitir…



  Roger ficou vermelho, de raiva e de constrangimento. 


- Não é por isso! 

- Eu entendo dessas coisas, meu amigo. - Davy disse, e deixou Roger sozinho, pensando. 




                                   *** 




   Em seu covil nos subterrâneos do palácio, a rainha criava duas poções: uma era a Poção do Sono da Morte, para Mary Anne, cujo efeito só poderia ser quebrado com o beijo do amor verdadeiro….


- Que ela não vai receber, pois George já terá bebido a Poção de Amor N. 9! - ela ria maleficamente. - Os anões ou os irmãos vão enterrá-la viva! 



  A Poção de Amor N. 9 era perigosíssima, mas Pattie estava disposta a tentar. No amor e na guerra, valia tudo. Seu plano era fazer com que George bebesse a poção e se apaixonasse loucamente por ela antes que descobrisse que Mary Anne estava vivíssima e morando numa cabana no bosque. 

   Naquela noite, durante o jantar, Pattie derramou a poção disfarçadamente na bebida de George. Desavisado, ele bebeu. É claro que ele já havia percebido antes a incrível beleza da rainha… Mas agora ele sentia algo diferente quando a olhava… 

 No dia seguinte, Pattie se transformou numa velha e procurou a cabana dos anões. Mary Anne estava sozinha em casa…

 No castelo, seus irmãos perceberam que George estava muito estranho. Procurava por Pattie incessantemente, dizendo que precisava dela naquele exato momento. 


- Pattie? Como assim? - Paul ficou furioso. - Você já esqueceu minha irmã? 


- Sua irmã morreu, Paul! De que me adianta chorar por ela? E ela nem era tão bonita quanto Pattie… 



   Paul e Michael estavam estupefatos. Mas Michael notou que o brilho nos olhos de George não parecia normal. 


- Acho que ele está enfeitiçado, Paul. 


- Enfeitiçado? - o príncipe herdeiro era um tanto cético. 


- Só isso pode explicar como da noite para o dia ele se esqueceu de Mary Anne e passou a desejar Pattie! Ou isso, ou enlouqueceu. 


- Se ele estiver enfeitiçado mesmo, o que vamos fazer? - perguntou o irmão. 


- Dizem que existe uma bruxa nas redondezas, chamada Renée Chapelle. Ela faz magias benévolas… Desde que a paguem bem. Vamos procurá-la e pedir que quebre o feitiço! 




    Enquanto os príncipes se embrenhavam na floresta atrás da bruxa boa, Pattie batia à porta da casa dos anões. Mary Anne atendeu, e ao ver aquela velhinha, pensou se tratar de uma inocente vendedora. 



- Olá, minha menina. - disse Pattie, na voz mais doce do mundo. - Gostaria de comprar maçãs? 


- Maçãs? - Mary Anne olhou para dentro e percebeu que havia cestos transbordando de frutas na casa dos anões, inclusive maçãs. - Bem… Acho que não, obrigada. Temos muitas frutas, mal estamos dando conta de comer tudo…


- Ah, mas duvido que destas maçãs que concedem desejos vocês tenham em casa! 


- Concedem desejos? - Mary Anne ficou desconfiada.


- Exatamente… Aposto que esse jovem coraçãozinho tem um desejo muito bem guardado lá no fundo… Um rapaz que você anseia por reencontrar, talvez… 




      Mary Anne corou. De fato, sonhava todas as noites rever George, ao menos uma vez, mas tinha medo do que Pattie poderia fazer se ela voltasse ao castelo.


- Dê uma mordida, minha menina. Além de conceder desejos, esta é a maçã mais deliciosa do mundo… 



        Na cabana de Renée… 


- Pela descrição que fazem, o amigo de vocês foi envenenado com a Poção de Amor N. 9. 


- O que é isso? - perguntou Michael. 


- A poção de amor mais perigosa que existe, meu príncipe. O único antídoto é fazer com que seu amigo veja sua irmã outra vez… Desde que ela beba a Poção de Psiquê. É como a Poção de Adônis, mas atrai homens em vez de mulheres.


- Mas como vamos fazer isso, se nossa irmã morreu? - Paul protestou.


- Sua irmã não morreu, príncipe Paul. - respondeu a feiticeira. - Ela vive com um grupo de anões, do outro lado da floresta. 




   Renée instruiu os dois príncipes sobre como encontrar a cabana dos anões, e eles correram para lá, levando a Poção de Psiquê. Ao mesmo tempo, George cavalgava para lá, como se um ímã o atraísse, e os anões voltavam para casa após o dia de trabalho na mina. 

    Os primeiros a chegar foram Paul e Michael. Chegaram no exato momento em que Mary Anne caía desfalecida, após dar uma mordida naquela maçã, tão vermelha que era irresistível. A bruxa estava em êxtase. Gargalhava de forma assustadora. 



- Quem é você? O que fez com minha irmã? - Paul apeou do cavalo, já apontando a espada para aquela velha estranha.


-  Não me reconhece, entrado querido? - ela mais uma vez deu aquela risada maligna de dar arrepios na espinha. 


- Pattie?! - Paul e Michael se espantaram. 


- Eu mesma! Encontrei a sua irmã… E providenciei para que vocês tivessem um corpo para enterrar! Posso até providenciar um esquife para a velarem! - ela estalou os dedos e um esquife de ouro e cristal surgiu. 



   Os anões chegaram e todos ficaram alarmados ao ver Mary Anne caída, como se estivesse morta. Eles se amontoaram em volta de sua querida amiga, desesperados. Até Roger chorou. E Pattie aproveitou a confusão para tentar fugir. Mas Michael deu um puxão nas rédeas de seu cavalo e tentou persegui-la, enquanto Paul, resignado, se abaixou ao lado da irmã e fechou seus olhos. 



- Tão linda, parece estar dormindo. - suspirou Terry Jones. Paul concordou tristemente. 



  Ele não sabia o que fazer com a Poção de Psiquê. Era uma pena que não conseguira chegar a tempo de salvar Mary Anne. Mas não podia deixar George enfeitiçado para sempre… Pegou o corpo inerte da irmã com cuidado e virou o conteúdo do frasco em sua boca, delicadamente. O corpo dela ainda estava quente, pareceria viva se estivesse respirando.

  Seu plano era encontrar George, enquanto Michael perseguia Pattie, e levar o amigo para ver sua irmã no esquife. Assim, pelo menos, ele poderia se despedir da mulher que amava verdadeiramente. 

   Paul colocou Mary Anne no esquife e deixou Ringo, Davy e Mitch velando-a, em seguida montando em seu cavalo para procurar George. Dylan, Simon, Daltrey e Terry perseguiam Pattie com Michael. 

  Uma tempestade violenta começou a cair. A bruxa estava encurralada na escarpa de uma montanha. De um lado, o precipício. De outro, o príncipe e os anões que a perseguiam. Com a ajuda de um galho seco, ela tentou soltar uma pedra enorme para fazê-la rolar contra seus perseguidores… Mas um raio a atingiu e ela caiu precipício abaixo. 

  Embaixo da chuva torrencial, Paul encontrou George. 


- Paul… Pattie… Eu preciso vê-la…


- Há algo que você precisa ver ainda mais do que ela, meu amigo. Deixe-me levá-lo…



   Como a direção para onde Paul queria levá-lo era a mesma para onde George sentia em algum lugar dentro de si que precisava ir, deixou-se guiar. 

  Quando chegaram à região da floresta onde estava o esquife de Mary Anne, a chuva parara e o sol brilhava, iluminando o esquife, que resplandecia. George apeou do cavalo ao perceber quem estava dentro dele. 



- Mary Anne… - ele tirou o chapéu e o levou ao peito. - Mary Anne, meu amor… 



  Paul suspirou, aliviado. A Poção de Psiquê surtiu efeito. Michael e os anões, além dos animais da floresta, que rodeavam o esquife, abriram espaço para o noivo enlutado. Ele se debruçou sobre o esquife e chorou. Os príncipes e os anões assistiam à cena profundamente comovidos. 

  Mesmo sabendo que aquilo era um desrespeito, George abriu o esquife e beijou Mary Anne. Ele não conseguiu se conter, precisava beijá-la. Estranhamente, os lábios dela continuavam macios e quentes como eram em vida…

  Então, para o assombro de todos, ela abriu os olhos e chamou, com sua voz meiga:


- George? É você? 


- Mary Anne! 



     Ele a pegou nos braços e a beijou de novo. Os irmãos e amigos de Mary Anne mal conseguiam falar, de surpresa e felicidade diante do que parecia ser um milagre,  pois não sabiam que ela ingerira uma poção que apenas fazia parecer que ela estava morta.

      A princesa se preparou para voltar ao palácio com seus irmãos e seu noivo, mas antes, agradeceu aos seus amigos anões pela hospitalidade e pelo carinho, dando um beijo em cada um deles. Roger Daltrey foi o que corou mais fortemente. 

    A partir daquele dia, os anões deixaram de trabalhar na mina e se tornaram funcionários dos príncipes. Paul foi coroado rei, Michael viajou para um reino vizinho em busca de uma noiva e Mary Anne e George foram para o reino dele, onde se casaram, tiveram filhos e foram tão felizes quanto possível, até o dia em que a morte realmente os separou, muitos anos depois.