sábado, 27 de junho de 2015

Oneshot: Enchanted (What If - Modern Vampires Of The City): Parte VII

Boa tarde! Mais uma parte dessa oneshot gigantesca! 






                               Os quatro homens se encontravam desesperados. Ademais, Micky e Davy não sabiam o que fazer com seus filhos. Christian, Cecilia e Rebecca acordaram com a agitação, e ao dar pela falta de suas mães, começaram a chorar.

- Ah meu Deus, onde está minha vampirinha? – Davy estava completamente perdido, e, para piorar, não conseguia pegar uma das gêmeas no colo para acalmá-la sem que a outra começasse a chorar ainda mais.

- E onde está Emma? Acho que Christian quer leite. – Micky tentava distrair seu filhote.

- Rapazes... Precisamos ir procurar nossas mulheres. – disse Mike.

- É claro! – respondeu Davy. – Mas como Micky e eu vamos sair e deixar nossos filhotes aqui?

- Peter e eu cuidamos disso. – interviu Renée.

- Como? – quis saber Micky.

- Vamos colocar os bebês sob feitiços protetores. – esclareceu o mago atrapalhado. - Venham, vamos cuidar disso já. É importante que não percamos tempo.

                             Micky levou Christian de volta ao quarto e colocou o bebê no berço, cobrindo-o cuidadosamente. Renée acenou a mão sobre o pequeno, murmurando palavras mágicas. Os olhos do filho de Micky imediatamente se cerraram, e ele dormia profundamente. Uma aura mágica circundava o berço.

- Pronto. Ele ficará seguro. – afirmou Renée.

- Obrigado. – o lobo respondeu.

                             No quarto de Davy, Peter havia aplicado o mesmo encantamento sobre os berços das gêmeas vampirinhas. Com as crianças dormindo protegidas pela magia do feiticeiro e da alquimista, os adultos saíram da mansão. Encontraram Bobby Moore, Paul McCartney, Ringo Starr, George Harrison e George Best, apreensivos com o desaparecimento de Marianne Jones, Mary Anne McCartney, Alberta Mann (loba por quem Ringo vinha manifestando certo interesse e amiga de Renée) e Rosie Donovan. Logo, surgiu Christopher Romanov, o exilado. Sua namorada, Vivian, irmã de Rosie, também havia sumido.
                             Todos rumaram para o Castelo Beckenbauer. Suspeitavam que as mulheres que lá viviam também haviam desaparecido.

- Franz, aconteceu algo. As mulheres desapareceram! – disse Bobby Moore, nervoso.

- Levaram a Dianna!

- Emma!

- Alana, minha loba!

- Eu mal recuperei a Erin, agora some de novo!

                              Manuel Neuer, Michael Palin e Paul Breitner também haviam se juntado àquela reunião masculina desesperada. O caçador estava com uma aparência bastante desleixada. Todos os olhos se voltavam para ele. Constrangido, deu um pretexto:

- Antes que me questionem, sim, eu estava com Ana e quase fazendo amor. E ela saiu caminhando até sair da casa.

- Alice a seguiu e pedi para ela voltar e não me ouviu! – exclamou Palin.

- FOI AQUELE DOUTOR HOLANDÊS CHARLATÃO! – gritou Neuer, quase fora de si. – EU VOU MATAR ELE!
                
                            Após a afirmação de Breitner, Christopher continuava quieto. O caçador, ainda centro das atenções, falou por fim:

- Ok, eu estava mesmo fazendo amor com a Anastacia! Pronto! Até parecem que nunca fizeram amor com suas amadas!

- QUIETOS! – Moore ordenou. – Todos aqui estamos desesperados. Nossas mulheres sumiram e não sabemos como aconteceu.

- Ou o que aconteceu. - disse Mike. Estava incomodado por estar ali com seus antigos rivais, Gerd e Palin.


                               Uma música suave fez-se ouvir. Vinha da floresta. Christopher sentiu algumas pequeninas fisgadas no ouvido.

- Está tudo bem, Chris? – perguntou-lhe Palin, estranhando.

- Sim. – o lobisomem disfarçou. – Só... Uma coceira no ouvido.

                                 Os homens e Renée seguiram, e a música se tornava mais nítida. Chegaram a uma parte da floresta que conduzia para a Ilha das Mandrágoras. Os líderes pararam na entrada e ouviram a música atentamente. Era realmente bela. Gerd viu as mulheres, e Louise sendo abraçada por Ronnie Peterson.

- Ursinha! – exclamou. Deu um passo a frente e ia em direção a eles, contudo, Franz o impediu.

- GERD, SAIA DAÍ!

- Me solta, Franz! A minha mulher está lá!

- Eu sei, mas estamos bem na entrada da ilha. Se essas mandrágoras acordarem, vão gritar a ponto de estourar nossos tímpanos. Onde será que Sepp se meteu?

- Enquanto vocês se perguntam o que elas fazem aqui, aproveitem a bela música e sofram! – Ronnie disse, e voltou a tocar sua flauta.

                         Os homens foram acometidos por dores excruciantes, alguns começando a ter alucinações e perdendo a força. Aproveitando-se disso, o vampiro taberneiro atacou-os, rindo malignamente.  Renée não havia sido enfeitiçada pela música, e Peter não sentia as dores ou as alucinações. Então, os dois magos saíram dali na surdina e foram ao vilarejo, em busca de ajuda.
                          Foram até a casa de Anastacia. O mordomo dela, Primus, os recebeu e levou até onde estavam a feiticeira Nora, sua avó, Lyanna, também dotada de poderes mágicos, e o amado da jovem feiticeira, o vampiro Sepp Maier.

- Quem são vocês? – perguntou a velha maga.

- Sou Renée Chapelle.

- E eu sou Peter Tork. Viemos aqui para ajudar a criar a poção contra essa música. Não fui afetado e nem a Renée, e a casa de Ana era a mais próxima.

- Bem, já temos aqui. – Nora mostrou um frasquinho contendo um líquido azul.

- Mas é pequeno e insuficiente. – disse Renée num resmungo. – Peguem uma garrafa maior, vou fazer a transmutação.

                               Enquanto Nora e a avó procuravam um recipiente maior, Renée desenhou na mesa um Ouroboros e uma estrela no centro. Nora entregou uma garrafa à alquimista, que depositou o objeto bem no centro da figura e começou a rezar em latim, em voz baixa. Ergueu a mão tatuada e pousou-a sobre a mesa com um estrondo. O pequeno frasco e a garrafa desapareceram magicamente, e um véu de magia deixou ali uma garrafa grande, contendo muito mais poção. Renée entregou a garrafa de poção a Nora.

- Está feito. Leve para aqueles homens!

                                Nora, por sua vez, deu a garrafa a Sepp, que saiu numa corrida desabalada à Ilha das Mandrágoras, seguido por Peter. Lá chegando, depararam-se com os homens sofrendo com as dores excruciantes, gritando e gemendo. Mike e Micky lutavam entre si, em decorrência das alucinações.  Davy estava caído no chão, não muito longe deles, contorcendo-se em dor. O conde estava desmaiado, Gerd sufocado e com os olhos e o rosto vermelhos.  O lobo alfa, Bobby Moore soltava longos uivos de dor e Paul e Ringo, como Mike e Micky, lutavam inconscientes de que cada um feria o próprio amigo. Best se encontrava estatelado no chão, com uma ferida horrorosa na cabeça.
                              As mulheres estavam indiferentes a tudo. Não pareciam notar o sofrimento dos seus homens. Ronnie continuava a tocar, sem perceber que Peter e Sepp estavam ali.

- Vamos agir rápido! – disse Sepp, jogando a poção sobre seus amigos.

                               Em seguida, Peter jogou a poção sobre seus amigos. Aos poucos, todos se recuperavam.

- Sepp... – Franz acordou, e levantava-se com alguma dificuldade. – Onde... Estava?

- Com minha Katzchën! Mas estou aqui!

                                   Com os sentidos recobrados, Gerd e Best, tomados pela ira, bradaram fortemente, despertando a atenção de Peterson. Correram até o vampiro flautista, prontos para atacar.

- Malditos! – exclamava Ronnie. – Vão morrer sob a bela música.

                                      Entretanto, antes que ele pudesse levar seu instrumento à boca, sua mão foi atingida por uma flecha de prata, que queimava, fazendo-o derrubar a flauta. Gerd pegou-a e partiu ao meio, lançando em seguida na boca imensa de Caríbdis, a maior e mais aterradora das plantas carnívoras. O besteiro que havia acertado Ronnie era o mago George Harrison.

- Seus imprestáveis... – rosnava Peterson, enquanto era levado por Best e Gerd diante da presença de Franz e Bobby.

- DESMEMBREM O VAMPIRO! – ordenaram eles.
                                   
                                     Ronnie foi desmembrado e surrado. Antes que Paul  lhe arrancasse o braço esquerdo, gritou:

- Mesmo que me matem, não vai adiantar! A guerra será iminente! – após dizer isso, arrancou o próprio olho e mostrou ao Conde Beckenbauer.  – Este olho... Levará a mensagem ao barão. Ele saberá que você está... Cof cof... Com Odile.

                                       O olho desapareceu no ar. Furiosos, os lobos e vampiros depositaram Peterson diante de Breitner. Armado com a balestra usada minutos antes por George, posicionou a flecha prateada e mirou no vampiro tocador de flauta, rezando.

- Que Deus tenha piedade de sua alma, nosferatu! – a flecha assobiou no ar, indo pousar bem no coração de Ronnie Peterson, que tombou no chão e foi levado dali por Gerd e Best, que se preparavam para jogá-lo para Caríbdis.
- Isto é pela Rosie!
- Isto é pela Louise, minha ursinha!

                                       Arremessaram o corpo desmembrado do vampiro na bocarra da planta, pondo um fim na contenda. As mulheres despertaram da hipnose e cada uma se juntou ao marido ou amante.
                   
                                                                       ***
                              Davy havia carregado Dianna da floresta até a mansão. Ela se segurava firmemente com os braços ao redor do pescoço do marido, como se tivesse medo de ser enfeitiçada outra vez e buscasse proteção. Já em seu quarto, ele colocou a esposa no chão. A vampira correu até os berços de suas filhas, que dormiam protegidas por um feitiço de Peter que tinha o intuito de repelir qualquer perigo que ameaçasse as bebês durante a ausência de Davy. Renée havia lançado o mesmo encantamento sobre o berço de Christian para que o filhote de lobisomem ficasse seguro enquanto Micky estivesse fora.

- Minhas morceguinhas, como mamãe quase se esqueceu de vocês? – ela acariciava as gêmeas com cuidado para não acordá-las, sentindo-se culpada.

- Eu sei que está se sentindo culpada, Di. – disse Davy. – Mas não tem motivo para isso. Você não podia lutar contra a magia de Peterson.

- Leu minha mente outra vez, Davy? – ela riu. – Pensei que você só fizesse isso quando estamos... Você sabe.

- Ler sua mente é realmente muito útil quando estamos em nossas intimidades, querida. Mas também lanço mão disso em alguns outros momentos. Ainda bem que você não tem o costume de ler a minha mente. – ele deu uma risada nervosa. – Tenho alguns pensamentos, hã, constrangedores.

- Você só pensa nisso, seu vampiro safado. – Dianna deu um intenso beijo nos lábios do marido.  – Não leio sua mente porque não preciso. Você não consegue me esconder nada.

- Na verdade... – Davy começou a dizer algo, contudo, pensou melhor e se calou.

- Na verdade o quê? – Dianna ficou desconfiada.

- Nada importante.

- Fale! O que você está me escondendo, Davy? – o tom de Dianna denotava o nervosismo crescente dela.

- Eu não contei a você toda a verdade sobre minha expulsão das terras do Conde Beckenbauer.

- Não foi por sua amizade com Mike, Micky e Peter?

- Em parte. Porém, fiz algo que atiçou mais a ira do conde.

                          Dianna se perguntava o que seu marido havia feito. Ele deu fim ao suspense:

- Di... Eu beijei a Lulu. E fomos denunciados por alguém. Lulu desconfia de Alice, mas não creio que tenha sido ela. Minha suspeita recai sobre Gerd.

                            A vampira ficou quieta, digerindo a informação. E por fim explodiu:

- VOCÊ FEZ O QUÊ?

- Dianna, não grite, vai acordar todo mundo, começando pelas meninas. – pediu Davy, tentando acalmar sua esposa.

- POR QUE NÃO ME CONTOU, DAVID? – quando Dianna chamava o marido de David, estava furiosa. E ele sabia muito bem disso.

- Porque eu sabia que você iria reagir assim.

- SOMOS CASADOS! PENSEI QUE NÃO TIVÉSSEMOS SEGREDOS! – as lágrimas começaram a cair pelo rosto da vampira, corado pela raiva.

- Di, por favor. – Davy pegou o rosto da esposa em suas mãos e enxugou as lágrimas dela. – Aquilo foi um ímpeto. Não sei o que me levou a beijar Louise. Talvez... Talvez porque naquela época eu não tinha esperanças de ter você para mim.

- Como não tinha esperanças? Era visível o quanto eu gostava de você. – Dianna murmurou. – Todos no vilarejo sabiam que a filha dos diplomatas estava apaixonada pelo filho do dono da loja de tecidos.

- Eu havia acabado de me tornar um vampiro. Não sabia lidar bem com meus novos poderes. Temia que você me rejeitasse, com medo de mim.

- Eu... Confesso que quando nos reencontramos eu tive um pouco de medo sim. Entretanto... Quando me beijou, eu me esqueci de todos os meus receios, Davy. Sei que os lobos têm imprinting, não haveria algo parecido para os vampiros?

- Pode ser. Um imprinting vampiresco. – ele deu um pequeno sorriso.

- Você... Realmente não sente nada pela Louise?

- Nada mais do que uma grande amizade, Di. Leia a minha mente, se quiser.

- Não é necessário. Seus olhos não te permitem mentir, Davy. Só peço que não me omita mais nada.

- Eu prometo.

                       Dianna puxou o marido para perto de si e beijou-o ardentemente. Foi dando passos para trás, até chegar à beira da cama. Deitou-se e levou Davy com ela. A noite estava apenas no seu início.
                 
                                                               ***


                           Na noite seguinte, todos assistiam enquanto Peter, com ajuda de Renée, arrumava magicamente um dos quartos desocupados da mansão para que se tornasse um quarto de bebê. Renée tentava decorar o quarto de maneira delicada, pois ela sentia que a pequena vida se formando no ventre de Erin era uma menina. Peter também tinha esse pressentimento, mas, na verdade, não se importava se a esposa esperava uma menina ou um menino. Amaria a criança do mesmo jeito.

- Sabe, Allie, eu me pergunto quando teremos nossos lobinhos. – Mike disse à esposa.

- Acredito que não vai demorar muito, meu lobo.  – Alana respondeu, sorrindo para Mike.

- Falando em lobinhos... Quando teremos mais, Emma? – Micky deu um sorriso malicioso para sua esposa.

- Espere Christian crescer mais um pouco, Micky. – disse a loba loira, ajudando seu filho a ficar em pé. O pequeno estava chegando à idade de aprender a andar, e ela e o marido estavam orgulhosos. Christian conseguiu se equilibrar e deu passinhos desajeitados em direção ao pai.

                    Micky pegou seu filhote nos braços quando o bebê chegou onde ele estava. Beijou os cachinhos loiros de Christian, bagunçados como seus próprios cabelos, e disse:

- Nesse ritmo, logo nosso garoto estará andando e falando, e não precisaremos esperar muito, Emma.

                  Emma nada respondeu. Apenas olhou com carinho para o marido e o filho e sorriu. Indagou, então, ao casal de vampiros, sentados num dos sofás, cada um com uma das gêmeas no colo:

- E quanto a vocês? Não querem ter mais filhos?

- Do jeito que esses dois são, mais filhos não é uma possibilidade, é uma certeza. – Mike gracejou, levando uma cotovelada repreensiva de Alana.

                    Dianna e Davy não ficaram ofendidos com a observação do lobo. Riram bastante, e a vampira disse:

- Davy e eu conversamos sobre isso. Achamos que talvez seja melhor não. Se porventura eu tivesse dado à luz somente um bebê, poderíamos considerar ter mais filhos. Contudo, tive gêmeas. Duas já está de bom tamanho.                   

                       Ouviu-se então uma batida na porta, e Peter, após finalmente haver terminado a arrumação do quarto de seu filho, foi abrir. Lá estavam Louise McGold e seu marido, Gerd Müller.

- Boa noite! – cumprimentou-os.

- Olá, Peter. Davy está na mansão? – quis saber Louise.

- Sim. – o feiticeiro respondeu. – Podem entrar e fiquem à vontade.

                            Louise e Gerd entraram na casa, e observaram o ambiente. Sentaram-se num sofá na sala e  encontraram as cinco mulheres que habitavam ali. A vampira conhecia apenas Dianna. Leu as mentes de três das outras, e descobriu que eram as esposas de Micky, Mike e Peter: Emma Carlisle Dolenz, Alana Watson Nesmith e Erin Hudson Tork. Não conseguiu, porém, fazer a leitura da mente da quarta moça que lhe era desconhecida. Ela tinha um lado do rosto, de fisionomia serena, encoberto por madeixas lisas e negras e uma tatuagem de uma cobra mordendo a própria cauda no dorso da mão.  “Ela deve estar bloqueando”, pensou Louise.
                            Davy veio ao encontro de sua amiga.

- Louise! Estou feliz que tenha vindo me visitar! – então se deu conta da presença de Gerd com uma expressão séria. – Mas não sabia que trouxe seu amante, digo, marido.

- E eu mais ainda por te ver tão alegre, meu amigo. – olhou para as demais pessoas presentes na cena, e eles se retiraram. A moça esquisita ainda analisava Louise, e aproximou-se.

- Seu nome é Louise? – inquiriu.

- Sim. E quem é você?

- Renée. – a moça se apresentou.  – Acho que não somos parentes, pelo menos não da parte do seu pai ou da sua mãe.

- Espere! Eu não entendo...

- Sou filha de Elaine Chapelle, irmã de Sophie. Ou seja, sou prima da Felicity.

                              Louise nada sabia da família de sua tia, morta havia algum tempo. Deu de ombros.

- É um prazer em conhecer, Renée. Este é meu marido, Gerd Müller.

                                Renée olhou profundamente para os olhos de Gerd, e para os observadores da cena, parecia estar em transe. Ela vislumbrava uma versão do vampiro num futuro distante, numa outra vida, em que ele era um médico de talento, e estava acompanhado de uma moça com a aparência de Louise. Havia também uma jovem alta, médica como ele, mais velha do que a outra e dona de cabelos pretos e grandes olhos azuis. O médico parecia estar indeciso entre elas, contudo, seu coração batia mais rápido por apenas uma delas. Finalmente, a maga saiu do transe.
- Me desculpe... – pediu ela, constrangida. – Tive uma visão... Mas é muito complicada. Contudo, foi um prazer te conhecer, herr Müller, e ótimo conhecer mais um membro da família McGold.

                                Retirou-se, deixando o trio de vampiros a sós. Davy quis saber:

- Bem, qual é o motivo da visita? – por um momento, ocorreu ao vampiro que sua amiga queria continuar a conversar sobre ter filhos. Todavia, não era nada disso.

- Davy, se lembra daquele dia em que... Aconteceu nosso ato impensado? – e piscou o olho para que o amigo compreendesse do que ela estava falando.

                                    Davy sentiu um frio percorrer sua espinha. Era muita coincidência que houvesse aberto o jogo com Dianna e logo na noite seguinte Lulu trouxesse aquele assunto à tona. Ambos haviam decidido enterrar o assunto, por que de repente ela o relembrava? Ainda mais na frente do marido? 

- Ah sim. – respirou profundamente. – O que tem isso?

- Pois bem, descobri quem nos denunciou ao conde, e realmente não foi Alice.

- Quem foi?

- Meu marido! – Louise exclamou. Gerd levantou-se do sofá e postou-se ao lado da esposa.

                                    A princípio, Davy riu. Então notou que o casal de vampiros visitantes estava sério. Processou a informação, e gritou, deixando-se levar pela irritação com Gerd:

- EU SABIA, EU SABIA! SEMPRE SUSPEITEI QUE FOSSE VOCÊ, GERD! – avançou na direção do vampiro maior, pois queria esmurrá-lo. Louise impediu-o. – POR SUA CULPA DIANNA QUASE FOI MORTA PELO CONDE, SEU MALDITO!

                              O vampiro inglês não podia acreditar. Aquele chucrute desgraçado era a causa de ser tratado como proscrito nas terras do Conde Beckenbauer, e Davy quase havia perdido seu maior tesouro, Dianna, pela ação do marido de Louise. Era demais.

- Davy! – Louise continuava a segurar o amigo com firmeza. – Por favor, ouça o que meu marido tem a dizer.

- Pequeno anão inglês, estou aqui porque minha senhora pediu, mas por mim você já estava nos jardins de meu amigo! – Gerd disse, o que serviu apenas para deixar Davy mais enraivecido.

- Eu juro que se você não fosse amado por Louise, a essa hora já teria te mandado para a Ilha das Mandrágoras e te deixava morrer lá. Ou melhor, te jogaria na boca de Caríbdis. – Davy rosnou.

- PAREM! – a paciência de Louise atingiu o limite. – Por favor, vamos conversar normalmente. Davy, ouça com atenção meu marido. Gerd, deixa de sarcasmo e fale a verdade e se desculpe com meu amigo!

                              Os dois vampiros ficaram quietos, deixando Louise apreensiva. Ela notou que os amigos de Davy estavam na escada, ouvindo tudo. Mike tinha as unhas cravadas no corrimão da escada, como as garras de um lobo na carne da presa. Estava se controlando para não descer e acabar com Gerd ali mesmo. Ainda que estivesse casado com Alana e a amasse mais do que tudo nesse mundo, nunca esqueceria a raiva que tinha do vampiro alemão por causa de Alice. Micky fazia esforço para não rir da situação, e Peter observava tudo com atenção.
                               Louise quebrou o gelo:

- Gerd!

- Está bem! – Gerd resolveu acabar logo com aquilo. – David Jones, eu peço desculpa por denunciar você ao conde Franz. Minha intenção era afastar você de Louise porque achei que vocês estavam se envolvendo. E mesmo casado, eu amava Louise e ainda amo. Pode aceitar minhas sinceras desculpas se quiser. Ao menos fiz o que minha ursinha pediu.

                                  Um pouco mais calmo, Davy olhou um pouco para os lados, deu um grande suspiro e respondeu:

- Tudo bem. Aceito suas desculpas.
                                    O amigo e o marido de Louise apertaram as mãos amistosamente, tranquilizando Louise, que não pôde evitar sorrir.

- Obrigada, Davy! Temos que voltar ao castelo, ursinho, antes que o conde perceba. Até outro dia, meu amigo.

- Até outro dia, minha amiga Lulu. E até outro dia, Gerd!

- Até mais, Davy!

                                 O casal de vampiros foi embora, e Mike, Micky e Peter desceram as escadas.

- Teve medo do Gerd? – Micky inquiriu.

- Jamais! Ele pode ser mais forte, mas não tanto assim.

- Talvez... Tanto ele quanto você queriam lutar. – observou Peter.

- O importante é que está tudo resolvido. E agora vou para o meu quarto, boa noite, pessoal!

- Boa noite, Davy!

                                         Os outros três ainda estavam um pouco desnorteados devido ao ocorrido. Porém, logo cada um também foi ao seu quarto se juntar a sua respectiva esposa. Davy estava aliviado. Agora que ele havia relatado tudo a Dianna e Gerd havia se revelado o verdadeiro delator e pedido perdão, o assunto estava de fato encerrado.
                                     O pequeno vampiro abriu a porta do quarto com cuidado para não acordar os demais moradores da casa. Encontrou Dianna ainda desperta, esperando por ele.

- O que Lulu e Gerd queriam, meu amor? – ela indagou.

- Louise queria que Gerd me pedisse perdão por... Bem, você sabe. Ter me delatado por beijar a Lulu. – respondeu ele, enquanto se deitava ao lado da esposa.

- Então você estava certo! Foi ele.

- Sim. Não me parecia coisa da Alice. Bom... Confesso que agora posso dormir mais tranquilo. Não há mais nada para ser esclarecido sobre esse assunto.  Acabou.  – Davy suspirou.

- Sim, acabou. – Dianna deu um beijo na testa do marido.

- Mas... Di, por culpa dele eu quase perdi você. Não gosto nem de pensar no que teria acontecido se Louise e eu não tivéssemos chegado a tempo...

- Esqueça isso. Vocês me salvaram. E estou aqui com você, Davy, e isso é o que interessa.

               Davy fez um gesto de concordância com a cabeça e abraçou a esposa. Cheirou os cabelos dela, enquanto ela se aconchegava em seu peito. Dormiram por fim.

***


                    Alana se sentia um pouco deslocada das suas amigas. Emma tinha Christian, e ele já estava aprendendo a andar e a falar, o que deixava os pais lobos muito felizes. Dianna tinha suas vampirinhas Cecilia e Rebecca, e Davy e ela viviam para mimar as bebês. E Erin, grávida, não deixava de sorrir. A alegria dela e de Peter só aumentava a cada dia.
                    A pequena loba se perguntava se ela e Mike também gerariam um filhote logo. Sabia que ele queria isso tanto quanto ela. Todas as noites se unia ao marido, na esperança de que seu desejo se realizasse.
                     O que ela não sabia era que um certo vampiro a serviço do Barão Lauda, o maior inimigo do Conde Beckenbauer, chamado Felix Kroos, estava louco para colocar suas mãos nela, e para isso faria o que fosse preciso, até mesmo atrair Mike para uma armadilha e matá-lo.
                       Felix e seu irmão, Toni, haviam sido enviados às redondezas do Castelo Beckenbauer e da Ilha dos Lobisomens para tentar executar a missão em que Ronnie Peterson havia falhado: encontrar Odile Greyhound. Os dois, em suas formas de morcego, sobrevoavam a região, e o destino pregou-lhes uma peça: foram tomados de desejo por duas lobas.
                      Enquanto Toni queria Rosie Donovan mesmo sabendo que ela já tinha, secretamente, o vampiro George Best, Felix desejava Alana, e tinha um plano maléfico para tirar o marido dela do caminho. Os dois irmãos vampiros, então, armaram para capturar os amados de Rosie e Alana, atrair os alvos de seus desejos e de quebra conseguir delas a localização de Odile. Caso elas não falassem... Best e Mike seriam mortos.
                         Certa noite, Mike ficou encarregado, juntamente com Micky, de caçar os animais para o jantar. A dupla de lobisomens saiu, e logo farejaram um bando de cervos. Puseram-se à espreita de um dos maiores e mais gordos, já que precisavam de bastante carne para eles, Alana, Emma e o pequeno Christian, além de uma parte dela para Peter, Erin e Renée, e sangue do animal para Dianna e Davy.
                         Mike ouviu um estranho ruído. Parecia um cervo machucado.

- Ouviu isso, Micky?

- Ouvi o quê?

- Ora! Há algum cervo ferido em algum lugar por aqui, fazendo barulho. É mais fácil pegar um cervo ferido, ele não irá muito longe.

- Depois eu que sou maluco! Não ouvi nada!

- Não estou louco! Eu ouvi!

                      O lobo ignorou o amigo e seguiu em direção de onde vinha o tal som. Seguiu por entre as árvores, e o barulho emitido pelo animal ficava mais alto. Chegou, mas nada encontrou. Sem entender, Mike fez um movimento para voltar ao ponto de onde vindo, até que subitamente um homem, alto como ele, porém mais encorpado, colocou-se diante dele. O estranho acertou-lhe um soco no estômago.
                     Mike pôs-se de pé quase de imediato, como se não houvesse nem feito cócegas, e tentou revidar... O que não deu certo, pois Felix deu-lhe um golpe muito forte na cabeça com um galho de árvore que arrancou, tão prodigiosa era sua força. O lobo desmaiou.
                    Micky queria que Mike não fosse tão cabeça-dura. Meteu-se no meio do bosque atrás de um som que estava apenas em sua imaginação, e sumiu. Micky matou sozinho um cervo, pois sua esposa, seu filho e seus amigos ainda precisavam se alimentar, e levou o animal para a mansão. Quando ele entrou desacompanhado, todos estranharam. Alana, preocupada, indagou:

- Micky... Onde está meu marido?

- Nós... Estávamos espreitando um cervo, quando Mike disse que havia ouvido o barulho de um cervo machucado. Eu não ouvi nada, contudo, aquele teimoso se embrenhou na floresta seguindo o som que só ele ouvia, e... Sumiu.

- Sumiu? Ah, meu Deus, meu lobo! O que aconteceu com meu lobo?  - a esposa de Mike ficou exasperada.
                         








                         
               

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Hittin' The High Seas - Episódio 4 (Minissérie)

Mais minissérie pra vocês! Boa leitura!






                                                              Episódio 4



                   Naquela noite, Davy não conseguia dormir. Pensava em Dianna, em suas filhas e em sua casa. Olhava, pela janela, para o mar e o céu, tão infinitos.

- Dianna... Perdoe-me, meu amor. Se eu soubesse que aquela missão me manteria tão longe de você e das nossas filhas... – ele murmurava.

- Davy. – ele ouviu a voz de Atena atrás dele.

- Senhora Atena. – Davy curvou-se diante da deusa.

- Sente falta delas, não é?

- Mais do que qualquer coisa, senhora.

- Gostaria de ver como estão?

- Oh! Sim! Por favor!

               Atena tocou o chão do quarto, e algumas imagens se formaram no piso. Davy abaixou-se para vê-las melhor. A primeira imagem mostrava uma mulher bela porém madura, desmanchando o que parecia ser uma tapeçaria.

- Dianna... – Davy tocou a imagem, carinhosamente. – Ela... Não mudou nada. Tão linda como antes. Mas... Por que ela está desmanchando essa tapeçaria?

- Você fez bem em escolher para si uma esposa cuja astúcia se iguala à sua. Esta tapeçaria é a artimanha que Dianna encontrou para se esquivar à insistência de Peter Noone em torná-la esposa dele. – explicou Atena. – Ela disse a Noone que só se casará com ele quando terminar a tapeçaria... Algo que nunca acontecerá. Ela desmancha à noite todo o trabalho do dia.

                  Davy sorriu.

- E minhas filhas? – ele estava louco para ver suas meninas crescidas.

                 Atena acenou e a cena mudou. Davy viu duas jovens, muito bonitas e parecidas com Dianna. Elas tinham no máximo vinte anos e liam num cômodo que Davy reconheceu como a biblioteca de sua casa.

- Minhas meninas... Cresceram tanto. São mulheres agora. E não pude ver isso. – uma lágrima dele caiu no chão, turvando um pouco a imagem. – Sou um péssimo pai. E um marido ainda pior.

- Você não podia lutar contra seu destino, Davy. – a deusa disse, com um sorriso. – Suas filhas compreendem isso. E o amam, apesar da sua ausência.

- E Dianna?

- Ela também não o culpa. E espera por você. Ela tem fé de que você voltará para ela.

- Sim... Logo estarei de volta para você, minha Di. Espere mais um pouco. Vai me ajudar, senhora Atena?

- É claro. – Atena disse, sorrindo para seu protegido. E desapareceu.

              No dia seguinte, Mary Anne e os rapazes pediram a Davy que contasse mais uma de suas aventuras. Ele respondeu:

- Bem... Agora só faltam mais duas. A ocasião do ciclope... E Ogígia.

- Conte-nos! – pediram os jovens anfitriões.

- Sobre o ciclope Polifemo não há muito que contar. Depois que saímos da ilha de Amber, navegamos por uma semana, até que as provisões acabaram. A tripulação ficou desesperada, mas eu, como capitão, tive que me manter calmo e pensar em algo. Já ia rezar a Atena pedindo auxílio, quando o marujo que ficava na cesta da gávea gritou “Terra à vista!”. Corri para a balaustrada, luneta em punho. E eis que vi uma ilha repleta de carneiros, e sem sinal de pessoas! Ou comíamos carneiro até nos fartarmos, ou morríamos de fome. Ordenei que o navio fosse ancorado, e lá fomos meus homens e eu pegar alguns carneiros. Já tínhamos conseguido nos apoderar dos mais gordos, quando a terra tremeu. Olhei para cima e me vi diante da criatura mais assustadora que já havia visto na minha vida. Um ciclope imenso e horrendo. “Quem ousa atacar os rebanhos de Polifemo?”, rugiu o ciclope. Antes que alguém pudesse reagir, ele agarrou um punhado dos marujos e os devorou num piscar de olhos. “Senhor, será que poderíamos negociar?”, sugeri. “Negociar? O que você tem para me oferecer, nanico?”, perguntou a horrorosa criatura, com uma risada trovejante.

- E o que você tinha para negociar? – indagou George.

- Vinho. Um vinho delicioso, que eu havia ganhado de Amber. Ao menos em algo aquela bruxa foi boa para mim! “O que acha disso, senhor? Um enorme barril de vinho da melhor qualidade por alguns dos seus carneiros?”. O ciclope me respondeu: “Vou pensar... Mas não sei pensar de barriga vazia!”. Nisso, ele agarrou mais alguns dos meus homens e os comeu. Assim, da tripulação original do navio restaram apenas Peter, Micky, Mike e eu. Rezei aos deuses para que pelo menos nós voltássemos para casa. Com um sorriso sanguinário, Polifemo disse: “Agora que estou satisfeito, digo que aceito a sua oferta. A propósito, qual é o seu nome, nanico?”. E respondi: “Ninguém. É esse o meu nome. Agora, tome seu barril de vinho e me dê alguns carneiros”. O ciclope não era tão boçal quanto eu pensava, porque disse: “Nada disso! Eu disse que aceitava sua oferta... Mas não que lhe daria carneiros!”.

- Que espertalhão! – exclamou John.

- Sim. O maldito me fez de bobo. Mas eu tentaria contornar a situação. “E o que oferecerá como sua parte do trato?”, eu quis saber. “Ora, o que vou fazer agora mesmo”, retorquiu o ciclope. “Comer você e seus três amigos por último”. Internamente, eu estava tremendo de medo, e vi que meus amigos estavam apavorados, com razão. Se aquele ciclope queria dar uma de esperto para cima de mim, eu não iria deixar barato. Falei: “Senhor Polifemo, antes de nos comer, por que não experimenta o vinho? Vai ajudar na digestão”.  O ciclope sentou-se no chão, causando um pequeno terremoto. Então, pegou o barril, desarrolhou-o e bebeu um pouco do vinho.  Pela sua expressão, era visível que ele havia gostado. E bebeu. E bebeu. E bebeu. De tanto beber, caiu desmaiado de sono.

- Aproveitaram a deixa para fugir? – perguntou Ringo.

- Iríamos fazer isso, mas antes tive uma ideia. Vi ali por perto uma oliveira. Com a ajuda de meus amigos, derrubei a árvore e dela fiz uma estaca, com uma ponta bem afiada. Pretendia cegar o ciclope. Carregando a estaca até onde estava o ciclope, enfiamos a ponta no olho dele e giramos. Quando o ciclope acordou, berrando como louco, largamos a estaca e começamos uma corrida desabalada até o navio. O monstro gritava: “Ninguém vai pagar por isso!!!”. Não pude me conter: “Você pode ter me enganado, mas na verdade não passa de um parvo! Meu verdadeiro nome é David Jones! Capitão David Jones! Corsário do rei da Inglaterra! Minha fama atinge todos os oceanos ocidentais!”. E um rugido atingiu meus ouvidos: “Que Poseidon faça você pagar por isso... Capitão!”. O navio se afastou da Ilha de Polifemo, e rezei para que Atena me protegesse. Contudo, desta vez minha protetora seria impotente.

- O que aconteceu depois? – Mary Anne inquiriu.

- Naquela noite, veio uma grande tempestade, que fustigou o navio. Eu fui lançado ao mar. Mike, Micky e Peter tentaram me resgatar, mas as ondas ameaçavam engoli-los. Eu disse: “Salvem-se! Deixem-me!”. Eles se recusavam a me deixar para morrer, contudo, eu disse: “Deixem-me! E não digo isso como amigo, digo como capitão! Se me salvarem, tratarei isso como insubordinação!”. Antes que argumentassem, as ondas trataram de levar o navio para longe, de modo que nada me restou exceto nadar até encontrar terra firme... Ou morrer tentando. “Dianna, se eu me afogar... Que os deuses cuidem de você e de nossas filhas. E saiba que te amo!”, pensei.

- E por quanto tempo nadou até encontrar um torrão de terra? – perguntou George.

- Por cerca de duas horas e meia. Devia ser alta madrugada quando vi aquele abençoado pedaço de terra firme. Mal podia acreditar. Agradeci aos deuses por serem tão bons comigo, e me estendi para dormir na areia. Dormi um sono longo, sem sonhos. Quando acordei, vi que não estava dormindo na areia, mas sim em uma cama, em um quarto aconchegante. Minhas roupas esfarrapadas foram trocadas por novas. Perguntei-me o que havia acontecido. Talvez Atena houvesse me providenciado aquilo. Assim que terminei de rezar agradecendo minha protetora, adentrou o quartinho uma moça. Ela era baixa como eu, tinha cabelos negros e lisos e traços orientais. Era bastante jovem e bonita.  “Ora, ora, até que enfim você acordou!”, disse ela. “Por... Por quanto tempo estive dormindo?”, perguntei. “Mais ou menos quinze horas seguidas.”, ela respondeu. Perguntei quem era ela e que lugar era aquele. E o que ela queria de mim. “Meu nome é Nami. Esta é a ilha de Ogígia, meu lar. E, bem... Não quero nada de você, apenas que se recupere.”, e ela deu um sorriso doce, que por um momento me fez pensar no sorriso da minha mulher. “Venha, você deve estar com fome”, convidou ela, estendendo-me a mão. Depois de tudo por que havia passado, eu tinha minhas desconfianças. Todavia, ela me parecia estar de fato desejosa de me ajudar. Peguei a mão dela e ela me ajudou a levantar da cama. Vou continuar o relato amanhã.

- Você nunca termina o relato de uma aventura numa noite, não é? – George riu.

- Eu contei toda a história do ciclope hoje. – Davy deu uma piscadela.

                                                     ***


              Na casa de Davy em Manchester, Dianna dormia na cama do casal, abraçada ao travesseiro dele. Desde o dia em que ele partiu em viagem, seu travesseiro era seu substituto para acompanhar Dianna durante a noite.
               O sono ficou mais profundo. E o inconsciente de Dianna, associado aos poderes de Atena e Hermes, formou algumas cenas na mente dela.
               Dianna caminhava sozinha pela praia, como tinha costume de fazer quando a saudade era dolorosa demais. Tirou os sapatos baixos e, segurando a barra do vestido para não molhá-la, entrou no mar e molhou os pés.

- Senhor Poseidon... – ela murmurou. – Traga o meu marido de volta. Por favor, é tudo o que eu peço. Eu sei que ele está vivo, eu sinto. Há vinte anos que vivo sem ele, não aguento mais! É tortura o suficiente. – e suas lágrimas se misturaram à água salgada.

                  De súbito, surgiu em seu campo de visão um navio. Seu coração bateu mais forte. Seria possível? Ela ergueu os olhos, tentando ver alguém no convés. Então, viu uma pequena forma, que acenava para ela com um chapéu de capitão muito velho e um grande sorriso nos lábios. Dianna achou que conhecia aquele sorriso. E veio a confirmação.

- Di! Di! – chamava o capitão daquele navio.

- D-Davy? – ela não podia crer.

- Sim!

                    O navio foi ancorado próximo de onde Dianna estava. Uma escadinha de corda foi jogada, e Davy desceu por ela. Uma vez no solo, ele correu para a esposa, e quase a derrubou quando finalmente a abraçou.

- Ah, ah, meus deuses... É você! – Dianna sorria de orelha a orelha, e ao mesmo tempo chorava de tanta felicidade. – Grisalho e um pouco enrugado, mas é você... Meu Davy!

- Sim, sim! Sou eu! – Davy sorria tanto quanto ela, e ele derramou algumas lágrimas também.

                      Dianna beijou o marido intensamente, como havia tempos estava louca para fazer.

- Eu quase morri sem você aqui... – ela sussurrou no ouvido dele.

- Eu também, eu também. – ele sussurrou em resposta, seus lábios roçando levemente a orelha dela.

- Não me abandone nunca mais!

- Eu não a abandonei... Mas nunca mais vou sair daqui!

                          Davy apertou Dianna mais fortemente contra seu peito, e a beijou mais uma vez, de forma ainda mais sedenta e ardente.
                         Ela sentiu o ombro ser chacoalhado, e acordou. Soltou um suspiro triste. Não queria acordar daquele sonho jamais.

- Sim, Lizzie? – ela perguntou à criada.

- É hora do café da manhã, sra. Jones. Suas filhas já estão esperando.

- Está bem... Já vou.

                          Dianna levantou-se, vestiu-se, lavou o rosto, penteou o cabelo, prendeu-o e desceu até a sala de jantar. Viu as gêmeas se servindo, mas ainda esperando-a para comer. Becky notou o sorriso que estampava o rosto da mãe.

- O que houve, mamãe? Há tanto tempo que não a vejo sorrir assim... Aliás, creio que nunca a vi sorrir assim!

- Bem... Eu sonhei com seu pai. – respondeu Dianna.

- Com papai? – as gêmeas perguntaram em coro.

- Sim. Sonhei que ele estava de volta. Não sei se devo interpretar esse sonho como um sinal de que ele logo voltará para casa!

- Deve ser um aviso dos deuses, mamãe! – exclamou Cece.

- Eu desejo que sim. – Dianna falou, sem parar de sorrir.

***




                      No dia seguinte...

- Conte-nos mais sobre Nami e a ilha de Ogígia, capitão Jones! – pediu Mary Anne.

- Bem... Ela me levou até uma mesa, cheia de comidas deliciosas. E me disse que eu poderia comer à vontade. Não queria abusar da hospitalidade da garota, mas estava morto de fome, pois nem conseguimos pegar os carneiros de Polifemo. Então comi até me sentir estufado, enquanto ela me observava atentamente com seus olhos escuros e amendoados. “Desculpe-me por estar comendo tanto assim”, eu disse. Nami respondeu: “Não, não, sem problema. Deve comer mesmo, imagino que deva ter passado um certo tempo sem comer”. “Sim. Meus amigos e eu tentamos nos apoderar de alguns carneiros, contudo, o ciclope a quem pertenciam os carneiros nos atacou e quase nos transformou no seu jantar”, eu relatei. “Qual o seu nome, senhor?”, ela quis saber. “David Jones. Capitão David Jones. Mas todos me chamam de Davy”, eu disse. “E... Quem é Dianna?”, indagou Nami. “Você fala o nome dela enquanto dorme”.  Fiquei um pouco surpreso com o tom como ela me fez essa pergunta. Parecia... Magoada.

- Magoada? – perguntou Paul.

- Sim... Mais tarde descobri que minha suspeita estava correta. Onde eu estava? Ah sim. Respondi-lhe: “Dianna é minha querida esposa, que tive que deixar em casa para cumprir uma missão para o rei da Inglaterra, a quem sirvo como corsário. Ela me deu duas lindas filhas, chamadas Cecilia e Rebecca. Há oito anos que deixei meu lar”.

- Espere aí.... O senhor passou doze anos na ilha dela, capitão Jones? – inquiriu Ringo, espantado.

- Sim... Mas me pareceu pouquíssimo tempo. O tempo passa de uma forma bem mais lenta em Ogígia. Bem... Alguns dias, ou talvez semanas, meses, até anos, passaram. Nami era gentil, atenciosa. Vez ou outra fazia perguntas sobre Dianna e nossas filhas. Ainda mais ocasionalmente, sobre meus amigos.  Um dia, tomei coragem para saber um pouco mais sobre ela também. Perguntei se havia mais alguém na ilha além de nós dois, já que a cama e a mesa eram arrumadas quase como mágica. Ela me respondeu: “Bem... Não exatamente. Tenho meus criados mágicos, mas não posso dizer que sejam pessoas”.  Indaguei-me se ela era uma espécie de bruxa. Todavia, ela parecia inofensiva. Então inquiri: “Você fica sozinha aqui? Sem família, sem amigos?”. Ela confirmou. “É o castigo que recebi pela ofensa de meu pai aos deuses”, disse Nami. “Mas... Foi seu pai que insultou os deuses! Você não tem nada a ver com isso!”, eu disse. “Eu sei. Mas você sabe bem como são os deuses”, ela disse com um suspiro. “Há algo que eu possa fazer por você?”, eu quis saber, ansioso por ajudar. Não me parecia certo que ela vivesse isolada do resto do mundo naquela ilhazinha. “Não”, Nami respondeu. “Somente me fazer companhia”, ela completou, me olhando com uma certa... Dor. Eu não entendia porque ela me olhava daquele jeito. Sentia-me desconfortável.

- Pobre Nami. – disse John.

- Sim. Após mais o que me pareceu alguns dias, eu dormia, quando acabei despertando, com sede. Deparei-me com Nami ajoelhada ao lado da cama, me olhando atentamente. Eu me assustei ao vê-la ali. “Desculpe-me, desculpe-me, Davy. Não quis assustar você”, disse ela. “Tudo bem”, eu respondi. “Mas o que estava fazendo?”. “Eu... Eu estava vendo você dormir. Parece tão tranquilo quando dorme... Tão... Bonito”. Tenho certeza de que corei quando a ouvi dizer isso. “Bem, eu...”. Ela não me deixou terminar. “Davy... Eu sei que não posso sentir isso, já que você é casado, e ama a sua esposa... Mas eu...” “Você...?”. “Eu...”. Ela me puxou pela gola da camisa e me beijou, me beijou longa e docemente.  E logo me soltou. “Mil perdões, mil perdões!”, e saiu do quarto.

- Pobrezinha! Ela estava apaixonada! – Mary Anne disse, com dó.

- Eu fiquei sem reação. Finalmente entendi por que ela parecia sofrer. Não consegui voltar a dormir. Quando o Sol raiou, eu me levantei, e procurei por ela. Encontrei-a trabalhando no seu canteiro de flores. “Nami... Eu queria me desculpar”. “Se desculpar do quê? Sou eu quem te deve desculpas. Eu sei que não posso nutrir esperanças, mas eu... Os deuses me disseram que um dia me mandariam uma companhia... E que, entretanto, eu não poderia desfrutar dessa companhia por muito tempo”. “Nami... Não tenho nada contra você. Gosto de você, é muito boa para mim. Mas... Você é uma menina, eu já tenho trinta anos. Ademais, eu tenho a minha mulher. Eu a amo muito. Nós temos nossas filhas. Sinto muita falta das três. Se... Se eu não tivesse as três, ficaria aqui com você. Faria companhia para você”. “Eu já estou acostumada a ficar sozinha, Davy. O problema foi o destino que Afrodite traçou para mim”. Ela abaixou o rosto, triste. Eu me sentia horrível por magoá-la daquele jeito. Ergui o queixo dela e dei-lhe um beijo no rosto. Ela ficou corada, e deu um sorriso tímido. Ela se levantou de perto do canteiro e se afastou. Ainda me sentindo péssimo, também me levantei dali e foi para a direção oposta de Ogígia, pensando. À noite, acabei reencontrando Nami para o jantar. Ela continuava distante. Eu queria dizer algo para amenizar o sofrimento dela, contudo, achei que poderia piorar a situação. Subitamente, apareceu diante de nós Hermes. Ele disse: “Nami, ninfa da ilha de Ogígia, filha de Atlas... Venha comigo. Tenho uma mensagem de Zeus para você”. Ela obedeceu ao deus, e caminhou com ele até um ponto mais distante da ilha. Eu sabia que a mensagem de Zeus tinha algo a ver comigo. Mais tarde, Nami voltou, com os olhos marejados. “O que houve? O que Hermes disse?”, eu perguntei. “Preciso deixar que você vá embora, Davy, ou Ogígia será afundada”, ela respondeu, secando as lágrimas. Eu suspirei e disse: “Você é ótima, e este lugar é um paraíso... Mas eu tenho uma esposa amada esperando por mim. E minhas filhas, que nem pude ver crescerem”. “Você e os deuses estão certos. Eu... Vou preparar uma jangada para que você possa partir”.

- E então? – Paul indagou.

- Nami e eu construímos uma jangada bastante resistente. A jornada não seria curta. Ela me deu muitas provisões. Depois de dois dias, eu estava pronto para partir. Colocamos a pequena embarcação no mar, e subi nela. “Adeus, Nami. Obrigado por tudo”. “Adeus, Davy. Que você possa regressar ao seu lar em segurança e rever Dianna e suas gêmeas”. Ela sorriu, e eu beijei a mão dela. A jangada tomou impulso, e começou a se afastar da praia de Ogígia. De longe, acenei para Nami uma última vez, e me virei para olhar adiante. Alguns minutos mais tarde, voltei o olhar para a direção da ilha, e vi uma imagem fugaz da ninfa ajoelhada, com o rosto nas mãos. Chorando. Novamente me senti o pior dos homens. Naveguei por algumas horas em alto-mar, e comecei a me sentir diferente. Olhei para minha mão, e ela parecia começar a enrugar. Como isso era possível, se eu ainda tinha trinta anos?

- Que estranho... – murmurou Ringo.

- Como se lesse meus pensamentos, Atena surgiu diante de mim e disse: “Enquanto você estava em Ogígia, sem que o tempo passasse para você, passaram-se doze anos no mundo exterior. Agora, envelhecerá todos esses anos. Chegou em Ogígia com trinta anos e saiu de lá com essa mesma idade, mas logo aparentará ter a idade que de fato tem: quarenta e dois”.  “Estou com quarenta e dois anos? Quer dizer que... Estou longe de casa há vinte anos?”, perguntei, chocado. “Sim”, respondeu a deusa. “Farei o possível para que volte logo ao seu lar. Mais do que nunca sua mulher e suas filhas precisam de você”.  Então, a deusa acenou, e na água vi formar-se uma imagem: minha esposa, Dianna, tentando se desvencilhar de Peter Noone, que fazia de tudo para beijá-la. Isso já foi o suficiente para me deixar furioso. Então a cena mudou. Keith Hopwood e Barry Whitwam, amigos de Noone, tentavam agarrar minhas duas filhas. Naquele momento, senti todos os meus nervos estalarem de tanta raiva. Eu voltaria para casa, custasse o que custasse!

- E como reencontrou Mike, Peter e Micky? – inquiriu George.

- Os deuses devem ter me ajudado a reencontrá-los. Fazia alguns dias que eu navegava com minha jangada, quase a esmo, quando avistei um galeão, ou o que restava dele. Vi uma figura alta na proa. Reconheci Mike, porém doze anos mais velho, com uma barba grisalha e o rosto começando a vincar. “Mike! Mike! Sou eu!”, comecei a gritar e a acenar num frenesi. Se eles conseguissem me ver, pequeno como sou, eu decididamente estava com sorte. Creio que os deuses realmente haviam decidido me auxiliar, porque me ouviram. Peter, que estava no timão, manobrou o navio até onde estava minha jangada. Jogaram a escada de corda e subi por ela. Abracei meus amigos e consultei a minha velha bússola. “Ao norte, cavalheiros! Suponho que desta vez os deuses vão nos ajudar. Há muito tempo que estamos longe de nosso lar”. Isso tudo aconteceu há uns dois meses... Até que, na semana passada, uma terrível tempestade destruiu definitivamente a nossa embarcação, e viemos parar aqui.

- Grande história! – disseram os cinco anfitriões.

- Bem, creio que poucos homens do mar podem contar que viveram aventuras como as nossas. – disse Davy.

- Capitão Jones, vamos ajudá-los a voltar para casa! Vamos ajudá-los a construir um barco. Não estão longe de Manchester. – disse Mary Anne com um sorriso.

- Não mesmo? – Davy abriu um sorriso. Finalmente voltaria para Dianna, e teria uma oportunidade de realmente conhecer suas gêmeas.