Episódio 3
Ao fim do dia
seguinte, os cinco jovens cobraram de Davy a continuidade da narrativa de suas
peripécias.
- Vocês se interessaram mesmo por minhas histórias, não
é? - ele riu. – Pois bem, vou continuar.
Onde parei?
- Na luta contra Caríbdis e Cila. – lembrou-lhe George.
- Ah, sim, sim, isso mesmo. Bem, depois que nos vimos livres
daquelas criaturas hediondas, percebemos que nossa esperança de sair da deriva
após atravessar os domínios das sereias era vã. Continuávamos tão perdidos
quanto antes. Eu estava desnorteado. Sem saber o que fazer. Recolhi-me aos meus
aposentos para pensar um pouco melhor. E
novamente Atena surgiu diante de mim. Olhando-a mais atentamente, notei que ela
me lembrava uma antiga amiga, Louise McGold. Deixando esse fato de lado,
apresentei o meu problema. Como se eu precisasse informar a deusa da sabedoria
de algo! Ela disse-me: “Procure Barry Thompson, o adivinho. Ele vive numa
caverna ao norte daqui”. E tão subitamente como surgiu, desapareceu.
- Seguiu o conselho dela? – quis saber Paul.
- Sem dúvida. Navegamos sempre rumo ao norte, até que nos
deparamos com uma grande caverna, numa ilhota. Ordenei que o navio fosse
ancorado e desci. Um pouco titubeante, adentrei a caverna. “Sr. Thompson?”, chamei. Uma voz pachorrenta
respondeu-me: “Aqui estou. Quem perturba meu sono?”. Apresentei-me como capitão
David Jones e disse-lhe que Atena me enviara até ali para inquirir-lhe a
respeito de um meio de encontrar um caminho de volta à Inglaterra. Mal sabia eu
que o adivinho havia sido visitado por Poseidon pouco antes, e o deus o havia
alertado a não me dar informações corretas... Ou seria terrivelmente castigado.
Ele me deu algumas coordenadas muito estranhas para seguir, mas, sem saber que
Thompson estava seguindo as ordens do deus do mar, acreditei piamente nele e as
segui à risca. Navegamos por várias semanas, até que atingimos uma ilha. Ao
olhar para a praia e estudá-la, soube que não estava no litoral da Inglaterra.
Comecei a amaldiçoar o nome do adivinho. Chamei Mike, Micky e Peter e descemos
do navio, para explorar a ilha. Andávamos por ali, analisando os arredores,
quando encontramos um grupo de habitantes do lugar. “Olá, senhores”, disse quem
parecia ser o líder. “Bem-vindos à nossa ilha. Vimos que deixaram a tripulação
a bordo do navio. Nada temam, digam a eles que desçam, pois faremos de tudo
para recebê-los da forma mais hospitaleira possível”.
- E o que responderam aos habitantes? – inquiriu Mary Anne.
- Aceitamos a oferta. Fui até o navio e chamei meus homens.
Todos desceram. Os habitantes da ilha cumpriram com a palavra. Até que se
aproximaram de nós carregando bandejas cheias de uma estranha flor, chamada lótus.
Era o alimento básico da região, segundo nos informaram. Minha tripulação comeu
a flor. Eu não sabia por quê, mas estava desconfiado daquele alimento
inusitado. Então relutei em comer. Os tripulantes, após comê-la, pareciam
deliciados com o lugar. De fato, era uma ilha paradisíaca e a comida que nos
forneciam era excelente. E os marujos comiam lótus até se fartar. Eu estava
ainda intrigado, sobretudo após notar que estava perdendo a noção de tempo. Não
sabia determinar se estávamos lá havia dias, semanas... Ou apenas alguns
minutos. Também notei que os tripulantes
pareciam esquecidos de nosso propósito de regressar à Inglaterra.
- E então? – Ringo indagou.
- Mike, Micky e Peter quase me convenceram a comer lótus.
Peguei uma das plantas suspeitas, e a levava à boca quando a voz de Atena
sussurrou em minha cabeça: “Não coma a lótus. Ela causa amnésia em quem a
ingerir. Se fizer isso, se esquecerá de sua amada mulher e suas queridas
filhas. Precisa voltar para elas, Davy. E tire seus companheiros daqui antes
que seja tarde demais”. Joguei a planta
fora, e exortei meus homens a se lembrar de suas famílias, que esperavam por
eles na Inglaterra. Não adiantava. Passei a impedir que comessem mais lótus, na
esperança de que aquilo os fizesse recobrar a memória a respeito de nossa terra
natal. Não surtiu efeito. Fiquei desesperado, e orei a Atena para que me
ajudasse a sair daquela situação. No dia seguinte, quando os habitantes da ilha
iriam oferecer uma nova leva de lótus aos meus marujos, Atena surgiu diante deles,
e com um violento golpe derrubou a bandeja de lótus. Disse, num tom de voz
furioso: “Libertem já estes marinheiros! Ou eu mesma intercederei junto a Zeus
para que recebam o castigo que merecem por reter estes homens!”. Os comedores
de lótus recuaram, e Atena acenou com a mão. Meus homens pareciam recém-saídos
de um transe. “Vocês passaram nada menos do que três anos nesta ilha”, anunciou
ela. “Já estão ausentes de seus lares há oito anos.” Um murmúrio de pasmo se
espalhou entre todos os tripulantes. Eu mesmo senti meu coração ficar
apertado. Minhas filhas já estavam
crescendo, e eu não podia acompanhar esse processo. Minha esposa tinha que
criá-las sozinha, e devia estar se sentindo solitária. Eu precisava voltar para
elas, simplesmente precisava! Embarcamos novamente depois de tanto tempo, e
Atena disse: “Partam em direção ao palácio de Éolo, o deus dos ventos. Ele
poderá oferecer alguma ajuda a vocês. Eu acompanharei seu caminho até lá,
cuidarei para que não desviem”.
- E conseguiram chegar ao palácio de Éolo? – perguntou John.
- Sim, conseguimos, sem nenhum problema. – Davy respondeu. – Com Mike, Micky e Peter,
adentrei a residência dele. Éolo tinha a aparência de um homem entre cinquenta
e sessenta anos, elegante, e ar rabugento. Apresentei-me a ele, e disse que
Atena havia me mandado ali. Perguntei se poderia me oferecer ventos favoráveis.
A que o deus me respondeu, de má vontade: “Não, mas posso oferecer ao senhor
este saco, contendo todos os ventos desfavoráveis aprisionados. De modo algum
este saco deve ser aberto”. Agradeci e saí de lá o mais rápido possível, antes
que Éolo ficasse muito ranzinza. Então notei que ele lembrava um velho
estalajadeiro que conheci em uma de minhas viagens, chamado sr. Babbitt. Ele
era muito rabugento e cobrava as diárias com uma pontualidade assustadora.
- E o que houve após saírem do palácio de Éolo? – George
estava curioso.
- Subimos de volta ao barco, e coloquei o saco de ventos
furiosos num cantinho no fundo do convés. Rezei para que ninguém ficasse
curioso a respeito do que havia lá dentro e abrisse o saco. Doce ilusão...
- Alguém abriu o saco? – quis saber Paul.
- Sim. – confirmou o corsário. – Amanhã conto exatamente o
que houve. Agora devemos ir dormir, está ficando tarde.
Os rapazes e Mary Anne detestavam aquelas interrupções. Serviam apenas
para deixá-los com a curiosidade mais aguçada.
* * *
Enquanto Davy
narrava suas peripécias aos seus anfitriões, suas duas filhas tinham que se
livrar do assédio por Keith Hopwood e Barry Whitwam, amigos de Noone. O
interesseiro havia prometido aos dois companheiros que, quando se casasse com
Dianna, dar-lhes-ia as duas filhas dela como noivas.
- Largue-me, Hopwood! – esbravejava Cecilia. – Se meu pai estivesse aqui...
- Mas ele não está, queridinha. – Hopwood sorriu com
malícia, e tentou beijar a gêmea mais velha, recebendo um belo tabefe no rosto
como resposta.
A irmã de Cecilia, Rebecca,
também não estava numa situação boa.
- Deixe-me em paz, Whitwam! – pedia ela, segura firmemente
pelo pulso. – Está me machucando! E eu não quero me casar com você! Tem idade
para ser meu pai!
- Já está na hora de deixar de ser essa rebeldezinha, srta.
Jones.
- Nunca! – ela mordeu o braço dele, fazendo-o soltá-la. As
duas irmãs, uma vez livres, voltaram correndo para sua casa, e entraram como um
furacão no quarto da mãe, que desmanchava a tapeçaria.
- O que houve? – Dianna se assustou, ao ver as filhas
vermelhas e arfantes de tanto correr.
- Hopwood. – respondeu Cecilia, tentando recuperar o fôlego.
- E Whitwam. – acrescentou Rebecca, tão ofegante quanto sua
gêmea.
- Eles tentaram forçá-las a beijá-los outra vez? – a mãe
estava furiosa. Se pudesse torceria o pescoço dos dois.
- Sim! – as duas responderam.
- Mamãe, faça o que fizer, não se case com Noone! Não
queremos ser dadas como noivas para aqueles dois! – implorou Cecilia.
- Preferimos a morte! – exclamou Rebecca.
- Vocês acham mesmo que eu me casaria com aquele paspalho?
Nem mesmo em meus maiores devaneios! Ele não é nem de longe tão bonito quanto
seu pai. E um completo imbecil, enquanto seu pai é um homem grandioso. Eu odeio Noone!
- Mamãe...
- Sim, Cece?
- Você realmente acha que papai vai voltar?
- Bem... – Dianna suspirou. – Eu devo confessar que minha
esperança oscila. Eu... Sinto tanta falta dele. Às vezes tenho certeza de que
ele ainda está por aí, tentando retornar. E outras vezes penso que há muito
tempo ele morreu, tragado pelo oceano, ou tomado por alguma doença, ou....Oh,
eu realmente não sei o que pensar. Mas não, eu jamais me casarei com aquele
parvo do Noone.
* * *
(Flashback de Louise/Atena)
A pequena deusa
da sabedoria, havia anos, acompanhava a trajetória de Davy. Ela o havia elegido
seu mortal favorito, e o protegia sempre. Não existia uma pessoa astuta entre
os mortais que não fosse cuidadosamente vigiada por Atena. Depois de um certo
tempo, a deusa decidia se a protegeria e abençoaria dali por diante ou não.
Com Davy foi
diferente. Ela não apenas vigiava e protegia cada ação do astucioso corsário,
como chegou ao ponto de quase amá-lo. Não era um mortal comum...
Entretanto, para Atena, havia outro alguém ainda mais
atraente: o deus arqueiro, Apolo. Por seu secreto amado divino, ignorou o
princípio de amor pelo mortal. Contudo, não deixou jamais de protegê-lo e
guiá-lo. Numa noite, logo após Davy ter saído da Ilha dos Lotófagos, ela foi
falar com Anfitrite, na esperança de que a rainha do mar pudesse aplacar a
raiva do marido para com o quarteto de corsários. A nereida, a princípio, não
queria auxiliá-los.
- Aquele Micky Dolenz atrevido... – a esposa de Poseidon resmungava. – Merece
não voltar para casa.
- Ora, vamos, Anfitrite! Era apenas um mortal embriagado.
Ele não sabia o que dizia. Isso já aconteceu há oito anos. Devia perdoá-lo e
permitir que ele volte para a companhia da esposa e dos filhos. – Atena tentou
persuadir a soberana marinha.
- Está bem. Convenceu-me. Vou fazer o que estiver ao meu
alcance para ajudar os corsários no seu retorno.
Atena foi
embora com o coração mais leve.
* * *
- E então, capitão Jones? Alguém abriu o saco de vento? –
perguntou Paul, instando o corsário a dar continuidade à narração de suas
muitas aventuras.
- Sim, para o meu infortúnio. Eu estava em minha cabine,
pensando na minha família, certo de que finalmente nós nos reencontraríamos,
quando ouvi os ventos uivarem lá fora. Abri a escotilha e uma grande lufada de
vento invadiu minha cabine. Fechei a escotilha o mais rápido possível e subi ao
convés superior. “O que significa
isso?”, esbravejei quando lá cheguei. “Eu fui traído! Vocês me traíram!”. Mike
disse-me: “Tentamos impedir Wilson de abrir o saco, Davy, mas nada pôde
detê-lo. Ele estava convencido de que você havia sido agraciado com ouro, prata
e joias, e que não desejava dividir os tesouros com a tripulação.”. Eu estava
furioso com Wilson, contudo, acabei por poupá-lo do castigo.
- E o que houve em seguida? – quis saber Ringo.
- Acabamos por atingir uma ilhazinha, depois de mais quatro
dias navegando no meio do nada. Como de costume, Mike, Micky, Peter e eu
descemos para um reconhecimento de terreno. Ordenei aos meus marujos que não
descessem do navio em circunstância alguma. Não queria arriscar minha
tripulação a se deixar seduzir por algum motivo e não desejar mais voltar à
Inglaterra. Andávamos na praia, quando nos deparamos com uma casa, de tamanho
suntuoso. Pela porta, saiu uma mulher, de cabelos negros e olhos verdes, que
trajava um longo vestido tão negro quanto seus cabelos. Ela sorriu para nós, e
nos saudou, dizendo: “Bem-vindos, meus bravos homens do mar. Meu nome é Amber.
Permitam-me ajudá-los. Oferecer-lhes camas confortáveis, um banho quente, boa
comida, suprimentos para o navio...”. Eu estava profundamente desconfiado dela,
porém, por mais que tentasse recusar, quando abri a boca para responder,
concordei que ela nos prestasse auxílio. Havia algo de muito errado com aquela
mulher e sua ilha... Ela preparou banhos quentes para nós, deu-nos aposentos
com as camas mais aconchegantes que eu havia visto até então, serviu-nos uma
refeição deliciosa e também presenteou-nos com barris e barris de suprimentos.
Para mim, todo aquele fausto só podia ser fruto de... Magia.
- Ela era uma feiticeira? – indagou Mary Anne.
- Exatamente. Uma feiticeira perigosíssima. Bem, eu havia
notado, durante todo o tempo em que Amber esteve ocupada nos servindo o
banquete, que ela dava muito mais atenção a mim do que aos meus companheiros.
Aquilo não me agradava nem um pouco. Quando já estávamos bastante
empanturrados, ela deixou que nos recolhêssemos. Eu fui para o quarto que ela
havia me concedido, despi-me, deitei na cama macia e me cobri com os cobertores
quentes.
- E então? – os cinco anfitriões inquiriram, no auge da
curiosidade.
- Eu já estava em sono profundo, quando senti algo acariciar
a pele nua do meu braço. Pareciam dedos, longos, finos e macios. Dedos como...
os de Dianna. Abri os olhos... E eu a vi. Minha esposa. Seus doces olhos
castanhos brilhavam na escuridão. Seus cabelos loiros sedosos caindo em cachos.
Seu lindo sorriso me inebriando. O vestido denunciava as formas delicadas do
seu corpo, aquele corpo que eu tanto amava. “Dianna! Como... Como é possível?
Estou sonhando?”, perguntei. “Não... Toque-me, Davy. Sinta como sou real”,
disse ela, levando minhas mãos à sua cintura. De fato, ela era sólida. Não era
minha mera imaginação. Mesmo com toda a minha astúcia, não sabia dizer como ela
estava ali. “Di, Di... Estava morrendo de tanta saudade...”, eu disse, e
dei-lhe um beijo intenso, tão sedento que estava da boca de minha amada esposa.
Deixei-me arrebatar pela saudade e pela paixão. Revelei a nudez de Dianna.
Deitei-a em minha cama com cuidado, e me preparava para amá-la, quando...
- O que houve? – os cinco ficavam mais curiosos a cada
momento.
- O deus Hermes surgiu diante de mim, dizendo: “A saudade da
sua mulher o cega, capitão Jones! Não é com ela que está prestes a se deitar,
mas uma feiticeira!”. Ele me lembrava Michael, o irmão de minha amiga Louise.
Eu gaguejei, surpreso: “O-o quê? Mas..”. Dianna disse: “Não dê ouvidos a ele,
Davy! Fica comigo... Senti tanto sua falta...”, continuando a me segurar com
firmeza e a me acariciar de forma sedutora.
- E o que fez então, capitão? – Paul quis saber.
- Eu me preparava para ignorar o deus mensageiro e amar a
minha esposa, quando Atena surgiu no quarto. Ela esbravejou: “Capitão David
Jones! Não posso admitir que não use de sua astúcia, por um breve momento que
seja! Veja como está enganado!”, e acenou com a mão, revelando, sob a forma de
Dianna, Amber, a jovem que nos ofereceu abrigo. Ao vê-la nua sob mim, escondi
meu próprio corpo nu das vistas dela e fechei os olhos, profundamente
constrangido. Ela provocou: “O que foi, Davy? Não pareço mais atraente para
você?”. “Não! Sua bruxa maldita!”, exclamei.
- E os deuses? O que disseram diante disso tudo? – indagou George.
- Atena me contou que Amber havia transformado Mike, Micky e
Peter em porcos, e me deu minhas roupas, dizendo que eu precisava tirá-los da
ilha e ir embora logo. Amber bem que tentou me agarrar. A bruxa estava obcecada
por mim. Contudo, Hermes conseguiu me ajudar a me desvencilhar dela, e a
amarrou com cordas mágicas, enquanto ela gritava, como louca: “Os deuses têm
que aprender a não se meter nos assuntos dos mortais! Nunca me deixam ficar com
os homens que aportam em minha ilha!”. Eu saí correndo dos aposentos e me vi
diante de um trio de porquinhos rechonchudos, guinchando impacientes. Perto
deles, havia roupas amarrotadas. Peguei as roupas e com a ajuda de Atena e
Hermes transportei os porcos para dentro do navio. Atena desfez o feitiço de Amber, e lá estavam
Peter, Mike e Micky de volta à forma humana. Vestiram logo suas roupas e
voltaram aos seus postos. A deusa da sabedoria disse: “Meus bravos, eu cuidarei
para que cheguem logo aos seus lares. Farei tudo que puder para aplacar a
cólera de Poseidon”. E ela e Hermes
desapareceram do convés.
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