Episódio 4
Naquela noite, Davy não conseguia dormir. Pensava em Dianna, em suas
filhas e em sua casa. Olhava, pela janela, para o mar e o céu, tão infinitos.
- Dianna... Perdoe-me, meu amor. Se eu soubesse que aquela
missão me manteria tão longe de você e das nossas filhas... – ele murmurava.
- Davy. – ele ouviu a voz de Atena atrás dele.
- Senhora Atena. – Davy curvou-se diante da deusa.
- Sente falta delas, não é?
- Mais do que qualquer coisa, senhora.
- Gostaria de ver como estão?
- Oh! Sim! Por favor!
Atena
tocou o chão do quarto, e algumas imagens se formaram no piso. Davy abaixou-se
para vê-las melhor. A primeira imagem mostrava uma mulher bela porém madura,
desmanchando o que parecia ser uma tapeçaria.
- Dianna... – Davy tocou a imagem, carinhosamente. – Ela...
Não mudou nada. Tão linda como antes. Mas... Por que ela está desmanchando essa
tapeçaria?
- Você fez bem em escolher para si uma esposa cuja astúcia
se iguala à sua. Esta tapeçaria é a artimanha que Dianna encontrou para se esquivar
à insistência de Peter Noone em torná-la esposa dele. – explicou Atena. – Ela
disse a Noone que só se casará com ele quando terminar a tapeçaria... Algo que
nunca acontecerá. Ela desmancha à noite todo o trabalho do dia.
Davy
sorriu.
- E minhas filhas? – ele estava louco para ver suas meninas
crescidas.
Atena
acenou e a cena mudou. Davy viu duas jovens, muito bonitas e parecidas com
Dianna. Elas tinham no máximo vinte anos e liam num cômodo que Davy reconheceu
como a biblioteca de sua casa.
- Minhas meninas... Cresceram tanto. São mulheres agora. E
não pude ver isso. – uma lágrima dele caiu no chão, turvando um pouco a imagem.
– Sou um péssimo pai. E um marido ainda pior.
- Você não podia lutar contra seu
destino, Davy. – a deusa disse, com um sorriso. – Suas filhas compreendem isso.
E o amam, apesar da sua ausência.
- E Dianna?
- Ela também não o culpa. E espera
por você. Ela tem fé de que você voltará para ela.
- Sim... Logo estarei de volta
para você, minha Di. Espere mais um pouco. Vai me ajudar, senhora Atena?
- É claro. – Atena disse, sorrindo
para seu protegido. E desapareceu.
No dia seguinte, Mary Anne e os
rapazes pediram a Davy que contasse mais uma de suas aventuras. Ele respondeu:
- Bem... Agora só faltam mais
duas. A ocasião do ciclope... E Ogígia.
- Conte-nos! – pediram os jovens
anfitriões.
- Sobre o ciclope Polifemo não há
muito que contar. Depois que saímos da ilha de Amber, navegamos por uma semana,
até que as provisões acabaram. A tripulação ficou desesperada, mas eu, como
capitão, tive que me manter calmo e pensar em algo. Já ia rezar a Atena pedindo
auxílio, quando o marujo que ficava na cesta da gávea gritou “Terra à vista!”.
Corri para a balaustrada, luneta em punho. E eis que vi uma ilha repleta de
carneiros, e sem sinal de pessoas! Ou comíamos carneiro até nos fartarmos, ou
morríamos de fome. Ordenei que o navio fosse ancorado, e lá fomos meus homens e
eu pegar alguns carneiros. Já tínhamos conseguido nos apoderar dos mais gordos,
quando a terra tremeu. Olhei para cima e me vi diante da criatura mais
assustadora que já havia visto na minha vida. Um ciclope imenso e horrendo.
“Quem ousa atacar os rebanhos de Polifemo?”, rugiu o ciclope. Antes que alguém
pudesse reagir, ele agarrou um punhado dos marujos e os devorou num piscar de
olhos. “Senhor, será que poderíamos negociar?”, sugeri. “Negociar? O que você
tem para me oferecer, nanico?”, perguntou a horrorosa criatura, com uma risada
trovejante.
- E o que você tinha para
negociar? – indagou George.
- Vinho. Um vinho delicioso, que
eu havia ganhado de Amber. Ao menos em algo aquela bruxa foi boa para mim! “O
que acha disso, senhor? Um enorme barril de vinho da melhor qualidade por
alguns dos seus carneiros?”. O ciclope me respondeu: “Vou pensar... Mas não sei
pensar de barriga vazia!”. Nisso, ele agarrou mais alguns dos meus homens e os
comeu. Assim, da tripulação original do navio restaram apenas Peter, Micky,
Mike e eu. Rezei aos deuses para que pelo menos nós voltássemos para casa. Com
um sorriso sanguinário, Polifemo disse: “Agora que estou satisfeito, digo que
aceito a sua oferta. A propósito, qual é o seu nome, nanico?”. E respondi:
“Ninguém. É esse o meu nome. Agora, tome seu barril de vinho e me dê alguns
carneiros”. O ciclope não era tão boçal quanto eu pensava, porque disse: “Nada
disso! Eu disse que aceitava sua oferta... Mas não que lhe daria carneiros!”.
- Que espertalhão! – exclamou
John.
- Sim. O maldito me fez de bobo.
Mas eu tentaria contornar a situação. “E o que oferecerá como sua parte do
trato?”, eu quis saber. “Ora, o que vou fazer agora mesmo”, retorquiu o
ciclope. “Comer você e seus três amigos por último”. Internamente, eu estava
tremendo de medo, e vi que meus amigos estavam apavorados, com razão. Se aquele
ciclope queria dar uma de esperto para cima de mim, eu não iria deixar barato.
Falei: “Senhor Polifemo, antes de nos comer, por que não experimenta o vinho?
Vai ajudar na digestão”. O ciclope sentou-se
no chão, causando um pequeno terremoto. Então, pegou o barril, desarrolhou-o e
bebeu um pouco do vinho. Pela sua
expressão, era visível que ele havia gostado. E bebeu. E bebeu. E bebeu. De
tanto beber, caiu desmaiado de sono.
- Aproveitaram a deixa para fugir?
– perguntou Ringo.
- Iríamos fazer isso, mas antes
tive uma ideia. Vi ali por perto uma oliveira. Com a ajuda de meus amigos,
derrubei a árvore e dela fiz uma estaca, com uma ponta bem afiada. Pretendia
cegar o ciclope. Carregando a estaca até onde estava o ciclope, enfiamos a
ponta no olho dele e giramos. Quando o ciclope acordou, berrando como louco,
largamos a estaca e começamos uma corrida desabalada até o navio. O monstro
gritava: “Ninguém vai pagar por isso!!!”. Não pude me conter: “Você pode ter me
enganado, mas na verdade não passa de um parvo! Meu verdadeiro nome é David
Jones! Capitão David Jones! Corsário do rei da Inglaterra! Minha fama atinge
todos os oceanos ocidentais!”. E um rugido atingiu meus ouvidos: “Que Poseidon
faça você pagar por isso... Capitão!”. O navio se afastou da Ilha de Polifemo,
e rezei para que Atena me protegesse. Contudo, desta vez minha protetora seria
impotente.
- O que aconteceu depois? – Mary
Anne inquiriu.
- Naquela noite, veio uma grande
tempestade, que fustigou o navio. Eu fui lançado ao mar. Mike, Micky e Peter
tentaram me resgatar, mas as ondas ameaçavam engoli-los. Eu disse: “Salvem-se!
Deixem-me!”. Eles se recusavam a me deixar para morrer, contudo, eu disse:
“Deixem-me! E não digo isso como amigo, digo como capitão! Se me salvarem,
tratarei isso como insubordinação!”. Antes que argumentassem, as ondas trataram
de levar o navio para longe, de modo que nada me restou exceto nadar até
encontrar terra firme... Ou morrer tentando. “Dianna, se eu me afogar... Que os
deuses cuidem de você e de nossas filhas. E saiba que te amo!”, pensei.
- E por quanto tempo nadou até
encontrar um torrão de terra? – perguntou George.
- Por cerca de duas horas e meia.
Devia ser alta madrugada quando vi aquele abençoado pedaço de terra firme. Mal
podia acreditar. Agradeci aos deuses por serem tão bons comigo, e me estendi
para dormir na areia. Dormi um sono longo, sem sonhos. Quando acordei, vi que
não estava dormindo na areia, mas sim em uma cama, em um quarto aconchegante.
Minhas roupas esfarrapadas foram trocadas por novas. Perguntei-me o que havia
acontecido. Talvez Atena houvesse me providenciado aquilo. Assim que terminei
de rezar agradecendo minha protetora, adentrou o quartinho uma moça. Ela era
baixa como eu, tinha cabelos negros e lisos e traços orientais. Era bastante jovem e bonita. “Ora, ora, até
que enfim você acordou!”, disse ela. “Por... Por quanto tempo estive
dormindo?”, perguntei. “Mais ou menos quinze horas seguidas.”, ela respondeu.
Perguntei quem era ela e que lugar era aquele. E o que ela queria de mim. “Meu
nome é Nami. Esta é a ilha de Ogígia, meu lar. E, bem... Não quero nada de
você, apenas que se recupere.”, e ela deu um sorriso doce, que por um momento
me fez pensar no sorriso da minha mulher. “Venha, você deve estar com fome”,
convidou ela, estendendo-me a mão. Depois de tudo por que havia passado, eu
tinha minhas desconfianças. Todavia, ela me parecia estar de fato desejosa de
me ajudar. Peguei a mão dela e ela me ajudou a levantar da cama. Vou continuar
o relato amanhã.
- Você nunca termina o relato de uma aventura
numa noite, não é? – George riu.
- Eu contei toda a história do
ciclope hoje. – Davy deu uma piscadela.
***
Na casa de Davy em Manchester,
Dianna dormia na cama do casal, abraçada ao travesseiro dele. Desde o dia em
que ele partiu em viagem, seu travesseiro era seu substituto para acompanhar
Dianna durante a noite.
O sono ficou mais profundo. E o
inconsciente de Dianna, associado aos poderes de Atena e Hermes, formou algumas
cenas na mente dela.
Dianna caminhava sozinha pela praia, como tinha costume de fazer quando
a saudade era dolorosa demais. Tirou os sapatos baixos e, segurando a barra do
vestido para não molhá-la, entrou no mar e molhou os pés.
- Senhor Poseidon... – ela murmurou. – Traga o meu marido de volta. Por
favor, é tudo o que eu peço. Eu sei que ele está vivo, eu sinto. Há vinte anos
que vivo sem ele, não aguento mais! É tortura o suficiente. – e suas lágrimas
se misturaram à água salgada.
De súbito,
surgiu em seu campo de visão um navio. Seu coração bateu mais forte. Seria
possível? Ela ergueu os olhos, tentando ver alguém no convés. Então, viu uma
pequena forma, que acenava para ela com um chapéu de capitão muito velho e um
grande sorriso nos lábios. Dianna achou que conhecia aquele sorriso. E veio a
confirmação.
- Di! Di! – chamava o capitão daquele navio.
- D-Davy? – ela não podia crer.
- Sim!
O navio foi
ancorado próximo de onde Dianna estava. Uma escadinha de corda foi jogada, e
Davy desceu por ela. Uma vez no solo, ele correu para a esposa, e quase a
derrubou quando finalmente a abraçou.
- Ah, ah, meus deuses... É você! – Dianna sorria de orelha a orelha, e
ao mesmo tempo chorava de tanta felicidade. – Grisalho e um pouco enrugado, mas
é você... Meu Davy!
- Sim, sim! Sou eu! – Davy sorria tanto quanto ela, e ele derramou
algumas lágrimas também.
Dianna
beijou o marido intensamente, como havia tempos estava louca para fazer.
- Eu quase morri sem você aqui... – ela sussurrou no ouvido dele.
- Eu também, eu também. – ele sussurrou em resposta, seus lábios
roçando levemente a orelha dela.
- Não me abandone nunca mais!
- Eu não a abandonei... Mas nunca mais vou sair daqui!
Davy
apertou Dianna mais fortemente contra seu peito, e a beijou mais uma vez, de
forma ainda mais sedenta e ardente.
Ela
sentiu o ombro ser chacoalhado, e acordou. Soltou um suspiro triste. Não queria
acordar daquele sonho jamais.
- Sim, Lizzie? – ela perguntou à
criada.
- É hora do café da manhã, sra.
Jones. Suas filhas já estão esperando.
- Está bem... Já vou.
Dianna levantou-se, vestiu-se,
lavou o rosto, penteou o cabelo, prendeu-o e desceu até a sala de jantar. Viu
as gêmeas se servindo, mas ainda esperando-a para comer. Becky notou o sorriso
que estampava o rosto da mãe.
- O que houve, mamãe? Há tanto
tempo que não a vejo sorrir assim... Aliás, creio que nunca a vi sorrir assim!
- Bem... Eu sonhei com seu pai. –
respondeu Dianna.
- Com papai? – as gêmeas
perguntaram em coro.
- Sim. Sonhei que ele estava de
volta. Não sei se devo interpretar esse sonho como um sinal de que ele logo
voltará para casa!
- Deve ser um aviso dos deuses,
mamãe! – exclamou Cece.
- Eu desejo que sim. – Dianna
falou, sem parar de sorrir.
***
No dia seguinte...
- Conte-nos mais sobre Nami e a
ilha de Ogígia, capitão Jones! – pediu Mary Anne.
- Bem... Ela me levou até uma
mesa, cheia de comidas deliciosas. E me disse que eu poderia comer à vontade.
Não queria abusar da hospitalidade da garota, mas estava morto de fome, pois
nem conseguimos pegar os carneiros de Polifemo. Então comi até me sentir
estufado, enquanto ela me observava atentamente com seus olhos escuros e
amendoados. “Desculpe-me por estar comendo tanto assim”, eu disse. Nami
respondeu: “Não, não, sem problema. Deve comer mesmo, imagino que deva ter
passado um certo tempo sem comer”. “Sim. Meus amigos e eu tentamos nos apoderar
de alguns carneiros, contudo, o ciclope a quem pertenciam os carneiros nos
atacou e quase nos transformou no seu jantar”, eu relatei. “Qual o seu nome, senhor?”,
ela quis saber. “David Jones. Capitão David Jones. Mas todos me chamam de
Davy”, eu disse. “E... Quem é Dianna?”, indagou Nami. “Você fala o nome dela
enquanto dorme”. Fiquei um pouco
surpreso com o tom como ela me fez essa pergunta. Parecia... Magoada.
- Magoada? – perguntou Paul.
- Sim... Mais tarde descobri que
minha suspeita estava correta. Onde eu estava? Ah sim. Respondi-lhe: “Dianna é
minha querida esposa, que tive que deixar em casa para cumprir uma missão para
o rei da Inglaterra, a quem sirvo como corsário. Ela me deu duas lindas filhas,
chamadas Cecilia e Rebecca. Há oito anos que deixei meu lar”.
- Espere aí.... O senhor passou
doze anos na ilha dela, capitão Jones? – inquiriu Ringo, espantado.
- Sim... Mas me pareceu
pouquíssimo tempo. O tempo passa de uma forma bem mais lenta em Ogígia. Bem...
Alguns dias, ou talvez semanas, meses, até anos, passaram. Nami era gentil,
atenciosa. Vez ou outra fazia perguntas sobre Dianna e nossas filhas. Ainda
mais ocasionalmente, sobre meus amigos.
Um dia, tomei coragem para saber um pouco mais sobre ela também.
Perguntei se havia mais alguém na ilha além de nós dois, já que a cama e a mesa
eram arrumadas quase como mágica. Ela me respondeu: “Bem... Não exatamente.
Tenho meus criados mágicos, mas não posso dizer que sejam pessoas”. Indaguei-me se ela era uma espécie de bruxa.
Todavia, ela parecia inofensiva. Então inquiri: “Você fica sozinha aqui? Sem
família, sem amigos?”. Ela confirmou. “É o castigo que recebi pela ofensa de
meu pai aos deuses”, disse Nami. “Mas... Foi seu pai que insultou os deuses!
Você não tem nada a ver com isso!”, eu disse. “Eu sei. Mas você sabe bem como
são os deuses”, ela disse com um suspiro. “Há algo que eu possa fazer por
você?”, eu quis saber, ansioso por ajudar. Não me parecia certo que ela vivesse
isolada do resto do mundo naquela ilhazinha. “Não”, Nami respondeu. “Somente me
fazer companhia”, ela completou, me olhando com uma certa... Dor. Eu não
entendia porque ela me olhava daquele jeito. Sentia-me desconfortável.
- Pobre Nami. – disse John.
- Sim. Após mais o que me pareceu
alguns dias, eu dormia, quando acabei despertando, com sede. Deparei-me com
Nami ajoelhada ao lado da cama, me olhando atentamente. Eu me assustei ao vê-la
ali. “Desculpe-me, desculpe-me, Davy. Não quis assustar você”, disse ela. “Tudo
bem”, eu respondi. “Mas o que estava fazendo?”. “Eu... Eu estava vendo você
dormir. Parece tão tranquilo quando dorme... Tão... Bonito”. Tenho certeza de
que corei quando a ouvi dizer isso. “Bem, eu...”. Ela não me deixou terminar.
“Davy... Eu sei que não posso sentir isso, já que você é casado, e ama a sua
esposa... Mas eu...” “Você...?”. “Eu...”. Ela me puxou pela gola da camisa e me
beijou, me beijou longa e docemente. E
logo me soltou. “Mil perdões, mil perdões!”, e saiu do quarto.
- Pobrezinha! Ela estava
apaixonada! – Mary Anne disse, com dó.
- Eu fiquei sem reação. Finalmente
entendi por que ela parecia sofrer. Não consegui voltar a dormir. Quando o Sol
raiou, eu me levantei, e procurei por ela. Encontrei-a trabalhando no seu
canteiro de flores. “Nami... Eu queria me desculpar”. “Se desculpar do quê? Sou
eu quem te deve desculpas. Eu sei que não posso nutrir esperanças, mas eu... Os
deuses me disseram que um dia me mandariam uma companhia... E que, entretanto,
eu não poderia desfrutar dessa companhia por muito tempo”. “Nami... Não tenho
nada contra você. Gosto de você, é muito boa para mim. Mas... Você é uma
menina, eu já tenho trinta anos. Ademais, eu tenho a minha mulher. Eu a amo
muito. Nós temos nossas filhas. Sinto muita falta das três. Se... Se eu não
tivesse as três, ficaria aqui com você. Faria companhia para você”. “Eu já
estou acostumada a ficar sozinha, Davy. O problema foi o destino que Afrodite
traçou para mim”. Ela abaixou o rosto, triste. Eu me sentia horrível por
magoá-la daquele jeito. Ergui o queixo dela e dei-lhe um beijo no rosto. Ela
ficou corada, e deu um sorriso tímido. Ela se levantou de perto do canteiro e
se afastou. Ainda me sentindo péssimo, também me levantei dali e foi para a
direção oposta de Ogígia, pensando. À noite, acabei reencontrando Nami para o
jantar. Ela continuava distante. Eu queria dizer algo para amenizar o
sofrimento dela, contudo, achei que poderia piorar a situação. Subitamente,
apareceu diante de nós Hermes. Ele disse: “Nami, ninfa da ilha de Ogígia, filha
de Atlas... Venha comigo. Tenho uma mensagem de Zeus para você”. Ela obedeceu
ao deus, e caminhou com ele até um ponto mais distante da ilha. Eu sabia que a
mensagem de Zeus tinha algo a ver comigo. Mais tarde, Nami voltou, com os olhos
marejados. “O que houve? O que Hermes disse?”, eu perguntei. “Preciso deixar
que você vá embora, Davy, ou Ogígia será afundada”, ela respondeu, secando as
lágrimas. Eu suspirei e disse: “Você é ótima, e este lugar é um paraíso... Mas
eu tenho uma esposa amada esperando por mim. E minhas filhas, que nem pude ver
crescerem”. “Você e os deuses estão certos. Eu... Vou preparar uma jangada para
que você possa partir”.
- E então? – Paul indagou.
- Nami e eu construímos uma
jangada bastante resistente. A jornada não seria curta. Ela me deu muitas
provisões. Depois de dois dias, eu estava pronto para partir. Colocamos a
pequena embarcação no mar, e subi nela. “Adeus, Nami. Obrigado por tudo”.
“Adeus, Davy. Que você possa regressar ao seu lar em segurança e rever Dianna e
suas gêmeas”. Ela sorriu, e eu beijei a mão dela. A jangada tomou impulso, e
começou a se afastar da praia de Ogígia. De longe, acenei para Nami uma última
vez, e me virei para olhar adiante. Alguns minutos mais tarde, voltei o olhar
para a direção da ilha, e vi uma imagem fugaz da ninfa ajoelhada, com o rosto
nas mãos. Chorando. Novamente me senti o pior dos homens. Naveguei por algumas
horas em alto-mar, e comecei a me sentir diferente. Olhei para minha mão, e ela
parecia começar a enrugar. Como isso era possível, se eu ainda tinha trinta
anos?
- Que estranho... – murmurou
Ringo.
- Como se lesse meus pensamentos,
Atena surgiu diante de mim e disse: “Enquanto você estava em Ogígia, sem que o
tempo passasse para você, passaram-se doze anos no mundo exterior. Agora,
envelhecerá todos esses anos. Chegou em Ogígia com trinta anos e saiu de lá com
essa mesma idade, mas logo aparentará ter a idade que de fato tem: quarenta e
dois”. “Estou com quarenta e dois anos?
Quer dizer que... Estou longe de casa há vinte anos?”, perguntei, chocado. “Sim”,
respondeu a deusa. “Farei o possível para que volte logo ao seu lar. Mais do
que nunca sua mulher e suas filhas precisam de você”. Então, a deusa acenou, e na água vi formar-se
uma imagem: minha esposa, Dianna, tentando se desvencilhar de Peter Noone, que
fazia de tudo para beijá-la. Isso já foi o suficiente para me deixar furioso.
Então a cena mudou. Keith Hopwood e Barry Whitwam, amigos de Noone, tentavam
agarrar minhas duas filhas. Naquele momento, senti todos os meus nervos
estalarem de tanta raiva. Eu voltaria para casa, custasse o que custasse!
- E como reencontrou Mike, Peter e
Micky? – inquiriu George.
- Os deuses devem ter me ajudado a
reencontrá-los. Fazia alguns dias que eu navegava com minha jangada, quase a
esmo, quando avistei um galeão, ou o que restava dele. Vi uma figura alta na
proa. Reconheci Mike, porém doze anos mais velho, com uma barba grisalha e o
rosto começando a vincar. “Mike! Mike! Sou eu!”, comecei a gritar e a acenar
num frenesi. Se eles conseguissem me ver, pequeno como sou, eu decididamente
estava com sorte. Creio que os deuses realmente haviam decidido me auxiliar,
porque me ouviram. Peter, que estava no timão, manobrou o navio até onde estava
minha jangada. Jogaram a escada de corda e subi por ela. Abracei meus amigos e
consultei a minha velha bússola. “Ao norte, cavalheiros! Suponho que desta vez
os deuses vão nos ajudar. Há muito tempo que estamos longe de nosso lar”. Isso
tudo aconteceu há uns dois meses... Até que, na semana passada, uma terrível
tempestade destruiu definitivamente a nossa embarcação, e viemos parar aqui.
- Grande história! – disseram os
cinco anfitriões.
- Bem, creio que poucos homens do
mar podem contar que viveram aventuras como as nossas. – disse Davy.
- Capitão Jones, vamos ajudá-los a
voltar para casa! Vamos ajudá-los a construir um barco. Não estão longe de
Manchester. – disse Mary Anne com um sorriso.
- Não mesmo? – Davy abriu um
sorriso. Finalmente voltaria para Dianna, e teria uma oportunidade de realmente
conhecer suas gêmeas.
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