Naquela noite,
Davy havia sido levado por Wendy e Sulu a uma sala que, segundo eles, era a
sala de recreação da Enterprise. Os
dois ainda estavam convencidos de que ele era aquele alferes Chekov. Cada vez que ele negava isso, a moça parecia
ficar desapontada.
Olhando
atentamente para ela, Davy entendeu porque se sentia um pouco apaixonado por
ela. Era óbvio! Ela lembrava Dianna, sua namorada, de um modo incrível. Tinha
os cabelos e os olhos da mesma cor que os de sua Di, e também tinha baixa
estatura. Como Chekov ainda não havia tido coragem de chegar numa pequena como
aquela?
- Sabe, Wendy, não me lembro de conhecer nenhuma garota como
você, nem em Manchester, nem em Londres, nem em Nova York. A garota mais
parecida com você que já cruzou meu caminho é minha namorada, Dianna Mackenzie,
que vive em Los Angeles. – disse ele.
- Você nasceu em Manchester? Jura? – Wendy foi irônica. –
Achei que você fosse de Leningrado, já que fala tanto de lá.
- Srta. Sutherland, eu já disse...
- Chega, Chekov! – disse Sulu, exasperado. – Você não é esse
tal de Davy Jones! Mas já ficou bem claro para todos aqui na nave que você não
está em pleno uso de suas faculdades mentais. Não sabe mais exercer suas funções
de navegador, ou de oficial tático, ou de oficial de ciências adjunto!
- E... Não se lembra sobre... Nós. - Wendy falou num tom triste.
- Nós, Wendy? – Davy
deu um sorrisinho malicioso.
- Sim, nós. Você, Hikaru e eu. Sabe, nos chamam de Os Três Mosqueteiros.
Somos inseparáveis. E muitos dizem que somos os jovens oficiais mais valorosos
da Frota. Dizem que você chegará à patente de capitão tão cedo quanto o capitão
Kirk!
- Ok, agora chega, vocês dois. Vocês já falaram bastante da
vida de Pavel Andreievitch Chekov à bordo da nave da Federação U. S. S.
Enterprise. Agora é a minha vez de falar sobre a vida de David Thomas Jones,
vocalista dos Monkees.
- Espera um pouco. Os Monkees? Aquela banda dos anos 60 do
século XX? Que tinha um programa de TV e tudo mais? Você acha mesmo que é o
vocalista daquela banda, Chekov? – Sulu caiu na gargalhada.
- Hikaru! – Wendy repreendeu-o, dando-lhe uma cotovelada. –
Hã, Pavel Andreievitch, ou Davy, nem sei mais como chamá-lo... Fale-nos sobre
sua vida.
- Bem... Como eu já disse, eu me chamo David Thomas Jones e
nasci no dia 30 de dezembro de 1945 em Manchester, Inglaterra. Desde jovem eu
mostrei talento para ser jóquei, mas isso acabou ficando em segundo plano. Aos
15 anos fui para Londres e me tornei ator de musicais. Poucos anos depois fui
levado para Nova York para me tornar cantor. Não deu muito certo até que fiz um
teste para participar de uma série de TV sobre uma banda de rock. E fui aceito.
Desde então sou Davy Jones, vocalista dos Monkees e ladrão de corações das
menininhas... Mas que na verdade só quer saber da sua namorada ciumenta, uma
professora de história linda chamada Dianna Mackenzie.
Quando
Davy falou de Dianna, Wendy não fez uma cara boa. O rapaz conhecia bem aquela
expressão. Dianna fazia essa expressão na maior parte do tempo. Era ciúme. Ele ficou preocupado. Ela não podia estar
gostando dele. Devia ser uma reação automática de Wendy, já que ela ainda o
tomava por Chekov. Então, subitamente, Davy teve uma ideia. Ele não sabia como
aquilo ainda não lhe havia ocorrido.
Levantou-se e foi até os aposentos de Chekov, com Sulu e Wendy em seu
encalço. Foi até o banheiro que ficava dentro dos aposentos. Olhou-se no espelho. Viu um rosto parecido
com o seu, mas que obviamente não era o seu próprio. Parecia também um
pouquinho mais alto e “cheio”.
- Fisicamente, eu realmente sou Chekov. – disse ele,
virando-se para olhar para Sulu e Wendy. – Mas a consciência que está nesse
corpo é a de Davy Jones.
- É impressionante... – Wendy murmurou. – Estamos
acostumados a lidar com coisas tão bizarras, e isso não nos ocorreu.
- De fato, onde estávamos com a cabeça? – disse Sulu.
- Agora acreditam em mim? – perguntou Davy.
- Agora sim. – disseram os jovens tenentes com um sorriso.
- Precisamos comunicar ao capitão. – falou Sulu.
- Sim, precisamos. – concordou Wendy. – Porém, não tenho
muita certeza se ele, o sr. Spock e o dr. McCoy vão acreditar em nós.
- O sr. Spock não acreditar em você? Impossível! – disse
Sulu. – Se eu fosse você, ficava esperto na época do Pon-Farr...
Wendy ruborizou-se.
- Hikaru, você sabe muito bem que minha relação com o sr.
Spock é puramente profissional. Mesmo porque ele é vulcano.
- Você pode muito bem agir como vulcana quando quer. –
retrucou Sulu.
- Sou emocional demais. Isso encerra a discussão. E... Você
sabe o que sinto por... Por Pavel Andreievitch. – Wendy lançou um olhar receoso
a Davy.
- Relaxe, Wendy, quando eu recuperar meu corpo não contarei
nada a Chekov. – Davy riu, aumentando o rubor nas faces de Wendy.
- Hã... Obrigada, eu acho. – ela falou.
- Então... Vamos contar ao capitão, o sr. Spock e o dr.
McCoy? – inquiriu Sulu.
- Temos escolha? – Davy inquiriu por sua vez.
- Creio que não. – Wendy respondeu.
- Então vamos contar. – disse Davy.
- Srta.
Sutherland, acha mesmo que o sr. Chekov trocou de lugar com um cantor dos anos
1960? – indagou o sr. Spock. Não achava aquele raciocínio de sua assistente
totalmente lógico.
- Tenho certeza,
sr. Spock! O tenente Sulu concorda comigo.
- Dr. McCoy... –
começou o sr. Spock.
- Sim?
- Seria
perigoso para a saúde mental, ou ainda física, do sr. Chekov que eu lhe fizesse
um mindmelding?
- Tenho medo
dos efeitos colaterais.... – resmungou o dr. McCoy. – Mas me parece que o único
modo de confirmar essa história é por meio desses seus métodos alternativos.
- Métodos
alternativos? – se um vulcano podia parecer irritado, Spock parecia.
- O que é um
mindmelding, Wendy? – Davy perguntou ao ouvido da tenente.
- É um
pouco difícil de definir... Eu diria, grosso modo, que é um meio pelo qual os
vulcanos estabelecem uma conexão entre suas mentes e as das pessoas em quem
aplicam o mindmelding, geralmente de forma a extrair informações... No caso, se
você de fato é Davy Jones.
Davy engoliu em seco, preocupado. Contudo, acabou por deixar o primeiro
oficial entrar em seus pensamentos. A sensação era estranha, e era um pouco
constrangedor que o sr. Spock visse algumas de suas lembranças, sobretudo
aquelas que envolviam Dianna... Por fim, terminou. Estoicamente, o oficial de
ciências disse ao capitão e ao dr. McCoy:
- Capitão, doutor... Este de fato não é o alferes
Chekov. O corpo é o dele, sem sombra de
dúvida, mas a consciência de fato pertence ao tal cantor.
- Que faremos, então? – inquiriu o capitão Kirk.
- Não vejo alternativa senão encontrarmos um meio de voltar
no tempo, de maneira que possamos devolver a consciência do sr. Jones ao seu
corpo, e trazer a do sr. Chekov de volta.
– disse o sr. Spock. – Srta. Sutherland...
- Pensarei em algo, sr. Spock! Farei de tudo para ter meu
amigo de volta! – exclamou Wendy.
- Ótimo. – respondeu o sr. Spock.
Sulu e Davy
olharam para Wendy, e quase era possível enxergar as engrenagens se movendo no
cérebro brilhante daquela garota-prodígio.
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