Episódio 1
David Jones, mais
conhecido como Davy Jones, era um jovem corsário inglês, temido por todos os
navios mercantes europeus. Ser perseguido por ele implicava, quase sempre,
perder todo o carregamento de metais e pedras preciosos. O rei tinha Davy na
mais alta conta, e o enviava frequentemente em missões para roubar os tesouros
dos países inimigos da Inglaterra.
Contudo,
naquele dia o corsário não tinha planos de voltar ao mar tão cedo. Fazia pouco
mais de um mês que sua amada esposa, Dianna, havia dado à luz duas lindas
meninas, gêmeas idênticas. Elas haviam recebido os nomes de Cecilia e Rebecca.
Davy estava orgulhoso e feliz. Sua felicidade durou até a chegada de um
emissário de Sua Majestade à sua casa em Manchester.
- Sr. David Jones? O corsário? – perguntou o mensageiro ao
se ver diante do dono da casa.
- O próprio. – respondeu Davy.
- Sr. Jones, Sua Majestade, o rei da Inglaterra, ordena que
parta em expedição para obter uma quantidade fabulosa de ouro e prata de um
certo navio mercante espanhol, denominado Santa
Rosa.
- Mas... Há pouco tempo que aportei! Estou em terra firme há
apenas dois meses e meio!
- Ordens de Sua Majestade, sr. Jones.
O
corsário deu um suspiro resignado. O que diria a Dianna? Ela certamente não
gostaria nada daquilo.
- Você precisa mesmo ir, querido? – indagou ela, olhando
para ele suplicante. O casal passava a maior parte do tempo separado. Toda vez
que Davy precisava voltar ao mar era uma tortura.
- Di, meu bem, isso dói em mim tanto quanto em você. Não
quero deixá-la, nem nossas filhas. Porém... É meu dever.
- Por que escolheu ser corsário? – lamentou-se Dianna. –
Poderia ser qualquer outra coisa, para que não precisássemos nos separar.
- Se eu não fosse um corsário, querida, nunca teríamos nos
conhecido. – disse ele, piscando para ela.
- Você e seus argumentos astuciosos. – ela riu. – Vá. Faça
seu trabalho. Mas me prometa que vai
voltar logo, está bem?
- Eu prometo. – Davy beijou a esposa.
Vinte anos depois...
- Que belo mentiroso eu sou. – pensava Davy, no convés de
seu navio, consultando a bússola. – Dianna deve já ter perdido as esperanças...
E eu também estou quase as perdendo. E Cecilia e Rebecca? Como minhas garotinhas ficaram esses
anos todos sem pai?
Maldito dia em que havia aceitado partir naquela expedição para o rei! Se
houvesse desobedecido, teria permanecido ao lado delas. Quase morria de
saudades da esposa, e desejava profundamente ver as filhas. Teriam ficado
parecidas com ele ou com a mãe?
* * *
- Mamãe, Becky e eu
temos que dizer algo à senhora. – disse Cecilia, entrando no quarto da mãe,
entretida em costurar, como sempre.
- O quê, Cece?
- Nós queremos procurar
nosso pai. – disse Rebecca, antes que a irmã pudesse abrir a boca.
Dianna sentiu seu coração quase sair pela boca só de pensar naquela
possibilidade.
- Não! Eu proíbo! – exclamou ela. – Eu já perdi seu pai para
as águas traiçoeiras do oceano, não deixarei que o mesmo aconteça a vocês!
Vocês são tudo que me resta.
- Mas, mamãe, e se papai ainda estiver em algum lugar por
aí? – insistiu Cecilia.
- Você é teimosa como ele, Cece. – Dianna beijou a filha. –
E tem os olhos dele.
- Eu me pareço com ele em algo, mãe? – quis saber Rebecca.
- Além dos olhos? É amorosa como ele, Becky. – Dianna beijou
a outra filha. – Sabem, meninas, eu ainda tenho esperanças de que seu pai
voltará. Mas prefiro que vocês fiquem aqui, e esperem por ele comigo.
- Mas, mamãe... – começou Cecilia.
- Temos vontade de ver o mar! – completou Rebecca. – É tão
fascinante!
- Não, não e não! Dei muitas liberdades a vocês, poucas
jovens de sua idade são tão independentes. No entanto, não vou entregar vocês à
morte, minhas filhas!
Por ora, Cecilia e Rebecca resolveram não discutir com a mãe. Todavia,
tentariam mais uma vez.
* * *
O navio de Davy novamente enfrentava uma tempestade. Em todos aqueles
vinte anos, o corsário aprendera a temer profundamente as tormentas.
Normalmente significavam novo atraso em seu regresso ao lar.
Ele e os amigos faziam o máximo possível para salvar a embarcação. A
antiga tripulação do galeão que havia partido em busca do navio mercante
espanhol havia ficado reduzida ao capitão Jones e seus três fiéis companheiros:
Mike Nesmith, Micky Dolenz e Peter Tork. Os quatro corsários haviam enfrentado
diversos perigos juntos.
- Desta vez o velho navio não vai aguentar! – Mike gritava,
tentando soar mais alto que os ventos ululantes.
- Tem que aguentar! – bradou o capitão. – Só assim
voltaremos para casa!
- Davy, esqueça isso! Nunca mais vamos pisar o chão da Inglaterra!
– Micky exclamou. – Dianna, Emma, Alice e Erin já estão vestindo luto há vinte
anos!
- Fale por você, Micky! Eu vou voltar ao nosso país!
Reencontrarei minha esposa e minhas filhas!
- Você é louco, Davy! – exclamou Peter. – Mas ficaremos ao seu
lado até o fim!
O navio rodopiou nas águas por um longo tempo, até que foi estraçalhado.
Os quatro corsários se agarraram a algumas tábuas, e conseguiram chegar, sãos e
salvos, a uma ilhazinha.
Estavam estendidos na areia, tentando recuperar as forças, quando foram
vistos por uma jovem. Ela não deveria ter mais do que 22 anos... A mesma idade
que Dianna tinha quando Davy partiu naquela expedição maldita.
- Quem são os senhores? Precisam de ajuda? – perguntou a
moça. Não parecia assustada diante daqueles homens vestidos em roupas reduzidas
a trapos e com barbas há muito por fazer.
- Somos corsários de Sua Majestade,o rei da Inglaterra. Há
duas décadas que saímos numa expedição para saquear uma galera espanhola, e
conseguimos... Mas nunca voltamos para casa.
- São ingleses? Estão mais perto de casa do que imaginam!
Meu irmão, meu marido, nossos amigos e eu faremos o que pudermos para
auxiliá-los. Venham! A propósito, meu nome é Mary Anne McCartney-Harrison.
Os quatro
amigos seguiram a jovem mulher até uma casa de tamanho razoável e aparência
acolhedora. Ela abriu a porta, e chamou:
- George! Paul! John! Ringo! Temos visitas! Emprestem
algumas roupas para os pobres homens!
- Quem são esses homens, Mary Anne? – quis saber um rapaz de
no máximo 25 anos, alto e magro.
- São corsários que naufragaram, George.
- Onde os encontrou?
- Na praia, querido.
- Bem... Eu sou George Harrison. – disse ele, apertando a
mão de cada um dos quatro náufragos. – E os senhores?
- Revelarei quem somos quando convier. – disse Davy.
George
torceu o nariz, achando aquela história mal contada. Logo apareceram os demais
moradores da casa: Paul McCartney, irmão de Mary Anne, John Lennon e Ringo
Starr. A jovem convenceu os rapazes a emprestarem roupas para os náufragos, e
preparou chá.
- Dirão quem são? – pressionou John, quando os náufragos
estavam devidamente secos, limpos, barbeados e com roupas secas e limpas e Mary
Anne enchia xícaras com chá para eles.
- Sim! – exclamou Davy. – Eu sou o capitão David Jones, cuja
fama atinge todos os oceanos ocidentais! Saqueei muito em nome do rei da
Inglaterra! E estes são meus amigos Mike Nesmith, Micky Dolenz e Peter Tork,
meus companheiros de inúmeras viagens.
- Aquele David Jones? – Ringo estava surpreso. – O que foi
dado como morto vinte anos atrás?
- Bem... Possivelmente. – Davy riu.
- Dizem que sua mulher se recusa a admitir a possibilidade
de que você está morto. – observou Paul.
- E o mesmo se aplica às esposas dos seus amigos. – Mary
Anne acrescentou.
Os
quatro amigos sorriram. Era bom saber que elas ainda nutriam esperança depois
de tanto tempo.
- Devem ter muitas histórias para contar! – disse George,
entusiasmado.
- E como temos! – falou Micky.
- Vimos e fizemos muitas coisas ao longo dessas duas
décadas. – Peter disse.
- Acho que devemos deixar Davy relatar, ele é o melhor
contador de histórias de nós quatro. –
disse Mike.
- Nem tanto assim. – Davy falou, modestamente.
- Pare com isso! Você sabe que é. – disse Micky.
Davy limpou a garganta e começou sua narrativa.
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