sexta-feira, 15 de maio de 2015

Hittin' The High Seas - Episódio 2 (Minissérie)

Boa tarde! Aí vai mais um episódio dessa minissérie inspirada na Odisseia de Homero! 



Episódio 2


- Nós partimos da Inglaterra há vinte anos, em uma expedição a mando do rei da Inglaterra para pilhar um navio mercante espanhol. Ficamos seis meses no encalço do galeão, conseguimos pegá-lo nos arredores das Índias Orientais e saqueá-lo. Íamos de volta à Inglaterra quando...

- O que houve? – perguntou Mary Anne, após a pausa dramática que Davy fizera de propósito.

- Bem, numa certa vez, navegávamos na rota de volta ao nosso país de origem, quando meus três amigos e eu, que estávamos no convés, analisando as estrelas e consultando os instrumentos de navegação, fomos engolidos, por assim dizer, por uma grande massa de água.

- Uma grande massa de água? – espantou-se George.

- Sim. Essa massa de água nos envolveu e nos levou para as profundezas do oceano... Mais exatamente para o palácio do próprio deus dos mares, Poseidon.

- O palácio de Poseidon? – Paul ficou boquiaberto.

- Sim. Fomos introduzidos no salão do trono. Que lugar maravilhoso! Tudo era feito de coral, pérolas e conchas, nos mais variados matizes.  Vimo-nos então diante de dois majestosos tronos de nácar. Neles estavam sentados um homem jovem, de cabelos pretos e olhos azuis, alto e magro, segurando um tridente, e uma bela moça, alta, de cabelos e olhos castanhos, com conchinhas enfeitando seus cabelos. Ambos usavam vestes de tecido fluido, em tons de azul e verde.

- Poseidon e Anfitrite. – adivinhou Ringo.

- Os próprios.  Poseidon nos estudou minuciosamente, e disse: “Bem-vindos! Há muito que desejo conhecer os quatro mais famosos corsários que já singraram meus domínios!”. Devo dizer que me senti um pouco intimidado perante o deus, com aqueles olhos faiscantes como uma tempestade marítima e aquele nariz enorme.  Olhei para meus amigos. Mike e Peter estavam tão espantados diante do casal de deuses quanto eu. Já Micky parecia fascinado pela beleza da rainha Anfitrite.

- Se o amor por minha esposa não falasse mais alto... – murmurou Micky, lembrando-se da esposa do rei dos mares.

- Na verdade, ela recusou você terminantemente! – corrigiu-o Peter. Micky ficou corado e nada respondeu.

- Continue, Davy. – pediu Mike.

- Onde eu estava? Ah, sim! O deus do mar disse: “Proponho aos senhores que passem uma noite em meu palácio. Será oferecido um banquete em sua honra”. Como poderíamos recusar uma proposta do próprio Poseidon? Alguns seres marinhos, criados da divindade, instalaram-nos em belos quartos.  À noite, juntamo-nos a Poseidon e Anfitrite no festim. Nunca tinha me visto antes diante de tanta fartura, e já tive lautas refeições algumas vezes. Comemos e bebemos à vontade. Bem, bebemos além da conta, é verdade, tão delicioso era o vinho.

- Bebemos tanto que tivemos problemas. – Mike resmungou.

- Sim... – Davy ficou um pouco ruborizado. – O efeito do álcool sobre mim me levou a dizer ao deus: “Como um deus pode ter um nariz tão absurdamente grande?”. O rei do mar olhou-me furioso... Entretanto, Micky conseguiu deixá-lo ainda mais irritado, dizendo: “Pode ser absurdamente narigudo, mas pôde desposar uma belíssima deusa, a mais bela criatura que já vi em minha vida”.

- E como Poseidon reagiu a essa afirmação? – quis saber John.

- Ele lançou a Micky um olhar ainda mais furibundo. Anfitrite fitou Micky, chocada e ofendida, esbravejando: “Como ousa?”.  E Poseidon gritou, seu grito soando como o rugido do mar agitado: “CAPITÃO DAVID JONES! Pela sua ousadia e de seu amigo, banirei os quatro do meu reino! E cuidarei para que nunca regressem à Inglaterra! Nunca mais verão suas mulheres e seus filhos!” . Outra massa de água nos envolveu, e nos levou de volta para a superfície, jogando-nos com violência de volta no convés, para assombro da tripulação. Mal conseguimos retomar nossos postos, teve início uma das chuvas mais violentas que eu havia visto até então.

- Enviada por Poseidon, decerto. – disse Mary Anne.

- Certamente.  – confirmou Davy. - O navio quase foi tragado pelas águas bravias. Perdi muitos dos meus homens. A embarcação navegou sem rumo por um longo, longo tempo... Mas agora está tarde. Devemos nos recolher, não? Amanhã darei continuidade à narrativa.

                Os anfitriões de Davy e seus amigos não gostaram da interrupção no relato do famigerado corsário, contudo, arrumaram camas confortáveis para os hóspedes, ansiosos para saber mais de suas aventuras no dia seguinte.

                                                                          * * *


                      Dianna estava em seu quarto, costurando uma tapeçaria. Havia cerca de dezenove anos que ela trabalhava na tapeçaria, sempre a desmanchando à noite. Aquela havia sido a artimanha que havia criado para não ter que ceder a Peter Noone.
                       Ele era um homem ganancioso e inescrupuloso, que ainda na juventude havia decidido que tornaria Dianna sua esposa. Ela não gostava dele, e o recusou em favor de seu amado Davy. Noone por um tempo engoliu a desfeita. Todavia, desde que se passou um ano da partida de Davy e ele ainda não havia retornado para casa, o salafrário passou a tentar convencer a esposa do corsário de que ele estava morto.
                      Ela se recusava terminantemente a crer nisso, e havia dito a Noone que quando terminasse de confeccionar a tapeçaria, se tornaria sua esposa. No entanto, ela jamais terminaria. Uma criada entrou no quarto de Dianna e disse-lhe:


- Sra. Jones, o sr. Noone está na sala de visitas. Deseja vê-la.
                             

                         Dianna deu um suspiro de profunda irritação.


- Está bem. Diga-lhe que já vou.

                           Ela deixou a tapeçaria sobre a banqueta em que estava sentada e foi até a sala.


- O que você quer, Noone? – depois de dezenove anos aturando as visitas dele, Dianna não se preocupava mais em ser cordial.

- Apenas vê-la, minha querida.  Tem 42 anos, mas ainda continua bela como se tivesse vinte anos a menos.

- Bajular-me não o tornará mais agradável a meus olhos, Noone. Sabe que eu ainda tenho esperança de rever meu marido.

- Seu marido está morto há anos!

- Não, eu sei que ele não está! Mas, se ficar claro que você está certo... Vou desposá-lo quando terminar a confecção daquela tapeçaria.

- Você está trabalhando nela há dezenove anos! Já deveria tê-la terminado!

- É uma peça delicada, de desenhos intrincados.

- Por que não pede às suas filhas que a terminem?

- Cecilia e Rebecca não sabem costurar. Isso nunca lhes foi ensinado. – Dianna respondeu prontamente. Quando suas filhas estavam se aproximando da idade de aprender a costurar, ela decidiu que isso não lhes seria ensinado, pois previa que Noone faria aquela sugestão.

- Você as criou mal, Dianna. Elas já cresceram sem um pai, e você arremata as criando da forma mais... Inadequada.

- Inadequada por quê? Por que as criei para ser independentes de um homem? Por que não as ensinei coisas que as colocam numa posição servil em relação aos seus futuros maridos? Por que permiti a elas que fossem livres? Eu acho que não cometi nenhum erro criando minhas meninas desse modo, Noone. E agora saia já da minha casa! Não sei por que ainda o recebo! Criatura impertinente! – ordenou ela.

                                  
                                        Ele obedeceu. A “viúva” seria sua, custasse o que custasse.

                                                                          


                                                                         * * *


- Desejam ouvir mais sobre nossas aventuras? – perguntou Davy a Mary Anne, George, John, Paul e Ringo.

- Certamente! – exclamaram os cinco anfitriões.

                                
                                  Davy limpou a garganta e deu continuidade ao seu relato.


- Bem, a tempestade enviada por Poseidon fez o navio por muito tempo seguir um caminho incerto. Quando digo “muito tempo”, quero dizer de fato muito tempo, cerca de cinco anos.  Até que um dos marujos, no cesto da gávea, disse-me que havia avistado sereias nas pedras adiante. O caminho entre as pedras era largo, e o único que parecia nos permitir sair do estado de rumo incerto. Eu sabia que não podia atravessar por ali. Todos que ouvem o canto das sereias ficam tão encantados que se atiram ao mar, e ali morrem afogados. Não podia permitir que isso acontecesse à minha tripulação. Eu também tinha o desejo de ouvir o canto delas, mas sabia que isso era impossível. Então, enquanto pensava em minha cabine, ouvi uma voz suave me dizer: “Você tem uma saída. Amarre-se ao mastro e encha os ouvidos de seus marujos com chumaços de algodão”. Virei-me e vi uma jovem loira, baixa e de inteligentes olhos azuis.

- Quem era ela? – perguntou John.

- Foi o que lhe indaguei. Respondeu-me: “Eu sou Atena, meu bravo e astucioso herói. Protegê-lo-ei e auxiliá-lo-ei em tudo, pois já me deu amostras suficientes de que merece meus préstimos”. Disse à deusa que eu não era digno de receber sua proteção e seu auxílio, mas ela insistiu, e repetiu-me o que disse no momento em que surgiu perante mim. E sumiu. Eu ainda estava um tanto receoso. Contudo, decidi pôr em prática as recomendações de Atena. Pedi aos homens que me amarrassem ao mastro, e que enchessem seus ouvidos de chumaços de algodão, a fim de que atravessássemos sem sucumbir aos cantos das sereias.

- E conseguiram realizar esse intento? – inquiriu Paul.

- Sim. Mas foi penoso. O canto melodioso das sereias me seduzia, pois as temíveis criaturas soavam como minha esposa aos meus ouvidos. Esqueci-me de que o que ouvia vinha das gargantas das sereias, e não de minha Dianna. Eu implorava, aos gritos, que a tripulação me soltasse, para que eu pudesse me juntar à minha mulher, já que eu julgava que a ouvia. Como eles estavam com os ouvidos cheios de algodão, não me ouviram. E assim atravessamos sem que ninguém se rendesse àqueles cantos fatais. Até que, já fora do alcance das sereias, nos vimos diante de Caríbdis e Cila, duas criaturas monstruosas, que tentaram destruir o navio e devorar os tripulantes. Tentando derrotá-las, perdi novamente muitos dos meus homens. Mas já está ficando tarde, não acham?

- Por que insiste em nos deixar curiosos, capitão Jones? – perguntou George.


- É assim que deve ser uma boa história, não é? Deve prender a atenção de quem a lê ou ouve.  – o corsário sorriu. 

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