Episódio 2
- Nós partimos da Inglaterra há vinte anos, em uma expedição
a mando do rei da Inglaterra para pilhar um navio mercante espanhol. Ficamos seis
meses no encalço do galeão, conseguimos pegá-lo nos arredores das Índias
Orientais e saqueá-lo. Íamos de volta à Inglaterra quando...
- O que houve? – perguntou Mary Anne, após a pausa dramática
que Davy fizera de propósito.
- Bem, numa certa vez, navegávamos na rota de volta ao nosso
país de origem, quando meus três amigos e eu, que estávamos no convés, analisando
as estrelas e consultando os instrumentos de navegação, fomos engolidos, por
assim dizer, por uma grande massa de água.
- Uma grande massa de água? – espantou-se George.
- Sim. Essa massa de água nos envolveu e nos levou para as
profundezas do oceano... Mais exatamente para o palácio do próprio deus dos
mares, Poseidon.
- O palácio de Poseidon? – Paul ficou boquiaberto.
- Sim. Fomos introduzidos no salão do trono. Que lugar
maravilhoso! Tudo era feito de coral, pérolas e conchas, nos mais variados
matizes. Vimo-nos então diante de dois
majestosos tronos de nácar. Neles estavam sentados um homem jovem, de cabelos
pretos e olhos azuis, alto e magro, segurando um tridente, e uma bela moça,
alta, de cabelos e olhos castanhos, com conchinhas enfeitando seus cabelos.
Ambos usavam vestes de tecido fluido, em tons de azul e verde.
- Poseidon e Anfitrite. – adivinhou Ringo.
- Os próprios. Poseidon nos estudou minuciosamente, e disse:
“Bem-vindos! Há muito que desejo conhecer os quatro mais famosos corsários que
já singraram meus domínios!”. Devo dizer que me senti um pouco intimidado
perante o deus, com aqueles olhos faiscantes como uma tempestade marítima e
aquele nariz enorme. Olhei para meus
amigos. Mike e Peter estavam tão espantados diante do casal de deuses quanto
eu. Já Micky parecia fascinado pela beleza da rainha Anfitrite.
- Se o amor por minha esposa não falasse mais alto... –
murmurou Micky, lembrando-se da esposa do rei dos mares.
- Na verdade, ela recusou você terminantemente! – corrigiu-o
Peter. Micky ficou corado e nada respondeu.
- Continue, Davy. – pediu Mike.
- Onde eu estava? Ah, sim! O deus do mar disse: “Proponho
aos senhores que passem uma noite em meu palácio. Será oferecido um banquete em
sua honra”. Como poderíamos recusar uma proposta do próprio Poseidon? Alguns
seres marinhos, criados da divindade, instalaram-nos em belos quartos. À noite, juntamo-nos a Poseidon e Anfitrite no
festim. Nunca tinha me visto antes diante de tanta fartura, e já tive lautas
refeições algumas vezes. Comemos e bebemos à vontade. Bem, bebemos além da
conta, é verdade, tão delicioso era o vinho.
- Bebemos tanto que tivemos problemas. – Mike resmungou.
- Sim... – Davy ficou um pouco ruborizado. – O efeito do
álcool sobre mim me levou a dizer ao deus: “Como um deus pode ter um nariz tão
absurdamente grande?”. O rei do mar olhou-me furioso... Entretanto, Micky
conseguiu deixá-lo ainda mais irritado, dizendo: “Pode ser absurdamente
narigudo, mas pôde desposar uma belíssima deusa, a mais bela criatura que já vi
em minha vida”.
- E como Poseidon reagiu a essa afirmação? – quis saber
John.
- Ele lançou a Micky um olhar ainda mais furibundo.
Anfitrite fitou Micky, chocada e ofendida, esbravejando: “Como ousa?”. E Poseidon gritou, seu grito soando como o
rugido do mar agitado: “CAPITÃO DAVID JONES! Pela sua ousadia e de seu amigo,
banirei os quatro do meu reino! E cuidarei para que nunca regressem à
Inglaterra! Nunca mais verão suas mulheres e seus filhos!” . Outra massa de
água nos envolveu, e nos levou de volta para a superfície, jogando-nos com
violência de volta no convés, para assombro da tripulação. Mal conseguimos
retomar nossos postos, teve início uma das chuvas mais violentas que eu havia
visto até então.
- Enviada por Poseidon, decerto. – disse Mary Anne.
- Certamente. –
confirmou Davy. - O navio quase foi tragado pelas águas bravias. Perdi muitos
dos meus homens. A embarcação navegou sem rumo por um longo, longo tempo... Mas agora está tarde. Devemos nos recolher, não? Amanhã darei continuidade à
narrativa.
Os
anfitriões de Davy e seus amigos não gostaram da interrupção no relato do
famigerado corsário, contudo, arrumaram camas confortáveis para os hóspedes,
ansiosos para saber mais de suas aventuras no dia seguinte.
* * *
Dianna estava em seu quarto, costurando uma tapeçaria. Havia cerca de
dezenove anos que ela trabalhava na tapeçaria, sempre a desmanchando à noite. Aquela
havia sido a artimanha que havia criado para não ter que ceder a Peter Noone.
Ele era um homem ganancioso e inescrupuloso, que ainda na juventude
havia decidido que tornaria Dianna sua esposa. Ela não gostava dele, e o
recusou em favor de seu amado Davy. Noone por um tempo engoliu a desfeita.
Todavia, desde que se passou um ano da partida de Davy e ele ainda não havia
retornado para casa, o salafrário passou a tentar convencer a esposa do
corsário de que ele estava morto.
Ela se recusava terminantemente a crer nisso, e havia dito a Noone que
quando terminasse de confeccionar a tapeçaria, se tornaria sua esposa. No
entanto, ela jamais terminaria. Uma criada entrou no quarto de Dianna e
disse-lhe:
- Sra. Jones, o sr. Noone está na sala de visitas. Deseja
vê-la.
Dianna deu um suspiro de profunda irritação.
- Está bem. Diga-lhe que já vou.
Ela deixou
a tapeçaria sobre a banqueta em que estava sentada e foi até a sala.
- O que você quer, Noone? – depois de dezenove anos aturando
as visitas dele, Dianna não se preocupava mais em ser cordial.
- Apenas vê-la, minha querida. Tem 42 anos, mas ainda continua bela como se
tivesse vinte anos a menos.
- Bajular-me não o tornará mais agradável a meus olhos,
Noone. Sabe que eu ainda tenho esperança de rever meu marido.
- Seu marido está morto há anos!
- Não, eu sei que ele não está! Mas, se ficar claro que você
está certo... Vou desposá-lo quando terminar a confecção daquela tapeçaria.
- Você está trabalhando nela há dezenove anos! Já deveria
tê-la terminado!
- É uma peça delicada, de desenhos intrincados.
- Por que não pede às suas filhas que a terminem?
- Cecilia e Rebecca não sabem costurar. Isso nunca lhes foi
ensinado. – Dianna respondeu prontamente. Quando suas filhas estavam se
aproximando da idade de aprender a costurar, ela decidiu que isso não lhes
seria ensinado, pois previa que Noone faria aquela sugestão.
- Você as criou mal, Dianna. Elas já cresceram sem um pai, e
você arremata as criando da forma mais... Inadequada.
- Inadequada por quê? Por que as criei para ser
independentes de um homem? Por que não as ensinei coisas que as colocam numa
posição servil em relação aos seus futuros maridos? Por que permiti a elas que
fossem livres? Eu acho que não cometi nenhum erro criando minhas meninas desse
modo, Noone. E agora saia já da minha casa! Não sei por que ainda o recebo!
Criatura impertinente! – ordenou ela.
Ele
obedeceu. A “viúva” seria sua, custasse o que custasse.
* * *
- Desejam ouvir mais sobre nossas aventuras? – perguntou
Davy a Mary Anne, George, John, Paul e Ringo.
- Certamente! – exclamaram os cinco anfitriões.
Davy limpou a garganta e deu continuidade ao seu relato.
- Bem, a tempestade enviada por Poseidon fez o navio por
muito tempo seguir um caminho incerto. Quando digo “muito tempo”, quero dizer
de fato muito tempo, cerca de cinco anos.
Até que um dos marujos, no cesto da gávea, disse-me que havia avistado
sereias nas pedras adiante. O caminho entre as pedras era largo, e o único que
parecia nos permitir sair do estado de rumo incerto. Eu sabia que não podia
atravessar por ali. Todos que ouvem o canto das sereias ficam tão encantados
que se atiram ao mar, e ali morrem afogados. Não podia permitir que isso
acontecesse à minha tripulação. Eu também tinha o desejo de ouvir o canto
delas, mas sabia que isso era impossível. Então, enquanto pensava em minha
cabine, ouvi uma voz suave me dizer: “Você tem uma saída. Amarre-se ao mastro e
encha os ouvidos de seus marujos com chumaços de algodão”. Virei-me e vi uma
jovem loira, baixa e de inteligentes olhos azuis.
- Quem era ela? – perguntou John.
- Foi o que lhe indaguei. Respondeu-me: “Eu sou Atena, meu
bravo e astucioso herói. Protegê-lo-ei e auxiliá-lo-ei em tudo, pois já me deu
amostras suficientes de que merece meus préstimos”. Disse à deusa que eu não
era digno de receber sua proteção e seu auxílio, mas ela insistiu, e repetiu-me
o que disse no momento em que surgiu perante mim. E sumiu. Eu ainda estava um
tanto receoso. Contudo, decidi pôr em prática as recomendações de Atena. Pedi
aos homens que me amarrassem ao mastro, e que enchessem seus ouvidos de
chumaços de algodão, a fim de que atravessássemos sem sucumbir aos cantos das
sereias.
- E conseguiram realizar esse intento? – inquiriu Paul.
- Sim. Mas foi penoso. O canto melodioso das sereias me
seduzia, pois as temíveis criaturas soavam como minha esposa aos meus ouvidos.
Esqueci-me de que o que ouvia vinha das gargantas das sereias, e não de minha
Dianna. Eu implorava, aos gritos, que a tripulação me soltasse, para que eu pudesse
me juntar à minha mulher, já que eu julgava que a ouvia. Como eles estavam com
os ouvidos cheios de algodão, não me ouviram. E assim atravessamos sem que
ninguém se rendesse àqueles cantos fatais. Até que, já fora do alcance das
sereias, nos vimos diante de Caríbdis e Cila, duas criaturas monstruosas, que
tentaram destruir o navio e devorar os tripulantes. Tentando derrotá-las, perdi
novamente muitos dos meus homens. Mas já está ficando tarde, não acham?
- Por que insiste em nos deixar curiosos, capitão Jones? –
perguntou George.
- É assim que deve ser uma boa história, não é? Deve prender
a atenção de quem a lê ou ouve. – o
corsário sorriu.
Nenhum comentário:
Postar um comentário