Roger ficou quieto por uns instantes, até que disse:
– Grávida? Você tem certeza?
– Tenho. Certeza absoluta. Você terminou de ferrar com a minha vida.
– Mary, não fale assim. É o nosso filho.
– Que eu vou ter que criar sozinha.
– Não! Eu vou dar do bom e do melhor para esta criança!
– Você sabe que vamos ter que nos casar, não sabe?
– Sei.
– Então vamos pôr tudo em pratos limpos. Você é um imprestável, mas eu amo você, Roger.
– Eu sei que agi mal..... Mas eu te amo, Mary! Me perdoa?
– Não sei se devo.
– Eu prometo que vou tentar melhorar.
– Você não vai tentar. Vai melhorar de verdade. Ou eu te mato.
– Não precisa ficar nervosa...
Aproximando-se de Mary, ele a beijou, segurando seu queixo com uma mão. Com a outra, acariciava o ventre dela. Mary não podia acreditar naquela mudança de comportamento.
– Ei Andy, me dê um dó! – Tom pediu, enquanto cutucava o microfone.
O baixista tentou atender o pedido, mas a corda do baixo se rompera quando tentara tocar.
– Que merda... – Andy falou, tocando a mão na própria testa. - É por esse e mil motivos que precisamos de um contrato. Estes instrumentos são péssimos, precisamos de algo de qualidade!
– Calma, Andy Boy... – Rob falou, sentando no chão, ao lado da cadeira onde o colega estava. – Quando ficarmos famosos, você não poderá só comprar um baixo melhor, mas uma loja inteira! Seremos podres de ricos, e com as garotas se jogando aos nossos pés!
– Melhores que os Beatles? – Tom provocou, risonho.
– Melhores que os Beatles. – O baterista afirmou, dando um tapinha nas costas de Andy.
– Bom, uma loja de baixos é tentadora, assim como as garotas aos nossos pés... – Andy falou, dedilhando de leve as cordas restantes. – Mas nenhuma delas é a Mary.
– Ah Andy, você deve esquecê-la! Se ela quer quebrar a cara com o galinha daquele vocalista do The Who, deixa! Assim ela aprende!
– É complicado Tom, muito complicado... Mas eu já esqueci. Lembra a Samantha, a garota com quem tive uma conversinha no pub onde tocamos? Estamos saindo juntos.
– É assim que se fala, Andy Boy!
Enquanto isso, Mary se aproximava do lugar aonde os Parkers ensaiavam, tensa sobre a notícia que daria. E não pôde deixar de ouvir a conversa.
– Oi, rapazes... – Ela falou tímida, levemente aflita.
– Mary! – Andy pulou da cadeira, e ela notava seu nervosismo de longe. – Por que está com essa cara? O Roger te traiu de novo?
– Não Andy... Muito pelo contrário. Mas vim avisar que estou deixando os Parkers.
– COMO ASSIM? – Tom quase teve um ataque cardíaco. – Por quê? Mary, você é muito boa, não jogue seu futuro fora!
– Não é tão simples, Tommy...
– Não dê ouvidos ao Roger, nem ao menos aos caras machistas que já te desafiaram! Você derrota todos eles com um braço amarrado nas costas!
– Tom, você não está entendendo...
– Como não?! É tão simples, se você pudesse perceber... Geraremos polêmica, mas isso dá mais ibope! A juventude adora ser diferente.
– EU ESTOU GRÁVIDA DO ROGER!
No mesmo momento todos ficaram pasmos, em silêncio profundo.
– Mary.... Isso é sério? – Andy perguntou, sem acreditar.
– É sim... Eu estou tão confusa, rapazes... Vou ter que ser uma mulher como outra qualquer, cuidando da casa, do marido e do filho... Que merda de futuro... – Mary derramou algumas lágrimas.
– Bom... Se você chamar a gente para a cerimônia, ficaremos contentes. – Tom tentou animá-la.
– Você vai ser uma ótima mãe, Mary. – Rob falou. A garota cuidava de seus amigos de uma forma quase maternal.
– Obrigada pelo apoio... O maior problema vai ser a porcaria de pai que meu filho vai ter.
– Talvez ele melhore. – disse Tom. – Mas você pode voltar depois que o bebê nascer.
– Impossível... Uma mulher numa banda já é complicado, imagine então uma mulher casada e com um filho!
– Você é a melhor guitarrista de Oxford, Mary. – disse Andy.
– Obrigada, cara.
– Vai ser difícil achar alguém à altura.... – Rob observou.
– Bom... Boa sorte.
No dia seguinte, Tom, Andy e Rob foram ao escritório de Tyler Bennett.
– Onde está a Srta. Barton? – Bennett quis saber.
– Ela... Teve uns probleminhas pessoais e precisou sair da banda. – explicou Tom.
– Bem, melhor assim. Uma mulher na banda iria trazer polêmicas demais. Sr. Parker, Sr. Charlton e Sr. Donner, assinem aqui, por favor. – Tyler indicou as linhas onde eles deveriam assinar.
Os amigos de Mary hesitaram por um momento. Assinaram, por fim. Bennett contratou, apenas dois dias depois, um jovem guitarrista, chamado Brad, para substituir Mary. Ele não era tão bom quanto ela, mas Tom, Andy e Rob acharam melhor não discutir.
Roger parecia estar se esforçando para ser um namorado melhor para Mary. Ela não sabia se devia ficar contente por isso, ou se chorava devido ao fato de ter precisado jogar fora seus dois sonhos: o de fazer sucesso com sua banda e o de se formar pela Universidade de Oxford. Um dia, Roger apareceu e disse:
– Mary, eu preciso falar uma coisa de que você não vai gostar.
– Quem foi a quenga dessa vez?
– Nada disso... Seus amiguinhos lançaram um single... Com uma música que você escreveu.
– Sério??? Safados! Claro que eu não vou receber um xelim por essa porra... – ela resmungou.
Alguns dias depois, Mary começou a sentir algumas dores fortes no ventre. Roger, por incrível que pareça, ficou preocupado.
Ela foi internada, ficando no hospital por cerca de três dias, até que um médico procurou Roger, num momento em que Mary dormia no quarto:
– Sr. Daltrey, tenho uma má notícia.
– Que má notícia? A Mary está bem?
– Ela está debilitada... Fizemos o que pudemos para salvar o filho de vocês... Infelizmente não foi possível. Lamento muito.
– Oh, bem.... Obrigado por tudo, mesmo assim.
Dois dias depois, ela voltou para casa. Roger disse que tinha que mostrar algo a ela. Ela ficou intrigada.
– Olhe só. – ele mostrou algumas roupinhas e brinquedos.
– Oh, Roger! Que fofo!
– Você pode ver que sim, eu melhorei um pouco, não?
– Sim... Obrigada. – Ela o abraçou.
Por uma semana, eles pareceram estar se ajeitando... Até que ela viu uma mancha de batom numa camisa dele. De uma cor que ela jamais usaria. Foi o bastante para Mary.
Ela voltou a morar com as amigas, enquanto o single dos Parkers, Always With You, perdia o quinto lugar na parada da NME para Jeanie Liar, de uma banda nova, chamada Whereland.
No entanto, ela recebeu uma carta dos ex-colegas, explicando que o single era uma forma de homenageá-la, e dizendo que eles iriam depositar todo o dinheiro ganho com o single na conta dela.
Ela estava grata. Sabia que era hora de seguir em frente. Roger e o restante do The Who voltaram a Londres.
Mary demoraria um pouco para esquecê-lo....