As semanas se passavam, e Lynn se consumia em saudades. Amava Pete com todas as suas forças, mas não queria magoar Richards, se de fato ele sentisse algo por ela. No entanto, ela tocava sua vida como podia. Prestava extrema atenção às aulas, trabalhava, cuidava do primo mais novo quando ele não estava na escola e saía com Alice, Belle e Carol.
– Lynn, você parece tão abatida... - Alice comentou certa vez.
– Não consigo mais dormir, Alice. Sinto falta de Pete. É horrível dormir sem ele ali, para me dar um beijo de boa-noite e acariciar meus cabelos.
– Mas não é só isso que está te deixando triste e cansada. - Belle observou.
– Não... - Lynn concordou. - Richards está me cercando. Sinto-me culpada por não conseguir afastá-lo.
– Que culpa você tem se ele é teimoso? - Carol se surpreendeu.
– Há algo mais do que a teimosia dele, Carol... Acho que há algo em mim que o atrai tanto que o faz ficar sempre por perto. Não sei o que é, talvez meu corpo.
– Ah, por favor, Lynn! - Belle se impacientou. - O Richards não é apenas tarado por você! Ele está apaixonado por você, garota! Assim como Pete.
– Mas...
– Pete nunca desistiu de ter você. Foram precisos três anos, mas vocês ficaram juntos. E Richards não vai desistir de conquistá-la... Não tão cedo.
– Mas, Belle, eu já disse ao Richards milhões de vezes que não o quero! Ele simplesmente não aceita isso.
– Hum... - Alice murmurou, pensativa.
– Que foi, Alice? - as outras três perguntaram.
– Sei de alguém que vai ajudar o Richards a esquecer você rapidinho, Lynn...
– Quem é esse anjo dos céus? - Lynn perguntou, sentindo uma fagulha de esperança despontar em seu coração.
– É minha prima, Anna... Ela namora o Charlie e é amiga de uma modelo muito bonita chamada Anita Pallenberg.
– Esse nome não me é estranho...
– Anita tem casos mal resolvidos com Mick e Brian. Mas não vai ver o menor problema em se envolver com Richards também. E minha prima pode tentar dar um empurrãozinho...
– Alice, você é um gênio! - Lynn abraçou a amiga. - Obrigada!
– Só me agradeça quando Keith Richards for pego aos beijos com a ex-amante de Mick Jagger e Brian Jones.
Passaram-se algumas semanas. Victor estava estudando na casa de um colega e Lynn lia tranquilamente na sala de estar, quando a porta se abriu.
– Pete! - ela exclamou, atirando-se aos braços dele.
– Lynn! - ele a abraçou. - Tudo bem, meu amor?
– Muito melhor, agora que você está aqui, Pete. Mas por que não me avisou que estava chegando? As meninas e eu teríamos ido esperar vocês no aeroporto...
– Queríamos fazer uma surpresa para vocês.
– Foi a melhor surpresa da minha vida. - ela sorriu.
– Você está linda como sempre, mas está... Com olheiras?
– Pois é... Tenho dormido muito mal nos últimos dois meses.
– É sério?
– É sim... Não me aguentava mais de saudade!
– Acho que você merece dormir um pouco... E eu também. Vamos para o quarto...
– Vamos. - Lynn concordou.
No quarto, Pete conduziu Lynn pela mão até a cama. Deitou-a cuidadosamente, sentou-se na borda e sorriu, cheio de carinho.
– Lynn...
– Sim?
– Me deixa te amar? - ele perguntou em tom baixo.
– Deixo... - ela respondeu timidamente.
E se entregaram um ao outro. Enquanto Lynn achava que as coisas estavam entrando nos eixos com a volta de Pete, o pobre Richards definhava. Quase não se alimentava, o que mais ingeria eram drogas. Lynn havia se tornado tudo para ele. Começara a esboçar músicas, que se tornariam grandes canções dos Stones, como You Got The Silver e Happy. Certo dia, Bill perguntou a Mick:
– O que o Keith tem? Está a cada dia mais magro... E parece que não dorme direito.
– O que ele tem? Está apaixonado.
– Apaixonado? Então ele gostou mesmo da garota do Pete Townshend?
– É o que parece.
Mick podia ser rude, mas Richards era seu amigo, e não aguentava vê-lo sofrer. Foi falar com ele, tentando animá-lo.
– Ei, Keith.
– O que é, Mick?
– Por que todo esse baixo-astral? Há tantas garotas por aí... Você pode pegar o primeiro brotinho que der bobeira.
– Você não prestou muita atenção na Lynn naquele dia, não é mesmo?
– Bom, um pouco... Tem um belo corpo.
– Belo corpo? Foi nisso que você prestou atenção? Porra, Mick! Ela tem um rosto lindo... Parecia tão tímida... E um poço de doçura.
– Cara, eu sou Mick Jagger. - o vocalista de lábios grandes ironizou. - Só quero saber do corpo das garotas... Pelo menos é o que dizem por aí.
Anna, a prima de Alice, viera assistir ao ensaio dos Stones e dar apoio moral ao seu namorado Charlie. Escutou a conversa entre os dois, aproximou-se e falou:
– Desculpe a intromissão, Keith, mas acho que Mick tem razão. Você devia prestar atenção nas outras garotas. Sou prima de uma amiga íntima da Lynn, já saí com as duas algumas vezes... Lynn parece extremamente apaixonada pelo Pete.
– Por que todos vocês têm que me lembrar daquele maldito? Eu odeio aquele cara! Simplesmente odeio! - Richards sentia o sangue ferver em suas veias quando ouvia o nome do rival.
– Olha, Keith, eu conheço uma modelo muito bonita e simpática, o nome dela é...
– Obrigado, Anna, mas eu amo a Lynn.
– Ela não ama você, criatura! - Mick estava exasperado.
– Quer saber de uma coisa? Aquela garota vai ser minha, custe o que custar!
Richards saiu correndo do estúdio, decidido a encontrar Lynn. Por um imenso golpe de sorte, viu-a saindo de uma loja de donuts bem perto dali. Correu em sua direção.
– Lynn, meu amor! - ele chamou.
– Ah! Richards! - ela se assustou. - Pensei que tivesse desistido de mim.
– Desistir de você? Jamais!
– Ah, bem... Dê-me licença, preciso voltar ao trabalho...
– Não vou deixá-la ir embora sem me dar um beijo... - e enlaçou-a fortemente em seus braços.
– Me largue... Já perdi a paciência com você, Richards!
– Você me adora, eu sei...
– Só existe uma pessoa que eu adoro neste mundo... E se chama Pete Townshend.
Richards soltou Lynn e, para surpresa dela, começou a chorar. A garota ficou chocada.
– Você está chorando?
– Agora você acredita que eu tenho sentimentos?
– Eu acredito, Richards, eu te acredito... Mas eu não posso te corresponder. Sinto muito. - ela falou, muito triste, e se sentindo extremamente culpada. Para se redimir um pouco e deixar Richards feliz, deu um beijinho, muito leve, na bochecha do Stone.
– Não acredito nisto... - ele murmurou, tocando o rosto no ponto onde fora beijado.
– É o mínimo que posso fazer para retribuir o seu amor. - Lynn falou, com um pequeno sorriso, e seguiu seu caminho.
Em casa...
– Pete, não sei se tomei a decisão certa...
– Decisão certa sobre o quê?
– Decidi acabar com as esperanças do Richards definitivamente... Mas ele ficou tão triste que acabei dando um beijo no rosto dele, por pena.
– Ah, Lynn, ele pode pensar que você se sente um pouquinho atraída por ele... E é isso o que eu estou pensando.
– O quê? Você duvida do meu amor, Pete? Oh, meu Deus, eu não devia ter feito isso!
– Meu amor, não é bem isso... Eu estou com ciúmes, é evidente... Mas você não pode negar que ele era o seu Stone favorito.
– Bom, era sim. Eu costumava achá-lo atraente... Mas é você quem eu amo, Pete.
– Eu sei disso, Lynn, eu sei... - Pete aconchegou-a em seus braços. - Quando ele nos dará sossego?
– Nem imagino...
Alguns dias depois, Lynn foi à casa de Alice, que havia sido convidada para um casamento e não tinha nenhum vestido para usar. Então, pediu que Belle, Carol e Lynn levassem alguns dos seus para que ela pudesse experimentá-los.
Cada uma tinha uma cópia da chave, pois, em seus primeiros meses na faculdade, as quatro haviam dividido o apartamento que agora pertencia a Alice.
Assim, Lynn entrou na casa de Alice. Estranhou o silêncio, e chamou:
– Alice? Está em casa?
Como sua amiga não respondeu, Lynn encaminhou-se para o quarto dela, e viu a porta fechada. Antes de abrir, colou seu ouvido nela, e escutou vozes sussurrando no interior do cômodo. A voz de Alice... E a de John.
– Hihi, é melhor eu voltar mais tarde. - Lynn disse consigo mesma, deixando a sacola com os vestidos no sofá da sala e escrevendo rapidamente um bilhete para a amiga, dizendo que havia passado na casa para deixá-los e não a encontrara.
Ao sair da casa de Alice e caminhar pelas ruas de Londres, ela pensava na sua vida, que parecia estar cada vez mais complicada. Amava Pete e tinha certeza absoluta disso. Mas tinha um grande medo de magoar Richards, que parecia estar realmente apaixonado por ela. Lynn se perguntava o que fazia um homem como ele, bonito e conquistador, que podia ter qualquer uma, se sentir tão atraído por ela.
Mais tarde, na casa de Pete...
– Lynn, faz algum tempo que não saímos juntos para jantar... Que tal? - ele convidou. - Afinal, seu primo já voltou para a casa dele, é período de férias...
– Ah, claro que sim, Pete! Eu sentia falta disso... - ela falou com um sorriso doce.
– Então se arrume o mais rápido possível, querida... Lembre-se, você já é perfeita para mim, não precisa exagerar...
– Você merece um pouquinho da minha vaidade, sim. - ela disse, escolhendo um vestido no guarda-roupa. Então entrou no banheiro para se vestir e se maquiar.
– Uau. - foi tudo que Pete conseguiu dizer quando a namorada ficou pronta.
– Tudo por você, meu bem. - ela disse, afagando os cabelos dele.
Pete reservara a melhor mesa no restaurante ao qual levara Lynn na primeira vez em que saíram juntos para jantar. Sentaram-se e, quando o garçom trouxe champanhe, Pete encheu duas taças, pegando uma e oferecendo a outra a Lynn.
– Ao nosso amor! - ele disse, erguendo sua taça.
– Ao nosso amor! - ela concordou. Brindaram e beberam o champanhe.
O dia seguinte era um sábado. Porém, Pete foi ensaiar, e Lynn ficou em casa. Ela passou o dia lendo e arrumando a casa. Não gostava dessa "posição servil" da mulher, mas Pete vivia tão ocupado que não tinha tempo para ajudá-la.
Ela não esperava que a campainha tocasse. Atendeu.
– Richards?
– Olá. - ele estendeu uma rosa para ela. - Aceite esta flor. É tudo o que eu peço.
– Oh, Richards.... - ela cheirou a rosa delicadamente.
– Eu devo ser extremamente incômodo... Mas não consigo ficar longe de você.
– Você é Keith Richards, cara! Você pode ter a garota que quiser...
– Nenhuma delas é como você.
– Uma curiosidade... O que me faz diferente delas?
– Uma série de coisas... Seu jeitinho meigo, seu ar de menininha... Só sei que enlouqueci logo que a vi.
– Richards, me esqueça...
– Você ama Pete. Estou careca de saber disso.
– Perdão... Mas eu não posso fazer isso. - ela disse suavemente.
– Eu sei que não pode. Isso está me matando, Lynn. Eu até comecei a escrever uma música para você.
– Uma música? - Lynn encantou-se. Até então, Pete lhe mostrara Pictures of Lily, I Can't Explain e um esboço de uma música chamada Glittering Girl.
– Sim... Por enquanto só fiz a melodia e o refrão. Chama-se You Got The Silver. Quer ouvir?
– Sim, por favor.
– You got my heart, you got my soul, you got the silver, you got the gold... You got the diamonds from the mine... That's alright...
– Oh, meu Deus, que linda...
– Linda como você. Bem, um dia terminarei de escrevê-la. Adeus, meu amor.
– Como assim?
– Entendi que, se a amo, tenho que deixá-la ser livre. Adeus, Lynn... Não se esqueça, eu te amo...
O tempo passou. Lynn e suas amigas se formaram. Pete e ela se casaram. Alice e John, Belle e Roger e Carol e Keith também. O The Who se tornava uma das maiores bandas do mundo... E os Rolling Stones também.
As duas bandas encantavam as fãs com as composições de Pete e Richards para Lynn. O primeiro era imensamente feliz com ela. E o segundo, apesar de ter conhecido muitas outras mulheres, nunca a esqueceu por completo.
Até hoje, pode-se perceber que o nome "Lynn" se forma nos lábios de Richards quando ele canta You Got The Silver nos shows dos Rolling Stones. E Pete e Lynn foram um dos poucos casais do mundo do rock'n'roll que permaneceu unido por todas as décadas seguintes.