Lynn se mudou para a casa de Pete, onde ele pensava que ela estaria em segurança. Se fosse preciso, ele a pediria em casamento e se mudaria com ela para bem longe de Londres. Qualquer coisa era válida para manter Richards a distância.
– Lynn, eu estou com medo. Richards pode acabar descobrindo que você mora aqui, e vir procurá-la...
– Ah, Pete, vai ficar tudo bem... Logo ele desistirá de mim.
– Acho que não tão rápido... - então ele tirou uma pequena caixinha de veludo de seu bolso. - Casa comigo, Lynn?
– Oh, meu Deus... - Lynn ficou imensamente feliz. - Sim, sim, sim! Mas eu ainda sou muito nova para me casar. Eu tenho só 18 anos, Pete... Preciso concluir meus estudos antes. E você também é jovem... Tem apenas 20 anos.
– Eu me esqueci desse pequeno detalhe. Mas você aceita mesmo ser minha esposa depois que se formar?
– É claro que eu aceito, seu narigudo idiota. - ela lhe deu um beijo. - Mas estou atrasada para a faculdade. Até logo, querido. - ela se levantou e correu para pegar o metrô.
Quando Lynn voltou para casa, no fim da tarde, encontrou Pete olhando para uma foto dela, com profundo carinho.
– Pete? - ela chamou.
– Oi, amor... - ele respondeu.
– Aconteceu alguma coisa? - ela perguntou, largando a bolsa no chão e se sentando ao lado dele no sofá.
– Não é nada. Eu vou sair em turnê por algumas semanas, só isso. Embarco no sábado.
– Turnê? Mas isso é ótimo!
– Sim, ótimo para o Richards te pegar desprotegida.
– Eu não posso ir com você?
– Infelizmente não... Roger, John e Keith queriam levar Belle, Alice e Carol também, mas Chris e Kit disseram que numa primeira turnê deve-se cortar o máximo de gastos possível.
– Não se preocupe. As garotas vão tomar conta de mim. E o meu primo Victor, que minha tia está mandando para estudar aqui em Londres, também.
– Eu conto com eles. Ah, Lynn, como vou sobreviver dois meses sem você?
– Também não sei como vou aguentar. - ela falou. - Me promete que vai voltar logo?
– É claro que prometo! Acha mesmo que vou deixar você exposta ao Richards?
– Sua maior preocupação se resume ao Richards.
– É óbvio! Como posso competir com um guitarrista talentoso e bonitão? As garotas caem matando...
– Você pode competir com ele porque você é meu guitarrista talentoso e bonitão. E fico feliz que não haja tantas garotas babando por você quanto pelo Moon ou pelo Roger... Sobra mais para mim. - ela deu um sorrisinho.
– É bom ouvir isso. - Pete devolveu o sorriso e, puxando a namorada para si, beijou-a carinhosamente.
– Nós vamos ser muito felizes, Pete... Como eu queria que meus anos de faculdade passassem num piscar de olhos...
– Vamos sim, Lynn. E sua formatura chegará quando você menos esperar.
– Deus te ouça, Pete.
Passaram a semana cuidando dos preparativos para a viagem. O The Who viajaria por toda a Europa. Ao mesmo tempo em que estava cheia de orgulho do namorado, Lynn tinha medo de que Richards tentasse algo durante a ausência de Pete e também sentia uma pontinha de ciúme.
"Não seja tonta, Lynn", ela dizia a si mesma. "Richards é só um galinha, ele já deve ter desistido de você. E Pete te ama, ele não vai se meter com groupie nenhuma".
Na manhã de sábado, Lynn e suas amigas foram desejar boa viagem aos namorados no aeroporto de Heathrow. Nenhuma delas estava com a mínima vontade de se despedir.
– Você tem agasalhos suficientes, Roger? - perguntou Belle.
– Sim, mamãe. - ele gracejou. De fato, Belle cuidava dele quase como uma mãe.
– Se cuida. - ela recomendou.
– Pode deixar, meu amor. - Roger falou, envolvendo Belle em seus braços.
– E você, Keith, está levando explosivos? - Carol perguntou em meio a uma risada.
– O suficiente para mandar a Grã-Bretanha inteira pelos ares. - ao perceber o olhar desconfiado de Carol, o baterista acrescentou: - Brincadeirinha. Mas seria legal.
– Sabe o que não vai ser legal? Ficar tanto tempo sem você, meu louquinho. - Carol murmurou.
– Eu volto logo, prometo. - Keith deu um beijo em Carol.
– Vou sentir saudade, Ox... - Alice dizia.
– Eu também, minha garota do País das Maravilhas... Mas estarei de volta em breve. - o baixista respondeu. - Eu te amo, sabia?
– Own, Ox... Bom, eu desconfiava disso. - ela riu, encantada. - Também amo você.
Só Pete e Lynn não diziam nada. Preferiram ficar abraçados até a hora do embarque. Não queriam se soltar de jeito nenhum. Pete temia o que poderia acontecer à sua pequena e adorada Lynn durante aqueles dois meses em que ele ficaria longe dela.
Mas precisava confiar em Alice, Belle, Carol e também no primo de Lynn. Eles cuidariam dela. Reteve Lynn em seus braços até o último instante.
– Anda logo, narigudo! - chamou Roger, quase irritado.
– Eu já vou, anão! - ele retorquiu no mesmo tom.
As quatro amigas ficaram observando até que o avião tomasse altura. Carol falou:
– Pois é, agora somos quatro estudantes desacompanhadas durante os dois próximos meses.
– Nem me lembre disso. Tenho medo do que o Richards pode aprontar. - Lynn falou.
– Ele ainda não desistiu? - Alice perguntou.
– Não. Só vai sossegar se conseguir passar a noite comigo.
– Mas, Lynn, vocês já estão nessa situação há meses. Se ele realmente quisesse somente fazer amor com você, já teria desistido há tempos. - Belle observou.
– Então você acha que...
– Acho que ele gosta de você, Lynn. Gosta de verdade.
– Não seja boba, Belle, um homem daqueles não se apaixona.
– Vai saber... Roger era pegador de groupies também.
– Mas o Roger é diferente.
– Quem garante que debaixo daquele jeito desregrado do Richards não existe um coração?
– Eu não vou ficar com ele, Belle!
– Você não precisa ficar com ele. - Alice disse. - Só precisa conversar e explicar que você ama o Pete. Pode ser que ele pense que você está se fazendo de díficil. O Jimmy desistiu quando eu falei que amava o Ox.
– Elas têm razão. - Carol concordou.
– Então está bem. Vou abrir o jogo com o Richards.
Lynn não precisou esperar muito. Um dia, quando ainda estava saindo do mercado, Richards a deteve pelo braço.
– Olá, Lynn. Então o seu queridinho foi fazer uma turnê...
– Sim, foi. Eu precisava mesmo falar com você, Richards...
– Finalmente você aceitou a minha proposta!
– O quê? Não é nada disso! Richards, pare com essa perseguição. Eu amo Pete. Estamos praticamente noivos.
– Noivos? Mas você é nova demais.
– Sim. Vamos oficializar o noivado daqui a dois ou três anos. E nos casar logo que eu me formar.
– Não faça isso comigo, Lynn, você não pode...
– E por que não? Eu nunca tive nada com você. Você era apenas meu Rolling Stone favorito.
– Era? Nem isso eu sou mais?
– Não.
– Lynn, eu te amo, preciso de você.
– Richards, há tantas garotas no mundo, você pode ter qualquer uma delas.
– A única que eu quero é você. Você não sabe, mas quase tive duas overdoses desde que conheci você. Tenho bebido e me drogado ainda mais do que de costume.
– Está vendo? Você tem que parar com isso, pelo seu próprio bem.
– Você é meu remédio!
– Chega! Eu não quero você!
Lynn foi embora sem olhar para trás. Não sabia o que fazer. Ela se via como Elizabeth Bennet, e ela e seu Mr. Darcy estavam cercados de todos os lados por Mr. Collins.
Logo que chegou em casa e verificou que seu primo dormia no quarto de hóspedes, seu telefone tocou. Era Pete. Conversaram por duas horas, e logo depois disso Lynn foi tomar banho.
Ao sair, vestiu uma confortável camisola, pegou um livro e foi para a cama. O livro era Razão e Sensibilidade, também de Jane Austen. Leu até começar a sentir suas pálpebras pesadas. Apagou o abajur, abraçou o travesseiro de Pete e dormiu.
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