O jovem deus do verão encontrou-se
com Gerd, Louise e Uli na ponte Bifrost, feita de arco-íris e que ligava Asgard
a Midgard. Seria uma longa viagem através da Yggdrasil, a Árvore do Mundo.
Paul, o deus guardião da Bifrost, disse-lhes:
-
Boa viagem! E lutem bravamente por Asgard!
Os quatro deuses agradeceram e
partiram. Uli olhava desdenhoso para os dois irmãos vanires, e até mesmo disse:
-
Não sei por que meu pai convocou-vos. Não sereis de serventia alguma. Gerd e eu
daríamos conta dos jotünns sozinhos sem problemas.
-
Creio que, se o Grande Tony nos chamou, é porque nossa participação nessa
guerra contra os jotünns será de extrema importância. – Peter retrucou.
-
Eu não ficaria tão confiante, vanir. – Uli disse com desdém.
-
Uli! Chega! – Gerd bradou, irritado. – Vossos comentários não ajudarão em nada
na luta contra os gigantes do gelo!
O deus do trovão calou-se, e o
quarteto continuou sua cavalgada. Até que ouviram um guincho que fez seu sangue
gelar.
-
Esse guincho... – Gerd murmurou. – Eu o conheço...
-
Não seria...? – Uli continuou.
-
Ratatosk. – Louise e Peter confirmaram.
Viram, então, o esquilo gigante e
monstruoso correndo atrás deles. Os cavalos dispararam no galope, contudo,
Peter saltou de sua montaria, portando o chifre de cervo.
-
Estais maluco, vanir? Andastes tomando sol demais! – Uli disse. – Como esperais
derrotar Ratatosk com esse mísero chifre?
-
Não sabeis do que Peter é capaz com esse chifre! – Louise ralhou.
O chifre cresceu nas mãos de
Peter, até atingir o comprimento de Notung, a lança de Gerd. Peter colocou-o em
riste e atacou o esquilo gigante. Foi uma luta difícil, e Ratatosk esteve perto
de arrancar a mão ou a cabeça de Peter, todavia, ele conseguiu enfiar o chifre
no peito do animal, atravessando-o. Ele arrancou o chifre rapidamente, e
Ratatosk tombou morto. Peter subiu novamente no lombo de seu cavalo e partiram.
-
M-muito bem, vanir. – Uli teve de reconhecer que o lorde de Álfaheim era um
valente e habilidoso guerreiro.
-
Obrigado, Uli. – Peter respondeu, simplesmente.
Louise saiu de perto dos
aesires, pois queria conversar com o irmão. Falavam muito baixo.
-
Gerd e eu estamos nos dando bem. – ela disse, com um sorriso.
- É
mesmo? Fico contente por ti, Louise. Acho que nós dois seremos muito felizes no
amor daqui para frente.
A deusa do amor engoliu
em seco. Sabia que Davy estava apaixonado por Dianna, a valquíria amante de
Peter. E sabia que a jovem amava o einherji. Se Davy revelasse seus sentimentos
a ela, certamente ela se entregaria. E seu irmão iria sofrer demais.
-
Eu espero que sim. – Louise respondeu, com cautela.
- O
que há? Tens medo de que algo possa acontecer?
-
Não exatamente... Mas eu tenho a impressão de que... Jim quis desaparecer.
-
Como podes pensar isso? Ele te amava!
-
Não sei. Apenas sinto isso. – Louise começou a chorar lágrimas de ouro.
- Eu sinto muito, minha irmã. Mas agora nós dois temos novas chances para amar.
Tu te casarás com Gerd e ele reinará sobre Vanaheim contigo. E eu... Terei
minha Dianna. Já a vejo em seu trono escavado num olmo, ao lado do meu. Seus
lindos cabelos dourados enfeitados com muitas flores vistosas. E algumas
crianças correndo pelos salões do meu palácio.
Louise não pôde deixar de sorrir diante
dos sonhos e esperanças do irmão. Entretanto, seu coração se entristecia ao
pensar que havia uma possibilidade de Dianna rejeitá-lo por Davy. Não queria
desiludi-lo, então permaneceu calada.
Após longas horas de
caminhada, enfim chegaram a Jotünnheim. Montaram acampamento e acenderam uma
fogueira. Prepararam uma refeição simples, com frutas, pão e carne, e após
comerem armaram suas tendas. Cada um entrou na sua respectiva tenda para
descansar. Peter e Uli não viram, porém,
Louise entrou na tenda de Gerd.
O casal trocava beijos e juras de amor,
quando sentiram um frio cortante. Olharam lá fora e viram tudo ser coberto com
gelo e neve.
-
JOTÜNNS! - Louise exclamou.
Todos prepararam suas armas. Liderando
o grupo, havia um homem pouco maior do que seria considerado um homem realmente
alto. Loiro e de olhos claros. E ao lado dele estavam um homem de estatura
normal, de sorriso debochado e grandes lábios, que todos os deuses reconheceram.
-
Noone! - os aesires e vanires gritaram, com ódio.
Filho de gigantes, ele era o deus da lábia e
da magia. Havia sido, há muito tempo, acorrentado por Tony a três pedras
imensas, com uma serpente peçonhenta enrolada acima de sua cabeça. Contudo,
parecia que os gigantes de gelo o haviam libertado.
-
Olá, meus caros. - Noone tinha aquele sorrisinho irritante. - Uli, Gerd,
Louise, deixarei que confrontem os meus companheiros, liderado pelo meu bom
amigo Hunt aqui. Mas meu assunto é com Peter. - seu sorriso, de deboche, passou
a denotar crueldade.
-
Queres ter uma conversa em particular comigo, trapaceiro? - Peter indagou,
desdenhoso. - Pois bem, é o que teremos.
-
Mas não aqui. - Noone também falou com desdém, e estalou os dedos. Transportou
ele mesmo e Peter para outro lugar.
Os dois deuses estavam num pico nevado. Na
neve, o poder de Peter enfraquecia. Ele já se sentia mais limitado.
-
Tu tens tudo o que queres, não é Peter? - Noone provocava. - Um reino todo teu,
um belo palácio, grande poder... E uma linda amante. Eu daria tudo para possuir
aquela mulher...
-
CALA A BOCA! TU NÃO ÉS DIGNO DE FALAR DE DIANNA!
-
Ah, tua amada Dianna... Ela te ama tão devotadamente, não? - Noone soava
irônico.
-
Por que falas nesse tom? Ela é minha futura esposa! Pensas que vais me
convencer do contrário com tua lábia?
- Não
preciso da minha lábia. - Noone riu e acenou com a mão.
Uma imagem surgiu diante de Peter.
Dianna... Deitada na sua cama, nos seus aposentos em Valhala. Em cima dela...
Davy.
- Davy... Ooooh, Davy... Eu sou toda tua. - ela
gemia.
Peter ficou paralisado diante da cena. Só
podia ser uma ilusão criada por Noone...
-
Não é possível... Dianna não quer esse einherji...
- A
verdade dói, não é? Foste traído, vanir! - Noone gargalhava.
Peter pegou sua lança de chifre de cervo e
avançou contra Noone. Apesar de mais fraco, Peter lutou bravamente contra
Noone. O deus dos logros tentava a todo custo derrubá-lo, todavia, a lança de
chifre e a raiva mantinham o lorde de Álfaheim em pé e combatendo.
-
Criaste aquela imagem para me enfraquecer! Sei que Dianna não ama mais o
maldito guerreiro! É a mim que ela deseja! Ela se casará comigo assim que eu
retornar!
-
Não queres aceitar a verdade, senhor do verão! Tua bela concubina deitou-se com
outro... Outro que ela deseja arrebatadamente, ouviste como ela gemia debaixo
dele.... Como ela disse que era toda dele....
Peter urrou de raiva e esmurrou Noone. A
ira tornou-o incrivelmente forte. O deus trapaceiro ficou muito debilitado pela
luta. Disse:
-
Hoje venceste, vanir... Mas eu vou te matar, mais cedo ou mais tarde! Depois
cuidarei do einherji que mais parece ter vindo de Nídavellir. Com ambos fora do
caminho... A linda valquíria Dianna não pertencerá a mais nenhum dos dois... E
sim a mim!
Com uma última gargalhada, desapareceu, e
devolveu Peter ao local do acampamento. Ele viu os companheiros caídos na
relva, feridos, mas ficariam bem. Os jotünns haviam recuado.
-
Peter... - Louise notou a palidez do rosto do irmão. - Estás bem?
-
E-Estou, Louise. - ele não queria que a irmã se afligisse.
Em Valhala, Dianna estava deitada na cama,
com a cabeça de Davy pousada em seus seios. Ela afagava os cabelos dele com
ternura. A imagem que Noone havia mostrado a Peter era real. Dianna e Davy
haviam acabado de se entregar aos prazeres amorosos. Ela suspirou pesadamente e
Davy sentiu o movimento do peito dela. Era um suspiro de muitas sensações
misturadas. De satisfação, amor, preocupação.
- O
que há, minha bela? - Davy colocou um cacho de cabelo atrás da orelha dela.
-
Antes nunca tivesses me correspondido, Davy. - ela parou de afagar seus cabelos
e ergueu-se na cama, indo sentar-se um pouco afastada dele.
-
Por quê? - ele aproximou-se dela outra vez, envolvendo-a pela cintura em seus
braços. Passou a beijar-lhe o ombro.
-
Eu era menos desgraçada quando eu não significava nada para ti.
-
Não digas isso nunca mais, Dianna!
-
Peter me ama tanto. Eu estava começando a amá-lo também, até que tu chegaste e
me disseste tudo que meu coração tanto ansiava por ouvir... Agora traí aquele
que devotou seu coração a mim, tão desprendidamente.
-
Dianna, eu também devoto meu coração a ti, amada. - ele tomou o rosto da
valquíria em suas mãos e beijou-a apaixonado.
-
Eu sei. Mas isso não muda a minha crueldade para com Peter. Ele acredita que se
casará comigo, que serei a rainha de Álfaheim e mãe dos filhos dele.
-
Serás a minha esposa e a mãe dos meus filhos, não dos dele. - Davy afirmou.
-
Eu preciso dizer a verdade a Peter, por mais que isso vá magoá-lo de uma forma
que não quero nem imaginar...
Peter e os demais deuses voltaram a
Asgard. Ele estava profundamente angustiado. Desejava ardentemente que a cena
que havia visto fosse apenas uma ilusão. Ele revelou seus receios a Louise, que
tentou consolá-lo, mas não admitiu que sabia que era verdade.
O deus do verão voltou por algumas
horas ao seu palácio em Álfaheim. Trouxe Dianna magicamente. Ao ver-se diante
do trono do amante, Dianna engoliu em seco e foi tomada de grande nervosismo.
Precisava contar.
-
Peter! Voltaste! - ela exclamou, tentando mascarar o sentimento de culpa com
uma certa alegria no tom.
-
Sim. Eu voltei. - ele disse, sério, girando o cetro entre as mãos.
-
Há... Há algo errado?
-
Bem... Sim. Há.
Aconteceu o que Dianna temia. Ele já
sabia.
- O
quê...?
-
Em Jotünnheim, Noone me atacou. Para me enfraquecer, ele me levou ao alto de
uma montanha nevada... E me mostrou algo que eu não queria ter visto. Nunca em
minha vida uma visão me perturbou tanto.
- O
que... O que ele te mostrou?
Peter suspirou, tomou coragem e disse:
- Tu.
Na cama com outro homem. Davy Jones, o einherji. Por favor, Dianna, me diga que
não é verdade. ME DIGA QUE É SÓ UM TRUQUE DAQUELE TRAPACEIRO! - Peter começou a
chorar.
Dianna quis desmaiar. Agora não tinha
mais volta. Precisava ser honesta e admitir que era verdade. Sentia todo o peso
da culpa.
-
Peter... Eu queria poder dizer que era apenas um truque. - ela disse, após um
longo silêncio.
-
Então é verdade? Tu me traíste? - Peter olhava para ela com lágrimas fazendo
seus olhos brilharem.
- Sim.
- ela chorou também. - Eu fui fraca, cruel, egoísta, eu sei que fui. Podes me
punir. Eu mereço.
-
Tu nunca me amaste. Sempre amaste o einherji.
-
Eu... Eu achei que estava aprendendo a amar-te. Porém, quando Davy veio e disse
que me amava também... Eu... Não pude resistir. Não peço que me perdoes porque
não sou digna. Podes fazer o que quiseres comigo, mas, por favor... Deixa Davy
em paz. A culpa é toda minha.
-
Eu farei o contrário do que me pedes. Ele será punido. Tu não.
-
NÃO! POR FAVOR, PETER, NÃO PUNA DAVY! - Dianna aproximou-se dele, desesperada.
- É
o que ele merece. Fez com que tu sofreste. E agora tem a audácia de roubar-te
de mim! Não vou perdoar!
-
Peter, eu imploro...
-
Não adianta, Dianna!
A mão de Peter esbarrou no ventre de Dianna,
e ele viu ali... Duas vidas se formando.
-
Dianna... Estás grávida! - Peter exclamou. - Duas lindas meninas... E uma delas
é minha filha! - ele não pôde deixar de sorrir.
-
O... O quê? Espero... Uma filha tua? - Dianna tocou o ventre.
- E
outra... Dele.
-
Eu... Oh, por Asgard...
-
Dianna, eu te amo. - Peter pegou a mão dela. - Mas sei que não me amas mais, se
um dia amaste. Mesmo carregando minha filha em teu ventre. Eu respeito o amor
que tens pelo einherji. Fica com ele. Mas quero que me deixes conhecer nossa
filha quando nascer.
- É
claro, Peter. Tens direito. És o pai dela. - Dianna enxugou uma lágrima.
-
Obrigado. Eu posso... Beijar-te uma última vez? - indagou o deus.
-
Sim... - Dianna respondeu, triste.
Peter tomou os lábios de Dianna, e trocaram
um beijo suave. Ele sabia que iria sentir uma saudade imensa daquela boca
carnuda e doce.
-
Por que me beijas, se não vais me perdoar? - Dianna indagou.
-
Eu te perdoo sim, minha amada. Porque sei que amas de fato o einherji. Eu
deveria ter-te deixado em paz.
-
Peter...
-
Vai. E cuida bem de nossa filha. Não vejo a hora de tê-la em meus braços. -
Peter afagou o ventre da amada.
Ele enviou Dianna de volta a Valhala, e
construiu com sua magia um berço de galhos, folhas e flores. Sorriu, imaginando
a filhinha deitada nele.
Dianna chegou a Valhala. Ia aos seus
aposentos, quando foi interceptada por Louise.
-
Vós! - Louise gritou.
-
Lady Louise! Em que posso servir-vos? - a valquíria fez uma reverência.
-
Servir-me? VADIA! - Louise estapeou-a e ela caiu.
A jovem levou a mão à face.
-
Traístes meu irmão! - a deusa do amor gritou. - Não importa o que ele disser,
eu vou punir-vos! Dizieis que amávais Peter, mas não perdestes a primeira
oportunidade de deitar-vos com Davy!
-
Eu... Eu o amo! - Dianna respondeu.
-
Amais Davy? ENTÃO DEVERÍEIS TER RECUSADO PETER!
Louise estava prestes a chutar a barriga
de Dianna, contudo, ela pediu:
-
Não! Podeis fazer o que quiséreis comigo, mas não machuqueis minhas filhas! -
ela colocou as mãos no ventre.
-
Filhas? ESTAIS GRÁVIDA DE DAVY, OFERECIDA?
-
Dele e de vosso irmão. - Dianna chorou.

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