- Espera um pouco, Maris... Voltar no tempo? Para os anos
60? Sério? – indagou-me minha amiga e xará, Mariana Pereira, conhecida como
Maris Creme ou Maris Greyjoy.
- Sim... Já fiz isso uma vez. Três anos atrás. Ainda não
conhecia vocês. Uma pena que eu tenha perdido o contato com as amigas com quem
viajei aos anos 60, foi uma das melhores coisas da minha vida. – respondi.
- Bem... Seria muito show! – disse Maria Alice ou
simplesmente Alice, outra das minhas amigas.
- E para quando iremos, exatamente? – quis saber Inara. Ela
é gaúcha, porém, veio a São Paulo para encontrar Alice, Maris e eu.
- Para 1966. Quero rever os Beatles... Especialmente o
George.
- O George? Vocês... Tiveram um rolo, fia? – quis saber
Alice.
- Mais que um rolo... Nós fomos namorados, fia! Mas me
pergunto se vale a pena... Ele já deve ter se esquecido de mim... – murmurei.
- Eu acho que não, Maris Campos. – Inara tentou me animar.
- Vamos tentar, Maris Chá! – Maris Creme acrescentou.
- Ok... Vamos botar essa geringonça pra funcionar. – eu
disse.
***
Peguei a
máquina do tempo portátil que ganhei de Jéssica, minha antiga amiga que era
estudante de Engenharia Elétrica e havia sido uma das minhas companheiras na
louquíssima viagem aos anos 60. Ela havia construído uma máquina do tempo e
três versões portáteis, uma para cada uma de suas amigas, e havia se tornado
namorada do Paul durante nossa estada na Swinging London.
Apertei
um botãozinho e a máquina aumentou de tamanho, podendo comportar quatro
pessoas.
- Senhoritas... Quem quer ser a primeira a entrar na máquina
do tempo? – perguntei.
Alice deu um passo a frente. Hesitou por um
momento, contudo, entrou na máquina. Foi seguida por Inara, e logo depois dela
Maris entrou. Uma vez que estávamos todas dentro da máquina, apertei os botões
com os números 1, 9 e 6, este duas vezes seguidas. Ajustei o botão de local
para Londres.
Sentimos
a máquina sacolejar um pouco, e depois de alguns minutos, um baque, como se a
máquina do tempo estivesse aterrissando pouco suavemente sobre um assoalho. As
portas da máquina abriram, revelando... Um estúdio de TV.
- Ué... Será que viemos parar em alguma apresentação dos
Beatles na TV? – supôs Inara.
- Não tenho muita certeza... – falou Maris.
- Meninas, olhem aquela placa. – Alice apontava uma placa
bem grande com o símbolo do canal NBC.
- NBC? Nós viemos parar nos Estados Unidos? Mas eu ajustei
essa máquina para Londres... – resmunguei.
Olhei
o pequeno painel da máquina. Ela indicava como destino... A Los Angeles de
1966.
- A máquina tinha que escolher agora para bugar? Queria
conhecer o Lennon... – Inara lamentou-se.
- Inara, minha amiga, se a sorte estiver ao nosso lado...
Você talvez não conheça John Lennon... Mas o que acha de... Micky Dolenz?
- Micky Dolenz? – Inara parecia aquele emoji com corações no
lugar dos olhos.
- Sim... Pois se meus cálculos não estão errados... Viemos
parar na filmagem de um episódio dos Monkees. – disse eu.
- AI MEU DEUS, MEUS MACACOS! – Alice parecia prestes a
surtar. – EU QUERO O NEZ, CADÊ ELE?
- Ei, coisinha, vai devagar! Deixa um pouco do Mike pra mim!
– Maris reclamou.
- Eu vou resistir bravamente ao Davy porque o propósito
dessa viagem é meu reencontro com o George... – falei.
- Até parece que você vai conseguir, Maris Chá. – Alice deu
uma risadinha.
- Bem... Farei um esforço. – dei um sorriso amarelo. – Vamos
sair dessa máquina e achar nossos Monkees.
Saímos da
máquina e tentamos andar pelo estúdio o mais silenciosamente possível. Sabíamos
que nossas roupas chamariam bastante a atenção. Por mais discretas que tentássemos
ser, um funcionário acabou nos vendo. Congelamos assim que ele colocou os olhos
em nós. Ele exclamou:
- Sr. Rafelson, sr. Schneider, achei as meninas que vocês
estavam procurando!
Bob Rafelson e Bert Schneider... Nos
procurando? Fomos levadas pelo funcionário até os produtores do programa, sem
entender muito bem o que estava acontecendo. Rafelson disse:
- Você, menina de cabelo curto, fica com o Mike.
Alice deu um enorme sorriso. Maris soltou um
suspiro frustrado.
- Você, moça dos cabelos encaracolados, não a de óculos...
Com o Micky. – falou Schneider.
Foi
bonito de ver a alegria da Inara.
- Moça de cabelos encaracolados e óculos, você fica com o
Peter. – disse Rafelson.
Maris ficou
até bem feliz, ela gosta do Peter. E então, Rafelson e Schneider disseram em
uníssono:
- Você, menina de franjinha... Você ficará com o Davy!
Meu coração
começou a bater com pressa no meu peito. Fazer par romântico... Com ele? Era tão
maravilhoso! Parecia um sonho... “Calma, Maris, calma lá”, eu pensei. “Você
voltou para os anos 60 pelo George, não se empolgue... Ademais, por que Davy se
interessaria por você?”. Fomos conduzidas por Bob e Bert até onde,
possivelmente, estavam os meninos.
Vimo-nos diante deles. Alice olhava hipnotizada para Mike,
Inara estava com os olhos fixos em Micky, Maris olhava de Mike para Peter e de
volta para Mike... E quando eu olhei para Davy...
- Meninas... Acho que eu vou...
E tudo ficou
preto.
***
Acordei, me
sentindo tonta. Senti que braços fortes me seguravam. Finalmente abri os olhos.
Só para querer desmaiar novamente.
- D-D-Davy J-J-Jones! – exclamei, um pouco histericamente
demais.
- Sim. É esse o meu nome. – ele deu um sorriso. – Tudo bem com você, moça?
- S-s-sim. – respondi. Eu queria controlar aquela gagueira, porém, não conseguia.
- Como você se chama? – Davy quis saber.
- M-M-Mariana. M-M-Mariana C-C-Campos.
- Lindo nome. – ele beijou minha mão. Se aquilo era um sonho eu não queria acordar de jeito nenhum. - Bem, Bob e Bert disseram que você vai ser meu par neste episódio...
- É. É, eu vou. – eu sabia que estava muito vermelha.
Olhei para minhas
amigas, em busca de socorro. Alice conversava com Nez, prestando extrema
atenção a tudo que ele falava. Inara ria das gracinhas que Micky fazia para
agradá-la. E Peter e Maris trocavam ideias bem animadas sobre literatura.
Apenas vez ou outra Maris dava uma olhadinha furtiva para Nez. Pensei em ir até
Peter e comentar que sou estudante de Letras, entretanto, não pude, pois dois
diretores vieram e puxaram Davy e eu atrás deles. Decerto iríamos gravar uma
cena.
Eu estava morta de
vergonha pela forma como Davy e eu nos conhecemos. Foi ainda pior do que a
forma como conheci George. Minhas amigas e eu havíamos chegado com a máquina do
tempo à Londres de 1964, e resolvemos pedir informação para saber onde
estávamos. Apesar de ser uma loucura, decidimos tocar a campainha de uma casa.
E quem era o dono da tal casa? Ninguém mais, ninguém menos do que George
Harrison, meu Beatle favorito e crush eterno, por mais que eu ame Davy.
E qual foi a
minha reação? Após ter me recuperado da paralisia momentânea, dei um abraço de
urso em George. Ele fez um comentário, depois que contamos que éramos
brasileiras, sobre um amigo liverpooliano dele que havia visitado nosso país
ter dito que as mulheres do Brasil eram lindas... E assim George e eu começamos
uma série de flertes que acabariam em um namoro muito sério. Sofremos demais
quando precisei voltar aos dias atuais.
Não queria
embarcar nessa outra vez. Apaixonar-me de verdade por um homem que
anteriormente estava só nos meus sonhos mais delirantes, e me acabar de
tristeza quando o momento da separação chegasse. Olhei para Davy um pouco
triste, num raro momento em que ele tirou os olhos de mim. “Não vou me
apaixonar, não vou me apaixonar, não vou!”, eu repetia em meus pensamentos.
Chegamos ao
cenário onde gravaríamos a cena. Deram-me um papel com as minhas falas. Comecei
a ler e fiz esforço para memorizá-las. Fui levada por uma maquiadora para me
preparar. Ela disse:
- Ao menos você não tem um pingo de maquiagem no rosto... Mas
seu cabelo está todo embaraçado! E essas roupas?
Dei uma
olhada rápida em minhas roupas. Notei que vestia uma camiseta da Grifinória,
jeans e All Star. Jeans e All Star até tudo bem... Mas tinham razão em
estranhar a camiseta. Uma figurinista me deu uma blusa de botões rosa, uma saia
preta e sapatilhas também pretas para vestir. Suspirei com alívio ao verificar
que estava com as pernas raspadas. Como estou sempre de calça, não é sempre que
estou com as pernas “apresentáveis”. Vesti as roupas. Bem sessentista, ainda
mais com meu cabelo com franjinha à la Pattie Boyd (ter esse visual me ajudava
a me lembrar de George) e os brincos de argola. Um batalhão de maquiadoras e
cabeleireiras me ajeitou. Uma manicure retocou meu esmalte rosa, que começava a
descascar.
Eu estava
pronta. Não era bem assim que eu queria ficar diante de Davy. Queria que ele
gostasse de mim como eu realmente sou. Desleixadinha, e não a bonequinha que eu
via diante do espelho. Uma mulher disse que eu deveria tirar os óculos. Eu
respondi:
- Não, me desculpe, mas não enxergo nada sem eles. Preciso
ficar com óculos.
Ela deu de
ombros e me levou até Davy. Ele me olhou de alto e baixo, o que não demorou
muito, pois sou exatamente da mesma altura que ele, e soltou um assobio
discreto. Ruborizei outra vez.
- E eu achava que seria impossível você ficar ainda mais
bonita. – ele disse com um sorriso quando me aproximei mais.
- Obrigada. – respondi timidamente.
- Chega de conversa! – exclamou Rafelson. – Davy... Você sabe o que fazer. Silêncio no set... Claquete... Ação!
Coloquei-me a
postos. O nome da minha personagem era Veronica e naquela cena Davy... Me
beijaria. Eu tentava me acalmar, mas o esforço era infrutífero. Davy
aproximou-se e disse:
- Veronica, eu não posso mais esconder!
- Esconder? Esconder o quê? – respondi, tentando atuar o melhor que podia.
- Isso! – ele colocou os braços ao redor da minha cintura, me trazendo para perto de si.
E pressionou seus
lábios aos meus. Meu Deus, como os lábios dele eram macios e grossos... E eu
não sabia que beijo técnico envolvia língua... Ele me soltou. Eu tremia toda, e
sentia como se flutuasse.
- Corta! – exclamou Schneider. – Ótimo, perfeito!
- Você beija bem, Mariana. – Davy sussurrou.
- É... Você também. Pode me chamar de Maris, se quiser.
- Maris... Ok, é mais fácil do que Mariana. – eu adorava ouvir aquela voz fofa e com sotaque de Manchester dizendo o meu nome ou o meu apelido. – Escuta... Você está livre hoje à tarde?
Se eu
estava livre? Para ele eu sempre estaria livre! Claro que eu não disse isso,
apenas respondi que sim, eu estava.
- Legal. Então, vamos tomar um café depois do término da
filmagem hoje?
- C-c-claro, D-D-Davy. – eu concordei. Não conseguia parar de sorrir.
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