Ela não acreditava naquilo. Seu pai, sua mãe, seu irmão... Mortos! Todos
mortos! Como apenas ela podia ter
sobrevivido? Sem sua família, Dianna não acreditava ter mais motivos para
continuar vivendo.
- Papai, mamãe, Giles! – ela gritou, quando recobrou os
sentidos após aquele horrendo bombardeio e viu os corpos inertes de seus
familiares. – É isso o que direi se um
dia estiver diante dos responsáveis por isso: “Verdammt! Würmer! Barbar!”
Malditos! Vermes! Bárbaros! – ela usaria todos os impropérios em alemão que
conhecesse.
A jovem
sentou-se, abraçando os joelhos.
Enterrou o rosto nos joelhos e chorou. Aguardaria a morte assim,
decidiu. Ela acabou por adormecer ali,
em meio aos escombros do que outrora fora a sua casa. Acordou quando sentiu seu
ombro ser chacoalhado, muito assustada.
- Oh!
- Mil perdões, senhorita. – disse um rapaz, que vestia uma
farda e tinha o inconfundível sotaque de Manchester. – Eu não quis assustá-la mais do que já deve
estar.
- Senhor... Meus pais! Meu irmão! Aqueles... Aqueles
malditos alemães! Espere! Na verdade, aquele maldito Hitler! É culpa daquele
demônio, com sua maldita lavagem cerebral sobre o povo alemão!
- Sim, sim. Eu sou o Tenente David Jones. E qual o seu nome?
- M-meu nome é Dianna Mackenzie, tenente.
- Srta. Mackenzie, eu odeio esta guerra tanto quanto você,
odeio. Apenas me alistei por um motivo: proteger e salvar vidas inocentes, como
a sua. Se eu puder proteger e salvar vidas inocentes do lado do Eixo, eu farei
isso.
- Isso é louvável, tenente. – Dianna sorriu.
- Chame-me de David, senhorita. Ou até mesmo de Davy.
- Está bem... Desde que me chame de Dianna.
- Certo. Dianna, eu a levarei ao acampamento de meu
batalhão.
- Assim o faça, Davy.
A princípio, o Coronel Rafelson não
queria abrigar a moça. Mas Davy, com ajuda de seus três amigos, Mike, Micky e
Peter, que também eram tenentes, conseguiram convencê-lo. Dianna atuava como
enfermeira do batalhão. Ela era tão
doce, bonita e inteligente, e se mostrava sempre tão grata, que diversos dos
soldados caíram de amores por ela.
Porém, apenas um dos jovens oficiais do batalhão conseguia um tipo
diferente de afeto dela: o tenente David Jones, ou simplesmente Davy. Dianna
era muito grata a ele, por ter salvado sua vida. Ademais, ele era divertido,
corajoso, bom, justo... E atraente.
Um
dia, a jovem organizava algumas caixas de medicamentos, quando, sem ela
entender por quê, a imagem de sua saudosa mãe veio a sua mente. E
automaticamente vieram a de seu pai e seu irmão. As lágrimas rapidamente
desceram pelo rosto dela, e quando ela menos esperou, viu Davy diante dela,
limpando suas lágrimas.
- Um rosto tão lindo não deve nunca se entristecer.
- Eu... Eu acho que nunca irei superar a perda de minha
família. Mas o que irei fazer, depois que essa guerra horrível acabar? Não
tenho para onde ir... Apenas a casa de minha tia. Mas ela não é uma mulher
fácil de lidar, não sei se quero viver com ela.
Davy olhava para Dianna com
carinho, e começou a acariciar o rosto dela.
- Eu acho que é uma grande ousadia minha sugerir isso... Mas
você poderia viver comigo, Dianna. – e
ele a beijou.
- Davy... Meus sentimentos por você começaram como gratidão.
Em seguida se tornaram admiração. E hoje... Eu não sei definir o que são, mas
creio que sejam amor.
- Eu... Eu também amo você, Dianna.
Os dias no acampamento, à espera de um ataque inimigo, acabaram por serem
menos assustadores para os dois. O relacionamento que estavam construindo
permitia que vissem as coisas de maneira um pouco mais positiva apenas por
estarem juntos.
Certa vez, Davy disse a Dianna:
- Eu acho... Acho que deveríamos pedir ao Coronel Rafelson
que nos case.
- Por quê, Davy? Por que a pressa?
- Tenho medo de morrer em batalha, Dianna, ou que eu perca
você num ataque.
- Não pense assim, Davy, pelo amor de Deus!
- Mesmo assim... Se o coronel concordar, você aceita se
casar comigo?
- Sim, sim, sim! Você é tudo o que me resta, Davy. – ela
beijou-o, com um aperto no coração. Já ele abraçou-a fortemente.
O
coronel concordou. Davy e Dianna
tornaram-se marido e mulher. Passaram-se alguns meses, e a jovem se deu conta
de algo que a deixou imensamente feliz, mas também preocupada.
- Davy? – ela chamou seu amado marido.
- Sim, Dianna?
- Eu, eu... – ela tinha lágrimas nos olhos, que eram de
alegria e tristeza ao mesmo tempo.
- O que houve, meu amor? – ele se preocupou ao vê-la
chorosa.
Ela
se aproximou dele e sussurrou em seu ouvido:
- Eu... Eu estou
grávida, Davy.
Ele
não podia acreditar, tamanha era a sua felicidade.
- Grávida? – perguntou ele com um sorriso no rosto.
Dianna assentiu com a cabeça.
- Isso é maravilhoso, querida! – ele a cobriu de beijos.
- Sim, é, mas estou muito preocupada.
- Com o quê?
- Ora, Davy, essa criança vai nascer em meio a uma guerra!
Eu não quero isso para nosso filho! – ao dizer isso, ela tinha suas mãos
pousadas carinhosamente sobre seu ventre.
- Vai ficar tudo bem, Dianna. Temos que ter fé. – disse ele,
acariciando o ventre de sua amada esposa.
E assim
meses se passaram, com relativa tranquilidade no acampamento, e o nascimento do
bebê de Dianna e Davy se aproximava. Certa noite, ouviu-se o barulho das tropas
inimigas se aproximando, em marcha.
- Oh, Deus! – Dianna se desesperou.
- Meu amor, acalme-se, pelo seu bem e do bebê! – pediu Davy,
calçando as botas de combate.
- Tome muito cuidado, Davy, por favor! – ela implorou, sua
voz embargada pelo medo e também pelas dores das contrações, que já começava a
sentir.
- Eu tomarei, Dianna. – ele beijou sua boca e acariciou seu
ventre.
Ela
passou a noite em claro, ouvindo o ruído ensurdecedor das balas sendo
disparadas. E os gritos. Ela rezava: “Por favor, meu Senhor Deus, proteja meu
Davy, por favor, por favor!”.
As
baixas haviam sido muitas. Muitos mortos, e um número ainda maior de feridos.
Entre estes últimos, o marido da moça. Ela foi vê-lo na tenda da enfermaria.
- Querido, você está bem?
- Eu acho... Eu acho que estou, meu amor.
- Como assim acha?
- Dianna! Querida, calma. Eu vou ver esse bebê nascer,
crescer e se casar, fique sossegada!
- Tomara!
Contudo, o quadro de Davy se agravava. Dianna estava temerosa. Ele era
tudo que ela tinha. A guerra havia tomado sua família, não tomaria seu marido
também!
Três dias depois, Davy apresentava uma pequena melhora. Naquela noite, ele
dormia na enfermaria, e Dianna, na tenda do casal. Ela começou a sentir as
dores do parto. Seus gemidos de dor acordaram Mike, que dormia numa tenda
próxima. Ele foi à tenda da enfermaria, acordar o médico do batalhão.
- Doutor, eu creio que o senhor é necessário na tenda do
tenente Jones!
- O que houve, tenente Nesmith?
- Pelos gemidos, Dianna entrou em trabalho de parto.
- Eu estou indo para lá. Eu creio que deve avisar o pai,
tenente.
Mike foi
até o leito de Davy.
- Davy, Davy! Acorde!
- O que houve, Mike? – ele acordou sobressaltado.
- Seu filho vai nascer.
- Meu filho! – ele exclamou, e começou a se vestir.
- Tem certeza de que está em condições de se levantar, Davy?
- Tenho! Ademais, quero estar ao lado de minha esposa num
momento como este!
Apesar
da dificuldade, Davy foi o mais rápido possível à sua tenda, e chegou lá a
tempo de ouvir um choro de bebê.
- Nasceu! – exclamou ele, tomado de felicidade.
O
médico chamou-o, dizendo:
- Tenente Jones, tenho o prazer de informar-lhe que é pai de
uma linda e saudável menininha!
Davy
viu Dianna segurando um bebê em seus braços. Com dificuldade, ela colocou a
filha nos braços do pai, pois ainda sentia dores imensas.
- Doutor, eu temo que sejam gêmeos! – ela exclamou.
O jovem
tenente não cabia em si de contentamento. Gêmeos! Enquanto ele segurava a
filhinha amorosamente em seus braços, viu o sofrimento de Dianna para trazer o
outro bebê ao mundo. E ficou receoso por ambos.
Por fim,
ouviu-se um segundo choro.
- Outra linda e saudável menina! – exclamou o médico.
- Doutor, eu fico muito grato por ter ajudado minha esposa e
minhas filhas! – agradeceu Davy.
- Não há de quê, tenente Jones!
Dianna
segurava a outra garotinha. Davy aproximou-se dela, e perguntou:
- Como chamaremos a mais velha, Dianna?
- Cecilia. – respondeu ela, com a voz fraca. – E a mais nova
será Rebecca. – então, ela deu seu
último suspiro. Ter dado à luz as duas filhas consumiu suas forças.
- Não! Dianna! – Davy gritou.
Mike,
Micky e Peter ouviram o grito desesperado do amigo e correram para lá. Mike
tirou Cecilia dos braços do pai, e Micky tirou Rebecca dos da mãe, que já
estavam gelados. Davy atirou-se sobre o
corpo da esposa e chorou como um condenado. Peter tentou confortá-lo.
- Não tenho mais motivos para viver, sem minha Dianna! –
exclamou Davy.
- É claro que tem! Você tem duas filhas para criar! – Mike
respondeu.
Davy levantou-se, beijou cada uma de suas bebês, e novamente se
ajoelhou. Ele pegou sua arma e apontou para o próprio peito.
- FICOU MALUCO? ABAIXE ISSO! – advertiu Micky.
- Não! – Davy respondeu. – Cuidem das minhas meninas.
Cecilia, Rebecca, papai ama vocês. E mamãe também. Vou encontrá-la.
- Davy, por favor, não faça isso! – pediu Peter. Mas foi
tarde demais.
- Não! – exclamaram Mike, Micky e Peter.
Setenta anos depois,
em 2014...
- Não! – Dianna acordou, terrivelmente assustada. Ela se
virou, e ouviu o ruído da respiração de seu namorado. Graças a Deus, ele estava
ali, vivo.
- Di? – ela o ouviu chamá-la, e em seguida sentar-se na cama.
– Está tudo bem?
- Não, não está, Cuddly Toy. – ela enterrou o rosto no peito
nu de Davy, em prantos. – Tive um pesadelo. Um rapaz e uma moça. Na Segunda
Guerra Mundial. Os pais e o irmão dela morreram depois de um bombardeio. Ele a salvou dos escombros. Eles se
apaixonaram, se casaram e tiveram filhas gêmeas. Ela morreu depois da segunda
bebê ter nascido, e ele, como não queria viver sem ela, se suicidou. Eles eram
idênticos a nós, Davy! As filhas deles... As filhas deles tinham seus olhos!
- Calma, srta. Spock. Foi só um pesadelo, nada além disso. –
ele passou a mão nos cabelos dela, para acalmá-la. – Venha, deite. – disse ele,
novamente deitado.
Ainda
com medo, ela aninhou-se no peito do namorado, que a abraçou carinhosamente e
beijou sua testa. Logo eles voltaram a dormir, embalados por aquele amor que
atravessava as eras. A alma de Davy não existia sem a de Dianna, nem a dela sem
a dele. Suas almas eram eternamente
unidas, e nada poderia mudar isso.
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