Episódio 7
Dali a poucos dias, Cecilia e Rebecca
foram ao casarão onde um dia seu pai viveu, sua mãe trabalhou e elas foram
concebidas.
Estavam nervosas. Pararam diante dos
portões, hesitantes.
-
Bem... Acho que poderemos ser contratadas. Fiquei sabendo na vila que a
condessa procura por novas criadas. - disse Becky.
-
Mas e se ela nos reconhecer? - Cece argumentou. - Sempre disseram que nos parecemos com a mamãe.
-
Há anos que ela não vê a mamãe.
-
Mas você não ouviu mamãe contando tudo a tia Emma? A condessa Amber a odiava!
Decerto se lembra bem do rosto dela...
-
Pode ser. Mas vamos rezar para que, pelo menos a princípio, ela não desconfie
de nós.
As
gêmeas aproximaram-se do portão. Um homem indagou-lhes o que queriam.
-
Viemos para uma entrevista de emprego. - disse Cecilia.
-
Oh, sim. Vou abrir o portão para as senhoritas.
O portão foi aberto e elas
atravessaram. Bateram à porta. Uma criada abriu e perguntou se as garotas
haviam vindo à procura de emprego.
-
Sim. - Rebecca respondeu.
-
Eu vou avisar ao administrador Rafelson que estão aqui. - disse a criada.
Cece e Becky aguardaram de pé, perto da
porta, até que um homem idoso aproximou-se e disse:
-
Vou levá-las até minha sala. Lá faremos a entrevista.
As duas irmãs não sabiam, porém,
sua mãe havia sido entrevistada naquela mesma sala vinte anos antes.
Na sala, estava um homem jovem,
loiro, alto, de olhos azuis. Cecilia e Rebecca se encantaram por ele no mesmo
instante.
-
Senhoritas, este é o conde Joseph Jones. - disse o administrador. - Ele mesmo
vai entrevistá-las.
As jovens reprimiram um suspiro de
tristeza. Não podiam gostar dele daquela maneira, se era seu irmão.
-
Boa tarde para as duas. - disse o rapaz. - Quais são seus nomes?
-
Cecilia... Johnson. E minha irmã Rebecca. - Cece respondeu.
- É
um prazer. - ele foi muito educado, beijando as mãos das duas. Elas coraram,
principalmente Cece. - Senhoritas, queiram sentar-se.
Elas obedeceram, e Joey fez o mesmo.
Indagou a elas o que sabiam fazer. Responderam:
-
Sabemos limpar e arrumar a casa. - começou Cece.
- Lavar,
passar e engomar roupas. - Becky continuou.
-
Costurá-las também. - lembrou Cecilia.
- E
também sabemos cozinhar. - Rebecca terminou.
-
Parecem criadas perfeitas! - disse o jovem conde. - Por mim, estão contratadas.
O problema... É minha mãe.
As gêmeas engoliram em seco, pensando na
cruel viúva do pai e se ela as reconheceria, caso fossem contratadas. Joey
disse que iria falar com ela e logo voltaria com a resposta definitiva. As
garotas assentiram.
Dali a alguns minutos, o rapaz retornou.
Disse às gêmeas:
- O
emprego é de vocês! Mas minha mãe já lhes deu incumbências. Aqui estão suas
librés. Assinem os contratos, vistam as librés e já poderão começar. - ele
falou com gentileza.
-
Quais serão nossas incumbências? - indagou Rebecca.
-
Você vai ser a criada de quarto da minha mãe. Vá até os aposentos dela para
receber ordens mais detalhadas. E você... - ele olhou para Cecilia como que
encantado com a jovem. Apesar de ser idêntica à irmã, para o jovem conde ela
era ainda mais bonita. - Você vai ficar encarregada de limpar as salas do
térreo.
-
Muito bem. - as duas disseram. Becky incomodou-se com a clara preferência do
conde por sua irmã. Estaria com ciúme? Lembrou-se então de que ele era seu
irmão. Não podia se sentir assim por ele.
As gêmeas foram levadas ao seu quarto na
ala dos criados. Trocaram seus vestidos pelas librés e se separaram, Becky indo
ao quarto da madrasta, Cece indo até a sala de estar, por onde começaria a
limpeza. Ela limpou tudo com muito cuidado e capricho, sendo observada com
atenção por Joey. Ele começava a se sentir apaixonado pela moça.
Era assim que sua mãe queria que ele se
sentisse por Anna Wright, filha do conde Richard Wright e sua esposa Meg, a
melhor amiga da condessa Amber. Entretanto, apesar de a menina ter puxado o
temperamento doce do pai, Joey não conseguia vê-la como sua futura esposa. Sua
mãe o mataria se ele dissesse como imaginava sua esposa perfeita...
Joey viu a jovem olhando com muito
interesse para um dos quadros pendurados na sala. No momento, ela olhava
fixamente para o maior, que retratava um homem jovem, de no máximo 25 anos,
vestido com muita elegância. Era um rapaz muito bonito, de olhos castanhos
escuros grandes e calorosos. A boca estava séria, mas parecia exibir uma predisposição
para o sorriso. Joey não se conteve. Aproximou-se. Ele mesmo já havia olhado
fascinado para a pintura muitas vezes.
-
Esse é o falecido conde David Jones. Meu pai. - disse ele.
-
Oh! Conde! O senhor assustou-me. - disse Cece, apertando o espanador contra o
peito com o susto.
-
Queira perdoar-me.
-
Está tudo bem... Senhor, me perdoe, mas... O senhor não se parece com o
falecido conde.
-
Eu sei. Isso... Me angustia. - Joey nunca havia confessado isso a ninguém, no
entanto, se sentia seguro com aquela garota. - Minha mãe diz que herdei as
características da família dela... Contudo... Eu não me sinto encaixado. Nem na
família de meu pai, nem na de minha mãe.
-
Eu... Sinto muito. - Cece estava surpresa por ele se abrir com ela daquela
maneira.
Ela
voltou a limpar uma mesinha próxima dos quadros, porém, Joey falou, chamando a
atenção dela para ele novamente:
- E
neste quadro aqui... - ele colocou a mão na moldura do retrato de um rapazinho
de prováveis doze anos, este muito mais parecido com o falecido conde. - Está
retratado meu tio Henry. Irmãozinho temporão do meu pai. Morreu quando eu era
muito pequeno. Ele era pouco mais do que uma criança quando se foi. Creio que
esta pintura foi feita pouco antes de seu falecimento. Eu me lembro muito pouco
dele.
- E
de seu pai? - Cece sabia que Joey também era um bebê quando Davy morreu, mas
julgou natural perguntar.
-
Eu não tinha nem um ano quando meu pai foi assassinado. - Joey suspirou. - Mas,
de certa forma... Eu me lembro dele. Lembro de uma voz afável, e de me sentir
protegido. E sei que essa lembrança não diz respeito a minha mãe.
-
Eu... Entendo. Quantas tragédias em sua família...
-
Nem me diga. Bem... Eu tenho algumas coisas a fazer. Já a atrapalhei demais em
seu trabalho, srta. Johnson. Vou deixá-la.
-
Está bem, conde. - Cece sorriu discretamente, e ele retribuiu.
A moça não podia evitar sentir aquilo.
Mesmo estando perfeitamente ciente de que eram filhos do mesmo homem. Embora...
Ela tivesse agora algumas suspeitas... Encontrou sua irmã à noite, no quarto
que lhes foi dado.
-
Estou tão encantada pelo conde... - Cece sorria. - Ele é tão bonito, tão
gentil!
-
Cece, sabe que... Ele é nosso irmão. - Becky tentava disfarçar o ciúme que
estava sentindo.
-
Estou começando a duvidar disso. Vi um quadro do nosso pai na sala de estar. O
conde Joseph não se parece em nada com ele. Papai era moreno, de olhos
castanhos e baixo. Totalmente o contrário do filho.
-
Acha que... Ele pode ser um bastardo da condessa Amber?
-
Provavelmente. Ele não deve ser nosso irmão de fato... E é isso que vamos
descobrir!
-
Mas e se ele for realmente nosso irmão?
-
Eu ficarei muito triste. Oh, Becky, ele... Quando olho para ele sinto mil
borboletas voando em meu estômago! Deve ter sido assim que mamãe se sentiu
quando conheceu papai...
"E certamente o conde sente por você o
mesmo que papai sentiu pela mamãe", Becky pensou, magoada.
Era sempre assim. Todos preferiam
Cecilia, por ser mais falante e desinibida. Ela, Rebecca, quieta e tímida,
raramente recebia mais atenção. Somente a mãe tentava dar a mesma atenção às
duas. Seria possível que houvesse algum homem que preferisse garotas
introvertidas como ela?
No dia seguinte, Rebecca estava ajudando
Amber em sua toalete, quando o mordomo pediu licença para entrar. Amber
permitiu.
- O
que quer, Jennings? - inquiriu ela.
- O
jovem visconde Müller chegou, acompanhado de sua prima Karin Neuer. Pede
licença para ver a senhora.
-
Mande Thomas subir.
Alguns minutos depois, ouviu-se uma
batida na porta. A condessa ordenou:
-
Entre.
A porta foi aberta. Entrou por ela
um jovem, muito bem-vestido, baixo, com cabelos escuros um tanto longos. Ele
era muito bonito. O encantamento que ele exerceu sobre Becky foi maior do que o
que o conde Joseph havia exercido no dia anterior.
O rapaz olhou para a jovem com os
olhos brilhantes. Parecia estar tão encantado quanto ela.
-
Bem-vindo, Thomas. - disse a condessa, seca. Pareceu notar a fascinação que
surgia entre os jovens.
-
Meus cumprimentos, condessa. - Thomas respondeu, um pouco titubeante. Ele
olhava para Becky disfarçadamente, e ela corou. Nenhum homem nunca a havia
olhado assim...

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