Dianna Mackenzie
estava muito, muito mal. Suas duas filhas, Cecilia e Rebecca, zelavam pela
saúde da mãe, e não saíam do lado da cama por nada. As gêmeas estavam
preocupadas com o que seria delas se a mãe partisse.
Para todos os
efeitos, não tinham pai. Peter Noone, outrora marido de sua mãe, nunca as
tratou bem. E as gêmeas nunca foram ensinadas a tratá-lo como pai. Elas mal se
lembravam dele. Dianna deixou a casa de Noone com as meninas quando elas ainda
tinham quatro anos de idade. Desde então, Dianna deu duro para criar suas
filhas sem qualquer ajuda masculina. Oferecia seus serviços de preceptora em
casas de família, porém, não era qualquer família que aceitava empregar uma mãe
solteira. Assim, às vezes Dianna precisou realizar serviços mais modestos, como
costurar roupas para fora, ofício esse que ensinou às garotas. E também deu seu
melhor para educá-las da forma mais primorosa. Cece e Becky não ficavam atrás
de nenhuma filha de nobre quando se tratava de cultura.
A pobre
mulher ardia em febre, e tudo o que conseguia dizer eram murmúrios.
- Minhas filhas, oh, minhas pobres filhas... O que vai ser
de vocês?
- Mamãe, nós vamos ficar bem. Não se preocupe. – disse
Rebecca, beijando a mão da mãe.
- Assim eu espero, minha filha. Cecilia...
- Sim, minha mãe?
- Vá chamar Emma. Por favor...
Cecilia
não hesitou. Correu para chamar a antiga vizinha, a melhor amiga de sua mãe.
Logo Emma estava ao lado do leito da amiga.
- Cece, Becky, poderiam me deixar a sós com Emma?
As
gêmeas não gostaram disso, porém, não iriam contrariar a mãe. Saíram... Mas
colaram os ouvidos na porta.
- Di, o que houve? – perguntou Emma, solícita.
- Emma... Eu estou nas últimas. Ai, coitadas das minhas
filhas! Você, a Alice e a Erin vão cuidar delas?
- Claro, Di, claro! Mas você vai sair dessa, minha amiga!
Vai ver!
- Minha amiga, minha melhor amiga... Está na hora de você
saber a verdade sobre o nascimento das
minhas meninas.
- Di, me desculpe, mas você acha mesmo que eu ignoro o fato
de que Cece e Becky são filhas do falecido Conde Jones?
Nesse momento Cecilia e Rebecca trocaram um olhar profundamente chocado.
Eram filhas bastardas de um nobre?
- Ah... Davy, o meu conde, o meu amor. Foi Noone quem o
matou. Aquele verme nojento, eu o odeio...
- Mas se você odeia Noone... Por que se casou com ele?
- Eu tinha que reparar minha honra. Ter um pai para as
minhas filhas. Eu não podia simplesmente ir até Davy e pedir que ele assumisse
Cece e Becky! Mas de que adiantou? Assim que pôs os olhos nas meninas Noone
soube que não eram dele. E isso o levou a provocar aquele acidente na
estrada... E Davy... Oh, meu pobre amor! Ao menos eu vou vê-lo...
- Um dia, Dianna. Mas ainda está longe.
- Emma, não tente me ludibriar! Eu sei que estou morrendo! Mas
antes... Vou contar tudo a você. E você deverá contar tudo às minhas filhas.
Deus reservou minhas últimas forças para contar a história do meu infortúnio.
Foi na primavera. O jovem conde Jones
estava de volta à sua propriedade principal, depois de uma visita a Londres no
inverno. Ele amava cavalgar pelos campos da região. Numa tarde especialmente
bonita, ele ignorou totalmente a chegada da capital de sua noiva, a jovem
Amber, filha do Visconde Henderson, e saiu para um passeio montado em seu
cavalo preferido. Amber se sentiu muito despeitada, e ele sabia disso. Contudo,
sua noiva estava cansada de saber que ele só estava noivo dela para agradar
seus pais.
Ele cavalgava próximo a uma região íngreme, quando avistou uma jovem
sentada no chão. Ela esfregava o tornozelo. Apeou-se do cavalo, amarrou-o a uma
árvore e foi até a moça.
- Está tudo bem, senhorita? – quis saber ele. Então ela ergueu
seus olhos para ele. Eram os olhos mais lindos que o jovem conde já havia
visto.
Dianna tentava organizar suas ideias para tentar comunicar àquele belo
rapaz a dor que estava sentindo. No entanto, a beleza do rosto dele impedia que
se concentrasse em outra coisa.
- Senhorita?
- Eu... Ah... Meu tornozelo. Dói demais.
- O que houve?
- Eu caminhava por aqui, até que escorreguei.
- Espere. Deixe-me ver esse tornozelo. Permite-me?
- S-sim.
Ela sentiu um tremor percorrer seu corpo todo quando ele ergueu um pouco
da barra da saia dela, para verificar o estado do tornozelo dela. Davy colocou
o tornozelo de Dianna com o máximo de delicadeza possível em seu colo.
- AI!
- Mil perdões, senhorita, mil perdões! – ele examinou o
tornozelo da jovem. – Não está quebrado, por sorte a senhorita só o torceu. Se
assim desejar, eu a levo para sua casa.
- Oh, senhor, é muita gentileza! Obrigada...
Com cuidado, Davy pegou a jovem nos braços e colocou-a no lombo do
cavalo. Em seguida, subiu e, com certo
receio, colocou os braços ao redor da cintura dela para conseguir segurá-la e
guiar o animal.
Dianna foi dando as coordenadas, e enquanto isso os dois conversavam
muito. Davy não revelou sua nobreza. Temia que a linda jovem ficasse intimidada
por isso, e tudo que ele não queria era intimidá-la. Descobriram que gostavam
dos mesmos livros, das mesmas peças para piano e das mesmas montagens teatrais.
Dianna costumava ter uma vida de certo luxo antes da morte dos seus pais, um
casal de diplomatas. A mãe de Dianna, Susan, morreu primeiro, de um acidente de
navio, a caminho de um evento internacional em que representaria a Inglaterra.
Poucas semanas após a morte da esposa, Lawrence caiu de cama, e morreu depois
de um mês de muita agonia para Dianna e seu irmão, Giles.
Desde então, Giles trabalhava duro para garantir o sustento dele e da
irmã. Finalmente chegaram à casa onde os irmãos órfãos residiam. Como Giles
ainda era muito jovem, não recebia o mesmo pagamento de um diplomata
experiente. Por isso, ele teve que cortar alguns gastos... Incluindo,
infelizmente, demitir uma parte dos criados. Ficaram na casa o velho e fiel mordomo,
a cozinheira, o jardineiro e três faxineiras. Os irmãos passaram a dispensar
criados de quarto e a cozinheira precisou abrir mão de ajudantes.
Dianna desceu do cavalo com a
ajuda de Davy e tocou a sineta da porta. Esperava que Cowper, o mordomo,
atendesse. Porém, quem apareceu para abrir a porta foi seu próprio irmão, com
um robe azul elegante por cima da roupa de dormir.
- Meu irmão! O que está fazendo em pé? O médico te proibiu
expressamente...
Naquela semana, Giles estava acometido por uma tosse muito forte. O
médico havia confessado a Dianna que temia que o quadro evoluísse para algo
muito mais grave. Dianna, então, fazia o máximo possível para manter o irmão na
cama.
- Eu estou bem, Dianna, fique descansada. Mas e esse rapaz,
quem é?
- Oh, este é o sr. David Jones. Um cavalheiro muito gentil.
Encontrou-me logo após eu ter escorregado perto daquela região mais íngreme da
campina... Segundo ele, eu torci o tornozelo. Portanto, ele colocou-me no dorso
de seu cavalo e me trouxe até aqui...
Giles estudou
minuciosamente o jovem cavalheiro, de alto a baixo. De fato, uma boa aparência,
apesar da baixa estatura. Roupas muito elegantes, na última moda da corte.
Decerto era detentor de muitas posses. Porém... Tal homem poderia ter a mulher
que quiser. Portanto... Giles o queria o mais longe possível de sua amada
irmãzinha Dianna.
- Bom, muito obrigado por ter ajudado a minha irmã, sr.
Jones. – disse Giles, um pouco seco.
Davy notou o
desagrado do rapaz.
- Foi um prazer. – disse ele, polidamente. Fez uma mesura
para Giles e beijou a mão de Dianna, e então foi embora.
Passaram-se dois
meses. Dianna e Davy não conseguiam se esquecer um do outro. Giles percebia
isso em sua irmã, e ficava irritado por isso. Não queria de modo algum que ela
se apaixonasse por um homem daqueles.
E Amber
percebia que seu noivo não lhe dava a mínima. Certa tarde, Davy pensava na bela
garota, quando foi interrompido por um grito irritado da noiva.
- Davy!!! Estou falando com você!!!
- Mil desculpas, Amber. – disse ele, sem o mínimo esforço
para disfarçar a impaciência. – O que você estava dizendo?
- Estou dizendo que você precisa mandar consertar sua
carruagem mais bonita! Eu tenho que chegar triunfante à igreja!
- Amber... Para quem você vai se exibir nesta região?
- Ora! Para toda a nobreza londrina, que virá para
prestigiar nosso casamento, meu querido!
O jovem conde
odiava ser chamado de “meu querido” por Amber, e ela estava perfeitamente
consciente disso, porém, insistia no chamamento, apenas para irritar o noivo.
“Por que concordei em pedir essa petulante em casamento só para agradar papai?
Deveria ter dito que se não fosse de Nami, nunca mais ficaria noivo!”
Nami Okawa, a
antiga noiva de Davy, era a filha mais nova do imperador do Japão, e era uma
jovem bonita, bem-educada, culta e agradável. Contudo... Havia morrido em
circunstâncias muito suspeitas, em sua viagem de volta para o Japão, após uma
visita a Davy na Inglaterra.
Davy havia amado muito sua antiga
noiva... E agora sentia aquela sensação de ser dominado pela paixão novamente.
Porém, o que sentia pela jovem do tornozelo machucado, Dianna Mackenzie, era
ainda mais pungente. Parecia... Errado ficarem separados. Se estivesse nas
raias da loucura, desmancharia o compromisso com Amber e correria à casa da
moça para pedi-la em casamento. No entanto, o bom-senso o impedia de fazer
isso. Dianna jamais concordaria em casar-se com um homem que só havia visto uma
única vez e do qual provavelmente já havia se esquecido.
Enquanto Davy
lamentava aquele destino, Dianna também lamentava o seu, cuidando do irmão
doente. O médico havia sido franco com ela: Giles sofria de tuberculose. Estava
fazendo de tudo para impedir que o rapaz cedesse... Mas estava receoso.
Dianna temia
muito a possibilidade de perder o irmão. A única família que lhe restaria seria
sua tia Lucy, viúva do irmão de sua mãe, e sua querida prima Erin. Dianna não
queria se tornar um fardo para elas, que já viviam numa situação complicada.
- Oh meu Deus, o que farei se o tempo do meu irmão aqui
estiver chegando ao fim? Não posso abusar da bondade da tia Lucy e da Erin,
elas mal conseguem viver com a herança do tio Howard... Coitado, perdeu
praticamente todo o seu dinheiro naqueles investimentos... Abusaram da boa-fé
dele. Só há uma coisa a fazer: usar toda a boa educação que recebi para me
tornar preceptora. Exato! É isso que farei!
Mais tarde, Dianna
foi chamada ao leito do enfermo.
- Dianna, minha irmã querida, posso lhe pedir alguma coisa?
– quis saber o pobre rapaz, segurando a mão da jovem.
- Claro, Giles. Qualquer coisa. – Dianna afagava o rosto do
irmão.
- Aceite o pedido de casamento de Peter Noone.
Dianna soltou a
mão do irmão e parou de afagar seu rosto.
- NÃO! EU PREFIRO VIRAR UMA MULHER DA VIDA!
- NÃO DIGA ESSA TAMANHA BESTEIRA, DIANNA!
- Desculpe-me, Giles, mas eu não posso me casar com ele! Ele
é um ser desprezível!
Peter Noone era um jovem advogado, que estava ganhando muito dinheiro no
exercício da profissão, era profundamente arrogante e... Estava louco para se
casar com Dianna. Ela não podia suportar a ideia de se unir a um homem
daqueles.
- Dianna! Você ficará desvalida se não se casar com ele!
- Não me importo! Trabalharei para garantir meu próprio
sustento, meu irmão, mas jamais, jamais, me tornarei mulher daquele prepotente!
- Dianna, me escute, eu sou homem e sou seu irmão...
- POR SER MEU IRMÃO TE ESCUTO, MAS NÃO POR SER HOMEM! Giles,
eu te amo muito, mas não posso atender esse pedido! Isso significaria abrir mão
dos meus princípios!
- Minha irmã... Está bem, se não quer se casar com Noone,
não tenho alternativa senão me conformar com isso. Mas me prometa que nunca,
nunca, por nada neste mundo, cederá às investidas de um homem como aquele David
Jones!
O coração de Dianna se apertou. Era com um homem como David Jones que
desejava se casar, se um dia isso se mostrasse necessário. Ela suspirou e
disse:
- Eu... Prometo, Giles.
- Assim posso morrer feliz, Dianna. Eu te amo.
E ele expirou.
- NÃO! NÃO! GILES! MEU IRMÃO!
Dianna debruçou-se sobre o corpo do irmão e pranteou-o longamente. Fez a
tia e a prima receberem a triste notícia. Elas vieram para ajudar Dianna com o
enterro e confortá-la, depois de dois dias.
E passaram os setes dias
de luto. Dianna decidiu que era hora de seguir em frente. Pegou os últimos
salários de Giles, pagou o que devia a cada um dos criados e deu, pesarosa, a
notícia de que eles estariam demitidos assim que ela não recebesse mais a
indenização que o governo inglês lhe devia pela morte do irmão, o que deveria
acontecer dentro de dois meses.
Acabado o período de dois meses,
Dianna não teve escolha a não ser despedir aqueles criados que serviram à sua
família com tanta dedicação, por quem ela guardava um carinho enorme.
- Boa sorte, patroazinha. – disse Cowper à jovem com um
sorriso.
- Obrigada. – ela retribuiu o sorriso do mordomo, e em
seguida foi abraçada pelo restante dos criados.
Dianna havia
colocado a antiga casa da família à venda, e logo o novo comprador chegaria.
Porém, uma certa manhã, o leiteiro chegou com uma notícia que logo colocou uma
nova esperança na vida de Dianna:
- Srta. Mackenzie, está procurando emprego de preceptora,
não está?
- Sim, Jenkins, por quê?
- Porque acabou de chegar de Londres o irmãozinho temporão
do jovem conde. Ele está procurando uma preceptora para o garoto.
- Oh, obrigada, Jenkins!
Naquela mesma tarde
Dianna foi até o casarão para a entrevista de emprego.
- Bem, srta. Mackenzie, - disse o sr. Rafelson,
administrador do jovem conde – a senhorita é, sem a menor sombra de dúvida, a
melhor candidata a preceptora do pequeno sr. Henry que apareceu. Nenhuma tem o
seu preparo e sua vasta cultura.
- Oh, eu fico lisonjeada, senhor.
- Portanto, como ninguém se compara à senhorita, o emprego é
seu!
Dianna não pôde conter a alegria. A sorte começava a lhe sorrir!
- Obrigada, sr. Rafelson, obrigada, obrigada!
- Bem, o conde me deu ordens para ser apresentado à
escolhida assim que ela fosse contratada. Assine estes papéis enquanto eu o
chamo.
- Está bem. – disse Dianna, já pegando os papéis e molhando
a pena.
Quando ela havia
terminado de assinar o contrato, ouviu a porta da saleta abrir-se outra vez.
Ergueu-se, ajeitou o cabelo e as roupas. Então... Viu seu novo patrão. Seu
espanto não era nada pequeno. Era David Jones! “Ele... Um conde?”
- Então esta é a nova preceptora do meu irmão, Rafelson? –
perguntou Davy.
- Sim, senhor conde. A srta. Mackenzie se mostrou ideal para
a função. – respondeu o administrador.
- Acredito que fará um excelente trabalho com Henry, srta.
Mackenzie. – disse o jovem conde, pegando a mão de Dianna e beijando.
O
administrador achou aquela gentileza um pouco excessiva, mas sabia que o conde
era um rapaz extremamente bem-educado.
- Eu farei o melhor que puder, senhor. – Dianna respondeu,
corando.

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