Capítulo 3 - How You Get The Girl (Dianna’s POV)
Eu estava bastante perturbada
com aquilo tudo. Fui até o banheiro, liguei a torneira e molhei os pulsos na
água gelada, respirando fundo. Encarei
minha própria imagem no espelho. Eu via meu peito arfante. Davy me irritava
profundamente. Mas ele também tirava o meu fôlego.
Nunca em
minha vida eu havia sentido algo assim por uma pessoa. Nem mesmo pelo Gerd.
Indaguei-me se Davy poderia ser...
- Não! Não pode ser ele! – eu mesma cortei meu pensamento. –
Sei que Gerd não é “ele”... Mas também não creio que Davy seja.
Saí do
banheiro e fui atrás do Gerd. Avistei-o
junto a um grupo de pessoas, que rodeava uma cadeira em que havia uma moça
sentada. Aproximei-me... E vi quem era a moça sentada. Era Louise McGold, a
intérprete de Cécile Volanges na série Ligações
Perigosas, e também minha amiga, que eu não via fazia um tempo
considerável.
- Dianna Mackenzie, é você? – ela me perguntou, quando me
viu.
- Oh, meu Deus,
Louise McGold! – dei um abraço forte nela. Sempre tive uma certa crush pela
Lulu. – Meu Deus, você está linda,
maravilhosa e... O que houve com seu pé? – notei que ela estava com um pé
descalço, sobre o qual estava apoiado um saquinho de gelo.
- Aquele
cara ali... – ela apontou para Gerd. – Pisou forte no meu pé!
- Meine
kleine, foi sem querer e... Espere! Você conhece essa hobbit? – inquiriu-me.
- Lulu, esse
cara pisou no seu pé? – Davy, que havia acabado de chegar ali, indagou a
Louise, parecendo preocupado.
Pelo tom dele, e pelo olhar também,
percebi tudo. Era claro que Davy olhava
para Louise na série como se estivesse apaixonado! Pois ele de fato estava. Não
sei por quê, contudo, senti uma mágoa surgir em meu peito. Fui chamada de volta
ao planeta Terra com uma exclamação de surpresa de Louise.
- Seu
vestido. Está manchado!
- Foi um
acidente! – fuzilei Davy com meu olhar e em seguida me virei para meu ursão. –
Peça desculpas para Louise.
- Já pedi e
essa louquinha ainda está com raiva de mim!
- Está tudo
bem, “Valmont”... Quer dizer, Gerd! – ela sorriu e depois apresentou seu
namorado. – Dianna, quero que conheça Davy Jones, meu namorado.
Tentei disfarçar todo o misto de sensações
esquisitas que aquele hobbit safado me proporcionava, e disse, num tom nem
muito frio, nem muito caloroso:
- Muito
prazer, Sr. Jones. E este é meu noivo, Gerd Müller!
Davy me
olhou com cara de... Decepcionado? E os olhinhos azuis de Louise estavam
enormes de espanto. Odile Greyhound,
namorada de Franz Beckenbauer, colega do Gerd no Bayern e seu melhor amigo,
voltou com seu namorado da mesa de bebidas. E disse a Lulu:
- Me
desculpe, amiga. Franz e eu conversamos com Barry sobre um filme.
- Que filme?
- Lembra-se
daquele filme que estou começando a fazer? Então, achei seu parceiro de cena e
Gerd já tinha topado. – ela explicou. - Então vocês vão atuar juntos.
Louise digeriu a informação por mais
ou menos meio minuto e por fim exclamou, parecendo um pouquinho indignada:
- ATUAR COM
ESSE URSÃO? – apontou para nós dois e até recuamos um passo, assustados pela
explosão. - Odile, eu tenho o Davy e ele também é ator. Por que não pode ser
meu namorado?
- Porque ele
e o Franz estão financiando e no roteiro, já coloquei vocês juntos. Ele vai
tentar te conquistar, você vai recusar tudo e no final acaba cedendo.
Pedi
licença a Louise e Odile e levei Gerd comigo para um lugar mais sossegado.
- Você não me disse nada sobre atuar nesse filme... Pensei
que iria apenas produzir.
- Di... Meine kleine, eu não queria atuar. Só aceitei por
insistência da Odile.
- O problema não é você atuar... É contracenar com outra.
Gerd
fez uma expressão que indicava que ele já esperava por isso.
- Justamente por isso não falei nada. Sabia que você não
iria gostar.
- Desculpa, mein Bär. Eu queria ser menos insegura. Mas eu
morro de medo de perder você...
- Não vai me perder para ninguém, pequenina. Muito menos
para aquela sua amiga doida!
Tive
que rir. Admito que Louise às vezes age de uma maneira um pouco inusitada.
Porém, eu não tenho muita moral para falar disso. Gerd e eu fomos até o palco, onde as Supremes
cantavam The Happening. E quem eu vi
no meio do público, no maior clima? Davy
e Louise. Balancei a cabeça, como que para afastar o bendito “Danceny” dos meus
pensamentos. Abracei Gerd com força. Não seria uma crush boba que iria me
colocar para baixo.
Mais
tarde, em casa, eu estava louca para dormir. Mas é óbvio que Gerd não iria me
deixar dormir sem antes fazermos amor. Curiosamente, eu não estava muito a fim
dessa vez. Tirei a mão dele da minha perna, dizendo:
- Hoje não, ursão. Desculpa.
- Não? Você tem certeza?
- Tenho. Tô cansada. Preciso dormir...
- Bom... Não tenho o direito de forçar você a nada, Di.
Então tudo bem. Boa noite. – ele me deu um beijo apaixonado.
- Boa noite, Gerd. – beijei o rosto dele e apaguei o abajur.
Senti-o me abraçar pela cintura e me trazer
para bem perto de si. Acariciei o braço dele. Eu estava com um sentimento de
culpa no peito. Gerd me amava tanto, e eu ali, agindo daquele modo egoísta só
porque peguei uma crush repentina por um ator que era namorado da minha
amiga... Não deveria significar nada de mais para mim...
Pelo menos eu
não me lembro do que sonhei naquela noite. Despertei e percebi que Gerd já
tinha se levantado. Fui até a cozinha, e lá estava ele, preparando nosso café.
- Guten Morgen. – ele sorriu para mim.
- Guten Morgen, Gerd. – respondi, puxando uma cadeira e me
sentando, esfregando os olhos.
- Dormiu bem?
- Acho que sim.
- Acha? – ele riu. – Acabei de receber uma mensagem do
Franz. Odile quer começar as gravações hoje.
- Mas já? – perguntei, surpresa, enquanto colocava café na
xícara.
- Pois é.
- Vou ter que fechar os olhos em todas as cenas em que você
e a Louise se beijarem...
- Pelo menos você vai ter companhia.
- O que quer dizer com isso?
- Ora! Não viu a cara daquele anão? Ele tá se roendo todo de
ciúmes, igual a você.
- O último que eu quero de companhia é ele...
- Tá com medo de ele sujar sua roupa de novo? – Gerd gracejou.
- Sem graça. – eu dei uma risadinha.
Gerd
e eu nos levantamos quando terminamos de comer, e fomos no carro dele até o
estúdio onde seriam realizadas as filmagens. Fomos recepcionados na entrada por
uma Odile muito animada.
- Bom dia, Gerd, Dianna! Gerd, vá para o seu camarim
imediatamente! Dianna, pode ir para perto daquele cenário ali, já providenciei
uma cadeira para você sentar e acompanhar a gravação!
- Hehehe, bom dia, Odile. – eu cumprimentei, com um sorriso.
– Certo, vou até lá.
Fui ao lugar indicado por Odile, e eis que vejo ao lado da cadeira de
onde eu deveria assistir à gravação... Isso mesmo, Davy Jones.
- Ora, ora, bom dia, Dianna, a Leoa! – ele me saudou com um
sorriso que transformou minhas pernas em gelatina.
- Bom dia. – respondi, um pouco seca.
- Olha, me desculpa pelo seu vestido. Eu não tinha a menor
intenção...
- Esse não é o problema. A mancha sai se eu lavar com
cuidado.
- Então por que está tão irritada comigo?
- Será que é por que eu estou noiva? E fui cantada por um
hobbit safado que tem namorada? Namorada que aliás é minha amiga?
- Bom... Eu não sabia que você está noiva daquela muralha
humana. E eu não te cantei, só fiz uma constatação.
- Constatação. – repeti com sarcasmo.
- Sim, constatação de que você é muito bonita. Louise estava
certa.
- Você tem mesmo que meter sua namorada nisso? Para um
Danceny, você está muito Valmont para o meu gosto!
- Quem sabe daqui a uns anos eu pego um papel de Valmont...
- Ah, cala essa boca, Jones! E me deixa em paz!
- É... Você é mesmo bem bravinha.
Nem me dei o trabalho de responder. Ele pareceu perceber que era mesmo
melhor não mexer comigo. Ficamos assistindo às gravações. Depois de uma hora,
Louise já estava surtada, completamente sem paciência, pois Gerd errava suas
falas com bastante frequência.
- ODILE!!!! Eu disse que isso não iria dar certo!!!!
- Tenha paciência, McLovely. – Davy disse a ela. – Todo
mundo erra e também é o primeiro dia. Não espere por perfeição.
- Eu preferiria que você fosse meu par, McCutie! Pelo menos
é profissional!
Ai. Essa doeu até em mim. Coitado do meu
ursão.
- Escuta aqui, sua lunática! – Gerd gritou. – Posso não ser
grande coisa como ator, mas não me chamam de Der Bomber à toa! Você é uma mimada! Já ouviu falar de Os Modernos Vampiros da Cidade?
- É claro! Quem não? Já li toda a trilogia!
- Pois então deve saber que está igualzinha à Lady
Porquinha!
- Lady Porquinha? Eu? E você, que parece mais o Visconde de
Nördlingen na primeira parte! Bruto, grosseirão! Não sei como você aguenta esse
cara, Dianna!
Davy e eu trocamos um olhar. Estávamos com medo de onde aquilo poderia
chegar.
- Meça as suas palavras, McLovely... Afinal, ele é o noivo
da Dianna e ela é sua amiga. – Davy advertiu-a.
- Coitada de você, Dianna. Vai mesmo querer esse bárbaro
como marido? – Louise me indagou.
- Eu... Bem...
Não sabia mesmo o que dizer. De repente... Imaginar-me casada com Gerd
parecia bem mais difícil. O que estava acontecendo comigo? Pedi licença e saí
dali. Precisava ficar sozinha por uns momentos.
(Davy’s POV)
Quanto mais ela se irritava comigo, quanto mais me xingava, mais eu a
achava linda, mais eu a desejava.
Sempre amei Louise, desde menino. Para mim, minha melhor amiga sempre
foi a garota mais linda, mais divertida, mais inteligente e mais talentosa de
todas. Até que essa Dianna Mackenzie apareceu no meu caminho, derramei
champanhe em seu vestido e olhei para ela.
Não sei descrever o que senti quando olhei para ela. Parecia que... Eu
sempre tinha procurado aqueles olhos. Não eram nada parecidos com os de Louise.
Grandes, castanhos. E exibiam uma grande surpresa.
Ela me xingou, foi seca. E se afastou. Um pouco mais tarde, encontrei-a
conversando com Louise. Descobri que são amigas. Vi que estava ao lado de um
grandalhão com jeito de urso. E ela apresentou o sujeito a Louise como seu
noivo.
Não vou negar, fui tomado por uma sensação esquisita no peito. Como se
ela não pudesse pertencer a ninguém... Que não fosse eu. O resto da noite não
consegui parar de pensar nela. Nem mesmo tive vontade de amar Lulu.
Sei que estou sendo um canalha. Mas
não consigo evitar. Toda vez que olho para aquela boca... É como se ela
chamasse pela minha, como se desejasse meus beijos da mesma forma que eu desejo
os dela.
Depois daquela discussão entre minha namorada e o noivo dela, Dianna se
afastou de todos, alegando se sentir mal. Quis segui-la, mas Gerd e Lulu
poderiam suspeitar. Se eu sou Danceny, ela é a Marquesa de Merteuil, mas uma
Marquesa que me seduz sem ter essa intenção. Não deseja me afastar de minha
Cécile e se considera feliz ao lado de seu Visconde de Valmont. No entanto...
Vou me tornar Valmont por um tempo e vou seduzi-la. Ela será minha verdadeira
Cécile.

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