Davy sentiu
seu ombro ser chacoalhado. Só podia ser Mike, acordando-o para mais um dia de
luta pela sobrevivência, ou seja, tentando encontrar um emprego onde pudessem
conseguir dinheiro para pagar o aluguel, ou o sr. Babbitt iria despejá-los. E
desta vez o senhorio muquirana parecia estar falando sério.
Qual não
foi a surpresa de Davy ao ver diante dele um rapaz de traços orientais! Então,
notou que não estava com a cabeça deitada em seu travesseiro, mas em algo que
parecia uma pequena tela de televisão, cheia de botões. O rapaz oriental olhou para ele com uma
expressão zangada, e disse:
- Chekov, dormindo em serviço! Eu esperava mais de alguém
que saiu da Academia da Frota Estelar diretamente para a que é provavelmente a
nave com a melhor de todas as tripulações!
- Acho que está me confundindo com alguém, senhor. Meu nome
é Davy Jones. E o senhor, quem é?
- Davy Jones? O pirata? Não seja infantil, Chekov! E você
sabe muito bem quem sou! Hikaru Sulu, seu amigo!
- Hikaru, o que está havendo com Pavel Andreievitch? –
perguntou uma moça bastante jovem, que usava um vestido azul e um penteado
esquisito. Ela era linda, muito mais bonita do que qualquer outra moça que Davy
já tinha visto em sua vida.
- Eu acredito que ele esteja só fazendo gracinha, Wendy.
– disse Sulu.
- Moça, eu não sou esse tal de Pavel Andreievitch, ou
Chekov, ou seja lá qual for o nome dele! Eu já disse, eu sou Davy Jones! E não
sei como vim parar aqui! Eu simplesmente estava dormindo na minha cama, e
acordei aqui.
- Pavel Andreievitch, eu não sei o que está havendo com
você, mas acho melhor parar com isso agora! – disse a garota. – O capitão Kirk
e o grupo de descida já estão voltando, e sei que o capitão precisará dos seus
serviços!
Uma
porta se abriu, e por ela entraram três homens. Um deles era loiro e estava
usando uma camisa amarela. Os outros dois usavam camisas azuis. Um deles, o
mais baixo, tinha um ar rabugento. E o outro... Davy esfregou os olhos. Ele
estava enxergando bem, ou o outro tinha mesmo orelhas pontudas, como as de um
duende?
O
loiro de camisa amarela sentou-se numa cadeira e disse, olhando para Davy e
para Sulu:
- Sr. Chekov, sr. Sulu, estabelecer rota para o planeta
Pelias V.
- Sim, senhor. – disse Sulu, apertando vários botões em sua
tela.
Davy olhou para a sua tela, sem saber o que fazer. O loiro perguntou:
- Sr. Chekov, algum problema com seu painel?
Perdido, Davy respondeu, gaguejando:
- Hã, bem, não... Não exatamente... Senhor.
- Capitão, Pavel Andreievitch está agindo de modo muito
estranho desde que o senhor e o grupo de descida deixaram a nave. Adormeceu, e , quando Sulu o acordou, pareceu
dar alguns sinais de amnésia ou de perturbação mental. – disse Wendy.
- Perturbação mental? – Davy olhou para ela. – Mocinha,
posso estar meio perdido, mas não estou louco!
- Desculpe-me, Pavel Andreievitch, mas você não está se
parecendo com o meu amigo.
- Não pareço, porque não sou o seu amigo!
O capitão chamou o homem de
azul com jeito rabugento.
- Bones, leve o sr. Chekov para a enfermaria e faça um exame
completo nele.
- Agora mesmo, Jim. – disse o rabugento, aproximando-se da
cadeira onde Davy estava. – Venha comigo, Chekov.
Davy não teve escolha senão obedecer. Ele se virou para olhar para
Wendy, que ainda o encarava com um brilho preocupado em seus olhos castanhos e
inteligentes.
- Srta. Sutherland? – chamou o homem alto e orelhudo.
- Sim, sr. Spock? – respondeu Wendy.
- Prepare um relatório sobre as formas de vida existentes em
Pelias V, e me entregue assim que estiver pronto.
- Pois não, senhor. –
a garota deu uma última olhada em Davy e se dirigiu ao outro lado da sala.
Davy acompanhou o homem rabugento, que o
capitão havia chamado de Bones. Ele parecia ser um médico, já que o capitão
havia pedido que o examinasse.
Perguntou:
- Hã, dr. Bones...
- Dr. Bones? Onde
está seu respeito, menino?
- Perdão... Doutor. Aonde
está me levando?
- Ora, sr. Chekov, à enfermaria, como o capitão Kirk
ordenou.
O rapaz ficou quieto, pensando.
Até onde podia concluir, ele havia ido parar em uma nave espacial. Mas
por que todos o tomavam por esse tal de Pavel Andreievitch Chekov? Talvez Davy
fosse muito parecido com ele.
Chegaram à sala que deveria ser a enfermaria. O doutor foi até uma mesa
e pegou alguns objetos. Ele pediu a uma mulher loira, que usava um vestido azul
como de Wendy:
- Pode começar o check-up no sr. Chekov, enfermeira?
- Claro, dr. McCoy. – disse a mulher, ligando alguns
aparelhos estranhos.
Então o nome do médico era Dr. McCoy... Bones deveria ser um apelido, não
o sobrenome do médico, como Davy pensara. A enfermeira começou a examinar Davy,
e ele não pôde resistir a fazer um galanteio:
- O que uma linda mulher como você está fazendo aqui, numa
enfermaria, quando deveria estar atuando na televisão?
Tanto a enfermeira quanto o médico olharam muito surpresos para Davy.
- Sr. Chekov, novamente pergunto, onde está seu respeito? A
srta. Chapel é uma mulher madura! – o médico estava indignado.
- Ademais, sr. Chekov, a televisão caiu em desuso no século
XXII. – acrescentou a srta. Chapel.
- Século... Século XXII? – Davy ficou espantado.
- Claro. Estamos no século XXIII. – disse a enfermeira.
- Ainda bem que a tenente Sutherland não está aqui para
ouvir isso! A pobre moça quase morreu de ciúmes quando o senhor estava
envolvido com a ordenança Landon. – disse o dr. McCoy.
Por essa última
fala do doutor, Davy concluiu que havia alguns assuntos mal-resolvidos entre o
tal Chekov e aquela linda moça, Wendy. Decerto eram amigos, mas desejavam ser
mais do que isso e não tinham coragem de admitir.
O dr. McCoy e a
enfermeira Chapel deram continuidade ao exame, e Davy ficou impressionado com
as máquinas que usaram. Não sabia que a NASA tinha uma tecnologia tão avançada.
E, que ele soubesse, os astronautas
ficavam sem absolutamente nenhuma gravidade dentro das naves, então por que
ninguém ali estava flutuando? Porém, a enfermeira Chapel havia dito que estavam
no século XXIII... Ele havia entendido bem?
Quando terminaram, o dr. McCoy disse:
- Bem, Chekov, acho melhor você descansar um pouco em seus
aposentos.
Saíam da
enfermaria e iam aos aposentos de Chekov, quando foram interpelados pelo
capitão Kirk.
- E então, Bones?
O médico reduziu a voz a um sussurro, mas Davy pôde ouvir tudo
perfeitamente:
- Jim, fisicamente não há nada de errado com o Chekov,
porém, ele parece ter sofrido um sério desvio de comportamento, possivelmente
uma dupla personalidade. Ele aparenta não se lembrar de nada da conduta de
oficial da Frota, tampouco de suas habilidades como oficial tático.
Enquanto McCoy dizia isso a Kirk, Davy observava as lindas mulheres que
passavam pelo corredor, e não pôde evitar dizer:
- Meu Deus, quantos brotinhos! Eu morri? Porque parece o
paraíso!
- Pelo amor de Deus, Jim, ele nem soa como alguém desta
época! – disse o doutor, ainda sussurrando. – E desde quando ele é tão
galanteador? Se os sentimentos dele pela tenente Sutherland não fossem tão
evidentes, eu o julgaria um quase vulcano!
- Vamos ter que desviar da nossa rota para Pelias V por um
tempo. – disse o capitão. - Precisamos
deixá-lo na clínica da Federação mais próxima. Há uma na base estelar 18, se
não me engano. Vamos levar uma semana para alcançá-la. Até lá... Bones,
converse com ele. Vamos tentar amenizar o problema.
- Droga, Jim, eu sou um médico, não um psicólogo!
- Mas terá que fazer um esforço, Bones.
Finalmente
pararam diante de uma porta onde se lia: “Alferes Pavel A. Chekov”.
- Seus aposentos, sr. Chekov. Descanse por enquanto, e
amanhã retornará ao seu posto. – disse o capitão Kirk.
- S-sim, capitão. – disse Davy.
Ele entrou nos aposentos.
Viu nas prateleiras um grande número de livros de autores russos. Pelo jeito, o
tal Chekov valorizava muito a cultura de seu país. Se Davy havia ido parar na nave em que esse cara
vivia e trabalhava, seria possível que Chekov tivesse ido parar... No
apartamento dos Monkees?
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