(Evanna’s POV)
Os
Davies estavam agitados. Naquela tarde, chegaria ao seu castelo a princesa Mary
Anne das Terras do Norte, que havia sido capturada por Lord Daltrey. Como Lord
Daltrey sabia que a jovem seria rapidamente recuperada caso os soldados de seu
pai fossem procurá-la em seu castelo, decidiu colocá-la sob a custódia de
Raymond e David Davies, os jovens senhores do Forte Davies. Com eles, viviam suas primas, as Ladies
Evanna e Jenna, filhas dos irmãos de seu pai.
Evanna era noiva de Lord Townshend, um dos amigos mais próximos do
obstinado Lord Daltrey. Entretanto, sabia muito bem que sua prima Jenna a
invejava por esse noivado, assim como invejava Felicity, a princesa das Terras
do Sul. Evanna não entendia o porquê de sua prima nutrir tal sentimento.
Decidiu refletir sobre aquilo em outro momento, pois ouviu o estrondo da pesada
porta dupla de carvalho ser aberta, e viu entrar por ela a princesa Mary Anne. A
moça parecia estar amedrontada. Evanna também estaria, caso tivesse sido
capturada, levada para outro país e transportada de um castelo para outro em
apenas uma semana.
O homem que a
acompanhava apresentou-se como o lacaio de Lord Daltrey e disse a Raymond e
David que o jovem lorde confiava a princesa a eles até que ele considerasse
seguro trazê-la de volta para seu castelo, a fim de desposá-la. Os dois lordes
irmãos sorriram para a princesa, e cada um deles beijou sua mão, após fazer uma
reverência, que ela devolveu graciosamente. David virou-se para Evanna e disse:
- Evanna, minha cara prima, gostaria de mostrar nosso lar à
princesa Mary Anne?
- É claro. – disse Evanna, sorrindo. – Venha, Alteza,
mostrar-lhe-ei tudo.
- Fico muito grata, Lady Evanna. – respondeu a princesa,
sorrindo também.
A filha do
rei James parecia estar gostando do castelo. Ela e Evanna conversavam
animadamente, e estavam se dando muito bem. A lady acreditava que a princesa
poderia ser para ela a companheira que sua prima nunca foi. Ela inquiriu:
- Princesa Mary Anne, você tem alguma vontade de se casar com
Lord Daltrey?
- Para ser sincera, Lady Evanna? Pouca. Meu grande desejo é
que as tropas de meu pai me salvem o mais imediatamente possível. Se eu pudesse
escolher com quem me casar...
- É muito inconveniente se eu perguntar quem escolheria?
- Não, creio que não. Eu escolheria um dos cavaleiros da
guarda de meu pai, Sir George. Ele é jovem, belo, alto, corajoso, perspicaz,
amável. E amigo de meu irmão.
- Está apaixonada por ele? – Evanna sorriu para a princesa
compreensivelmente.
- Sim, estou. – Mary Anne abriu seu sorriso. – E você,
milady?
- Oh, me chame de Evanna. Estou, estou sim. Pelo meu noivo,
Lord Townshend.
- Eu conheço Lord Townshend. Ele esteve no castelo de Lord
Daltrey para repreendê-lo por ter me capturado. Tentou persuadi-lo a me
libertar, mas não teve sucesso.
- Peter... Digo, Lord Townshend e Lord Daltrey têm certas
divergências, mas são muito amigos. Foram criados juntos, e também com Lord
John Entwistle e Lord Keith Moon. Bem, diga-me, Alteza, apesar de todas as
atribulações, gosta das Terras do Sul?
- Oh, sim! É um lugar muito bonito! Mais bonito do que meu
país, devo confessar.
Estava nascendo ali uma amizade. Mais tarde, chegaram ao Forte Davies
duas visitantes: Lady Eleonora Smith, noiva de Raymond, e a princesa Felicity,
noiva de David. As duas jovens foram
recepcionadas e instaladas em luxuosos aposentos. Evanna costumava gostar da
princesa Felicity, contudo, nos últimos bailes, havia percebido o excesso de
atenção que seu noivo dedicava a ela. Aquilo a havia incomodado muito.
As
jovens ficariam para o jantar e já na manhã do dia seguinte retornariam ao
palácio do pai de Felicity, o rei Robert. Os rumores diziam que as tropas do
Norte e do Leste já estavam chegando à região do feudo de Lord Daltrey, por
onde começariam a busca pela princesa Mary Anne.
Jenna, como seus três primos sabiam
muito bem, não gostava das duas damas ali presentes e desaprovava por completo
os noivados de Raymond e David com elas, ainda que fossem as filhas dos dois
homens mais importantes das Terras do Sul. Jenna também detestava a princesa
Frances das Terras do Leste, antiga noiva de Raymond. Havia conseguido que o
primo desfizesse o noivado com ela, fazendo-o quase enlouquecer de ciúmes com a
possibilidade que levantara de que Sir Dylan, o melhor amigo e protetor da
princesa, estivesse apaixonado pela jovem.
Evanna
fizera de tudo para evitar que os primos dessem muito crédito às opiniões e
afirmações de Jenna, e até então, no caso de Lady Eleonora e princesa Felicity,
estava tendo sucesso. Até que...
- Lady Eleonora, é verdade que esteve noiva de Lord Michael
Nesmith das Terras do Norte? – inquiriu Jenna.
Lady
Eleonora, um pouco corada, replicou:
- Não. Lord Michael Nesmith me cortejou, mas nunca selamos
compromisso.
Jenna fez uma nova tentativa:
- Diz-se que um dos amigos mais próximos de Lord Michael
Nesmith, Lord Michael Dolenz, tentou fazer-lhe a corte, princesa Felicity.
Notou-se
um tom de irritação na voz da princesa quando ela respondeu:
- Ele tentou. Sempre recusei sua corte veementemente. Eu
jamais aceitaria que um homem como aquele se tornasse meu pretendente.
Raymond e David pareciam não gostar do rumo que a conversa estava
tomando, tampouco Evanna. Ela previa que nada de bom resultaria daquilo. A princesa
Mary Anne interveio:
- Eu soube que um grupo de jograis conhecido como Monty
Python viaja pelas Terras do Sul em apresentações. Adoraria assistir a uma
delas.
Então
os nobres do Sul se distraíram contando à princesa do Norte sobre aquele
famigerado grupo de jograis, considerados por muitos os melhores dos Quatro
Reinos.
(Alana’s POV)
Aquele dia havia sido produtivo. Tanto os jograis do Monty Python quanto
ela e seu grupo de menestréis haviam ganhado muito dinheiro nas apresentações
do dia. Alana amava aquela vida, sem lar certo, viajando pelas Terras do Sul.
Ela se sentia livre. Por nada voltaria a viver como criada no Forte Townshend.
Seu pai e sua mãe continuavam a viver e trabalhar lá. Porém, nem mesmo para
vê-los ela poria os pés lá novamente.
Ela
se lembrava bem de como havia sido ridicularizada por outras jovens criadas por
ter amado o jovem Lord Peter Townshend, filho do senhor do forte. Quando o
velho lorde morreu e o jovem passou a comandar o feudo, Alana fugiu. Mais do
que nunca ela precisava se livrar daquele sentimento ilusório. Ele agora era o
senhor de um dos feudos mais poderosos das Terras do Sul, jamais olharia para
uma pobre criada.
Certa vez, quando passava por um vilarejo em busca de algum lugar para
comer e descansar, viu dois jovens trovadores se apresentando. Parou para
vê-los. Ao fim da apresentação, foi conversar com eles, que se apresentaram
como Edward Simons e Harry Daniels. Disse a eles que adoraria levar aquela
vida, sem lar certo, tocando e cantando.
Edward
e Harry perguntaram-lhe se desejava viver com eles. Ela concordou. Alana já
sabia cantar muito bem, e eles a ensinaram a tocar alaúde. Depois de alguns
meses viajando pelas Terras do Sul, conheceram um grupo de jograis, chamado
Monty Python. Fizeram amizade com eles, e os dois grupos de artistas passaram a
viajar e se apresentar juntos.
Ela e
os companheiros já estavam se preparando para se recolher para dormir, quando
ouviram uma batida na porta de sua grande carroça. Eric Idle, um dos jograis,
abriu-a. Lá fora, exposta ao mau tempo, estava uma moça. Tinha cabelos loiros,
olhos azuis e vestia roupas cinza em farrapos. Ela disse:
- Mil perdões por incomodá-los. Eu... Eu sou Louise. Só
gostaria de um lugar para ficar. Só por uma noite. Por favor.
- John? – perguntou Eric ao líder dos Pythons, John Cleese. –
O que acha?
- Esta caravana é como coração de mãe, Louise. Sempre cabe
mais um. Entre.
A jovem murmurou um agradecimento e
dirigiu um sorriso amistoso a todos. Alana imediatamente providenciou comida e
cobertores para ela. Apesar das roupas andrajosas, Louise parecia um pouco
bem-cuidada demais para uma jovem pobre. Entretanto, algo em seus olhos
mostrava que sofria. Alana disse a ela:
- Acredito que vai gostar de viver conosco, Louise. Nós somos
livres. Passamos a vida cantando, tocando música, dançando, fazendo as pessoas
rirem. Encontramos alegria na alegria dos
nossos espectadores.
- Sabe, é disso que eu preciso. Liberdade. – disse Louise.
Alana
olhou atentamente para Louise. Pôde ver em seus olhos azuis que a moça dizia a
verdade. Quem sabe em breve poderia explicar melhor quem era, de onde tinha
vindo e por que precisava de liberdade.
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