(Dylan's POV)
Os cavaleiros da guarda do rei
Edmund, das Terras do Leste, estavam em polvorosa e conversavam entre si com
grande alarido. O assunto era a guerra que se aproximava, em que as Terras do
Leste apoiariam as Terras do Norte.
Entretanto, Sir Robert Dylan
não pensava tanto na guerra propriamente dita, mas sim nas Terras do Norte. Ou
melhor, em uma dama das Terras do
Norte. A bela Lady Alice Stone recusara sua corte, e havia ficado noiva de um
nobre germânico, Gehard Müller. Havia se passado um ano desde então, e o
coração de Sir Dylan havia encontrado uma nova e arrebatadora paixão.
As princesas das Terras do Leste,
Elinor e Frances, eram conhecidas em todos os Quatro Reinos, e até mesmo em
países mais distantes, pela sua grande beleza. Na opinião de Sir Dylan, a
princesa Frances, a mais nova e sua grande amiga, era a mais bela, ainda que
Elinor também fosse linda. Ele esperava ansioso pelo passeio matinal das
princesas pelo pátio do palácio. A companhia da princesa Frances era a única
coisa capaz de quebrar o seu quase constante mau humor.
Por fim, as duas irmãs vieram
ao pátio. Quase no mesmo momento, Sir Graham Nash abordou a princesa Elinor.
Era quase palpável a paixão dele, ainda que a princesa estivesse noiva do
herdeiro de um grande feudo das Terras do Leste, Lord Robert Plant.
A princesa Frances viu Sir
Dylan, e deu-lhe um grande sorriso. O cavaleiro amava aquele sorriso. Ela se
encaminhava para ele, quando Sir Allan Clarke colocou-se diante dela. Sir Dylan
praguejou mentalmente. Não tinha nada contra Sir Allan... Exceto pelo fato de
este ser seu rival. Toda a guarda real sabia que Sir Allan estava perdidamente
apaixonado pela princesa Frances e desejava pedir a mão dela ao rei Edmund.
Finalmente a princesa
conseguiu se livrar de Sir Allan e foi até Sir Dylan.
- Bom dia,
minha princesa. – disse Sir Dylan, beijando a delicada mãozinha da princesa.
- Bom dia,
Sir Dylan. – ela sorriu. Então disse, num tom de voz baixo: - Sir Allan está
entusiasmado esta manhã.
- Ele está
apaixonado, princesa Frances.
- Eu sei! E
devo confessar que, ainda que fique lisonjeada, não desejo o amor dele.
- Mas,
princesa, ele será um bom marido para você.
- Eu não
creio nisso, Sir Dylan.
- Para falar
a verdade, nem eu, minha princesa.
A princesa deu uma
pequena risada. Seus lindos olhos azuis resplandeceram, tirando o fôlego do
cavaleiro.
- Sir Dylan,
qual o motivo da guerra que se aproxima? – perguntou-lhe ela. – Meu pai diz que
não me interessa...
- O rei James
das Terras do Norte teve sua filha, a princesa Mary Anne, raptada por Lord
Daltrey, um jovem e poderoso senhor feudal das Terras do Sul. Ele declarou
guerra ao país de origem do raptor. As Terras do Oeste estão apoiando as Terras
do Sul, e seu pai aliou-se ao Norte.
-
Pergunto-me por que meu pai não me permite tomar parte nos assuntos do reino.
- Bem,
princesa, não será Sua Alteza quem assumirá o comando do reino quando o reinado
de seu pai terminar, mas sua irmã.
- Mesmo
assim, creio que tenho o direito de saber! É o meu povo que está indo à guerra!
Se puder ajudar...
- É muito
corajosa, princesa Frances.
- Obrigada,
Sir Dylan. Tenho treinado, com sua ajuda ou sozinha, há muitos anos. Sei lutar
com uma espada e cavalgar tão bem quanto qualquer um de vocês, cavaleiros da
guarda de papai. Porém, se ele souber disso... Não ficará feliz.
- Princesa,
precisa impor-se!
- Sir Dylan,
papai jamais dar-me-á ouvidos! Se eu disser a ele que desejo servir em nosso
exército ou me casar com o homem que amo, ele ignorará!
“Casar com o homem que ama?”, Sir
Dylan pensou, nervoso. “Será Sir Allan? Mas ela mesma não disse que não crê que
ele será um bom marido?”
* * *
(George’s
POV)
- Eu vi
aquele lorde baixinho tirar a princesa Mary Anne para dançar! Se eu soubesse o
que ele estava prestes a fazer... – resmungava Sir George.
- George,
ninguém seria capaz de prever esse desatino de Lord Daltrey! – disse Sir John.
- Nem mesmo Lord Page das Terras do Leste.
Lord Page das Terras do Leste,
um dos jovens senhores feudais daquele país, amigo de infância de Elinor, a
filha mais velha do rei Edmund, tinha fama por todos os Quatro Reinos de grande
mago. Porém, nenhum boato foi comprovado.
- Você
realmente se sente atraído pela minha irmã, não é, George? – provocou o
príncipe Paul.
- Alteza, eu
jamais teria quaisquer pretensões em relação à sua irmã! Não sou sequer digno
de olhar para ela!
- Pois saiba
que eu ficaria imensamente feliz em tê-lo como cunhado, meu caro companheiro.
Ao ouvir essa afirmação do
príncipe, Sir George ruborizou-se, confirmando as suspeitas de seus três
amigos, reunidos ao seu redor.
- Por falar
em se sentir atraído... O que achou daquela ruiva das Terras do Oeste, John? –
indagou Sir Richard, com um sorrisinho malicioso.
- Qual
delas? Havia duas... – Sir John tentou desconversar.
- Ora, qual
delas! A mais velha, Lady Roselyn Donovan! Lady Vivian é pouco mais do que uma
menina! Ademais, o filho de Lord Romanov parece já estar interessado nela.
- Bom,
Richard... Eu diria que Lady Roselyn Donovan é uma bela moça. Certamente, temos
lindas mulheres aqui nas Terras do Norte. A filha de Lord Mackenzie, a de Lord
Carlisle, a de Lord Stone. A nossa própria princesa. Desculpe, Paul, mas você
tem mesmo uma bela irmã. – acrescentou Sir John ao notar o olhar enciumado do
príncipe. – Mas aquela dama... Aquela dama era absolutamente maravilhosa!
- Eu sabia.
– Sir Richard sorriu, triunfante. Sir George e o príncipe Paul, que também
tinham suas suspeitas, viram-nas ser confirmadas.
- É uma pena
que as Terras do Oeste sejam nossas inimigas nesta guerra. O que significa que
não poderei cortejar Lady Roselyn antes que o conflito tenha fim. – suspirou
Sir John. – Seria uma afronta ao rei James.
- Lord
Michael Dolenz não está comprometido a uma dama de lá? – lembrou-se o príncipe
Paul.
- Sim, está.
– confirmou Sir Richard. – Lady Suzan Hardison. Amiga de Lady Roselyn, por
sinal.
- Se conheço
bem Lord Michael Dolenz, ele não se importa com o fato de que o país de sua
noiva é atualmente nosso inimigo. É bem possível que não só mantenha o
compromisso, como também se case com ela. – disse Sir George.
- A verdade
é que Lord Michael Dolenz largaria a vida de nobre e se tornaria jogral, se
pudesse. – disse Sir John. – Dizem que Lord Dolenz despediu o bufão de seu
castelo porque seu próprio filho, Michael, era mais engraçado.
Sir John e os amigos
desataram a rir. Precisavam aproveitar ao máximo cada momento de descontração
que lhes era permitido, pois a sombra da guerra estava a cada dia mais próxima.
* * *
(Davy’s POV)
David Jones sabia que aquilo
não era certo. Ele era um mero escudeiro. Ela era uma dama, a filha de um
importantíssimo senhor feudal. A noiva de seu amo, Lord Tork. E, antes de mais
nada, a noiva de Peter, seu amigo de infância.
No entanto, quando ele pensava
naquela jovem que conhecera no baile, e que havia acabado de ver depois que
saíra da estrebaria do castelo de Lord Mackenzie, tinha mais certeza de que
seria impossível refrear seus sentimentos. Lady Dianna Mackenzie era tudo que
ele poderia querer. Era bela e charmosa, como qualquer um podia ver. Era
versada em todas as artes que a moda da época determinava que uma dama deveria
conhecer, como cantar e tocar instrumentos, o que ele pôde observar num certo
momento no baile de Lord Tork, em que este pediu a Lady Dianna que cantasse
algo.
E ela havia tido as mesmas
aulas que o irmão. Entendia de história, geografia, latim, literatura grega e
romana, matemática, astronomia. David achava que aquela combinação de
conhecimentos “femininos” e “masculinos” tornava Lady Dianna ainda mais
atraente.
Ele não aguentava. Precisava
revelar seus sentimentos a ela, custasse o que custasse. Esperou o fim do
jantar para falar com ela. Quando ela se dirigia aos seus aposentos, foi atrás
dela. Por sorte, ninguém o viu. Chamou-a.
- Lady
Dianna?
- Oh! Sr.
Jones! Não ouvi o senhor se aproximando.
- Perdão,
milady.
- Sem
problema.
- Lady
Dianna... Antes que eu parta para a guerra, preciso... Dizer-lhe algo.
- Sim, sr.
Jones?
- Milady...
Quando a vi pela primeira vez, no baile de Lord Tork, eu fiquei fascinado por
sua beleza. E fiquei mais fascinado quando mais tarde, no mesmo baile, você
mostrou suas habilidades musicais. Ouvi também Lord Tork falar sobre a sua
primorosa educação. Eu não posso evitar. É meu único pensamento, milady.
- Sr.
Jones...
- Chame-me
de David, minha amada. – ele pegou e beijou a mão dela.
- Está bem.
– Lady Dianna suspirou. – A partir de agora, David, deve me chamar de Dianna.
- Como
quiser, mi... Digo, Dianna.
- Então me
ama, David?
- Desde o
momento em que a vi pela primeira vez, Dianna.
- Eu também
o amo desde aquele momento, David. Quando pus os olhos em você, julguei ter um
anjo diante de mim.
- Porém, sou
apenas um pobre escudeiro. Você é a filha de um importante lorde das Terras do
Norte! Não sou digno sequer de beijar sua mão delicada!
- Isso não me importa. Eu quero você, e apenas você!
- Mas e Lord Tork?
- Eu não me importo com ele! Sei que ele pode muito bem
encontrar outra noiva, uma noiva que realmente possa amá-lo.
- Dianna, seus pais...
- David, eles não podem tentar conter meu desejo de me casar
com o homem que eu amo! Eles próprios se casaram por amor, deveriam entender
meu lado!
- Minha amada, eu juro, farei o meu melhor nesta guerra! Se a
sorte estiver ao meu lado, o rei James sagrar-me-á cavaleiro, e eu poderei
desposá-la!
- Rezarei por você, David. – ela pegou a mão dele e apertou-a
carinhosamente.
- Dianna, permite que eu te roube um beijo?
- Quantos quiser.
O escudeiro envolveu a bela dama em seus braços e deu-lhe um beijo
apaixonado e quase desesperado. Ele não sabia se viveria para vê-la novamente.
Ou se seria sagrado cavaleiro para poder fazer dela sua esposa. Quando
terminaram o beijo, ele disse:
- Está tarde. Você não deveria se recolher a seus aposentos?
- Eu deveria, mas não quero deixá-lo, meu amor!
Então ouviram uma voz que ambos temiam.
- David! Onde está? Preciso falar com você sobre os
preparativos de guerra!
- Oh, meu Deus, é ele. – Dianna sussurrou. – Se ele nos vir
juntos...
- Corra para seus aposentos, Dianna! Que eu esteja em seus
sonhos esta noite! – David falou, extremamente baixo.
- Você estará. – ela correu para seus aposentos, soprando um
beijo para ele.
- Já vou, Lord Tork! – disse David, tentando aparentar o
máximo de naturalidade possível ao caminhar em direção ao amo e amigo.
- Onde você estava, David? – perguntou Lord Tork, ao
finalmente encontrar seu escudeiro.
- Estava observando as tapeçarias de Lord Mackenzie. – mentiu
David. – Lindas peças, não?
- Sim, maravilhosas. – concordou Lord Tork. – Contudo,
evidentemente, a coisa mais bela no castelo de Lord Mackenzie é sua filha. Eu
espero que essa guerra logo tenha um término! Mal posso esperar para desposar Lady
Dianna!
David ficou quieto. Temia muito não poder evitar aquele casamento. Ele
sabia que deveria desejar que o amigo fosse feliz... Mas e se a verdadeira
fonte de felicidade de Lord Tork estivesse em outra jovem, não em Dianna?
Nenhum comentário:
Postar um comentário