Naquela semana, Bob foi
convidado a gravar algumas demos na sede inglesa de sua gravadora. Ele me
chamou para ir ao estúdio com ele. Fomos apresentados à baixista Alana Watson,
o guitarrista Edward Simons e o baterista Harry Daniels.
Eram instrumentistas
muito bons, mas era visível que Alana estava cabisbaixa por algum motivo. E
isso se prolongou por vários dias.
Quando achei que já tinha intimidade o bastante para perguntar, fui até
Alana e abri o jogo:
- Alana, está tudo bem?
- Bem, não, Fanny.
- O que houve? Se achar que pode,
me fale.
- Eu... Eu perdi meu namorado e
ainda não consegui me conformar. Eu juro que vou ensinar uma lição à maldita
que o roubou de mim!
Aquela história me era
familiar... Não me contive e quis saber:
- E qual o nome dela?
- Kathy Giordano.
Eu não conseguia acreditar. Pelo jeito,
aquela megera era uma cleptomaníaca especializada em namorados alheios.
- Eu a conheço muito bem. – eu disse.
- É mesmo? – perguntou Alana.
- Sim. Ela roubou meu namorado
também.
- Agora a odeio mais ainda, por
saber que não fez mal só a mim.
- Sim. Pode perguntar ao Bob. Ele
sabe bem como sofri.
- Bem, quem era o seu namorado?
- Paul Simon.
- Eu adoro o trabalho dele! Simon
& Garfunkel é uma das minhas grandes influências... Sou cantora também.
- Ah sim. Bem, e quem era o seu
namorado?
- Chris Hillman.
- O Byrd?
- Ele mesmo.
- Ele escreveu Have You Seen Her
Face para você?
- Não. Para aquela víbora.
- Oh, puxa.
- Sabe, não quero necessariamente
me vingar, mas adoraria vê-la acabar sozinha. – disse Alana. Ela parecia ter
tanta raiva de Kathy quanto eu, talvez até mais.
- Bem, tenho raiva também, mas já
não estou ligando tanto... Estou de olho em outro cara.
- Quem? - quis saber Alana.
- Ray Davies.
- Ray Davies? O Kink?
- O próprio.
- E ele parece estar interessado?
- Bem, sim, parece. Mas ainda não
tenho coragem de falar com ele sobre isso.
- Olha, Fanny... Muitas coisas
nesta vida a gente só consegue arriscando. Se eu não tivesse decidido me
arriscar a seguir meus sonhos, eu jamais seria cantora, compositora e baixista,
como sou hoje.
- Entendo... Mas eu tenho tanto
medo... Principalmente de que Ray desconfie de Bob.
- Paul desconfiava?
- Começou a desconfiar por culpa da
Kathy. Ela o fez acreditar que havia
algo a mais além de amizade entre Bob e eu.
- Mas dessa vez aquela chata não
vai intervir.
- E se aparecer outra?
- Não vai.
- Tomara.
Mais tarde, Bob e eu voltávamos
ao hotel. Eu disse a ele:
- Sabe, Bob, acho que vou procurar
o Ray amanhã.
- Quem é Ray? – perguntou ele.
- Ray Davies, dos Kinks. Nós nos
conhecemos debaixo de uma marquise num dia de chuva. Eu gostei dele logo
naquele dia. E depois nos encontramos quando fui com Fefe e Nora à entrevista
com os Kinks. Depois nos encontramos por acaso enquanto fazíamos caminhada e
tomamos sorvete, no dia em que você chegou. Acho que ele gosta de mim também.
- Bom, se acha que o momento é
oportuno, procure-o. Mas já sabe: se ele partir seu coração eu parto o crânio
dele.
- Bob, você é incapaz de machucar
uma mosca.
- Quando os sentimentos da garota
mais importante do mundo para mim estão em jogo, eu faço qualquer coisa.
- Eu sou assim tão importante?
- É. Você é a minha melhor amiga. É
meu dever zelar por você.
- Ah, Bob, se as pessoas pudessem
vê-lo como esse cara gentil e fofo que você é, ao invés do cara sério e
ríspido!
- Fanny, só você me vê assim.
- Sim, e isso é uma pena.
- Desista. Só você pode conhecer
esse meu lado.
- E por quê?
- Porque você merece que eu seja
gentil e, hã, fofo. E só você.
- Ok, né...
Como eu disse a Bob, decidi falar com
Ray. Só havia um problema: eu não tinha o telefone dele.
- E agora? O que eu faço?
Então tive uma vaga lembrança de que
havia anotado o número em algum lugar. Comecei a mexer e remexer em minha
bolsa, até que encontrei um papelzinho muito amassado, onde se lia “Ray” e um
número de telefone.
Não perdi tempo e liguei.
- Alô? – uma voz masculina atendeu.
- Ray? Sou eu, Fanny.
- Olá, Fanny.
- Sabe, talvez seja muito
atrevimento de minha parte fazer isso, mas eu queria saber se podemos sair para
dar uma volta qualquer dia...
- Ora, claro que sim! Quando?
- Hum... Amanhã?
- Por mim tudo bem.
- Combinado, então?
- Combinado.
- Até amanhã, Ray.
- Até amanhã.
Mal cabia em mim de felicidade e
ansiedade. A primeira coisa que fiz foi ir ao quarto de Bob contar a novidade.
- Bob, eu vou sair com ele!
- É mesmo? Eu fico feliz por você.
- Vamos dar uma volta amanhã...
Deseje-me sorte.
- Boa sorte, Fanny.
- Obrigada.
Eu só sairia com Ray depois do
almoço, mas a expectativa era tão grande que eu acordei muito cedo. Passei a
manhã tentando me distrair com meus livros e arrumando as coisas que havia
trazido dos EUA para minha irmã e minha prima, mas não conseguia.
Finalmente deram as catorze horas. Ray
ia me esperar na porta do hotel. E lá estava ele.
- Boa tarde, Ray.
- Boa tarde, Fanny. Você está muito
bonita.
- Obrigada.
Fomos ao Hyde Park, que eu
ainda não conhecia. Adorei o lugar. Ray e eu conversamos sobre muitas coisas.
Ele era muito divertido. E sabia ser sarcástico ao falar da sociedade. Isso me lembrava de Bob, talvez por isso
estivesse gostando tanto da companhia de Ray. Ele, então, disse:
- Você teve a ousadia de me chamar
para sair. E agora eu também serei ousado.
E me beijou.
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