quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Fanny's Autumn Almanac - Capítulo 11

Demorou, mas saiu!



                  



                     Naquela semana, Bob foi convidado a gravar algumas demos na sede inglesa de sua gravadora. Ele me chamou para ir ao estúdio com ele. Fomos apresentados à baixista Alana Watson, o guitarrista Edward Simons e o baterista Harry Daniels.
                      Eram instrumentistas muito bons, mas era visível que Alana estava cabisbaixa por algum motivo. E isso se prolongou por vários dias.  Quando achei que já tinha intimidade o bastante para perguntar, fui até Alana e abri o jogo:

- Alana, está tudo bem?
- Bem, não, Fanny.
- O que houve? Se achar que pode, me fale.
- Eu... Eu perdi meu namorado e ainda não consegui me conformar. Eu juro que vou ensinar uma lição à maldita que o roubou de mim!

                     Aquela história me era familiar... Não me contive e quis saber:

- E qual o nome dela?
- Kathy Giordano.

                      Eu não conseguia acreditar. Pelo jeito, aquela megera era uma cleptomaníaca especializada em namorados alheios.

- Eu a conheço muito bem. – eu disse.

- É mesmo? – perguntou Alana.

- Sim. Ela roubou meu namorado também.

- Agora a odeio mais ainda, por saber que não fez mal só a mim.

- Sim. Pode perguntar ao Bob. Ele sabe bem como sofri.

- Bem, quem era o seu namorado?

- Paul Simon.
- Eu adoro o trabalho dele! Simon & Garfunkel é uma das minhas grandes influências... Sou cantora também.

- Ah sim. Bem, e quem era o seu namorado?

- Chris Hillman.

- O Byrd?

- Ele mesmo.

- Ele escreveu Have You Seen Her Face para você?

- Não. Para aquela víbora.

- Oh, puxa.

- Sabe, não quero necessariamente me vingar, mas adoraria vê-la acabar sozinha. – disse Alana. Ela parecia ter tanta raiva de Kathy quanto eu, talvez até mais.


- Bem, tenho raiva também, mas já não estou ligando tanto... Estou de olho em outro cara.

- Quem?  - quis saber Alana.

- Ray Davies.

- Ray Davies? O Kink?

- O próprio.

- E ele parece estar interessado?

- Bem, sim, parece. Mas ainda não tenho coragem de falar com ele sobre isso.

- Olha, Fanny... Muitas coisas nesta vida a gente só consegue arriscando. Se eu não tivesse decidido me arriscar a seguir meus sonhos, eu jamais seria cantora, compositora e baixista, como sou hoje.

- Entendo... Mas eu tenho tanto medo... Principalmente de que Ray desconfie de Bob.

- Paul desconfiava?

- Começou a desconfiar por culpa da Kathy.  Ela o fez acreditar que havia algo a mais além de amizade entre Bob e eu.

- Mas dessa vez aquela chata não vai intervir.

- E se aparecer outra?

- Não vai.

- Tomara.

              Mais tarde, Bob e eu voltávamos ao hotel. Eu disse a ele:

- Sabe, Bob, acho que vou procurar o Ray amanhã.

- Quem é Ray? – perguntou ele.

- Ray Davies, dos Kinks. Nós nos conhecemos debaixo de uma marquise num dia de chuva. Eu gostei dele logo naquele dia. E depois nos encontramos quando fui com Fefe e Nora à entrevista com os Kinks. Depois nos encontramos por acaso enquanto fazíamos caminhada e tomamos sorvete, no dia em que você chegou. Acho que ele gosta de mim também.

- Bom, se acha que o momento é oportuno, procure-o. Mas já sabe: se ele partir seu coração eu parto o crânio dele.

- Bob, você é incapaz de machucar uma mosca.

- Quando os sentimentos da garota mais importante do mundo para mim estão em jogo, eu faço qualquer coisa.

- Eu sou assim tão importante?

- É. Você é a minha melhor amiga. É meu dever zelar por você.

- Ah, Bob, se as pessoas pudessem vê-lo como esse cara gentil e fofo que você é, ao invés do cara sério e ríspido!

- Fanny, só você me vê assim.

- Sim, e isso é uma pena.

- Desista. Só você pode conhecer esse meu lado.

- E por quê?

- Porque você merece que eu seja gentil e, hã, fofo. E só você.

- Ok, né...

                Como eu disse a Bob, decidi falar com Ray. Só havia um problema: eu não tinha o telefone dele.

- E agora? O que eu faço?

         Então tive uma vaga lembrança de que havia anotado o número em algum lugar. Comecei a mexer e remexer em minha bolsa, até que encontrei um papelzinho muito amassado, onde se lia “Ray” e um número de telefone.
          Não perdi tempo e liguei.

- Alô? – uma voz masculina atendeu.

- Ray? Sou eu, Fanny.

- Olá, Fanny.

- Sabe, talvez seja muito atrevimento de minha parte fazer isso, mas eu queria saber se podemos sair para dar uma volta qualquer dia...

- Ora, claro que sim! Quando?

- Hum... Amanhã?

- Por mim tudo bem.

- Combinado, então?

- Combinado.

- Até amanhã, Ray.

- Até amanhã.

            Mal cabia em mim de felicidade e ansiedade. A primeira coisa que fiz foi ir ao quarto de Bob contar a novidade.

- Bob, eu vou sair com ele!

- É mesmo? Eu fico feliz por você.

- Vamos dar uma volta amanhã... Deseje-me sorte.

- Boa sorte, Fanny.

- Obrigada.


              Eu só sairia com Ray depois do almoço, mas a expectativa era tão grande que eu acordei muito cedo. Passei a manhã tentando me distrair com meus livros e arrumando as coisas que havia trazido dos EUA para minha irmã e minha prima, mas não conseguia.
           Finalmente deram as catorze horas. Ray ia me esperar na porta do hotel. E lá estava ele.

- Boa tarde, Ray.

- Boa tarde, Fanny. Você está muito bonita.

- Obrigada.


                Fomos ao Hyde Park, que eu ainda não conhecia. Adorei o lugar. Ray e eu conversamos sobre muitas coisas. Ele era muito divertido. E sabia ser sarcástico ao falar da sociedade.  Isso me lembrava de Bob, talvez por isso estivesse gostando tanto da companhia de Ray.  Ele, então, disse:

- Você teve a ousadia de me chamar para sair. E agora eu também serei ousado.


                  E me beijou. 

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