Sete
meses depois – junho de 1966
Paul não parecia querer voltar para a
Europa. Eu não podia culpá-lo. Os Estados Unidos eram a terra natal dele. Acho
que se eu estivesse passando uma temporada em outro país, e voltasse para a
Inglaterra, não iria querer ir para o exterior novamente tão cedo.
Eu contava os dias para ir a Nova
York, onde veria o meu amado depois de tanto tempo. Ele foi me esperar no aeroporto JFK, e com
ele estava um cara alto cujo cabelo parecia uma juba de leão em tamanho
reduzido.
- Fanny, pensei que você não viria
nunca mais! Meus dias foram longas noites de inverno sem o meu Sol.
- Que exagero, Paul. – eu falei,
mas no fundo estava feliz por saber que ele também sofrera com a distância.
- Permita-me apresentar a você o
meu amigo de infância e colega de dupla mais implicante do universo, Art
Garfunkel.
- Assim sua namorada vai ficar com
má impressão de mim, Paul. – disse Garfunkel, rindo. - Como vai, Fanny?
- Eu vou bem, e você, Art?
- Também.
- Bem, Fanny, – disse Paul – vou
apresentar você a todos os meus amigos aqui da América assim que puder.
Incluindo um que eu sei que você vai adorar conhecer.
- E seria....? – perguntei.
- É surpresa. – disse Paul.
- Que droga. – eu disse.
- Não adianta dizer “Que droga” e
ficar me olhando com esses lindos e sedutores olhinhos azuis, Fanny. Eu não vou
dizer.
- Paul, tenho 18 anos. Essa coisa
de fazer surpresa é tão, sei lá, para crianças.
- Meu amor, aqui nos Estados Unidos
você ainda é menor de idade. Então, para mim você ainda é criança.
Mostrei a língua para ele.
- Mostrar a língua também é coisa
de criança, Fanny. – Paul riu.
- E fazer isso? – perguntei, e
beijei-o.
- Lamento interromper o casal, mas
será que não deveríamos ir embora? – perguntou Art.
- Sim, sim. – disse Paul, não muito
feliz por ter que interromper nosso beijo. – Vamos para minha casa.
O apartamento de Paul era
muito aconchegante. Art acendeu um cigarro e se jogou no sofá sem a menor
cerimônia. Paul nem ligou, e me perguntou:
- Aceita uma Coca-Cola, Fanny?
- Sim, estou morrendo de sede,
Paul. Obrigada.
Ele foi à cozinha. Voltou
de lá com uma garrafinha de vidro, um abridor de garrafas e um copo. Eu me
servi, e nós três ficamos conversando até escurecer.
Art foi embora por volta das
sete da noite. Paul deixou que eu tomasse banho primeiro. Depois que ele também
estava de banho tomado, fomos jantar num bistrô que ficava ali perto. Eu
adorei.
Quando voltamos para casa,
perguntei a Paul onde eu poderia dormir. Ele me mostrou uma porta perto do fim
do corredor, que revelou um quarto de hóspedes. Desculpou-se pela simplicidade
do cômodo, mas para mim aquilo estava de bom tamanho. A cama era de casal! Onde
já se viu quarto de hóspedes com cama de casal?
Deixei minha mala no
canto do cômodo e fui ao banheiro trocar minha blusa e minha saia por uma
camisola. Quando voltei para o quarto, qual não foi a minha surpresa ao ver
Paul deitado na cama... sem camisa!
E foi assim que saí da
Inglaterra ainda como uma garota e me tornei uma mulher em solo americano.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------
No dia
seguinte, Paul me disse:
- Hoje você vai conhecer duas
pessoas, Fanny. E uma delas é a surpresa.
- Estou muito ansiosa! – respondi.
Paul levou-me a um
parque. Lá chegando, avistei um homem e uma mulher, e meu namorado me conduziu
a esse casal. Fiquei afônica quando estava diante do tal rapaz.
- Fanny, estes são Joan Baez e....
- BOB DYLAN! – exclamei.
Joan e Bob ficaram me olhando,
um pouquinho espantados. “Não se empolgue demais, Fanny”, pensei. “Você sabe
que Bob não curte muito a histeria de seus fãs”.
- Bem.... – tentei consertar meu
ataque histérico. – Sou uma grande admiradora do seu trabalho, sr. Dylan, e do
seu também, srta. Baez.
- Muito obrigado. – responderam em coro.
E ali estava eu, uma estudante de
geografia em meio a três cantores folk. Nem preciso dizer que estava
perdida. Mas logo dei um jeito de me
enturmar com Bob e Joan. O bom de ser estudante de geografia é que você entende
bastante de assuntos sobre os quais os cantores da cena folk adoram discutir:
injustiça social, guerras, luta pelos direitos civis.
Bob perguntou a Paul:
- Por que não apresentou Fanny a
Joan e a mim antes, Paul? Ela é uma ótima pessoa para se conversar.
- Realmente! – concordou Joan. – É
difícil encontrar alguém tão jovem e bem-informado!
Fiquei muito vermelha.
- Acho que os Byrds e Peter, Paul
& Mary iriam adorar conhecê-la também, Fanny. – observou Dylan.
- Que exagero... – falei.
- É verdade! – meu namorado
concordou.
Era legal ficar conversando com
eles. Eles tinham uma aura tão misteriosa e boa, que parecia ter a mesma origem
das canções populares das quais costumavam fazer suas próprias versões.
Dylan não parecia ser o mesmo,
depois daquele acidente de moto. Parecia mais taciturno. Mas continuava me
fascinando como sempre.
Nenhum comentário:
Postar um comentário