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sexta-feira, 8 de abril de 2016

Oneshot: I Wish You Would - Side Story (What If)

Boa noite! Vou postar mais uma side story. Essa nasceu de uma cena cortada da oneshot I Call Your Name. Boa leitura! 



   
     Numa tarde, Dianna passava pelo corredor onde ficava o quarto de Davy. Às vezes, ela olhava
pela fechadura ou abria cuidadosamente uma fresta para espiá-lo.
     Daquela vez, havia uma chave na fechadura e obviamente a porta estava trancada. Soltou um suspiro resignado.
     Então ouviu sons estranhos. Gemidos. Era a voz de Nami.



- Aaaaaah, Davy, aaaah meu Deus... Por favor...



        E ele. Não falava quase nada, mas gemia muito.




- Você, dentro de mim... Ooooooh, isso! Isso... - Nami continuava.



       Dianna não estava entendendo. Porém, parecia ser algo muito bom, tão bom quanto andar de mãos dadas, abraçar ou beijar. Ela desejava que Davy fizesse aquilo com ela. Encostou-se na parede, imaginando o que estava havendo ali dentro. E ela no lugar de Nami. "Davy, eu quero você dentro de mim... Eu quero saber o que é isso que é tão bom...". Então ela ouviu a voz rouca de Davy:



- Aaaah, meu amor!


         
         Seu coração pulou no peito quando ela o imaginou dizendo isso a ela. Era seu maior sonho. De repente, se deu conta de que isso nunca aconteceria. E chorou. Queria ser Nami.
        Nami era tão sortuda. E nem imaginava. Ela podia segurar a mão dele. Afagar seu cabelo e seu rosto. Beijar sua boca. Abraçá-lo. Ela tinha o mundo de Dianna em suas mãos.
        Oh, daria tudo para tê-lo, todo... De corpo e alma. Ele... Seus cabelos, seus olhos, seu sorriso, sua risada... Seu amor. Se ele soubesse...
        Voltou para seu quarto. O coração pesava. Olhou-se no espelho. Era bonita. Contudo, ele não via. Não via seus olhos brilhando quando o fitava. Não via sua boca, louca de vontade. Não via seu corpo, trêmulo pela proximidade.
       "Eu não tenho chance alguma. Mas a cada dia eu me apaixono mais e mais... Queria saber se ele pensa em mim... E se pensa, o que é que ele pensa... Decerto nada do que eu penso sobre ele. Ai, eu o amo tanto... Queria que ele gostasse de mim só um pouquinho do quanto eu o amo. Eu seria feliz...".
        Então viu um papelzinho ser deslizado para dentro do quarto pelo vão da porta. Pegou e leu:


Dianna, sou eu, Davy. Posso entrar?



           
          Ela pegou sua pena, molhou na tinta e respondeu: Claro, vou abrir. Deslizou o papel para fora e abriu a porta. Viu Davy... Carregando um buquê de rosas vermelhas. 



- Os botões de minhas roseiras vermelhas estão abrindo. Colhi os mais bonitos para você. Sei que as rosas vermelhas são suas favoritas. 



             Dianna não acreditava. Ele, lhe dando um buquê? Era quase impossível... Pegou o buquê com cautela, corada. 


- Você gostou? - Davy quis saber. 


            Ela sorriu e meneou com a cabeça, controlando a vontade de beijá-lo. 




- Fico feliz. - beijou a mão dela. 



             A jovem achava que poderia morrer naquele momento. 




- Bem, eu tenho alguns afazeres... Vou te deixar agora. Até depois. 




            Dianna acenou e ele saiu. Ela cheirou as flores e colocou-as num vaso. Sorria muito. Talvez ele nunca a amasse... Mas lembrava qual era a sua flor favorita. E isso deu novo valor ao sacrifício da pequena sereia.





segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Oneshot: I Call Your Name (What If)

Boa noite! Hoje, vou postar uma nova oneshot de D&D. Esta é inspirada em A Pequena Sereia, porém, há uma mistura de elementos das duas versões, a original de Hans Christian Andersen e a adaptação da Disney. Provavelmente a Inara fará uma continuação com McGüller. E agradeço a ela por ter feito a capa! Agora, boa leitura! 











           Nas profundezas do Mar do Norte, que banha algumas ilhas europeias, dentre elas a Grã-Bretanha, vivia uma população de sereias e tritões, governadas pelo rei Lawrence, que era bom e justo com seu povo e com todas as outras criaturas marinhas.
           Lawrence e sua amada rainha, Susan, tinham dois filhos: Giles, um jovem tritão esperto e namoradeiro, muito zeloso da irmã mais nova, e Dianna, uma sereiazinha meiga e sonhadora. Os soberanos marinhos não podiam deixar de notar que, diariamente, em algum momento, Dianna sentava-se junto a uma das janelas do belo palácio de coral da família e olhava absorta para cima... Sonhando com a superfície e a vida que levava o povo que lá habitava. Como pais, preocupavam-se com a segurança da filha, e temiam o que podia acontecer se a menina, tão fascinada pelo mundo lá de cima desde que havia completado dezesseis anos e feito sua primeira (e na verdade a única autorizada) visita a ele, acabasse em alguma rede de pescadores ou coisa pior.
          Mas Dianna nunca tinha medo. Aproveitava-se de quando Giles se distraía com alguma jovem sereia e nadava até a superfície. Sentava-se nas pedras, tomava sol, brincava com as gaivotas... E cantava baixinho, com a sua linda voz. Porém, era tímida em relação aos humanos. Ao menor sinal de vinda de algum humano, Dianna se escondia atrás dos rochedos altos, e quando ele ia embora ela voltava para o fundo do mar.
        A pequena sereia amava o seu mundo, contudo, a superfície parecia tão maravilhosa... Dianna sonhava poder se tornar humana e viver lá em cima. Era tudo tão bonito... Certa vez,  ela fugiu de Giles mais uma vez, pois havia visto sombras coloridas vindo da superfície, além de ter percebido uma bela música. A curiosidade foi maior do que ela. Logo estava lá em cima.
         Ela viu uma embarcação. No entanto, aquela era muito maior do que aquelas que os pescadores usavam. Dela vinham estranhos riscos coloridos, que cortavam o céu como se fossem um peixe muito rápido a nadar, soltando um som estridente, que era amenizado pela música agradável que também vinha do barco.
        Dianna decidiu se aproximar mais da grande embarcação. Conseguiu colocar a cabeça entre dois balaústres, segurando-se neles para não cair no mar. Viu gente tocando instrumentos semelhantes aos que o povo do oceano tocava, e outros dançando e rindo. Entre as pessoas que tocavam, uma delas se destacava.
       Era um rapaz, baixo, de cabelos castanhos, espessas sobrancelhas, grandes olhos castanhos encantadores e lábios carnudos. Ele tocava violão e cantava com uma bela voz. O mais talentoso dos cantores tritões ficaria com inveja dele, na opinião da sereia.


- Ele é tão bonito... – Dianna suspirou. – Mais bonito do que qualquer humano que  vi em minhas vindas anteriores... Mais bonito do que qualquer outro dos humanos neste barco...


                   Ela ficou ali, olhando para ele, enfeitiçada. Como gostaria de ser como as moças humanas, com pernas, para poder ficar perto dele, dançar com ele à moda dos humanos... Viu que ele conversava e ria com uma garota pequena como ele, de cabelos dourados como o sol e olhos azuis como as águas do mar.
                         O rapaz e a moça começaram a dançar. Dianna viu as barras do vestido dela e da calça dele passarem bem na altura dos seus olhos. Como ela queria ser a moça, e estar nos braços dele...


- Adoro dançar com você, Davy. – disse a moça, dando um grande sorriso para ele.

- Eu adoro ainda mais dançar com você, Louise. – ele retribuiu o sorriso.

                      
                   “Eles se amam, eu tenho certeza...”, Dianna pensou, e seu coração esfriou. Subitamente, ouviu um ribombar. Ela olhou para cima e viu os clarões dos relâmpagos. Ela temeu pelas pessoas no navio... Especialmente por ele.


- Tempestade! E vai ser das feias! – um jovem bastante alto exclamou.


                       “Eles não podem morrer... Muito menos Davy! Farei de tudo para salvá-los...”. A tormenta foi se tornando cada vez mais violenta. As ondas começaram a destroçar o navio. As pessoas que antes estavam a bordo se agarravam aos pedaços de madeira, e conseguiam nadar até a praia. Porém...


- Onde está o príncipe? – perguntou um rapaz de cabelos encaracolados.

- Não o vejo em lugar algum! – um moço loiro gritou exasperado.

- DAVY! – Louise chamava, em desespero.

           
                   A sereia estava aliviada por todos estarem bem...  Mas e ele?  Ela viu um corpo desmaiado que afundava. Era Davy. Dianna nadou velozmente até onde ele submergia. Não podia deixar que morresse afogado. “Não, não...”. Ela mergulhou, e conseguiu pegá-lo.
                             Empenhando o máximo de sua força, conseguiu emergir com Davy, e levá-lo até a praia, deitando-o na areia. Massageou o peito dele para que expelisse a água que havia engolido. Contudo, o príncipe continuava sem sentidos. Dianna pousou sua cabeça no peito dele, e ouviu o coração batendo.

- Vivo. Ainda bem... – ela suspirou aliviada.


                             Ela continuou com a cabeça aninhada no peito dele, afagando os cabelos dele e cantando suavemente. Pensou em beijá-lo, entretanto, ficou envergonhada. “Você é tão lindo... E deve ser tão gentil e inteligente... Ah, eu faria qualquer coisa para viver aqui na terra, e assim poder ficar sempre perto de você....”. Dianna continuou com seu canto, desta vez uma canção de amor das sereias. Ela continuou embalando-o com sua voz melodiosa, até que ouviu passos abafados, de alguém que corria pela areia. Relutante, ela largou-o, voltou para a água e escondeu-se atrás de uma rocha, observando.
                              A sereia viu que uma jovem mulher estava ajoelhada ao lado de Davy, tentando acordá-lo. Ela tinha longos cabelos pretos e olhos castanhos puxados. Dianna viu-o se erguer.


- N-Nami... Era você que estava cantando para mim? Você tem uma voz tão linda... – ele indagou a ela.

- Não! Eu acabei de chegar aqui... Você deve ter sonhado com isso... Venha, vamos voltar ao castelo! 
– ela sorriu gentilmente, ajudando-o a ficar de pé.


                          Depois que Davy e Nami sumiram de seu campo de visão, Dianna saiu de trás do rochedo.


- Em breve você saberá que fui eu quem salvou sua vida, meu Davy... E eu nunca mais ficarei longe de você!



                              Ela voltou ao palácio dos pais. Nos dias seguintes, a família e as amigas notaram que ela estava diferente.



- Di, você pode esconder qualquer coisa de qualquer um, menos de mim. Pode ir me falando tudo que se passa nessa sua cabecinha, que está ainda mais avoada nos últimos dias. – sua melhor amiga, Emma, tentou arrancar dela uma confissão.

- Foi uma coisa que aconteceu comigo... Na superfície.

- E você ainda insiste em ir lá? Se seus pais souberem...

- Vão ficar furiosos comigo, eu sei, eu sei... Mas, Emma... Minha última subida rendeu algo incrível!

- O que você descobriu de novo por lá?

- O que eu descobri? Bem... O amor... – Dianna sorriu.

- O amor? Dianna... Não vai me dizer que...

- Ah, Emma, ele é maravilhoso! Eu não consigo parar de pensar nele... O nome dele é Davy, e ele é um príncipe!

- Di, eu não quero estragar as suas fantasias, mas ele é um humano e você é uma sereia! Isso é impossível...

- Não, não é! Eu vou me tornar humana para poder ficar ao lado dele...

                                 

                             Naquele momento, entravam Alice e Erin, amigas de Dianna e Emma.


- Do que está falando, Di? – Erin se espantou. – Você realmente vai deixar o mar? E ainda mais, por um homem?

- Você não está em seu juízo perfeito, amiga. Perdoe minha sinceridade, mas... – Alice disse.

- Não estou partindo apenas por ele! Davy foi o motivo que me fez ter certeza de que meu lugar não é aqui... Mas vocês sabem melhor do que ninguém que eu amo a superfície!

- Nós vamos sentir sua falta, Dianna. – as três disseram, numa última tentativa de dissuadi-la.

- Eu também vou sentir falta de vocês. Mas é isso ou eu nunca serei realmente feliz!

- Como você pretende... Se transformar? – Erin quis saber.

- Tenho escolha a não ser pedir uma poção à bruxa do mar?

- Amber! Aquela criatura... Perversa! – Emma exclamou.

- Mas é a única que pode resolver meu problema.

- Di, você tem certeza?

- Nunca estive mais certa, Alice.


                     
                           Dianna nadou até uma região escura e perigosa do oceano, aonde normalmente não se atreveria a ir.  Viu uma enorme caverna. Titubeou um pouco, porém, adentrou a gruta.
                             As paredes eram forradas de prateleiras, com frascos e mais frascos de poções.



- Quem é a alma aflita que entra em minha casa? – perguntou uma voz feminina, vinda do interior mais profundo da formação cavernosa.

- E-eu, Dianna. – ela respondeu, nervosa.

- Dianna? Ora, é uma honra ajudar a filha do rei dos mares!

                                       
                                  
                         Amber saiu das trevas da gruta. Ela era uma sereia jovem, de cabelos pretos encaracolados e olhos azuis, com um sorriso ambíguo no rosto. Dianna estava decidida a ser corajosa e pedir que ela realizasse seu desejo.


- Amber, eu vim até aqui porque...

- Não diga nada. Eu vou dizer o que você quer. Quer que eu a transforme numa humana, não é?

- Bem, sim. Não sabia que suas feitiçarias te permitem ler pensamentos.

- Ninguém sabe muitas coisas sobre mim. E você sempre quis isso... Mas agora mais do que nunca... Pois aquele príncipe não sai de seus pensamentos! Não posso culpar você... Ele é lindo, não é?

                                     

                                      Dianna não pôde evitar fazer uma expressão de ciúme.



- Sim, ele é. Por favor, me dê a poção... Não me aguento de ansiedade!

- Calma lá, apaixonada! Eu não vou fazer isso de graça!

- Eu estou disposta a pagar qualquer preço para realizar meu maior sonho!

- Qualquer preço?

- Absolutamente.

- O que me diz de trocar a poção por... Sua voz?


                                    

                               Dianna hesitou. Sem voz, como iria falar com Davy? Como comunicaria seus sentimentos?


- Por... Por minha voz? Mas como...?

- Ora, você não estava disposta a pagar qualquer preço pelo seu sonho?

- Sim, mas...

-  É pegar ou largar! Ou me dá sua voz... Ou pode esquecer seu querido príncipe!


                                    A pequena sereia soltou um suspiro, após refletir bem, e disse:


- A alegria de ser humana valerá o sacrifício.

- Sim! – a bruxa tinha um sorriso estranho. – Ademais... Você terá também seu amado como recompensa!

- Oh... Sim. Davy... – Dianna sorria, imaginando o momento em que ele a veria.

- Sim, sim. Mas mais tarde você sonha acordada com ele. Agora, cante, e assim eu poderei coletar sua voz!

                                  Ela aquiesceu. Limpou a garganta e cantou lindamente, a mesma música que havia cantado para Davy. A voz de Dianna tornou-se um facho de luz, que saiu de sua garganta e foi parar num frasquinho, que Amber tampou com uma rolha.



- Perfeito. – disse Amber. – Agora... – ela começou a remexer suas prateleiras. – Ah, aqui está, querida!

                   

                                   A bruxa deu a Dianna um frasco com uma poção de cor vermelha viva. A jovem não hesitou em tirar a rolha do vidro e sorver todo o líquido. Amber disse:



- Mas você é afobada, hein? Saiba que o efeito dessa poção é apenas temporário. Você tem um mês para fazer seu queridinho se apaixonar por você. Se conseguir, você será humana para sempre. Se não... Você se tornará espuma.

                         

                                     Dianna engoliu em seco. Precisava aprender a ser menos precipitada. Agora já era tarde... “Mas eu vou conseguir.  Davy vai se apaixonar por mim, mesmo eu sendo muda.... Eu vou arranjar um meio de ele saber que eu o amo muito!”.


- O que está esperando? Vá para a superfície, antes que você se torne humana e não consiga mais respirar! – Amber apressou-a.

                         
                               A moça nadou em disparada para fora da caverna e desesperadamente tentou chegar à superfície, já sentindo falta de ar. Enfim emergiu, e sentiu o calor do sol batendo em seu rosto. Seus novos pés tocavam a areia. Saiu do mar, e começou a caminhar pela areia fofa. O corpete que cobria de sua cintura para cima e sua cauda tornaram-se um belo vestido azul longo, da cor do mar.  
                             Dianna sorriu, de braços abertos para o sol. Ela não podia acreditar em tanta alegria. Seu momento de êxtase foi interrompido por uma voz masculina, perguntando:


- Tudo bem, moça?
                                               
                        

                             Era Davy. Dianna não pôde evitar dar um lindo sorriso. Ao abrir a boca para responder que estava tudo ótimo, deu-se conta da troca irreversível que havia feito. Tudo para ser humana. Tudo por ele.
                              O rapaz percebeu que ela tinha se desapontado ao tentar falar e não conseguir produzir som algum.


- O que há? – ele indagou, preocupado. – Não pode falar?

                         
                                     Dianna negou com a cabeça.


- Você sempre foi muda?

                               
                                     Novamente ela negou.




- Oh, bem, eu... Sinto muito. Mas... Poderia oferecer hospedagem em meu castelo para você?

                           

                                       A moça confirmou, acenando com a cabeça e sorrindo.


- Sabe, mesmo sendo muda, você é muito simpática. Tem um lindo sorriso.

                            

                                   Ela quase se derreteu com aquelas palavras, e mais ainda quando ele lhe deu o braço para irem caminhando até o castelo onde Davy vivia. Seu coração virava cambalhotas em seu peito. Ela nunca havia se sentido tão feliz.



- Bem, e qual o seu nome? Poderia escrevê-lo na areia?

                                 
                                     Dianna abaixou-se, e com o dedo escreveu seu nome na areia.



- Dianna. Belo nome. – ele sorriu, e a ex-sereia corou. – Eu sou Davy.

                                      
                                  “Eu sei, meu amor”.



- Bem, acho que vão gostar de você lá no castelo. Vamos?

                            

                                   A jovem deu o braço ao amado novamente, sempre sorrindo. Simplesmente não conseguia disfarçar sua felicidade. Sonhava acordada com o momento em que ele a beijaria, significando que ele acabou por se apaixonar por ela, e assim ela seria humana para sempre. Enquanto caminhavam, Davy tentou fazer a ela algumas perguntas simples, que ela poderia responder simplesmente com gestos, sem precisar se agachar na areia o tempo todo para escrever.



- Você está sozinha?

                                 

                                    Ela confirmou.


- Mas você ainda tem família?

                           

                                     Novamente Dianna confirmou.



- E eles estão longe?

                                   


                                          Mais um aceno de cabeça. Davy notava que Dianna, apesar de sorrir muito, parecia ter uma melancolia em seus olhos. Ela devia sentir falta da família... E sua mudez devia angustiá-la também. Ele faria o que pudesse para que ela não continuasse triste.
                                 “Ah, Davy, você nem imagina como estar tão perto de você acelera meu coração! Acho que não vou aguentar... Quero tanto te abraçar e te beijar. Mas sei que não posso. Pelo menos não ainda”.
                                        Enfim chegaram ao palácio onde Davy residia. Ele levou Dianna até uma sala, onde estavam duas lindas jovens, elegantemente vestidas. Dianna reconheceu-as. A loira era Louise, que havia dançado com Davy naquela noite no navio, e a outra, de cabelos negros, era Nami, a que o havia encontrado na praia na manhã seguinte. Elas aparentavam estar um pouco aturdidas por Davy ter entrado ali com aquela mocinha bonita.



- Dianna, apresento-lhe Louise McGold, minha amiga de infância... E Nami Okawa, a minha noiva.


                            

                                        Assim que ouviu Davy se referir a Nami como sua noiva, Dianna viu todos os seus sonhos e desejos desmoronarem. “Eu fui tão idiota, tão idiota! Como pude imaginar que ele se apaixonaria por mim no mesmo momento em que me visse? E o pior é que nunca mais vou poder voltar para o mar... Ou ao menos ter a minha voz de volta... Agora só me resta aguardar a minha morte daqui a um mês...”.





- Quem é essa garota, Davy? – Nami quis saber. Não parecia enciumada, apenas curiosa.

- O nome dela é Dianna. É uma garota muda que encontrei sozinha na praia. Decidi ajudá-la. – ele explicou.

- Fez bem, Davy. – Louise falou. – Nós vamos fazer de tudo para ela se sentir em casa. Bem-vinda, Dianna. – ela deu um sorriso amistoso à ex-sereia, que devolveu o sorriso.

- Vamos sim. Você parece ser uma boa pessoa, Dianna. – Nami também sorriu. Dianna devolveu o sorriso, porém, sentia um peso no coração toda vez que olhava nos olhos puxados da moça.

                      



                      Ela foi instalada num belo quarto. Nami e Louise deram-lhe alguns vestidos muito bonitos. Por ordem de Davy, uma criada preparou um bom banho para ela. Ao entrar em contato com a água, Dianna aliviou um pouco suas dores. “Eu não posso tirá-lo de Nami, não é certo... Mas ele precisa saber que eu o amo muito. Não vou poder guardar isso no meu peito por muito tempo...”.
                         Mais tarde, Dianna se juntou a Louise, Nami e Davy no jantar. Ele relatava às duas jovens como encontrou Dianna na praia. Mesmo sabendo que Nami poderia perceber e se incomodar, ela não tirou os olhos do amado nem por um segundo. Algumas vezes ele a pegou olhando, e Dianna, em vez de desviar o olhar, ficou rubra de vergonha. E ele sorriu para ela. “Esse sorriso ainda vai me matar...”.
                          Os anfitriões deram a Dianna um caderno, uma pena e um tinteiro. Assim, ela poderia conversar com eles escrevendo. Ocorreu a Dianna que um dia ela poderia escrever um texto se declarando para Davy, e mostrar quando achasse que era hora. Após todos terem comido, os três começaram a fazer perguntas sobre a vida que Dianna levava, e ela tentou responder contando a verdade, mas sem revelar que havia sido sereia. Foi um pouco complicado, contudo, ninguém desconfiou dela.
                                    Quando ficaram sem assunto, Davy inquiriu:



- Gostaria de dar um passeio pelos meus jardins, Dianna? A brisa que bate nele durante a noite é muito agradável...

                       

                                    Ela escreveu: “Eu adoraria! Sentir a brisa no meu rosto é uma das coisas de que mais gosto na vida!”. Então, Davy ofereceu o braço a ela e lá foram os dois caminhar no jardim. Nami sentiu uma pontadinha inofensiva de ciúme. Louise percebeu, e falou:


- Você conhece o meu amigo. Ele gosta de ser hospitaleiro.

- Sim... Mas eu deveria me preocupar com essa jovem? Sabe, eu não gosto de ser ciumenta, mas...

- Eu entendo. Mas eu não acho que você deva se preocupar. Ela é muito bondosa, isso é visível. Ela não faria nada de mal a você.

- Tem razão, Louise.

                     
                                     No jardim, Dianna andava de braço dado com Davy, e, por mais que quisesse, reprimiu a vontade de apoiar a cabeça no ombro dele. “Ficar perto assim me faz tão bem, e ao mesmo tempo tão mal...”. Davy parou ao lado de um canteiro de rosas brancas, e fez uma observação.



- São as favoritas da Nami. Sabe, são belas flores, mas eu prefiro as vermelhas.

                    

                           Dianna balançou a cabeça e sorriu para ele, querendo indicar que também as preferia. Ela só havia visto roseiras uma vez em suas idas à superfície, no entanto, as rosas vermelhas eram suas favoritas, indubitavelmente.
                                 Davy percebeu isso, e levou Dianna até a roseira vermelha, de onde arrancou uma flor, oferecendo-a a sua hóspede.


- Para você, que gosta tanto dessas flores quanto eu.

                      

                        Para agradecer, Dianna beijou timidamente o rosto de Davy, que em resposta beijou-lhe a mão. Em seguida, ela passou a segurar a rosa com a mão livre bem perto do coração. “Vou cuidar para que nunca murche, como cuidava das minhas flores marinhas”.
                         Quando esfriou, os dois voltaram para dentro do castelo. Dianna recolheu-se em seu quarto. Lá havia um pequeno vasinho decorativo, sem flor alguma dentro. Ela pegou a moringa que ficava em sua penteadeira para lavar o rosto de manhã, abriu-a e despejou um pouco de água no vaso. Em seguida, pôs a rosa ali. Ela acariciava as pétalas da rosa com um sorriso melancólico no rosto. “Sei que jamais vai me amar, Davy... Mas ao menos é gentil comigo. Acho que posso me contentar com isso...”.
                        Ela desfrutou, nos dias seguintes, da companhia do amado, da noiva dele e da melhor amiga dele. Todos gostavam dela e a tratavam com gentileza, os criados também. Algumas vezes, Dianna deparava-se com coisas que as sereias não tinham, como certos animais, e ficava olhando surpresa. As pessoas não entendiam qual era a surpresa de Dianna, porém, ignoravam. A moça era adorável e, como mostrava quando se comunicava escrevendo, muito inteligente.
                       Até mesmo a cadela de Davy, Susie, e os cavalos dele gostavam muito da ex-sereia.  Ela nunca havia visto um cachorro, contudo, logo aprendeu a gostar de Susie, e a filhote de pastor alemão tinha em Dianna a segunda pessoa com quem mais gostava de brincar, depois de seu dono. Dianna já havia cavalgado em cavalos-marinhos gigantes que havia no reino oceânico de seu pai, então não teve dificuldade para se adaptar aos cavalos terrestres. A técnica para montar neles era a mesma.
                    Davy amava cavalos, e ficou muito feliz por encontrar alguém que gostasse tanto de andar a cavalo quanto ele. Nami e Louise sabiam montar bem, no entanto, não compartilhavam da mesma paixão de Davy pela montaria. Nesse interim, a moça não se decidia se deveria deixar seus sentimentos transparecerem ou não. Algumas vezes pensava que sim, outras não. Gostava de Nami, e não queria que ela sofresse por ciúme, sentimento esse que atormentava demais Dianna, mesmo ela não tendo nada contra a noiva do amado.
                    Certas vezes, ela precisava se afastar de Davy e Nami, pois a demonstração de afeto entre eles fazia seu sangue ferver, o ciúme a consumia. Então, ela buscava refúgio no quarto, chorando e soluçando silenciosamente. “Eu quero tanto o bem dos dois... Amo Davy e gosto bastante de Nami, ela é muito agradável... Mas, ai, eu não aguento! Toda vez em que eles se olham com carinho, toda vez em que ele beija a mão, o rosto ou a boca dela... Toda vez em que ele diz que a ama, eu desejo estar no lugar dela, e também virar espuma logo... Ai, Davy, eu te amo tanto! Eu sou louca por você! Eu queria tanto conseguir expressar isso... Não sei como, mas eu preciso colocar isso para fora de alguma maneira!
                    Quando fecharam duas semanas que Dianna estava na superfície, Davy deu uma grande festa para oficializar o noivado com Nami. A jovem muda foi mais elogiada por sua beleza do que a própria noiva. Nami não estava incomodada. Admitia que a garota era realmente mais bonita, e algo nela prendia a atenção de todos. E queria que Dianna fosse mesmo admirada. Ela era muito boa, merecia isso.
                   Davy dançou muito com Nami, é claro, entretanto, também tirou Louise. Já era costume que eles dançassem juntos nos bailes. O assombro geral foi quando Davy aproximou-se de onde Dianna estava sentada, assistindo ao baile e se divertindo. Ver toda aquela gente rindo e dançando era muito bom. Então ela viu o amado com a mão estendida para ela.




- Me concede esta dança, minha cara Dianna?
                                
                 

                     A jovem não sabia se concedia ou recusava. Não queria magoar Nami. Ao mesmo tempo, ela ardia de vontade de dançar com ele, de estar nos braços dele, pelo menos uma vez. Foi mais forte que sua razão. Acenou com a cabeça e deu a mão a ele. Ela se levantou e foram até o centro do salão.
                     A música teve início. Era lenta, romântica. Dianna não conseguia olhar diretamente nos olhos de Davy. Ela sentia a mão do príncipe em sua cintura, fazendo um arrepio percorrer sua espinha. Seu rosto tão perto do dele. Se quisesse, poderia beijá-lo naquele momento e enfim conseguir dizer tudo o que estava encerrado em seu pobre coração. “Isso é um sonho ou um pesadelo? Ai, ao mesmo tempo eu me sinto tão feliz e tão triste... Dançamos uma canção de amor, mas só quer dizer algo para mim... Para ele é indiferente... Talvez pense em Nami enquanto ouve essa canção... Oh, Davy, você consegue ver em meu olhar o quanto sofro? O quanto amo? O quanto desejo? O quanto estou sufocando? O quanto chamo silenciosamente por você?”.
                    Enfim a música terminou e Davy e Dianna pararam de dançar. Olharam-se nos olhos. Dianna enxergava gentileza e um certo carinho no olhar dele. Todavia, tal carinho se parecia mais com o carinho que ele sentia por Louise e aparecia nos olhos dele quando olhava para a amiga de infância. “Eu sou só isso... Só uma amiga. Nada mais”. Davy percebeu mais uma vez aquela melancolia nos olhos dela. E não só uma melancolia... Uma agonia profunda. O que deixava aquela menina tão bonita e meiga tão aflita? Ele daria tudo para descobrir. Não suportava ver alguém sofrendo, ainda mais quando era um ente querido seu.
                   Davy não notava tão bem o que se passava no coração de Dianna. Porém, Louise sim. “Coitadinha da Dianna... Essa menina está apaixonada, só pode estar. Ela olha para Davy com tanto amor, e tanta dor... Vê-lo com Nami deve machucá-la tanto... Será que aceitaria a minha ajuda para diminuir o sofrimento, Dianna?”.
                  Dois dias após o baile, Dianna caiu de cama. A frente do pescoço doía, como se a frase “Eu te amo, Davy” estivesse presa na garganta vazia da pequena sereia e a pressionasse, tentando se libertar. Ademais, o corpo todo dela estava fraco, não conseguia se levantar. Ninguém entendia como a saúde dela podia ter se abalado tanto e tão subitamente. Nami, Davy e Louise se revezavam trazendo comida e remédios para ela. Quando Davy vinha, Dianna tinha vontade de segurar a mão dele, sinalizando que não queria que ele saísse dali após alguns minutos. No entanto, Nami poderia desconfiar, e ela não queria que o casal se desentendesse.
                       No terceiro dia em que Dianna estava acamada, Louise veio trazer o almoço para ela. Dianna escreveu em seu caderninho: “Eu não quero comer nada, Louise. Estou sem fome”.



- Dianna! – Louise a repreendeu. – Precisa comer, como quer se recuperar assim? Ou por acaso não quer se recuperar?

                         


                          A pequena sereia não respondeu, pegando a tigela de sopa e colocando colheradas cautelosas na boca.



- Essa sua falta de vontade de comer tem a ver com o Davy?
                        

                            Dianna ficou branca de susto. Como Louise sabia? Será que Nami sabia? Ele sabia?



- Dianna, nem Davy nem Nami parecem conseguir enxergar tudo em seus olhos, mas eu sim. Eu sei que ama o meu amigo. Sei que sofre muito por vê-lo com Nami. Vai dizer que é mentira?

                           

                             Ela negou com a cabeça e escreveu: “Louise... Eu não suporto mais, dói tanto... Mina as minhas forças... Eu preciso dizer a ele o quanto o amo, mas não consigo. Não dá.”. Ao terminar de ler isso, Louise tirou a tigela e a colher das mãos de Dianna, colocou-as no criado-mudo, aproximou-se, pegou o rosto de Dianna nas mãos... E a beijou. A pequena sereia se assustou, entretanto, aceitou o gesto. Separaram-se.



- Sei que não sou Davy. Mas será que eu não posso te ajudar a diminuir o seu sofrimento?

                          
   
                                 “Talvez”, Dianna escreveu. “Eu gosto de você, Louise. Me ajuda...”. Após dar o caderno para Louise ler, Dianna abraçou-a, e afundou o rosto no peito dela, chorando.




- Chore, chore o quanto quiser. Vai servir para te dar um pouco de alívio.

                              


                                   “Ah, Louise, eu deveria saber que amor à primeira vista só traz problemas... Só sofrimento...”, Dianna escreveu. Louise respondeu:



- Dianna, nós não escolhemos por quem nos apaixonamos. – Louise acariciou o rosto dela. – Se escolhêssemos, seria tão mais fácil... Você quer que eu fale com o Davy sobre isso?

                                

                                        Dianna negou veementemente com a cabeça. Se ele fosse saber sobre o que ela sentia, deveria ser através dela própria. Queria ela mesma abrir os olhos do amado. Alguns dias depois, Dianna já estava melhor, e resolveu fazer uma caminhada pela praia. Ela andava perto da orla, quando avistou um tritão loiro e de olhos azuis, com uma cauda verde, que segurava um punhal.



- DIANNA! – gritou o tritão.

                                    

                                          Era Giles, o irmão dela. Dianna caminhou até dentro da água, para conversar com o irmão.



- Maninha, pare com essa loucura! Todos sentimos sua falta! Eu, papai, mamãe, Emma, Erin, Alice!



      
                                          Dianna negou com a cabeça.



- Di, aquele humano não ama você, a bruxa do mar disse. Suas amigas e eu fomos perguntar a ela. Sinto tanta raiva dele! Alice, Emma e Erin não concordam comigo, mas eu acho que você deve fazer como Amber disse a nós: matá-lo!


                                       

                                             Os olhos de Dianna se arregalaram.



- Qual o espanto? É o que ele merece por te fazer sofrer tanto! Escute, se você matá-lo, você poderá voltar a ser sereia! A ter voz! Será feliz outra vez!

                                         
                                             A sereiazinha continuou a balançar a cabeça em negação, chorando. Ela não aceitou o punhal que Giles havia trazido consigo, e correu de volta ao castelo, chorando em desespero. “Nunca, nunca! Jamais mataria Davy! Eu sofreria mais ainda!”. Ao entrar, logo se deparou com ele.



- Dianna?  O que aconteceu? Por  que está chorando?
                                        
                                          

                                       Tudo o que Dianna fez foi abraçar o amado fortemente e acariciar seu rosto. “Eu sofro tanto, meu amor... Mas eu seria incapaz de te fazer mal...”. E ela se afastou, deixando Davy sem entender, e principalmente surpreso. Ela nunca havia mostrado tanto carinho.
                                      “Louise... Meu irmão quer que eu mate Davy... Não sei como ele pode ser capaz de pensar que eu faria algo assim...”.




- Seu irmão? Mas como assim? Como o encontrou? Como ele sabe sobre Davy?

                                             

                                        “Longa história...”. Dianna escreveu várias páginas no caderno, narrando a Louise sua vida no mar, seu amor pela superfície, o dia em que viu Davy pela primeira vez, a decisão de se tornar humana, a troca de sua voz pela poção para se transformar, como Davy a encontrou e tudo o que havia acontecido com ela desde o dia em que Davy a abrigou.



- Você largou tudo... Para realizar esse sonho de ser humana? Sonho esse que Davy alavancou? Bem... Eu acho que seu sacrifício não foi exatamente recompensado, não é?

                                         

                                        “Mas o que eu posso fazer, se ele não me ama? Devo ficar satisfeita por ele ser gentil comigo... E por contar com o seu amor por mim, Louise...”.



- Eu... Não posso fazer nada para evitar que você vire espuma?

                                    

                                       “Não. Davy é o único. Não pense que desmereço seu amor, Louise, muito pelo contrário. Eu fico feliz por me amar, e te amo também. Mas...”.




- Você ama mesmo o meu amigo, não é?

                                         

                                            Dianna assentiu, acenando com a cabeça.



- Eu vou te dar um presente. – Louise pegou seu caderno de desenhos e destacou uma folha. – Aqui.

                                               

                                             Era um desenho de Davy. Perfeito. Dianna deu um enorme sorriso ao contemplar cada traço. Beijou a boca do desenho, e em seguida abraçou Louise e a beijou ardentemente, em agradecimento, com lágrimas nos olhos.




- Sabia que você iria adorar o presente. Eu ia dá-lo a Davy... Mas você merece.

                                               

                                            “É lindo, Louise, lindo... É tão parecido com ele! Ao menos agora eu posso beijá-lo, de certa forma...”.



- Fico feliz que esse desenho irá te trazer algum alívio, minha pequena e amada sereia. – Louise sorria.

                                               

                                              Mais tarde, Louise e Davy caminhavam pelos jardins do palácio.




- Lulu... Eu estou um pouco confuso.

- Confuso? Por quê, Davy?

- Por favor, não pense que eu estou querendo enganar a Nami, ou algo assim, mas...

- O que há?

                                                  

                                                 O príncipe suspirou.



- Eu creio que esteja me apaixonando por Dianna, Lulu. Eu sei, é loucura. Estou comprometido. Dianna é muda. Não sabemos de onde ela veio. Mas... Eu não sei... Ela é tão bonita, e irradia uma doçura...

- Davy, isso era para ser um segredo, mas agora que me contou isso, você precisa saber.

- Saber o quê?

                                                     

                                                 Louise pegou as mãos do amigo.



- Dianna está apaixonada por você, Davy. Desde que te viu pela primeira vez. E a pobrezinha sofre tanto por você estar com Nami e ela não conseguir te dizer o que sente... Ela também  não tem coragem de revelar mesmo pela escrita.

- Ela... Apaixonada... Por mim? Ah, Lulu, eu a machuco tanto! Como posso...?

- Você não tinha sequer como imaginar que ela sentisse isso, Davy! Eu mesma só passei a prestar mais atenção no comportamento dela quando está perto de você depois de dançarem no seu baile de noivado com a Nami. Ela te olhava com amor e dor ao mesmo tempo. Logo em seguida ela adoeceu. Passou a não querer comer. E era possível perceber que ela apreciava mais quando era você que vinha cuidar dela.

- Eu estou sem palavras... Se eu soubesse que feria os sentimentos dela...

- O que você vai fazer?

- Não sei. Eu ainda amo Nami. Ainda quero me casar com ela. Mas agora que sei sobre Dianna e o que ela sente... Eu sinto que vou deixá-la tão triste... Não sei se vou conseguir conviver com o remorso...

- As coisas vão se ajeitar. Você vai ver. – Louise abraçou o amigo.

                              




                                 Após três dias, chegou a Davy um comunicado do pai de Nami, o imperador do Japão.




Ilustríssimo príncipe David Jones da Inglaterra,

Meus sinceros cumprimentos.

Sei que está noivo de minha filha mais nova, princesa Nami, há quase um ano, e que ambos desejam casar-se. No entanto, percebi que não me é mais vantajoso ter uma filha casada com um ocidental. Declaro que o noivado de vocês está desfeito. A partir de agora, ela está prometida a Soujiro Tsubasa, membro de uma das mais antigas linhagens nobres do império.

Ordeno que envie minha filha de volta ao Japão o mais imediatamente possível.

Akira Okawa

Imperador do Japão

                            


                                     A notícia atingiu Davy como um tiro. Ele ficou lívido. Estava em seu gabinete ao ler o comunicado. Mandou chamar Nami até lá.


- Deseja conversar comigo, querido?  - a princesa indagou, ao entrar.

- Sim... – Davy suspirou. – Acabei de receber um comunicado do seu pai.

- Do papai? O que diz?

- Leia você mesma.

                                  

                                      Davy deu a Nami o comunicado para que ela lesse.




- Não... Não, não, não! Eu me recuso a voltar ao Japão! Não vou me casar com Tsubasa! Eu vou ficar aqui com você, Davy!

- Nami, o imperador Akira...

- Estou cansada das imposições do meu pai!

- Querida, escute, por favor.  – Davy pegou as mãos da agora ex-noiva. – Eu amo você. Muito. Mas eu temo que se continuarmos nos rebelando, uma guerra será declarada entre a Inglaterra e o Japão.

- Você... Você tem razão. Bem... Acho que não temos muita escolha...

- Infelizmente, não.

- Oh, Davy... Eu te amo tanto. Juro que nunca vou te esquecer. – a japonesa abraçou-o, às lágrimas.

- Eu também nunca vou te esquecer, Nami.

                                           

                                         Ela partiu para o Japão dois dias após a chegada do comunicado. Da amurada do navio, ela acenava para o amado, para Louise e para Dianna. Uma nova vida a aguardava em sua terra natal.
                                          Dianna estava triste pela partida de Nami. Gostava dela. No entanto, observava com preocupação a reação de seu amado príncipe à partida da ex-noiva. Não podia deixar de notar a tristeza que tomou conta do semblante sempre alegre de Davy. “Eu não quero te ver triste...  Mas, ah, eu realmente não significo nada para você.... Só Nami, Nami, Nami!”.
                                            Davy ainda se sentia dividido entre Nami e Dianna. Não sabia se deveria ser honesto com a garota muda, e confessar que sabia dos sentimentos dela e que ele também nutria um amor por ela.
                                          Já ela ainda sofria calada por ele. Acreditava que ele só lamentava ser separado de Nami, e continuava a se sentir indesejada por ele. A única coisa que ainda a mantinha viva era Louise.
                                          As duas passaram a se amar às escondidas, ou no quarto de Louise ou no de Dianna. Era sempre muito prazeroso para ambas, embora Dianna só pudesse mostrar isso por gestos. Quando o ato terminava, Louise aninhava Dianna em seu peito, carinhosamente.
                                      “Lulu, Lulu... Eu estou morrendo”, Dianna escreveu no caderno após terem feito amor mais uma vez.



- Não diga isso, Di!

                                

                                    “Meu tempo está acabando. Estou aqui na superfície há 25 dias. E até agora nenhum sinal de que Davy me corresponda”.



- Se eu pudesse...

                                    

                                     “É uma pena que o seu amor não possa me tornar humana e evitar a minha morte. Mas estou conformada. Eu só... Não quero morrer sem deixar que ele saiba sobre o que sinto. Eu quero que meu sacrifício não seja totalmente em vão. Você me ajuda?”.



- É claro! Você tem algo em mente?

                                  

                                     “Nada muito especial... Eu só quero mostrar a Davy que ele é incrível. Que não posso fazer nada senão amá-lo, amá-lo muito. Eu sei que ele continuará me vendo apenas como uma amiga.”



- Não seja tão pessimista, Dianna!

                                        

                                        “Acha que ele pode me amar também?”, Dianna sorriu cheia de esperança.




- Sinceramente? Eu acho! – Louise beijou rapidamente a boca de sua amadinha.

                                         

                                          Dianna saiu de seu quarto e foi até o de Davy, onde ele descansava após um dia duro, cuidando dos assuntos do governo. Foi seguida por Louise. Esta última bateu à porta.



- Quem é?

- Sou eu, Louise.

- Entre, Lulu.

                                            
                                             A amiga de Davy disse, então:



- Davy, Dianna tem algo a te dizer.

                                            

                                             O príncipe já imaginava do que se tratava, e passou a tremer um pouco. Dianna adentrou o quarto e ficou diante dele, cheia de receios. O que ele pensaria daquilo? Ainda continuaria a ser gentil com ela?
                                              Ele olhava para ela com expectativa. Dianna acariciou o rosto do amado com cautela. Ele aceitou o gesto. Então ela o envolveu em um forte abraço. Davy continuava apenas aceitando os avanços da jovem. Por fim, ela respirou fundo, reuniu toda a coragem que tinha dentro de si... E beijou-o, beijou-o docemente, como ansiava por fazer desde o momento em que o viu pela primeira vez.
                                                Ela acariciava-o nas costas em meio ao beijo, e ele passava a mão pelos cabelos loiros da sereiazinha. Até que a necessidade de respirar os fez separar seus lábios. Davy olhou para Dianna, atônito. Sem a menor dúvida, havia gostado muito do beijo. Procurava o melhor meio de dizer isso, contudo, Dianna interpretou o silêncio e a expressão espantada dele como um sinal de que ele não havia gostado daquilo. Então, correu dali.



- Dianna! – Louise tentou chamá-la.

- Volte aqui, por favor! Não é o que você está pensando! – Davy exclamou.

                              
                                Dianna disparou para seu quarto, onde se trancou. Queria dormir até o amanhecer do dia seguinte, quando deveria ir até o mar, para virar espuma. Seu coração não podia mais suportar.  Agarrou o desenho de Davy que Louise lhe deu e beijou desesperadamente o papel, em seguida trazendo-o para perto do coração.
                               “Davy, por que não pode fazer um esforço? Eu não queria morrer... Mas é isso o que vai acontecer, inevitavelmente... DAVY! EU TE AMO! E por mais que eu grite mentalmente, por mais que te beije... De nada adianta...”.
                               Ela ignorou as batidas na porta. Não queria ver ninguém. Chorou muito, muito, tentando aliviar o coração. Até que finalmente adormeceu.
                               Despertou com os primeiros raios da manhã em seu rosto. “É agora...”, ela pensou. Abriu a janela e pulou. Não sabia, porém, que Louise a viu pela janela de seu quarto e seguiu-a. Dianna pulou o muro do castelo, sem que os guardas vissem, e caminhou lentamente até a praia. Louise tentou ir em seu encalço em silêncio.
                               Até que Dianna viu-se diante do vasto reino de seu pai e sua mãe. Giles bem que tentou trazê-la de volta... Mas ela nunca agiria como seu irmão desejava. Nunca. Ela colocou o pé na água...




- DIANNA! NÃO!

                             

                              Ela virou-se para encarar Louise.



- Di, por favor, não faça isso... Como vou ficar sem você, minha sereiazinha? Davy também não suportaria...

                     


                             A sereia negou com a cabeça. Era de Nami que Davy sentia falta, mal se importava com Dianna. Colocou o outro pé na água.



- Dianna! Não, pelo amor de Deus!

                
                                

                           A humana foi até a sereia e a beijou apaixonadamente. Ao se separarem, Dianna afagou o rosto de Louise e se afastou... Louise observava, petrificada. Num certo ponto, não dava mais pé para Dianna. Ela se deixou afundar... Até que, na superfície da água, onde antes ela estava, havia apenas espuma, branca e grossa.



- Não, não, não! – Louise chorava em desespero.

- Lulu? – ela ouviu a voz de Davy.

- Davy! – a moça abraçou o amigo.

- O que houve? Eu vi você sair correndo do castelo...

- Dianna...

- Onde ela está, Lulu?

                                      

                             Louise não teve coragem de dizer.



- Onde ela está, Lulu? Fala! Por favor!

- Eu tentei impedir, Davy, eu juro...

- I-Impedir? O que você quer dizer, Louise? Dianna se matou? Se matou por afogamento?

- Mais... Mais ou menos...

                                           

                            Davy se soltou da amiga.



- NÃO! NÃO PODE SER! É IMPOSSÍVEL!

- Eu vi com meus próprios olhos... Ai, meu coração...

- E a culpa é minha! Única e exclusivamente minha! Por não ter mostrado antes que a amava! AAAH, DIANNA! – ele gritou, em desespero.

                                             

                            Os dois amigos se abraçaram, os dois vertendo muitas lágrimas e olhando angustiados para o mar.



- Dianna... Era uma sereia. No dia do seu aniversário, Davy, ela estava na superfície. Ela viu o barco, ficou curiosa e se aproximou. Ela viu você e se apaixonou no mesmo instante.  Então houve aquela tempestade horrorosa. Dianna mergulhou e salvou você de se afogar, te levando até a praia. Ela cantou para você...

- Cantou? Mas ela era... Muda...

- Calma. Eu já vou chegar lá. Dianna cantou para você até Nami chegar, o que a fez fugir. Ela bem que tentou, mas não tirava você da cabeça. Então, ela pediu a uma bruxa do mar que a tornasse humana. Em troca de uma poção, a bruxa pediu a voz de Dianna. Por amor à superfície, por amor a você, ela abriu mão da voz. No entanto, o efeito da poção era temporário. Para torná-lo permanente, ela precisava que você a correspondesse. Caso você não a correspondesse, ela se tornaria espuma. Mas como ela faria para mostrar, sem voz, o que sentia por você?

- Ela sofria tanto... Oh, Dianna...

-  Ela tinha um mês para que você desse sinais de que a correspondia. Mas você não deu sinais a tempo...

- Eu... Ah, Louise, como eu me odeio por isso!

                   

                         Davy chorou nos ombros de Louise, que fez de tudo para ampará-lo.

                                                                             

                                                        


                                                           Cena pós-créditos Marvel!


                          




                            Louise caminhava na praia, pensando em Dianna. Sentia saudades de sua amiga e amada, e sabia que Davy sofria tanto quanto ela pela perda da sereia. Davy se sentia a criatura  mais terrível da face da Terra por não ter revelado antes a Dianna o que sentia, fazendo com que ela se tornasse espuma.
                           Por um momento, Louise pensou ter visto um vulto humano emergindo rapidamente da água e em seguida submergindo outra vez. Entretanto, quanto o vulto mergulhou novamente, parecia ter exibido uma... Cauda de peixe?




- Eu vi um homem-peixe...? Não, devo estar imaginando coisas. Minha cabeça está ocupada demais com pensamentos sobre Dianna... Em tudo enxergo sereias e tritões...





                            Louise havia de fato visto um tritão. O nome dele era Gerd Müller e ele era um guarda do pai de Dianna que havia sido enviado para a superfície ao resgate da princesa dos mares. Ao ver aquela moça, pensou se tratar da princesa Dianna em sua forma humana. Era loira, bela e baixa... Contudo, a princesa não tinha olhos azuis.
                            Gerd voltou ao mar, porém, algo o impelia a voltar lá para a cima. Não se conteve. A superfície era mesmo maravilhosa, não culpava a princesa. Nadou até a superfície, onde um turbilhão o envolveu e o jogou na areia, diante de onde estava Louise. Gerd não tinha mais sua cauda de peixe, e sim um par de pernas fortes. Ele tentou perguntar à moça bonita quem ela era, no entanto, quando abriu a boca, nenhum som saiu.




- Ah não, de novo não... – Louise murmurou.