Boa noite! Hoje, vou postar uma nova oneshot de D&D. Esta é inspirada em A Pequena Sereia, porém, há uma mistura de elementos das duas versões, a original de Hans Christian Andersen e a adaptação da Disney. Provavelmente a Inara fará uma continuação com McGüller. E agradeço a ela por ter feito a capa! Agora, boa leitura!
Nas profundezas do Mar do Norte, que
banha algumas ilhas europeias, dentre elas a Grã-Bretanha, vivia uma população
de sereias e tritões, governadas pelo rei Lawrence, que era bom e justo com seu
povo e com todas as outras criaturas marinhas.
Lawrence e sua amada rainha, Susan, tinham dois filhos: Giles, um jovem
tritão esperto e namoradeiro, muito zeloso da irmã mais nova, e Dianna, uma
sereiazinha meiga e sonhadora. Os soberanos marinhos não podiam deixar de notar
que, diariamente, em algum momento, Dianna sentava-se junto a uma das janelas
do belo palácio de coral da família e olhava absorta para cima... Sonhando com
a superfície e a vida que levava o povo que lá habitava. Como pais,
preocupavam-se com a segurança da filha, e temiam o que podia acontecer se a
menina, tão fascinada pelo mundo lá de cima desde que havia completado
dezesseis anos e feito sua primeira (e na verdade a única autorizada) visita a
ele, acabasse em alguma rede de pescadores ou coisa pior.
Mas Dianna nunca tinha medo.
Aproveitava-se de quando Giles se distraía com alguma jovem sereia e nadava até
a superfície. Sentava-se nas pedras, tomava sol, brincava com as gaivotas... E
cantava baixinho, com a sua linda voz. Porém, era tímida em relação aos humanos.
Ao menor sinal de vinda de algum humano, Dianna se escondia atrás dos rochedos
altos, e quando ele ia embora ela voltava para o fundo do mar.
A pequena sereia amava o seu mundo,
contudo, a superfície parecia tão maravilhosa... Dianna sonhava poder se tornar
humana e viver lá em cima. Era tudo tão bonito... Certa vez, ela fugiu de Giles mais uma vez, pois havia
visto sombras coloridas vindo da superfície, além de ter percebido uma bela
música. A curiosidade foi maior do que ela. Logo estava lá em cima.
Ela viu uma embarcação. No entanto,
aquela era muito maior do que aquelas que os pescadores usavam. Dela vinham
estranhos riscos coloridos, que cortavam o céu como se fossem um peixe muito
rápido a nadar, soltando um som estridente, que era amenizado pela música
agradável que também vinha do barco.
Dianna decidiu se aproximar mais da
grande embarcação. Conseguiu colocar a cabeça entre dois balaústres,
segurando-se neles para não cair no mar. Viu gente tocando instrumentos semelhantes
aos que o povo do oceano tocava, e outros dançando e rindo. Entre as pessoas
que tocavam, uma delas se destacava.
Era um rapaz, baixo, de cabelos
castanhos, espessas sobrancelhas, grandes olhos castanhos encantadores e lábios
carnudos. Ele tocava violão e cantava com uma bela voz. O mais talentoso dos
cantores tritões ficaria com inveja dele, na opinião da sereia.
- Ele é tão bonito... – Dianna
suspirou. – Mais bonito do que qualquer humano que vi em minhas vindas anteriores... Mais bonito
do que qualquer outro dos humanos neste barco...
Ela ficou ali, olhando para
ele, enfeitiçada. Como gostaria de ser como as moças humanas, com pernas, para
poder ficar perto dele, dançar com ele à moda dos humanos... Viu que ele
conversava e ria com uma garota pequena como ele, de cabelos dourados como o
sol e olhos azuis como as águas do mar.
O rapaz e a moça começaram a
dançar. Dianna viu as barras do vestido dela e da calça dele passarem bem na
altura dos seus olhos. Como ela queria ser a moça, e estar nos braços dele...
- Adoro dançar com você, Davy. –
disse a moça, dando um grande sorriso para ele.
- Eu adoro ainda mais dançar com
você, Louise. – ele retribuiu o sorriso.
“Eles se amam, eu tenho
certeza...”, Dianna pensou, e seu coração esfriou. Subitamente, ouviu um
ribombar. Ela olhou para cima e viu os clarões dos relâmpagos. Ela temeu pelas
pessoas no navio... Especialmente por ele.
- Tempestade! E vai ser das
feias! – um jovem bastante alto exclamou.
“Eles não podem
morrer... Muito menos Davy! Farei de tudo para salvá-los...”. A tormenta foi se
tornando cada vez mais violenta. As ondas começaram a destroçar o navio. As
pessoas que antes estavam a bordo se agarravam aos pedaços de madeira, e
conseguiam nadar até a praia. Porém...
- Onde está o príncipe? –
perguntou um rapaz de cabelos encaracolados.
- Não o vejo em lugar algum! – um
moço loiro gritou exasperado.
- DAVY! – Louise chamava, em
desespero.
A sereia estava
aliviada por todos estarem bem... Mas e
ele? Ela viu um corpo desmaiado que
afundava. Era Davy. Dianna nadou velozmente até onde ele submergia. Não podia
deixar que morresse afogado. “Não, não...”. Ela mergulhou, e conseguiu pegá-lo.
Empenhando o
máximo de sua força, conseguiu emergir com Davy, e levá-lo até a praia,
deitando-o na areia. Massageou o peito dele para que expelisse a água que havia
engolido. Contudo, o príncipe continuava sem sentidos. Dianna pousou sua cabeça
no peito dele, e ouviu o coração batendo.
- Vivo. Ainda bem... – ela
suspirou aliviada.
Ela continuou com
a cabeça aninhada no peito dele, afagando os cabelos dele e cantando
suavemente. Pensou em beijá-lo, entretanto, ficou envergonhada. “Você é tão
lindo... E deve ser tão gentil e inteligente... Ah, eu faria qualquer coisa
para viver aqui na terra, e assim poder ficar sempre perto de você....”. Dianna
continuou com seu canto, desta vez uma canção de amor das sereias. Ela
continuou embalando-o com sua voz melodiosa, até que ouviu passos abafados, de
alguém que corria pela areia. Relutante, ela largou-o, voltou para a água e
escondeu-se atrás de uma rocha, observando.
A sereia viu que
uma jovem mulher estava ajoelhada ao lado de Davy, tentando acordá-lo. Ela
tinha longos cabelos pretos e olhos castanhos puxados. Dianna viu-o se erguer.
- N-Nami... Era você que estava
cantando para mim? Você tem uma voz tão linda... – ele indagou a ela.
- Não! Eu acabei de chegar
aqui... Você deve ter sonhado com isso... Venha, vamos voltar ao castelo!
– ela
sorriu gentilmente, ajudando-o a ficar de pé.
Depois que Davy e Nami sumiram de seu
campo de visão, Dianna saiu de trás do rochedo.
- Em breve você saberá que fui eu
quem salvou sua vida, meu Davy... E eu nunca mais ficarei longe de você!
Ela voltou ao
palácio dos pais. Nos dias seguintes, a família e as amigas notaram que ela
estava diferente.
- Di, você pode esconder qualquer
coisa de qualquer um, menos de mim. Pode ir me falando tudo que se passa nessa
sua cabecinha, que está ainda mais avoada nos últimos dias. – sua melhor amiga,
Emma, tentou arrancar dela uma confissão.
- Foi uma coisa que aconteceu
comigo... Na superfície.
- E você ainda insiste em ir lá?
Se seus pais souberem...
- Vão ficar furiosos comigo, eu
sei, eu sei... Mas, Emma... Minha última subida rendeu algo incrível!
- O que você descobriu de novo
por lá?
- O que eu descobri? Bem... O
amor... – Dianna sorriu.
- O amor? Dianna... Não vai me
dizer que...
- Ah, Emma, ele é maravilhoso! Eu
não consigo parar de pensar nele... O nome dele é Davy, e ele é um príncipe!
- Di, eu não quero estragar as
suas fantasias, mas ele é um humano e você é uma sereia! Isso é impossível...
- Não, não é! Eu vou me tornar
humana para poder ficar ao lado dele...
Naquele
momento, entravam Alice e Erin, amigas de Dianna e Emma.
- Do que está falando, Di? – Erin
se espantou. – Você realmente vai deixar o mar? E ainda mais, por um homem?
- Você não está em seu juízo
perfeito, amiga. Perdoe minha sinceridade, mas... – Alice disse.
- Não estou partindo apenas por
ele! Davy foi o motivo que me fez ter certeza de que meu lugar não é aqui... Mas
vocês sabem melhor do que ninguém que eu amo a superfície!
- Nós vamos sentir sua falta,
Dianna. – as três disseram, numa última tentativa de dissuadi-la.
- Eu também vou sentir falta de
vocês. Mas é isso ou eu nunca serei realmente feliz!
- Como você pretende... Se
transformar? – Erin quis saber.
- Tenho escolha a não ser pedir
uma poção à bruxa do mar?
- Amber! Aquela criatura...
Perversa! – Emma exclamou.
- Mas é a única que pode resolver
meu problema.
- Di, você tem certeza?
- Nunca estive mais certa, Alice.
Dianna nadou até
uma região escura e perigosa do oceano, aonde normalmente não se atreveria a
ir. Viu uma enorme caverna. Titubeou um
pouco, porém, adentrou a gruta.
As paredes eram
forradas de prateleiras, com frascos e mais frascos de poções.
- Quem é a alma aflita que entra
em minha casa? – perguntou uma voz feminina, vinda do interior mais profundo da
formação cavernosa.
- E-eu, Dianna. – ela respondeu,
nervosa.
- Dianna? Ora, é uma honra ajudar
a filha do rei dos mares!
Amber saiu
das trevas da gruta. Ela era uma sereia jovem, de cabelos pretos encaracolados
e olhos azuis, com um sorriso ambíguo no rosto. Dianna estava decidida a ser
corajosa e pedir que ela realizasse seu desejo.
- Amber, eu vim até aqui
porque...
- Não diga nada. Eu vou dizer o
que você quer. Quer que eu a transforme numa humana, não é?
- Bem, sim. Não sabia que suas
feitiçarias te permitem ler pensamentos.
- Ninguém sabe muitas coisas
sobre mim. E você sempre quis isso... Mas agora mais do que nunca... Pois
aquele príncipe não sai de seus pensamentos! Não posso culpar você... Ele é
lindo, não é?
Dianna não
pôde evitar fazer uma expressão de ciúme.
- Sim, ele é. Por favor, me dê a
poção... Não me aguento de ansiedade!
- Calma lá, apaixonada! Eu não
vou fazer isso de graça!
- Eu estou disposta a pagar
qualquer preço para realizar meu maior sonho!
- Qualquer preço?
- Absolutamente.
- O que me diz de trocar a poção
por... Sua voz?
Dianna hesitou. Sem voz, como iria falar com Davy? Como comunicaria seus
sentimentos?
- Por... Por minha voz? Mas
como...?
- Ora, você não estava disposta a
pagar qualquer preço pelo seu sonho?
- Sim, mas...
-
É pegar ou largar! Ou me dá sua voz... Ou pode esquecer seu querido
príncipe!
A pequena sereia soltou
um suspiro, após refletir bem, e disse:
- A alegria de ser humana valerá
o sacrifício.
- Sim! – a bruxa tinha um sorriso
estranho. – Ademais... Você terá também seu amado como recompensa!
- Oh... Sim. Davy... – Dianna
sorria, imaginando o momento em que ele a veria.
- Sim, sim. Mas mais tarde você
sonha acordada com ele. Agora, cante, e assim eu poderei coletar sua voz!
Ela aquiesceu. Limpou a
garganta e cantou lindamente, a mesma música que havia cantado para Davy. A voz
de Dianna tornou-se um facho de luz, que saiu de sua garganta e foi parar num
frasquinho, que Amber tampou com uma rolha.
- Perfeito. – disse Amber. –
Agora... – ela começou a remexer suas prateleiras. – Ah, aqui está, querida!
A bruxa deu a Dianna um frasco com uma poção
de cor vermelha viva. A jovem não hesitou em tirar a rolha do vidro e sorver
todo o líquido. Amber disse:
- Mas você é afobada, hein? Saiba
que o efeito dessa poção é apenas temporário. Você tem um mês para fazer seu
queridinho se apaixonar por você. Se conseguir, você será humana para sempre.
Se não... Você se tornará espuma.
Dianna engoliu em seco. Precisava aprender a
ser menos precipitada. Agora já era tarde... “Mas eu vou conseguir. Davy vai se apaixonar por mim, mesmo eu sendo
muda.... Eu vou arranjar um meio de ele saber que eu o amo muito!”.
- O que está esperando? Vá para a
superfície, antes que você se torne humana e não consiga mais respirar! – Amber
apressou-a.
A moça nadou em disparada para fora da
caverna e desesperadamente tentou chegar à superfície, já sentindo falta de ar.
Enfim emergiu, e sentiu o calor do sol batendo em seu rosto. Seus novos pés
tocavam a areia. Saiu do mar, e começou a caminhar pela areia fofa. O corpete
que cobria de sua cintura para cima e sua cauda tornaram-se um belo vestido
azul longo, da cor do mar.
Dianna sorriu, de braços abertos para o sol.
Ela não podia acreditar em tanta alegria. Seu momento de êxtase foi
interrompido por uma voz masculina, perguntando:
- Tudo bem, moça?
Era Davy. Dianna não pôde evitar dar um lindo
sorriso. Ao abrir a boca para responder que estava tudo ótimo, deu-se conta da
troca irreversível que havia feito. Tudo para ser humana. Tudo por ele.
O rapaz percebeu que ela tinha se desapontado
ao tentar falar e não conseguir produzir som algum.
- O que há? – ele indagou,
preocupado. – Não pode falar?
Dianna negou com a cabeça.
- Você sempre foi muda?
Novamente ela negou.
- Oh, bem, eu... Sinto muito.
Mas... Poderia oferecer hospedagem em meu castelo para você?
A moça
confirmou, acenando com a cabeça e sorrindo.
- Sabe, mesmo sendo muda, você é
muito simpática. Tem um lindo sorriso.
Ela quase se derreteu
com aquelas palavras, e mais ainda quando ele lhe deu o braço para irem
caminhando até o castelo onde Davy vivia. Seu coração virava cambalhotas em seu
peito. Ela nunca havia se sentido tão feliz.
- Bem, e qual o seu nome? Poderia
escrevê-lo na areia?
Dianna
abaixou-se, e com o dedo escreveu seu nome na areia.
- Dianna. Belo nome. – ele
sorriu, e a ex-sereia corou. – Eu sou Davy.
“Eu sei, meu amor”.
- Bem, acho que vão gostar de
você lá no castelo. Vamos?
A jovem deu o
braço ao amado novamente, sempre sorrindo. Simplesmente não conseguia disfarçar
sua felicidade. Sonhava acordada com o momento em que ele a beijaria,
significando que ele acabou por se apaixonar por ela, e assim ela seria humana
para sempre. Enquanto caminhavam, Davy tentou fazer a ela algumas perguntas
simples, que ela poderia responder simplesmente com gestos, sem precisar se
agachar na areia o tempo todo para escrever.
- Você está sozinha?
Ela
confirmou.
- Mas você ainda tem família?
Novamente
Dianna confirmou.
- E eles estão longe?
Mais um
aceno de cabeça. Davy notava que Dianna, apesar de sorrir muito, parecia ter
uma melancolia em seus olhos. Ela devia sentir falta da família... E sua mudez
devia angustiá-la também. Ele faria o que pudesse para que ela não continuasse
triste.
“Ah, Davy,
você nem imagina como estar tão perto de você acelera meu coração! Acho que não
vou aguentar... Quero tanto te abraçar e te beijar. Mas sei que não posso. Pelo
menos não ainda”.
Enfim chegaram ao palácio onde Davy residia.
Ele levou Dianna até uma sala, onde estavam duas lindas jovens, elegantemente
vestidas. Dianna reconheceu-as. A loira era Louise, que havia dançado com Davy
naquela noite no navio, e a outra, de cabelos negros, era Nami, a que o havia
encontrado na praia na manhã seguinte. Elas aparentavam estar um pouco
aturdidas por Davy ter entrado ali com aquela mocinha bonita.
- Dianna, apresento-lhe Louise
McGold, minha amiga de infância... E Nami Okawa, a minha noiva.
Assim que ouviu
Davy se referir a Nami como sua noiva, Dianna viu todos os seus sonhos e
desejos desmoronarem. “Eu fui tão idiota, tão idiota! Como pude imaginar que
ele se apaixonaria por mim no mesmo momento em que me visse? E o pior é que
nunca mais vou poder voltar para o mar... Ou ao menos ter a minha voz de
volta... Agora só me resta aguardar a minha morte daqui a um mês...”.
- Quem é essa garota, Davy? –
Nami quis saber. Não parecia enciumada, apenas curiosa.
- O nome dela é Dianna. É uma
garota muda que encontrei sozinha na praia. Decidi ajudá-la. – ele explicou.
- Fez bem, Davy. – Louise falou.
– Nós vamos fazer de tudo para ela se sentir em casa. Bem-vinda, Dianna. – ela
deu um sorriso amistoso à ex-sereia, que devolveu o sorriso.
- Vamos sim. Você parece ser uma
boa pessoa, Dianna. – Nami também sorriu. Dianna devolveu o sorriso, porém,
sentia um peso no coração toda vez que olhava nos olhos puxados da moça.
Ela foi instalada num belo quarto. Nami e
Louise deram-lhe alguns vestidos muito bonitos. Por ordem de Davy, uma criada
preparou um bom banho para ela. Ao entrar em contato com a água, Dianna aliviou
um pouco suas dores. “Eu não posso tirá-lo de Nami, não é certo... Mas ele
precisa saber que eu o amo muito. Não vou poder guardar isso no meu peito por
muito tempo...”.
Mais tarde, Dianna se
juntou a Louise, Nami e Davy no jantar. Ele relatava às duas jovens como
encontrou Dianna na praia. Mesmo sabendo que Nami poderia perceber e se
incomodar, ela não tirou os olhos do amado nem por um segundo. Algumas vezes
ele a pegou olhando, e Dianna, em vez de desviar o olhar, ficou rubra de
vergonha. E ele sorriu para ela. “Esse sorriso ainda vai me matar...”.
Os anfitriões deram a
Dianna um caderno, uma pena e um tinteiro. Assim, ela poderia conversar com
eles escrevendo. Ocorreu a Dianna que um dia ela poderia escrever um texto se
declarando para Davy, e mostrar quando achasse que era hora. Após todos terem
comido, os três começaram a fazer perguntas sobre a vida que Dianna levava, e
ela tentou responder contando a verdade, mas sem revelar que havia sido sereia.
Foi um pouco complicado, contudo, ninguém desconfiou dela.
Quando ficaram sem
assunto, Davy inquiriu:
- Gostaria de dar um passeio
pelos meus jardins, Dianna? A brisa que bate nele durante a noite é muito
agradável...
Ela escreveu: “Eu
adoraria! Sentir a brisa no meu rosto é uma das coisas de que mais gosto na
vida!”. Então, Davy ofereceu o braço a ela e lá foram os dois caminhar no
jardim. Nami sentiu uma pontadinha inofensiva de ciúme. Louise percebeu, e
falou:
- Você conhece o meu amigo. Ele
gosta de ser hospitaleiro.
- Sim... Mas eu deveria me
preocupar com essa jovem? Sabe, eu não gosto de ser ciumenta, mas...
- Eu entendo. Mas eu não acho que
você deva se preocupar. Ela é muito bondosa, isso é visível. Ela não faria nada
de mal a você.
- Tem razão, Louise.
No jardim, Dianna
andava de braço dado com Davy, e, por mais que quisesse, reprimiu a vontade de
apoiar a cabeça no ombro dele. “Ficar perto assim me faz tão bem, e ao mesmo
tempo tão mal...”. Davy parou ao lado de um canteiro de rosas brancas, e fez
uma observação.
- São as favoritas da Nami. Sabe,
são belas flores, mas eu prefiro as vermelhas.
Dianna balançou a cabeça
e sorriu para ele, querendo indicar que também as preferia. Ela só havia visto
roseiras uma vez em suas idas à superfície, no entanto, as rosas vermelhas eram
suas favoritas, indubitavelmente.
Davy percebeu isso, e
levou Dianna até a roseira vermelha, de onde arrancou uma flor, oferecendo-a a
sua hóspede.
- Para você, que gosta tanto
dessas flores quanto eu.
Para agradecer, Dianna
beijou timidamente o rosto de Davy, que em resposta beijou-lhe a mão. Em
seguida, ela passou a segurar a rosa com a mão livre bem perto do coração. “Vou
cuidar para que nunca murche, como cuidava das minhas flores marinhas”.
Quando esfriou, os dois
voltaram para dentro do castelo. Dianna recolheu-se em seu quarto. Lá havia um
pequeno vasinho decorativo, sem flor alguma dentro. Ela pegou a moringa que
ficava em sua penteadeira para lavar o rosto de manhã, abriu-a e despejou um
pouco de água no vaso. Em seguida, pôs a rosa ali. Ela acariciava as pétalas da
rosa com um sorriso melancólico no rosto. “Sei que jamais vai me amar, Davy...
Mas ao menos é gentil comigo. Acho que posso me contentar com isso...”.
Ela desfrutou, nos dias seguintes, da companhia do amado, da noiva dele
e da melhor amiga dele. Todos gostavam dela e a tratavam com gentileza, os
criados também. Algumas vezes, Dianna deparava-se com coisas que as sereias não
tinham, como certos animais, e ficava olhando surpresa. As pessoas não
entendiam qual era a surpresa de Dianna, porém, ignoravam. A moça era adorável
e, como mostrava quando se comunicava escrevendo, muito inteligente.
Até mesmo a cadela de Davy, Susie, e os cavalos dele gostavam muito da
ex-sereia. Ela nunca havia visto um
cachorro, contudo, logo aprendeu a gostar de Susie, e a filhote de pastor
alemão tinha em Dianna a segunda pessoa com quem mais gostava de brincar,
depois de seu dono. Dianna já havia cavalgado em cavalos-marinhos gigantes que
havia no reino oceânico de seu pai, então não teve dificuldade para se adaptar
aos cavalos terrestres. A técnica para montar neles era a mesma.
Davy amava cavalos, e ficou muito feliz por encontrar alguém que
gostasse tanto de andar a cavalo quanto ele. Nami e Louise sabiam montar bem,
no entanto, não compartilhavam da mesma paixão de Davy pela montaria. Nesse
interim, a moça não se decidia se deveria deixar seus sentimentos
transparecerem ou não. Algumas vezes pensava que sim, outras não. Gostava de
Nami, e não queria que ela sofresse por ciúme, sentimento esse que atormentava
demais Dianna, mesmo ela não tendo nada contra a noiva do amado.
Certas vezes, ela precisava se afastar de Davy e Nami, pois a
demonstração de afeto entre eles fazia seu sangue ferver, o ciúme a consumia.
Então, ela buscava refúgio no quarto, chorando e soluçando silenciosamente. “Eu
quero tanto o bem dos dois... Amo Davy e gosto bastante de Nami, ela é muito
agradável... Mas, ai, eu não aguento! Toda vez em que eles se olham com
carinho, toda vez em que ele beija a mão, o rosto ou a boca dela... Toda vez em
que ele diz que a ama, eu desejo estar no lugar dela, e também virar espuma
logo... Ai, Davy, eu te amo tanto! Eu sou louca por você! Eu queria tanto
conseguir expressar isso... Não sei como, mas eu preciso colocar isso para fora
de alguma maneira!
Quando fecharam duas semanas que
Dianna estava na superfície, Davy deu uma grande festa para oficializar o
noivado com Nami. A jovem muda foi mais elogiada por sua beleza do que a
própria noiva. Nami não estava incomodada. Admitia que a garota era realmente
mais bonita, e algo nela prendia a atenção de todos. E queria que Dianna fosse
mesmo admirada. Ela era muito boa, merecia isso.
Davy dançou muito com Nami, é claro, entretanto, também tirou Louise. Já
era costume que eles dançassem juntos nos bailes. O assombro geral foi quando
Davy aproximou-se de onde Dianna estava sentada, assistindo ao baile e se
divertindo. Ver toda aquela gente rindo e dançando era muito bom. Então ela viu
o amado com a mão estendida para ela.
- Me concede esta dança, minha cara Dianna?
A jovem não sabia se
concedia ou recusava. Não queria magoar Nami. Ao mesmo tempo, ela ardia de
vontade de dançar com ele, de estar nos braços dele, pelo menos uma vez. Foi
mais forte que sua razão. Acenou com a cabeça e deu a mão a ele. Ela se
levantou e foram até o centro do salão.
A música teve início. Era
lenta, romântica. Dianna não conseguia olhar diretamente nos olhos de Davy. Ela
sentia a mão do príncipe em sua cintura, fazendo um arrepio percorrer sua
espinha. Seu rosto tão perto do dele. Se quisesse, poderia beijá-lo naquele
momento e enfim conseguir dizer tudo o que estava encerrado em seu pobre
coração. “Isso é um sonho ou um pesadelo? Ai, ao mesmo tempo eu me sinto tão
feliz e tão triste... Dançamos uma canção de amor, mas só quer dizer algo para
mim... Para ele é indiferente... Talvez pense em Nami enquanto ouve essa
canção... Oh, Davy, você consegue ver em meu olhar o quanto sofro? O quanto
amo? O quanto desejo? O quanto estou sufocando? O quanto chamo silenciosamente
por você?”.
Enfim a música terminou e
Davy e Dianna pararam de dançar. Olharam-se nos olhos. Dianna enxergava
gentileza e um certo carinho no olhar dele. Todavia, tal carinho se parecia
mais com o carinho que ele sentia por Louise e aparecia nos olhos dele quando
olhava para a amiga de infância. “Eu sou só isso... Só uma amiga. Nada mais”.
Davy percebeu mais uma vez aquela melancolia nos olhos dela. E não só uma
melancolia... Uma agonia profunda. O que deixava aquela menina tão bonita e
meiga tão aflita? Ele daria tudo para descobrir. Não suportava ver alguém
sofrendo, ainda mais quando era um ente querido seu.
Davy não notava tão bem o que se passava no
coração de Dianna. Porém, Louise sim. “Coitadinha da Dianna... Essa menina está
apaixonada, só pode estar. Ela olha para Davy com tanto amor, e tanta dor...
Vê-lo com Nami deve machucá-la tanto... Será que aceitaria a minha ajuda para
diminuir o sofrimento, Dianna?”.
Dois dias após o baile,
Dianna caiu de cama. A frente do pescoço doía, como se a frase “Eu te amo,
Davy” estivesse presa na garganta vazia da pequena sereia e a pressionasse,
tentando se libertar. Ademais, o corpo todo dela estava fraco, não conseguia se
levantar. Ninguém entendia como a saúde dela podia ter se abalado tanto e tão
subitamente. Nami, Davy e Louise se revezavam trazendo comida e remédios para
ela. Quando Davy vinha, Dianna tinha vontade de segurar a mão dele, sinalizando
que não queria que ele saísse dali após alguns minutos. No entanto, Nami
poderia desconfiar, e ela não queria que o casal se desentendesse.
No terceiro dia em que
Dianna estava acamada, Louise veio trazer o almoço para ela. Dianna escreveu em
seu caderninho: “Eu não quero comer nada, Louise. Estou sem fome”.
- Dianna! – Louise a repreendeu. –
Precisa comer, como quer se recuperar assim? Ou por acaso não quer se
recuperar?
A pequena sereia não
respondeu, pegando a tigela de sopa e colocando colheradas cautelosas na boca.
- Essa sua falta de vontade de
comer tem a ver com o Davy?
Dianna ficou branca
de susto. Como Louise sabia? Será que Nami sabia? Ele sabia?
- Dianna, nem Davy nem Nami parecem
conseguir enxergar tudo em seus olhos, mas eu sim. Eu sei que ama o meu amigo.
Sei que sofre muito por vê-lo com Nami. Vai dizer que é mentira?
Ela negou com a
cabeça e escreveu: “Louise... Eu não suporto mais, dói tanto... Mina as minhas
forças... Eu preciso dizer a ele o quanto o amo, mas não consigo. Não dá.”. Ao
terminar de ler isso, Louise tirou a tigela e a colher das mãos de Dianna,
colocou-as no criado-mudo, aproximou-se, pegou o rosto de Dianna nas mãos... E
a beijou. A pequena sereia se assustou, entretanto, aceitou o gesto.
Separaram-se.
- Sei que não sou Davy. Mas será
que eu não posso te ajudar a diminuir o seu sofrimento?
“Talvez”, Dianna escreveu. “Eu gosto de você,
Louise. Me ajuda...”. Após dar o caderno para Louise ler, Dianna abraçou-a, e
afundou o rosto no peito dela, chorando.
- Chore, chore o quanto quiser. Vai
servir para te dar um pouco de alívio.
“Ah, Louise, eu
deveria saber que amor à primeira vista só traz problemas... Só sofrimento...”,
Dianna escreveu. Louise respondeu:
- Dianna, nós não escolhemos por
quem nos apaixonamos. – Louise acariciou o rosto dela. – Se escolhêssemos,
seria tão mais fácil... Você quer que eu fale com o Davy sobre isso?
Dianna negou
veementemente com a cabeça. Se ele fosse saber sobre o que ela sentia, deveria
ser através dela própria. Queria ela mesma abrir os olhos do amado. Alguns dias
depois, Dianna já estava melhor, e resolveu fazer uma caminhada pela praia. Ela
andava perto da orla, quando avistou um tritão loiro e de olhos azuis, com uma
cauda verde, que segurava um punhal.
- DIANNA! – gritou o tritão.
Era
Giles, o irmão dela. Dianna caminhou até dentro da água, para conversar com o
irmão.
- Maninha, pare com essa loucura!
Todos sentimos sua falta! Eu, papai, mamãe, Emma, Erin, Alice!
Dianna
negou com a cabeça.
- Di, aquele humano não ama você, a
bruxa do mar disse. Suas amigas e eu fomos perguntar a ela. Sinto tanta raiva
dele! Alice, Emma e Erin não concordam comigo, mas eu acho que você deve fazer
como Amber disse a nós: matá-lo!
Os olhos de Dianna se arregalaram.
- Qual o espanto? É o que ele
merece por te fazer sofrer tanto! Escute, se você matá-lo, você poderá voltar a
ser sereia! A ter voz! Será feliz outra vez!
A sereiazinha continuou a balançar a cabeça em
negação, chorando. Ela não aceitou o punhal que Giles havia trazido consigo, e
correu de volta ao castelo, chorando em desespero. “Nunca, nunca! Jamais
mataria Davy! Eu sofreria mais ainda!”. Ao entrar, logo se deparou com ele.
- Dianna? O que aconteceu? Por que está chorando?
Tudo o que Dianna fez foi abraçar o amado fortemente e acariciar seu
rosto. “Eu sofro tanto, meu amor... Mas eu seria incapaz de te fazer mal...”. E
ela se afastou, deixando Davy sem entender, e principalmente surpreso. Ela
nunca havia mostrado tanto carinho.
“Louise... Meu irmão quer que eu mate Davy... Não sei como ele pode ser
capaz de pensar que eu faria algo assim...”.
- Seu irmão? Mas como assim? Como o
encontrou? Como ele sabe sobre Davy?
“Longa história...”. Dianna escreveu várias páginas no caderno, narrando
a Louise sua vida no mar, seu amor pela superfície, o dia em que viu Davy pela
primeira vez, a decisão de se tornar humana, a troca de sua voz pela poção para
se transformar, como Davy a encontrou e tudo o que havia acontecido com ela
desde o dia em que Davy a abrigou.
- Você largou tudo... Para realizar
esse sonho de ser humana? Sonho esse que Davy alavancou? Bem... Eu acho que seu
sacrifício não foi exatamente recompensado, não é?
“Mas
o que eu posso fazer, se ele não me ama? Devo ficar satisfeita por ele ser
gentil comigo... E por contar com o seu amor por mim, Louise...”.
- Eu... Não posso fazer nada para
evitar que você vire espuma?
“Não. Davy é o único. Não pense que desmereço
seu amor, Louise, muito pelo contrário. Eu fico feliz por me amar, e te amo
também. Mas...”.
- Você ama mesmo o meu amigo, não
é?
Dianna assentiu, acenando com a
cabeça.
- Eu vou te dar um presente. –
Louise pegou seu caderno de desenhos e destacou uma folha. – Aqui.
Era um desenho de Davy. Perfeito. Dianna deu um enorme sorriso ao
contemplar cada traço. Beijou a boca do desenho, e em seguida abraçou Louise e
a beijou ardentemente, em agradecimento, com lágrimas nos olhos.
- Sabia que você iria adorar o
presente. Eu ia dá-lo a Davy... Mas você merece.
“É lindo,
Louise, lindo... É tão parecido com ele! Ao menos agora eu posso beijá-lo, de
certa forma...”.
- Fico feliz que esse desenho irá
te trazer algum alívio, minha pequena e amada sereia. – Louise sorria.
Mais
tarde, Louise e Davy caminhavam pelos jardins do palácio.
- Lulu... Eu estou um pouco
confuso.
- Confuso? Por quê, Davy?
- Por favor, não pense que eu estou
querendo enganar a Nami, ou algo assim, mas...
- O que há?
O príncipe suspirou.
- Eu creio que esteja me
apaixonando por Dianna, Lulu. Eu sei, é loucura. Estou comprometido. Dianna é
muda. Não sabemos de onde ela veio. Mas... Eu não sei... Ela é tão bonita, e
irradia uma doçura...
- Davy, isso era para ser um
segredo, mas agora que me contou isso, você precisa saber.
- Saber o quê?
Louise pegou as mãos do amigo.
- Dianna está apaixonada por você,
Davy. Desde que te viu pela primeira vez. E a pobrezinha sofre tanto por você
estar com Nami e ela não conseguir te dizer o que sente... Ela também não tem coragem de revelar mesmo pela
escrita.
- Ela... Apaixonada... Por mim? Ah,
Lulu, eu a machuco tanto! Como posso...?
- Você não tinha sequer como
imaginar que ela sentisse isso, Davy! Eu mesma só passei a prestar mais atenção
no comportamento dela quando está perto de você depois de dançarem no seu baile
de noivado com a Nami. Ela te olhava com amor e dor ao mesmo tempo. Logo em
seguida ela adoeceu. Passou a não querer comer. E era possível perceber que ela
apreciava mais quando era você que vinha cuidar dela.
- Eu estou sem palavras... Se eu
soubesse que feria os sentimentos dela...
- O que você vai fazer?
- Não sei. Eu ainda amo Nami. Ainda
quero me casar com ela. Mas agora que sei sobre Dianna e o que ela sente... Eu
sinto que vou deixá-la tão triste... Não sei se vou conseguir conviver com o
remorso...
- As coisas vão se ajeitar. Você
vai ver. – Louise abraçou o amigo.
Após três dias,
chegou a Davy um comunicado do pai de Nami, o imperador do Japão.
Ilustríssimo
príncipe David Jones da Inglaterra,
Meus
sinceros cumprimentos.
Sei
que está noivo de minha filha mais nova, princesa Nami, há quase um ano, e que
ambos desejam casar-se. No entanto, percebi que não me é mais vantajoso ter uma
filha casada com um ocidental. Declaro que o noivado de vocês está desfeito. A
partir de agora, ela está prometida a Soujiro Tsubasa, membro de uma das mais
antigas linhagens nobres do império.
Ordeno
que envie minha filha de volta ao Japão o mais imediatamente possível.
Akira
Okawa
Imperador
do Japão
A notícia
atingiu Davy como um tiro. Ele ficou lívido. Estava em seu gabinete ao ler o
comunicado. Mandou chamar Nami até lá.
- Deseja conversar comigo,
querido? - a princesa indagou, ao
entrar.
- Sim... – Davy suspirou. – Acabei
de receber um comunicado do seu pai.
- Do papai? O que diz?
- Leia você mesma.
Davy deu a
Nami o comunicado para que ela lesse.
- Não... Não, não, não! Eu me
recuso a voltar ao Japão! Não vou me casar com Tsubasa! Eu vou ficar aqui com
você, Davy!
- Nami, o imperador Akira...
- Estou cansada das imposições do
meu pai!
- Querida, escute, por favor. – Davy pegou as mãos da agora ex-noiva. – Eu
amo você. Muito. Mas eu temo que se continuarmos nos rebelando, uma guerra será
declarada entre a Inglaterra e o Japão.
- Você... Você tem razão. Bem...
Acho que não temos muita escolha...
- Infelizmente, não.
- Oh, Davy... Eu te amo tanto. Juro
que nunca vou te esquecer. – a japonesa abraçou-o, às lágrimas.
- Eu também nunca vou te esquecer,
Nami.
Ela partiu para o
Japão dois dias após a chegada do comunicado. Da amurada do navio, ela acenava
para o amado, para Louise e para Dianna. Uma nova vida a aguardava em sua terra
natal.
Dianna estava triste pela partida de Nami.
Gostava dela. No entanto, observava com preocupação a reação de seu amado
príncipe à partida da ex-noiva. Não podia deixar de notar a tristeza que tomou
conta do semblante sempre alegre de Davy. “Eu não quero te ver triste... Mas, ah, eu realmente não significo nada para
você.... Só Nami, Nami, Nami!”.
Davy ainda se sentia dividido entre Nami e
Dianna. Não sabia se deveria ser honesto com a garota muda, e confessar que
sabia dos sentimentos dela e que ele também nutria um amor por ela.
Já
ela ainda sofria calada por ele. Acreditava que ele só lamentava ser separado
de Nami, e continuava a se sentir indesejada por ele. A única coisa que ainda a
mantinha viva era Louise.
As
duas passaram a se amar às escondidas, ou no quarto de Louise ou no de Dianna.
Era sempre muito prazeroso para ambas, embora Dianna só pudesse mostrar isso
por gestos. Quando o ato terminava, Louise aninhava Dianna em seu peito,
carinhosamente.
“Lulu,
Lulu... Eu estou morrendo”, Dianna escreveu no caderno após terem feito amor
mais uma vez.
- Não diga isso, Di!
“Meu tempo
está acabando. Estou aqui na superfície há 25 dias. E até agora nenhum sinal de
que Davy me corresponda”.
- Se eu pudesse...
“É uma
pena que o seu amor não possa me tornar humana e evitar a minha morte. Mas
estou conformada. Eu só... Não quero morrer sem deixar que ele saiba sobre o
que sinto. Eu quero que meu sacrifício não seja totalmente em vão. Você me
ajuda?”.
- É claro! Você tem algo em mente?
“Nada muito especial... Eu
só quero mostrar a Davy que ele é incrível. Que não posso fazer nada senão
amá-lo, amá-lo muito. Eu sei que ele continuará me vendo apenas como uma
amiga.”
- Não seja tão pessimista, Dianna!
“Acha que ele pode me
amar também?”, Dianna sorriu cheia de esperança.
- Sinceramente? Eu acho! – Louise
beijou rapidamente a boca de sua amadinha.
Dianna saiu de seu quarto e foi até o de Davy, onde ele descansava após
um dia duro, cuidando dos assuntos do governo. Foi seguida por Louise. Esta
última bateu à porta.
- Quem é?
- Sou eu, Louise.
- Entre, Lulu.
A amiga de Davy disse, então:
- Davy, Dianna tem algo a te dizer.
O
príncipe já imaginava do que se tratava, e passou a tremer um pouco. Dianna
adentrou o quarto e ficou diante dele, cheia de receios. O que ele pensaria
daquilo? Ainda continuaria a ser gentil com ela?
Ele olhava para ela com expectativa. Dianna acariciou o rosto do amado
com cautela. Ele aceitou o gesto. Então ela o envolveu em um forte abraço. Davy
continuava apenas aceitando os avanços da jovem. Por fim, ela respirou fundo,
reuniu toda a coragem que tinha dentro de si... E beijou-o, beijou-o docemente,
como ansiava por fazer desde o momento em que o viu pela primeira vez.
Ela acariciava-o nas costas em meio ao beijo, e ele passava a mão pelos
cabelos loiros da sereiazinha. Até que a necessidade de respirar os fez separar
seus lábios. Davy olhou para Dianna, atônito. Sem a menor dúvida, havia gostado
muito do beijo. Procurava o melhor meio de dizer isso, contudo, Dianna
interpretou o silêncio e a expressão espantada dele como um sinal de que ele
não havia gostado daquilo. Então, correu dali.
- Dianna! – Louise tentou chamá-la.
- Volte aqui, por favor! Não é o
que você está pensando! – Davy exclamou.
Dianna
disparou para seu quarto, onde se trancou. Queria dormir até o amanhecer do dia
seguinte, quando deveria ir até o mar, para virar espuma. Seu coração não podia
mais suportar. Agarrou o desenho de Davy
que Louise lhe deu e beijou desesperadamente o papel, em seguida trazendo-o
para perto do coração.
“Davy, por que não pode fazer um esforço?
Eu não queria morrer... Mas é isso o que vai acontecer, inevitavelmente... DAVY!
EU TE AMO! E por mais que eu grite mentalmente, por mais que te beije... De
nada adianta...”.
Ela
ignorou as batidas na porta. Não queria ver ninguém. Chorou muito, muito,
tentando aliviar o coração. Até que finalmente adormeceu.
Despertou com os
primeiros raios da manhã em seu rosto. “É agora...”, ela pensou. Abriu a janela
e pulou. Não sabia, porém, que Louise a viu pela janela de seu quarto e
seguiu-a. Dianna pulou o muro do castelo, sem que os guardas vissem, e caminhou
lentamente até a praia. Louise tentou ir em seu encalço em silêncio.
Até que Dianna
viu-se diante do vasto reino de seu pai e sua mãe. Giles bem que tentou
trazê-la de volta... Mas ela nunca agiria como seu irmão desejava. Nunca. Ela
colocou o pé na água...
- DIANNA! NÃO!
Ela virou-se para encarar Louise.
- Di, por favor, não faça isso...
Como vou ficar sem você, minha sereiazinha? Davy também não suportaria...
A sereia negou com a cabeça. Era de
Nami que Davy sentia falta, mal se importava com Dianna. Colocou o outro pé na
água.
- Dianna! Não, pelo amor de Deus!
A humana foi
até a sereia e a beijou apaixonadamente. Ao se separarem, Dianna afagou o rosto
de Louise e se afastou... Louise observava, petrificada. Num certo ponto, não
dava mais pé para Dianna. Ela se deixou afundar... Até que, na superfície da
água, onde antes ela estava, havia apenas espuma, branca e grossa.
- Não, não, não! – Louise chorava
em desespero.
- Lulu? – ela ouviu a voz de Davy.
- Davy! – a moça abraçou o amigo.
- O que houve? Eu vi você sair
correndo do castelo...
- Dianna...
- Onde ela está, Lulu?
Louise
não teve coragem de dizer.
- Onde ela está, Lulu? Fala! Por
favor!
- Eu tentei impedir, Davy, eu
juro...
- I-Impedir? O que você quer dizer,
Louise? Dianna se matou? Se matou por afogamento?
- Mais... Mais ou menos...
Davy se soltou da amiga.
- NÃO! NÃO PODE SER! É IMPOSSÍVEL!
- Eu vi com meus próprios olhos...
Ai, meu coração...
- E a culpa é minha! Única e
exclusivamente minha! Por não ter mostrado antes que a amava! AAAH, DIANNA! –
ele gritou, em desespero.
Os dois amigos se abraçaram, os dois vertendo muitas lágrimas e olhando
angustiados para o mar.
- Dianna... Era uma sereia. No dia
do seu aniversário, Davy, ela estava na superfície. Ela viu o barco, ficou
curiosa e se aproximou. Ela viu você e se apaixonou no mesmo instante. Então houve aquela tempestade horrorosa.
Dianna mergulhou e salvou você de se afogar, te levando até a praia. Ela cantou
para você...
- Cantou? Mas ela era... Muda...
- Calma. Eu já vou chegar lá.
Dianna cantou para você até Nami chegar, o que a fez fugir. Ela bem que tentou,
mas não tirava você da cabeça. Então, ela pediu a uma bruxa do mar que a
tornasse humana. Em troca de uma poção, a bruxa pediu a voz de Dianna. Por amor
à superfície, por amor a você, ela abriu mão da voz. No entanto, o efeito da
poção era temporário. Para torná-lo permanente, ela precisava que você a
correspondesse. Caso você não a correspondesse, ela se tornaria espuma. Mas
como ela faria para mostrar, sem voz, o que sentia por você?
- Ela sofria tanto... Oh, Dianna...
-
Ela tinha um mês para que você desse sinais de que a correspondia. Mas
você não deu sinais a tempo...
- Eu... Ah, Louise, como eu me
odeio por isso!
Davy chorou nos ombros
de Louise, que fez de tudo para ampará-lo.
Cena pós-créditos Marvel!
Louise
caminhava na praia, pensando em Dianna. Sentia saudades de sua amiga e amada, e
sabia que Davy sofria tanto quanto ela pela perda da sereia. Davy se sentia a
criatura mais terrível da face da Terra
por não ter revelado antes a Dianna o que sentia, fazendo com que ela se tornasse
espuma.
Por um momento,
Louise pensou ter visto um vulto humano emergindo rapidamente da água e em
seguida submergindo outra vez. Entretanto, quanto o vulto mergulhou novamente,
parecia ter exibido uma... Cauda de peixe?
- Eu vi um homem-peixe...? Não,
devo estar imaginando coisas. Minha cabeça está ocupada demais com pensamentos
sobre Dianna... Em tudo enxergo sereias e tritões...
Louise havia de fato visto um tritão. O nome
dele era Gerd Müller e ele era um guarda do pai de Dianna que havia sido enviado
para a superfície ao resgate da princesa dos mares. Ao ver aquela moça, pensou
se tratar da princesa Dianna em sua forma humana. Era loira, bela e baixa...
Contudo, a princesa não tinha olhos azuis.
Gerd voltou ao mar, porém,
algo o impelia a voltar lá para a cima. Não se conteve. A superfície era mesmo
maravilhosa, não culpava a princesa. Nadou até a superfície, onde um turbilhão
o envolveu e o jogou na areia, diante de onde estava Louise. Gerd não tinha
mais sua cauda de peixe, e sim um par de pernas fortes. Ele tentou perguntar à
moça bonita quem ela era, no entanto, quando abriu a boca, nenhum som saiu.
- Ah não, de novo não... – Louise murmurou.