Peter assumiu a forma de um homem
mortal, e transformou Sally numa garotinha mortal. Desceram pela ponte de
arco-íris, Bifrost, em direção a Midgard. Chegaram ao que parecia ser um
vilarejo. Mais exatamente, uma feira montada no meio de um vilarejo.
O deus disfarçado caminhava pelas
barracas, a filha segurando sua mão, e as pessoas se perguntavam quem era o
belo rapaz acompanhado da linda menininha. Nunca o tinham visto antes. Algumas
vezes, ele parava para olhar as frutas e os outros alimentos vendidos. Como
deus do crescimento e da fertilidade, decidiu abençoar aqueles comerciantes e
seus produtos. Ele próprio os havia prejudicado, com seu mau-humor e tristeza.
Era o mínimo que podia fazer. As frutas e as hortaliças ficaram mais vistosas.
Os ovos aumentaram de tamanho. O leite ficou mais gordo.
Até
que ele e Sally pararam diante de uma barraca de flores. Mas não havia sinal do
dono. Com um rápido gesto da mão, Peter lançou suas bênçãos sobre as flores.
Imediatamente elas ficaram ainda mais bonitas e cheirosas. E então, apareceu
uma jovem, de cabelos e olhos negros e um sorriso gentil. Peter retribuiu o
sorriso da moça.
-
Procura algo em especial, senhor? – quis saber a vendedora, em um tom de voz
doce. – Um presente para sua esposa, talvez?
-
Esposa? Ah, não, eu... Eu sou viúvo. – Peter respondeu, surpreso por estar tão
sem jeito diante da florista.
-
Oh, sinto muito. – o sorriso dela se apagou um pouco. – Mas o senhor tem uma
linda filha. Tome aqui, querida, uma flor para você. – a jovem deu uma flor cor
de lilás para Sally.
-
Obrigada. – a deusinha sorriu.
-
Quanto custa a flor? – Peter estava aliviado por sempre carregar um pouco das
lágrimas de ouro de Louise com ele.
-
Ah, não, é um presente para essa garotinha tão linda! – disse a florista,
alegre.
-
Bem, muito obrigado...
-
Suzan.
-
Muito obrigado, Suzan. – Peter pegou a mão dela e beijou, para surpresa da
moça. – Eu sou Peter.
-
Peter... Como o deus do verão?
- Bem...
Sim. Agora... Eu preciso ir. Vamos, Sally.
Sally deu a mão ao pai, e Peter acenou
para Suzan, que retribuiu o aceno, encantada por aquele rapaz tão misterioso.
Ele e sua filha pareceram sumir de repente. Suzan vinha pedindo a Louise, a deusa
do amor, que lhe desse um amor havia muito tempo. Pegou-se pensando se não
podia ser ele, esse rapaz louro tão bonito, que tinha uma filhinha adorável e
parecia estar sofrendo muito. Ela imaginou que fosse pela morte da esposa...
Enquanto isso, nos bosques de Valhala,
as valquírias caçavam incansavelmente o pequeno javali de presas douradas que a
deusa Louise desejava. Todas tinham o mesmo desejo de matá-lo e ofertá-lo à
deusa do amor, de modo a cair em suas boas graças. O javali já estava parecendo
cansado. Corria mais devagar e resfolegava. Até que conseguiram acuá-lo.
-
Já estou imaginando esse lindo javali numa travessa, servido no banquete desta
noite! – exclamou Alana.
No entanto, naquele mesmo momento,
o Grande Tony surgiu diante das valquírias.
-
Não ferireis este animal, valquírias! – exclamou o deus soberano. – Mesmo que
minha filha vos tenha ordenado isso!
-
Por quê, senhor, se me permite perguntar? – indagou Felicity.
-
Por isso. – disse o Pai de Todos, acenando. E Davy apareceu em sua verdadeira
forma aos pés dele, para a surpresa das jovens guerreiras. – Este einherji foi
transformado em um javali por Louise, como punição. Mas agora ele será levado
para uma masmorra, onde ficará confinado até que se decida qual será seu
destino.
Davy ainda estava atordoado, mas
entendeu que seria preso. E o que seria de Dianna e seu filho? Ele estava
disposto a cuidar até mesmo do filho do deus do verão... Se dependesse de
Louise, ele nunca mais veria sua amada. Talvez nunca chegasse a ver seu bebê
nascer. Porém, admitia que merecia aquele castigo. Ele seduzira Dianna, e por
mais que a amasse, sabia que havia sido um erro.
Se ao menos pudesse ver Dianna uma
última vez antes de ser trancafiado na masmorra...
-
Não ouses te aproximar de mim! – gritava Dianna, brandindo seu machado. – A não
ser que queira ter teu crânio rachado ao meio como lenha!
-
Hohoho, és muito impetuosa. Gosto de mulheres assim. – o deus trapaceiro ria
com deboche.
A forma como Noone a olhava estava
enojando Dianna. Sabia que ele queria possuí-la, mas como um mero objeto. Ao
contrário de Davy ou Peter, ele não queria dar prazer a ela. Não queria fazê-la
se sentir amada. Se ele se aproximasse mais um centímetro, cumpriria a ameaça. Ele deu um passo à frente.
-
ÉS SURDO? FICA LONGE DE MIM!
-
Não. – respondeu ele, categoricamente, e com um aceno da mão, fez o machado
dela sumir.
Noone se aproximou de Dianna, e ela
correu para fugir dele. Ele a perseguiu pelo quarto, e enfim conseguiu
agarrá-la. Ela gritou, desesperada. Naquele mesmo momento, Louise passava pelo
corredor, e ao ouvir o grito, ficou alarmada. Ela conseguiu abrir a porta
trancada com magia, e irrompeu no aposento, vendo Dianna deitada no chão,
tentando fugir, descabelada e com a túnica rasgada, enquanto Noone tentava
mantê-la no chão, segurando-a pelos pulsos.
-
Solte-a, Noone! – ordenou Louise, indignada.
-
Agora, que finalmente posso ter a mulher que tanto desejo? Nunca! – ele tinha
um brilho maníaco nos olhos.
-
Solte-a, eu já disse! – bradou Louise, e lançou contra ele o que pareceram
ser... Raios solares.
Ele gritou. Sua pele ficou cheia de
queimaduras. Mesmo assim, ele voltou a encostar em Dianna, e imediatamente
tirou a mão de sua coxa, como se fosse ferro em brasa.
- O
que fizeste, deusa tola? – ele olhou furioso para Louise.
-
Nunca mais vais poder tocá-la sem que tua pele queime! É o que mereces por tratar uma mulher como um
mero objeto feito para teu prazer! Agora, suma daqui! Já!
O deus das trapaças desapareceu no mesmo
momento. Dianna ergueu-se, ainda muito assustada, e olhou com gratidão para
Louise.
-
Lady Louise, sou eternamente grata à senhora. Se vós não tivésseis chegado e me
socorrido...
-
Só te ajudei porque nenhuma mulher merece ser tratada desse jeito. Como um objeto, que um homem pode usar ao seu
bel-prazer. Isso é nojento. Mas não muda em nada minha opinião sobre ti, devassa traidora!
E
Louise sumiu, da mesma forma que Noone, deixando Dianna entregue aos seus
pensamentos. E cheia de culpa. Ela amava Davy e sabia que não podia fugir
disso, mas se arrependia demais por ter aceitado a corte de Peter, sabendo
disso, e feito com que ele sofresse tanto. Infeliz, ela começou a chorar.
Olhando mais atentamente para o chão, ela viu alguma coisa refulgindo. Pegou o
pequeno objeto em forma de gota, e viu que era uma lágrima de ouro. Louise era
conhecida por chorar lágrimas de ouro. Ao tocá-la, Dianna viu desfilarem em sua
mente várias imagens. Louise chorando pelo desaparecimento de seu marido James,
chorando por ver Gerd, o deus da guerra, beijando Alice, uma giganta do fogo. E
a valquíria não pôde deixar de sentir uma imensa pena da deusa do amor. Louise
conhecia sim a dor de perder uma pessoa amada. Ela sentiu isso na pele. Se
Dianna pudesse fazer algo por ela...
-
Pobre Louise. Você também teve seu coração partido... Talvez até mais do que o
meu.
Dianna deitou-se, cansada, passando a mão
por seu ventre. Esperava que pelo menos pudesse voltar a ver Davy um dia, mesmo
que não pudesse mais ficar com ele, e
que Peter a perdoasse.

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