Evelyn não gostava de ser vista como a principal (e por alguns, praticamente a única) compositora da Whereland, ainda que de fato fosse a integrante que mais escrevia canções.
Para acabar com sua imagem de "figura central", atribuída a ela por ser a vocalista, guitarrista-base, líder e compositora mais frequente, Evelyn decidiu fazer algo que era novo para a Whereland: o lado A do próximo single não seria uma canção dela.
Ela convocou uma reunião com Jayne, Betty, Mary e Alice para discutir isso.
- É uma ideia bastante boa, Evelyn! - elogiou Alice. - Apenas precisamos escolher duas músicas com boa chance de fazer sucesso.
- Eu sugiro aquela música da Betty que nós tocamos ontem, no ensaio. - disse Jayne.
- Eu apoio!- Mary empolgou-se.
- Mods Are Still Here? Nem pensar, não é uma canção boa o bastante para um single! - Betty protestou.
- Ninguém aqui pensa assim, além de você. - Evelyn disse com um sorriso. - Já posso até ver os mods implorando aos DJs para que essa música toque nas rádios incessantemente!
- E aposto que essa música vai aumentar a popularidade da banda entre os mods... - disse Alice. - Muitos não aceitam bem a Whereland por não saberem exatamente de que "gangue" vocês são.
- Tudo bem. - a autora da música concordou. - Podemos lançá-la.
- E o lado B? - quis saber Mary.
- Acho que Ballad For A Sad Clown é uma boa. - Evelyn disse. - Uma composição minha, mal-acabada, mas que vai servir para um lado B.
- Duvido que seja mal-acabada. - disse Alice. - Muito bem, meninas, chega de papo e vamos trabalhar!
* * *
Betty vinha pensando em fazer alguma coisa diferente com o dinheiro que ganharia pelo single para que sua vida saísse da mesmice. Aquela rotina de inúmeros shows e gravações era maçante.
Precisava fazer algo que a divertisse e não tirasse seu foco do trabalho e de sua filha. Veio à sua mente, de forma inesperada, uma lembrança: ela, aos onze anos, vendo seus pais, Gilbert e Kathleen, encenando A Megera Domada, uma das mais importantes comédias de William Shakespeare, no teatro de Liverpool.
Ela sempre tivera um grande fascínio pelo palco. Antes de ganhar sua primeira bateria, frequentara algumas poucas aulas de teatro. Era isso o que ela faria. Retomaria as aulas de teatro.
* * *
Evy sentou-se para tomar o café da manhã. Pegou a última rosquinha do pote e abriu o jornal no caderno de cultura. Entretanto, não demorou a encontrar uma crítica desfavorável à última apresentação da Whereland no Top Of The Pops.
- Mas que merda! Quem esses bostinhas pensam que são? Será que não sabem ser gentis, só para variar?
- Qual o problema, Maggie? - perguntou Keith, tratando-a pelo apelido que sabia que a namorada detestava.
- Não enche, Moon! - ela jogou nele o pote de plástico, agora vazio, e errou por pouco.
- Calma! Não sou um crítico!
- Desculpe, Keith. Estou nervosa.
Porém, Keith irritara-se e fora embora. "Depois eu sou a estressada, né?", ela pensou.
* * *
A Whereland nunca escolhera um lado. Não se definiam como mods, tampouco como rockers. Assim, sua música agradava aos dois grupos. Os hippies e os admiradores de surf music também gostavam de seu trabalho.
Contudo, Betty havia sido uma mod no fim de sua adolescência, em Liverpool. Devido à convivência com os High Numbers, Mary havia "se convertido" ao mod por um certo tempo. E Alice ainda era uma mod convicta em pleno ano de 1968.
Portanto, para a foto da capa de Mods Are Still Here/ Ballad For A Sad Clown, Betty e Mary "resgataram" alguns de seus vestidos e sapatos mods, e Alice emprestou algumas de suas roupas a Evelyn e Jayne. A Whereland posou com lambretas, parecendo garotas mod autênticas.
O single fez um sucesso muito grande, não apenas entre os mods, mas entre todos os fãs da Whereland, fossem eles o que fossem.
Os críticos também apreciaram o single. Se antes não acreditavam que a Whereland duraria por muito mais tempo, passaram a tecer incontáveis elogios à banda, beirando ao exagero.
- Que bando de vira-casacas. - Evelyn resmungava, após ler as reportagens sobre a Whereland veiculadas nas semanas seguintes ao lançamento do single.
- Pelo menos mostramos que não somos "as namoradinhas do The Who que têm uma banda", como alguns na mídia costumam nos ver. Somos independentes deles, e acho que provamos isso. - disse Jayne.
- Sim, mas ainda não é o suficiente. - Mary replicou.
- Não mesmo. Precisamos fazer um álbum inacreditavelmente bom. - disse Evelyn. - Atingir o ápice da criatividade.
- Não vai ser fácil. - disse Betty.
- Ninguém disse que seria, Betty. Mas escrevam o que estou dizendo: Chaos and Creation foi um bom álbum? Pois o terceiro álbum da Whereland será ainda melhor!Eu vou me esforçar para escrever melhor do que nunca, e vocês três também.
- Como sabe que nos transformaremos em compositoras tão boas assim, Evy? - perguntou Mary.
- Simples. Eu vou revelar todo o talento como compositoras que vocês têm. O que vocês mostraram agora corresponde a um quarto de todo o seu potencial.
Evelyn não estava exagerando. Ela sabia que suas amigas não eram apenas boas instrumentistas. Jayne, Mary e Betty só precisavam de incentivo para revelar seu lado compositor.
* * *
Betty matriculou-se num curso de teatro com a parte do lucro do single que coube a ela. Aprendia sobre expressão facial, voz, postura. Ela percebeu que ser atriz era mais trabalhoso do que imaginava. Também teve que aprender a lidar com a timidez. Acostumada a ficar atrás de Evy, Jayne e Mary nos shows, não sabia como se comportar à frente do palco.
Por vezes, pensava que não tinha vocação alguma para a atuação e cogitava desistir das aulas. O que a fazia seguir em frente era lembrar-se de quando estava aprendendo a tocar bateria. Ela não havia desistido de tornar-se baterista, e agora era profissional.
Enquanto isso, Sue Lee crescia. Betty enternecia-se ao vê-la desenvolver-se, porém, desejava secretamente que a bebezinha tivesse cinco meses para sempre.
- A mamãe não está por perto o tempo todo, minha pequena Sue, mas ela te ama muito. E não vai deixar aquele safado do seu pai chegar perto de você. - ela dizia, enquanto observava a filha dormindo, no carrinho ou no berço.
* * *
Algumas semanas depois, já em janeiro de 1969, Alice anunciou a Evy, Jayne, Mary e Betty que duas jovens repórteres do Melody Maker viriam entrevistá-las. Dois dias depois de Alice tê-las avisado, as jornalistas vieram.
Uma delas, que usava óculos vermelhos, chamava-se Cynthia Marlowe. Sua colega, uma jovem de cabelos cacheados, era Nicole Wentworth.
- Srta. Blen, srta. Greene, srta. Barton e srta. Martin, é um grande prazer conhecê-las. - disse Cynthia. - Eu vou fazer algumas perguntas a respeito dos projetos de vocês, atuais e futuros, e a Nicole vai tirar fotos, tudo bem?
As integrantes da banda concordaram.
- As senhoritas, até alguns meses atrás, estavam lidando com comentários não muito positivos sobre seus shows. Agora, com o lançamento de Mods Are Still Here/ Ballad For A Sad Clown, reverteram o jogo. Qual o motivo, em sua opinião, para a fase pouco produtiva pela qual passaram?
- Bem... Estávamos todas cansadas. - disse Evelyn. - Quando se está cansado, é difícil produzir algo realmente bom.
- E agora tomamos novo fôlego. - acrescentou Jayne. - Estamos prontas para novos shows e gravações... Pelo menos, eu estou.
- As aulas de teatro de que estou participando também me deram uma nova energia. Creio que também estou pronta para uma nova maratona de trabalho. - Betty disse.
- Já têm músicas suficientes para um novo álbum? - indagou a entrevistadora.
- Temos composto e gravado material novo, mas ainda precisamos selecionar o que será usado no LP. - respondeu Mary.
- E o título? Já escolheram um título, ainda que provisório, para seu próximo álbum?
- Sim. - Evelyn falou. - Chegamos a um consenso e decidimos que se chamará Fur.
- Fur?
- Sim. Pelo lembra gatos. Gatos lembram a música Lucifer Sam, composta por meu amigo Syd Barrett. E foi graças a conversas com Syd que consegui força e inspiração para esse novo álbum. - explicou Evy.
As meninas da Whereland mostrando mundo do que podem fazer. Isso aí meninas! Capítulo bom demais e continua postando. Ah não esqueça de finalizar Mary Anne.
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