Dianna Mackenzie estava nervosa. Era
a primeira vez que cantaria num grande papel. Era a primeira noite de Bob
Rafelson e Bert Schneider como diretores da ópera, e tudo teria que sair
perfeito naquela apresentação de Fausto.
Ela seria Marguerite, que se apaixona por Fausto. Um grande papel romântico.
Tudo teria que
ser perfeito... Ainda mais depois daquele terrível incidente que causou a morte
de um funcionário da ópera por enforcamento, no último dia de Brian Epstein e
George Martin como diretores. O corpo foi encontrado entre um suporte de
cenário e uma ripa. Os funcionários atribuíam o acontecimento ao Fantasma da Ópera.
Dianna não sabia
no que acreditar. Não sabia se o fantasma era mesmo alguma força sobrenatural
ou apenas alguém de dentro, fazendo coisas terríveis. Mas ela não queria pensar
nisso nesse momento.
Tudo que queria
era cantar, cantar e deixar seu Anjo da Música orgulhoso. Como seu pai
prometera na sua infância, o Anjo da Música veio para ela quando ele morreu, e
vinha dando aulas para ela já havia três meses. A questão é que... Dianna nunca
o via, só ouvia sua voz, a voz mais maravilhosa que ela já ouvira na vida.
Finalmente
chegou o momento em que Dianna devia cantar. A casa estava cheia. E todos
olhavam para ela com expectativa. Era a sua estreia num grande papel, e só
estava acontecendo porque Amber Henderson estava doente.
Dianna deu tudo
de si. Queria mostrar ao Anjo que o trabalho dele com ela estava surtindo
efeito, que ele estava lapidando o diamante bruto. E então... Dianna viu quem
estava na plateia, num dos camarotes, assistindo-a com extremo interesse.
Ela reconheceria
aquele olhar doce em qualquer lugar. Visconde David Jones, de origem inglesa
como ela, mas que também fora viver na França muito jovem, e com quem ela
brincara muito nas areias de Nice.
Era ele, o amor
de sua vida. E foi por ele que ela cantou cada uma daquelas notas com extrema
perfeição. Somente o amor poderia fazer com que Dianna atingisse o ápice do seu
talento natural, por mais que o desejo de orgulhar seu professor também fosse
grande.
E ela viu que
Davy a reconheceu. Esperava que ele soubesse que era por ele que ela cantava. O
que ela não imaginava era que o Anjo da Música também sabia. E estava furioso.
O esforço e
arrebatamento de Dianna foram tantos que ela desmaiou. As pessoas na plateia
ficaram estupefatas. O médico da ópera prontamente a socorreu, e ela foi levada
ao seu camarim. O visconde seguiu o médico.
***
Davy estava
verdadeiramente impressionado. Ele se lembrava da doce menina de Nice, que
cantava lindas melodias para acompanhar seu pai no violino. A voz dela na
infância era doce como mel, mas agora... Era a voz de um anjo... Ou de uma
sereia. E ela era bela como um anjo... Ou como uma sereia. Para seus amigos,
ela podia ser qualquer uma das duas coisas.
Quando ela
desmaiou, Davy ficou alarmado. Já corria para fora do camarote, quando a mão
firme de seu amigo Mike Nesmith o deteve.
- Calma, Davy. Não seria... De bom-tom que você se
precipitasse atrás de uma cantora.
- Dianna não é nenhuma dessas cantoras cheias de “amigos”! –
Davy ficou ofendidíssimo com a insinuação do amigo. – Eu a conheço desde que
ela era uma menininha! Sei que ela é honesta e honrada!
- Eu não estou afirmando nada disso, Davy! – Mike se
defendeu. – Acredito no seu julgamento. Mas a sociedade...
- Dane-se a sociedade! Eu vou ver como ela está! – e ele
saiu em disparada do camarote.
- Davy! – Mike bufou. Seu amigo era mesmo teimoso.
- Deixe-o. – falou Micky Dolenz.
- É melhor. – concordou Peter Tork.
E assim, Davy correu até o camarim de Dianna.
Claro que todos os presentes notaram sua apreensão e a pressa com que corria
até lá. Quando entrou, havia um grupinho de curiosos amontoados diante da
porta. Davy abriu espaço entre eles, gerando sorrisinhos maliciosos, e então a
pegou cuidadosamente nos braços, aumentando o burburinho.
Até que ela
despertou.
- O que houve? – ela falou, a voz ainda um pouco embargada.
- A senhorita teve um desmaio. Deve repousar... – disse o
médico. – Deixe-me examiná-la.
- Não, doutor. Eu agradeço muito pelos seus serviços, mas
não é necessário. Eu me sinto ótima. – ela afirmou, tentando colocar-se de pé.
Cambaleou, e teria ido ao chão se Davy não a tivesse segurado.
Dianna olhou para ele, com um ar um pouco
vago. Davy supôs que ela não o reconheceu.
- Não me reconhece, Dianna? – ele perguntou, sem conseguir
evitar uma ponta de ressentimento. – Sou o garoto que pegou sua echarpe no mar!
A jovem
cantora sorriu. Ela se lembrava dele por muito mais do que simplesmente pegar
sua echarpe no mar, que foi a forma como se conheceram. Mas ela não podia
demonstrar muito mais...
- Saiam, por favor. – pediu ela. – Gostaria de ficar sozinha
agora.
- Dianna, não a deixarei até que...
- Por favor, meu caro visconde, eu me sinto bem. Deixe-me, por
favor. – ela pediu novamente, com mais firmeza.
Ele ficou um
pouco intrigado por ouvi-la se referir a ele de maneira tão formal, pois eram
amigos de infância, por mais que a posição dela na sociedade fosse inferior.
Mas fez como a amada desejava.
Assim que foi
deixada sozinha, Dianna sentou-se diante de sua penteadeira, para refletir
sobre os acontecimentos daquela noite. Sabia que deixara o Anjo da Música
orgulhoso. E sabia também que, se ele soubesse que ela reencontrara Davy e que esse
reencontro causou-lhe tal comoção que a fez se entregar totalmente à música,
ficaria furioso. Ele a fizera prometer que nada a arrebataria, com exceção do
amor da música e da arte.
E logo ela
soube que não estava realmente sozinha no seu camarim.
- Dianna. – aquela poderosa voz fez-se ouvir.
- Alain! – respondeu ela, pois esse era o nome do Anjo.
- Eu sabia que você conquistaria Paris esta noite, Dianna!
Foi como eu lhe disse. Você foi excepcional.
- Fico feliz em saber que eu o deixei contente, Alain. –
respondeu Dianna.
- Contente? Não. Muito pelo contrário. – respondeu o Anjo.
- O que mais espera de mim? Eu dei meu melhor! – ela
protestou.
- Você me decepcionou, Dianna. Pois não cantou para mim,
como disse que faria.
- Como não? Foi por você que eu cantei! Queria mostrar que
suas aulas foram inestimáveis para mim!
- Esqueceu-se do que prometeu? Que não se deixaria levar por
um outro amor que não o amor da música, o amor da arte?
- Como pode afirmar isso, Alain?
- Sei que ele estava aqui esta noite! – a voz parecia
ciumenta e possessiva, o que assustou Dianna. – O rapaz de que me falou. E você
sabe que, se se entregar a um homem...
- Por favor, não vá embora, meu caro Anjo! – ela pediu. –
Continue a me ensinar!
- Então... Fique longe do Visconde David Jones!
- Mas por quê... Alain? Alain?
A voz se
retirou. Dianna nem imaginava, mas Davy ouvira parte da conversa. E não lhe
agradou nada ouvir uma voz masculina dentro do camarim de Dianna. Uma voz que
certamente pertencia a um belo e jovem cantor da ópera. Agora ele sabia que
tinha um rival. Um rival chamado Alain.
O ciúme tomou
conta de Davy. Só ouvira até a parte em que ela disse que cantara pelo dono da
voz. Não quis ouvir mais nada. Ele não acreditava que Dianna fosse o tipo de
moça que recebe homens que não um médico ou, talvez, os diretores da ópera, em
seu camarim.
Não queria
pensar nisso, mas a imagem de Dianna nos braços de outro homem, declarando que
cantara por ele, não desaparecia de sua mente de maneira alguma.
- Oh, Dianna... Pensava que você se lembrasse daqueles dias
felizes. Sei que éramos pouco mais que crianças... Mas eu a amo desde aquela
época. Nada mudou.
Ele não sabia
em que acreditar. Se Dianna de fato amava o tal Alain... Ou que ele a assustava
com aquelas maneiras possessivas, que o rapaz pôde perceber na impressionante
voz. Se Dianna amava o seu rival, ele devia esquecê-la. Se não, deveria
livrá-la de um apaixonado que parecia nas raias da obsessão.