terça-feira, 23 de setembro de 2014

Fanny's Autumn Almanac - Capítulo 9

Primeira fanfic minha em muito tempo que chega ao nono capítulo e não está tão perto assim do final! Multiplica, Senhor! 







        Eu estava infeliz. Andava desolada pelas ruas de Londres. O vento parecia me trazer recordações da voz daquele maldito do Paul. Quando choveu, me vieram à mente trechos de Flowers Never Bend With The Rainfall, uma música na qual ele estava trabalhando nos últimos dias.
         Tudo o que eu queria era que ele parasse de pairar sobre meus pensamentos como uma sombra. Como eu o amava, e como eu queria esquecê-lo!
          Eu parei embaixo de uma marquise, para me abrigar, e quando já estava protegida vi um rapaz, que carregava um caderninho. Ele corria com o mesmo objetivo que eu, até que escorregou, pois a calçada estava molhada e lisa.
        O caderninho caiu das mãos dele, e duas folhas se soltaram. Peguei o caderno e as folhas soltas. Uma estava em branco. A outra tinha os seguintes versos:

                                                 “ There’s a crack up in the ceiling,
                                                   And the kitchen sink is leaking,
                                                  Out of work and got no money,
                                                  A Sunday joint of  bread and honey”.

        Meu Deus, um jovem poeta! Outro jovem poeta! Isso era demais para a minha cabeça. Havia acabado de terminar com um poeta, e um outro já vinha cruzar o meu caminho! Entreguei as folhas e o caderno ao moço.
    
-          Creio que isto é seu, senhor.
-          Sim, sim, muito obrigado. – respondeu ele. – Mas pode me chamar de Raymond. Ou até de Ray. – ele me mostrou a inscrição à caneta “Ray D.”  na folha de rosto do caderninho.
-          Eu sou Frances, mas praticamente ninguém me chama assim. Portanto, pode me tratar por Fanny. É um prazer conhecê-lo, Ray.
-          Digo o mesmo, Fanny.
-          Você é poeta?
-          Ah, você leu? Eu sou um compositor medíocre, na verdade. Lennon e McCartney são melhores. Townshend me dá um banho. Bob Dylan também. E Paul Simon nem se fala! Quisera eu escrever daquele jeito!

                   Fiquei tão feliz por ele ter falado de Bob! Que saudades dele!  Mas a última coisa que me faltava era um compositor magricela e bonitinho me lembrar do meu ex-namorado e da queda que eu tenho por rapazes que escrevem bem.

-          Ah... Eu acho que você deve ser ótimo, para falar a verdade... Que chuva, não? – tentei mudar de assunto.
-          Pois é. Mas eu estou acostumado a chuvas piores. Sou de Muswell Hill, sabe?
-          Ah, um subúrbio próximo a Londres, eu sei. Eu sou de Epsom.
-          Então você também está acostumada a chuvas piores. – ele riu.
-          Sim, sim. – eu ri também. Aquele tal de Ray era divertido.

                        A chuva parou e o céu se desanuviou.

-          Bom, acho que é hora de seguir meu caminho. – disse Ray. – Até mais, Fanny...?
-          Fitzwilliam. – completei.
-          Bem, o D em minha assinatura significa Davies.
-          Então... Até mais, Ray Davies.
-          Até mais, Fanny Fitzwilliam. – ele sorriu e foi embora.

                        Eu também sorri. Quem sabe em breve a tempestade em meu coração parasse, como a chuva que acabara havia pouco.  Eu ficaria hospedada no hotel em Londres até quarta-feira da semana seguinte. O dia seguinte seria ainda o sábado. Então decidi que faria uma visitinha a Fefe.

- Oi, Fefe. – apareci na casa dela mais ou menos uma hora depois do almoço.
- Oi, Fanny! Que bom que você veio me ver! – ela me abraçou. – Já conhece a Nora? Ela é minha colega de faculdade. Também faz Jornalismo.
- Como vai, Fanny? – perguntou-me Nora, erguendo-se do sofá, apertando a mão e me dirigindo um sorriso.
- Eu vou bem, Nora. – respondi. – E você?
- Bem... Mais ou menos.
- Confesso que também vou mais ou menos.
- Fanny, não fique assim por causa do Simon. Ele foi precipitado demais. – disse Felicity. – E o mesmo vale para você, Nora, em relação ao Mike.
- Desculpe perguntar, Fanny, mas... Esse Simon é primeiro nome ou sobrenome do seu ex?
- Sobrenome. É o Paul Simon.
- Ah... – Nora murmurou. – Esses astros de rock só dão problema...
- Como assim? – perguntei.
- Meu ex é Mike Nesmith. – ela respondeu.
         
                Não tive coragem de dizer que havia conhecido Mike, porque naquela noite o meu namoro com Paul havia começado a desmoronar, e por isso eu não gostava de relembrar a única vez em que havia encontrado os Monkees, apesar de adorar aqueles quatro fofos.

               Passei uma tarde tranquila com Fefe e Nora. Lá pelas três horas Felicity recebeu uma ligação.


- Alô? Oh, olá, Richard. Sim. Segunda-feira? Nora está aqui comigo sim. Espere aí. – ela tapou o bocal do telefone. – Nora! É o Richard. Ele quer que a gente faça uma entrevista e fotografe os Kinks na segunda-feira. Tudo bem para você?
- Tudo bem para mim. – disse Nora.
- Richard? Ainda está aí? Nós topamos. – disse Fefe. – Ok.... Até mais.
- Não acredito! Nossa primeira grande matéria na Rolling Stone! – disse Nora, eufórica. – Mal vejo a hora de conhecer Ray Davies!

                   “Espere aí. Ela disse Ray Davies? Aquele Ray Davies? O da marquise? Quer dizer que ele é dos Kinks?”, eu pensava. Eu estava desenvolvendo uma pequena quedinha por aquele cara que eu tinha conhecido no dia em que cheguei a Londres. Não podia imaginar que ele era o líder daquela banda que estava fazendo um baita sucesso no momento! Eu mal conseguia processar a informação, e nem notei que Felicity estava me fazendo uma pergunta:

- Fanny! Já é a terceira vez que pergunto: vai querer ir com a gente entrevistar os Kinks?

                       Era uma boa oportunidade para ver Ray e tentar descobrir um pouquinho mais sobre ele. Então eu disse:

- Vou aceitar o convite.


                       Passaram o resto do sábado e o domingo. Na manhã de segunda-feira, acordei muito feliz, como não acordava fazia muito tempo. Enquanto cantarolava Tomorrow’s Gonna Be Another Day, dos Monkees, após tomar o café, escolhi minhas melhores roupas e penteei cuidadosamente meus cabelos. Enquanto esperava a hora de encontrar Fefe e Nora, resolvi escrever para Bob.

    Londres, 22 de setembro de 1966.

   Olá, Bob, como você está?

  Estou escrevendo esta carta para dizer o quanto sinto sua falta. Era muito divertido passar o dia cantando, conversando e rindo com você. Sinto falta até mesmo de quando você me mandava fechar a boca para não babar quando o Davy aparecia em The Monkees!
  Acho que sou uma pessoa privilegiada por conhecer o seu lado bem-humorado. Mas não tem problema. Adoro você mesmo quando está carrancudo. Afinal de contas, sou sua melhor amiga, não sou?
  Bem... Teve notícias do Simon? Até hoje não consigo entender como ele pôde ser tão... Exagerado, essa é a palavra. E não sei como ele conseguiu acreditar naquele papo furado da Kathy! Porém, isso é página virada.
  Daqui a pouco vou conhecer os Kinks! Minhas amigas Felicity e Nora vão entrevistá-los, e vou junto com elas. Estou tão ansiosa!

Um abraço da sua fiel companheira,

Fanny

P.S. : Venha logo me ver!





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