quinta-feira, 31 de julho de 2014

Sensation - Capítulo 4

- E 1, 2, 3, 4!

   Havia seis semanas que a Whereland estava gravando versões, que poderiam ser as definitivas, de algumas canções que já haviam decidido incluir no disco. Estavam dando duro. Eram todas perfeccionistas, principalmente Evy, e não tolerariam nada menos do que a perfeição. Queriam provar que estavam em contínuo processo de evolução.
   Além disso, Alice só queria pensar em trabalho. Seu namoro com Peter Asher, que já durava quatro anos, estava em crise. Asher pensava que Alice tinha um caso com Steve Marriott, vocalista e guitarrista dos Small Faces e objeto de adoração das garotas mods.

- Ok, gente, ficou ótimo! - disse ela, quando as garotas encerraram a terceira versão de Who's To Blame?, de Jayne.
- Então é a sexta faixa pronta... Faltam seis. - disse Evelyn. - Temos que gravar as versões finais de Mouse Trap, Stop Talking, You Don't Deserve Me, Running Away, Where Are You When I Need You? e Candy Shop. 
- Mas já trabalhamos bastante por hoje... - Betty lembrou. - Meu relógio está marcando quinze para as sete da noite. Tenho que colocar a Sue na cama às nove.
- Então vamos para casa. - disse Mary. - Vou só esperar o Ox... Evy e Jay, vão esperar o Moon e o Pete?
- Sim. - as duas responderam.

       John e Mary e Evelyn e Keith foram embora juntos. Contudo, Pete disse a Jayne que ela poderia ir para casa, pois ele só iria embora após meia hora. Disse que iria mostrar  uma nova música a Kit e Chris. A baixista preferiu não discutir, mas achou aquela história muito mal-contada.


                                                             * * *


           Jayne esperou o noivo impacientemente. Assim que ouviu o ruído da porta destrancando, levantou-se do sofá.

- Peter Dennis Blandford Townshend, nós precisamos ter uma conversa seríssima.
- Como quiser, meu amor. - disse Pete.
- Pete, o que você está escondendo?
- Nada, Jayne. Absolutamente nada.
- Eu só aceitei ficar noiva porque achei que podia confiar em você, Pete! Não devemos ter segredos!
- Mas, Jay, não tem segredo nenhum! Vamos para o quarto? Estou tão cansado...
- Você também não deve achar que pode resolver qualquer coisa me levando para o quarto... A Mary me contou que o Roger agia exatamente desse jeito!
- O Roger é o Roger, eu sou eu.
- Mas os homens são todos iguais.
- Ora, Jayne!
- Hoje você dorme no sofá. - Jayne disse veementemente.
- Mas eu não fiz nada!
- É o que vamos ver.


                                                     * * *


              Betty evoluía cada vez mais nas aulas de teatro. Sua trupe apresentou uma versão de Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare,  num dos principais teatros de Londres. Ela interpretava Titânia, a rainha das fadas.
                A atuação de Betty era tão profunda e envolvente que a baterista não demorou a chamar a atenção de um cineasta principiante que estava na plateia. Ele tinha entre 30 e 40 anos, difícil definir.
                O cineasta procurou-a ao fim do primeiro dia de apresentação.


- Srta. Martin, podemos conversar?
- Hã, bem, claro. - Betty concordou.
- Senhorita, sou um grande admirador do seu trabalho na Whereland. E devo dizer que fiquei impressionado com sua interpretação. Tem muita presença de palco. Titânia nunca foi tão bela e encantadora.

                  Ela enrubesceu.

- Obrigada, senhor...
- Parker. Timothy Parker. A srta. Barton conhece meu irmão mais novo, Tom.
- Ah sim.
- Eu creio que a senhorita poderia ter muito êxito na carreira de atriz. Poderia até mesmo tornar-se uma estrela de Hollywood!
- Já tenho uma carreira musical e uma filha com que me preocupar, sr. Parker.
- É apenas a minha opinião, srta. Martin.

 
                                                              * * *



                     Duas semanas depois, em 18 de março de 1969, Fur chegou às lojas. Os fãs, que haviam aguardado ansiosíssimos, finalmente puderam respirar aliviados.
                     A maioria esmagadora não se decepcionou ao colocar o disco para tocar. Ali estava a boa e velha Whereland. Aqueles que desejavam ouvir uma "inovação" mais aparente no som das garotas soltaram alguns resmungos. Ainda assim, não havia como negar. Cada nota era envolvente e inebriante, sempre de uma maneira muito característica.
                        A excelente aceitação do disco também tranquilizou a Whereland. As quatro integrantes, e também a fiel Alice, trabalharam enlouquecidamente, e viam que seu esforço era recompensado.  Timothy Parker aproveitou o momento para fazer uma proposta a Betty:


- Srta. Martin, o que acha de trabalhar no meu filme? Vou rodar um longa-metragem sobre o mito grego de Cupido e Psique. Você tem tudo para ser a Psique perfeita.
- É muita gentileza sua, sr. Parker, mas eu mal atuei em duas peças... E temos que fazer uma turnê para promover o disco...
- Srta. Martin, os Beatles não fazem turnês desde agosto de 1966 e seus discos ainda vendem como água.
- A Whereland é completamente diferente dos Beatles.
- Por favor, srta. Martin! Nenhuma outra atriz será tão perfeita para o papel.
- Eu prometo que vou estudar seu pedido, sr. Parker. Mas não posso garantir nada.
- Tudo bem, srta. Martin. Ficarei à espera.

                       Timothy Parker desejava muito que aquela ruiva estonteante fosse a estrela de seu filme. Além de sua incrível beleza, Betty contava com um talento assombroso. Além disso, era a baterista de uma banda muito popular entre os jovens e que estava consolidando o respeito que era-lhe dispensado pela mídia.
                      O cineasta faria tudo que pudesse para transformar a garota na mais nova estrela e jovem diva do cinema.

             

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