domingo, 25 de dezembro de 2022

Oneshot: Unwrap You At Christmas

 Bom dia e feliz Natal! Hoje temos uma oneshot que eu quero escrever há muito tempo: uma versão do conto "O Presente dos Magos" com D&D. Espero que gostem, boa leitura! 




  Era véspera de Natal e o jovem casal Davy e Dianna Jones tomava café da manhã às pressas. 


- Hoje vai ter muito movimento na loja. - disse Davy, engolindo uma torrada com geleia de morango. Ele trabalhava em uma loja de discos de dia e tocava com a sua banda, os Monkees, em clubes noturnos, festas universitárias e casamentos. 

- Lá na livraria também. - Dianna bebeu seu café quase de um gole só. Além de ter seu emprego em uma pequena livraria, Dianna escrevia poemas e contos nas horas vagas, que enviava para revistas e editoras, mas até então não tivera sucesso. 

- Bom, preciso ir. - Davy se levantou e beijou Dianna rapidamente, mas com doçura. - Até a noite, meu amor. 

- Até a noite, querido. Logo vou sair também.



  Aquele era o primeiro Natal desde que se casaram. Dianna e Davy se amavam e eram felizes. Só havia um pequeno problema, que nem sempre os incomodava: não tinham muito dinheiro. 

  Mas, naquela véspera de Natal, a falta de dinheiro era o maior problema de todos. O casal gastara todas as suas economias para pagar as contas e garantir uma ceia decente, e não sobrara nada para presentes. 

  Pela janela do ônibus, a caminho do trabalho, Davy viu a vitrine de uma joalheria. E bem ao centro dela havia uma linda fivela de ouro com brilhantes cor de rosa. Ao vê-la, só conseguiu pensar em como aquela fivela reluziria nos lindos e longos cabelos dourados de Dianna. Seria um presente perfeito para sua amada esposa. Mas jamais teria dinheiro para comprar aquilo… 

  A livraria onde Dianna trabalhava ficava mais próxima da casa do casal Jones, e ela caminhava até lá todos os dias. No trajeto, ela passava por outra joalheria. E naquele dia uma bela corrente de ouro estava exposta na vitrine. Dianna pensou no relógio de bolso de Davy, o único bem de valor que ele tinha. Pertencera ao seu avô e ficava atado a uma tira de couro velha e gasta. "Se eu pudesse comprar essa corrente para o Davy… Mas jamais vou ter tanto dinheiro para gastar assim…". 

   O casal passou a manhã em seus respectivos empregos, vendendo discos e livros para pessoas que certamente deixariam seus entes queridos muito felizes com seus presentes. E pensar nisso os deixava desanimados, pois não teriam presente algum para trocar entre si. 

 Na hora do almoço, enquanto comia o sanduíche que Dianna preparara e embalara com tanto carinho, Davy teve uma ideia ao tirar o relógio do bolso para ver as horas… Ao sair do trabalho, passaria na joalheria. 

  Dianna escovava os cabelos no banheiro da livraria antes de voltar ao trabalho. Ao prender o cabelo com a fita vermelha esgarçada que sempre usava, a solução para seu problema surgiu em sua mente como um clarão… 

   Ela foi a primeira a chegar em casa naquele fim de tarde. Olhou-se no espelho. E se Davy ficasse irritado com o que ela fizera? Amarrou um lenço na cabeça para terminar de temperar a carne e colocá-la para assar. 


- Di, cheguei! - exclamou Davy ao abrir a porta. Ela estremeceu. Esperava que ele não ficasse triste. Ele entrou na cozinha. 

- Oi, Davy. - ela o beijou. - Chegou tarde hoje. O que aconteceu? Seu relógio parou de funcionar? 



      Ele pareceu ficar sem graça. 


- Ah… Meu chefe quis fechar um pouco mais tarde hoje, para ver se fazia mais alguma venda de última hora. Perdi o ônibus. 



      Dianna se convenceu. 



- E esse lenço na cabeça, Di? 



      Foi a vez dela de ficar sem graça. 



- Ah… É que… Não quero que meu cabelo fique com cheiro de carne assada. 



       Davy riu. 


- Cheiro de carne assada é muito bom, mas não em cabelos. Prefiro que seu cabelo tenha cheiro de lavanda. 




   Mais tarde, sentaram-se para cear. Estava tudo muito bom, valeu a pena terem gastado quase tudo que tinham nos ingredientes. Quando já estavam satisfeitos, tiraram os pratos, lavaram a louça e foram se sentar junto à lareira que ardia com pouca lenha, tomando chá. 


- Di… - Davy começou.

- Sim, meu amor? 

- Eu tenho uma coisa para você. Não é muito, mas eu espero que goste. 



   Ele tirou uma caixinha de dentro do bolso e o entregou a Dianna. Ela abriu, revelando a mais linda fivela de cabelo que ela já vira. Dourada com brilhantes cor de rosa.


- Davy! - exclamou ela. - Que linda! Como pode dizer que não é muito? É até demais!

- Você merece muito mais, querida. - ele sorriu. 

- Eu também tenho um presente para você. - disse ela, entregando a ele uma caixinha também. 



   Davy abriu a caixinha e tirou de dentro uma bela corrente de ouro… Perfeita para o seu velho relógio.



-Obrigado, Di! Não precisava…

-Claro que precisava. 

-Coloque a fivela, Di. Vai ficar ainda mais bonita em você. Aliás, não sei por que você ainda está com esse lenço. 



    Dianna não sabia o que dizer para o marido. 



- Colocar… A fivela? Mas ela é tão bonita, merece uma ocasião especial…

- É Natal, meu amor! Quer ocasião mais especial? 

- Bom… Tudo bem. Mas não fique bravo comigo. 

- Bravo? Por que eu ficaria bravo com você, Di, ainda mais no Natal? 



    Ela desatou o nó que prendia o lenço e… Deixou à mostra o pouco que restara de seus longos cabelos loiros. Antes batiam na cintura, agora mal cobriam a nuca.


- Di! Você cortou o cabelo? Por que não disse nada? - Davy estava sem palavras. 

- Sabia que você ia ficar triste. - disse ela, olhando para baixo. - Mas o único jeito de comprar essa corrente para o seu relógio foi vendendo meu cabelo para uma loja de perucas… O dono me deu uma boa quantia pelo comprimento, grossura e cor dos meus cabelos.

- Meu amor! - ele a abraçou. - Não precisava fazer isso… 

- Mas eu queria tanto te dar esse presente, Davy! Você é o melhor marido do mundo. 

- Eu agradeço muito, querida. - ele a beijou. 

- Agora, coloque a corrente no seu relógio. - pediu ela. 

- Ah.. Di, eu adoraria, mas como acha que consegui o dinheiro para comprar sua fivela? 

- Você vendeu o relógio, Davy? - Dianna estava incrédula. - Mas era do seu avô…

- Eu sei, meu amor. Mas acho que o vovô não ficaria bravo comigo ao saber que o vendi para dar um presente à mulher mais maravilhosa que já existiu.



    Dianna abraçou Davy e o beijou docemente. 


- Feliz Natal, Davy. Eu te amo. 

- Feliz Natal, Di. Eu também te amo. Você é meu maior presente. 

- E você é o meu… Mas, na verdade… Já ganhamos um presente há alguns dias, mas eu quis deixar para te contar hoje. 

- Que presente? - Davy ficou intrigado. 



    Ela colocou a mão de Davy sobre seu ventre. 


- Estou grávida. Acho bom economizarmos mais para o próximo Natal…



   Davy a abraçou ainda mais forte e beijou mais profundamente. 


- Esse é definitivamente o melhor presente de Natal que eu poderia ganhar, meu amor. 


sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Oneshot: Anti-Hero (Songfic)

Boa noite! Temos uma nova oneshot, e dessa vez é songfic. Diretamente inspirada pelo álbum Midnights da Taylor Swift, principalmente a música Anti-Hero. O ship? Emma Carlisle e Mike Nesmith. Boa leitura! 







- Nez…? - Emma se olhava no espelho, se analisando por todos os ângulos que conseguia ver. 

- Sim, Emma? - ele parou de dedilhar seu violão e olhou para a esposa. 

- Você acha que eu engordei muito desde que tive o Junior? 


     Mike colocou o violão de lado, se levantou e olhou para Emma de todos os lados, da cabeça aos pés, enquanto cofiava a barba.


- Hum… Não. Mas mesmo que sim, eu não me importaria. Você é linda de qualquer jeito, Emma. E o que tem de mais? Se uma mulher é linda, ela é linda e pronto. O peso dela não importa.

- A Di não engordou nada, e ela teve gêmeas… Minhas amigas são tão sexy, e eu me sinto um monstro na colina.

- Não entendo nada de biologia feminina, mas acho que cada mulher é de um jeito, não? E se você é um monstro, é o monstro mais sexy que eu já vi.

- É, mas…. - Emma olhou para baixo. Depois, voltou a olhar para o marido. - Nez, você tem certeza que me ama? 


     A pergunta pegou Mike completamente de surpresa. Não porque não amasse Emma, ele a amava, e muito. Mas nunca havia visto a esposa se mostrar tão insegura a esse respeito. 


- Emma, estamos casados há cinco anos. Nós temos um filho. Eu te amo demais, loirinha. 

- Mas, mas… Você não preferia ter se casado com outra mulher? 

- Não, claro que não! Emma, se eu te escolhi, foi porque amo você. 


        Emma estava com os olhos marejados.


- Nez… Você está enganado a meu respeito. Eu sou uma pessoa horrível. Vou acabar te decepcionando em algum momento. 

- Emma, você quer competir comigo, por acaso? Você sabe muito bem as merdas que eu já fiz nessa vida. Eu sou péssimo. 

- Não, Nez, você é maravilhoso! Eu sou o problema, sou eu. - ela o abraçou e beijou. - Você pode ter sido o Príncipe dos Corações Partidos um dia, mas hoje é o melhor marido do mundo.  

- Príncipe dos Corações Partidos… Gosto disso. - ele riu. - Logo eu, que sempre fui desajeitado e um guitarrista, compositor e cantor medíocre.

- Nez, para com isso! - Emma se irritou. - Não vou admitir que você se menospreze dessa forma.

- E eu não admito que você se menospreze dessa forma, Emma.

- É… - ela sorriu. - Nós dois ficarmos juntos foi realmente o karma agindo nas nossas vidas.

- E como. Juntando um inseguro crônico como eu e uma mulher igualmente insegura. - o marido retribuiu o sorriso. - Só assim consigo esquecer minhas próprias inseguranças. 

- Somos os anti-heróis das nossas próprias histórias… Você é meu porto seguro, Nez. - ela o abraçou novamente.

- E você é o meu, Emma. - ele também a enlaçou em seus braços e beijou a testa dela. - Vem, amor. Vou te mostrar o quanto eu te amo. 


     Ele a carregou até a cama. Tirou o vestido e a roupa de baixo de Emma com cuidado. Acariciou-a delicadamente, repetidas vezes, principalmente no baixo ventre. Emma abraçou Mike, trazendo-o para mais perto, enquanto ele pedia espaço entre as pernas dela…
    Quando terminaram, se aconchegaram nos braços um do outro.


- Mike… 

- Sim? 

- Você acha que, no futuro, nossa nora vai me matar por dinheiro? Eu sonhei com isso uma vez… 



     Ele bem que tentou, mas foi incapaz de conter a gargalhada.


- Ela vai ter que me matar primeiro, Emma. - e beijou-a. 




domingo, 31 de julho de 2022

Zero To Hero (Grindhouse Myth)

 Bom dia! Hoje, trago uma nova fic da série Grind Myth, inspirada no mito de Perseu. Espero que gostem! 


   Há muito tempo, na cidade de Argos, havia um rei. Ele era viúvo e tinha uma única filha, Janelle, que era muito bela e estava próxima da idade de se casar. O rei, contudo, se preocupava por não ter um filho varão que o sucedesse no trono. Foi, então, consultar um oráculo para saber se, caso contraísse novas núpcias, poderia vir a ter esse filho varão. 

   Diferentemente do que normalmente acontecia, o oráculo foi direto e reto: não. Mas, se a princesa tivesse um filho, ele mataria o avô. 

   Ser morto pelo próprio neto é um destino terrível, e, para evitar esse sofrimento para ele e sua filha, e até mesmo para o hipotético neto, o rei tomou uma decisão drástica: trancar a pobre moça numa torre, sem qualquer contato com o mundo exterior. 

   E assim foi feito. Janelle foi trancafiada na torre, com apenas uma ama, e recebendo visitas ocasionais do pai. Todos os dias, a jovem se sentava à janela para admirar o céu e a vista limitada da floresta e do mar, sonhando com o dia em que, talvez, seu pai se apiedaria e a libertaria. Ela tomou a resolução de recusar qualquer pretendente e não se apaixonar, para não trazer ao mundo o assassino de seu pai. 

   Mas o que ela não sabia é que também era admirada. E justamente pelo mais obstinado dos admiradores: o próprio rei dos deuses, Zeus. Zeus normalmente tomava a forma de animais para possuir as jovens que desejava. Mas, dessa vez, ele se transformou numa chuva de ouro, e assim Janelle ficou grávida. Nasceu um menino, que ela chamou de Micky.

  Por alguns meses, Janelle conseguiu esconder seu filho, até que, um dia, o rei apareceu antes da hora costumeira, quando o menino estava acordado. E ao ver que sua filha havia dado à luz um menino, ficou em pânico. Não acreditou na história da chuva de ouro, não quis saber se o menino era filho de Zeus, Poseidon, Apolo ou o deus que fosse. 

  Como não tinha coragem de matar sua filha e o neto, mesmo com medo, o rei mandou construir uma espécie de arca, em que colocou Janelle e o pequeno Micky, e lançou a arca no mar. 

  A arca encalhou na ilha de Serifos, onde foi encontrada por George Dolenz, o antigo rei da ilha, deposto pelo próprio irmão. Ele abriu a arca, e qual não foi sua surpresa ao encontrar dentro dela uma linda jovem e um bebê! 


- Quem… Quem é você, moça? - perguntou ele, surpreso. 

- Eu… Eu sou Janelle. - disse ela, sem saber muito bem se podia confiar nele. - E este é meu filho, Micky. Fomos lançados no mar pelo meu pai, que não acreditou que tive o filho de um deus.



  Penalizado pelo sofrimento da encantadora jovem, sozinha no mundo com um filho pequeno, ele a abrigou em sua casa. Não se casou com ela, mas deu ao menino seu nome, e o amou e criou como seu filho. E Micky Dolenz cresceu para se tornar um jovem belo, forte e corajoso.

  O atual rei, mesmo sabendo que seu irmão George amava Janelle e tinha planos de se casar com ela um dia, também queria a mãe de Micky para si, e não hesitava em pressioná-la. 

  Ela resistia bravamente, e Micky, indignado com o assédio sofrido pela mãe, um dia proferiu uma frase que, apesar de impensada, determinaria seu destino. 

  O rei de Serifos havia adotado a estratégia de fingir que não desejava mais Janelle e que ia se casar com outra mulher. E exigiu de seus cortesãos presentes de casamento finíssimos, inclusive de Micky. Micky e sua mãe moravam com George, que, apesar de ter sido rei, já não tinha mais nenhuma riqueza, pois seu irmão tomara tudo que possuía. Sem saber bem o que dizia, o rapaz afirmou: 


- Não tenho nada de meu para oferecer, ó rei, mas merece os melhores presentes… Posso trazer até a cabeça da Medusa…



    O rei, sabendo que a Medusa transformava todos que olhassem para ela em pedra e era praticamente impossível de derrotar, sorriu debochado. Dessa forma, o rapaz saía de seu caminho voluntariamente… E o caminho para se casar com a mãe dele ficava livre.


- Excelente ideia, Micky! Deve partir imediatamente. Esperarei apenas pela sua volta com meu presente para marcar a data do casamento com minha bela noiva. 



    Só então Micky pensou na gravidade do que dissera. Porém, não podia mais voltar atrás. Tinha que trazer a cabeça da Medusa para o rei de Serifos, e pensava em oferecê-la ao rei com a condição de que deixasse sua pobre mãe em paz definitivamente.

   O rapaz foi até a praia para pensar. E enquanto tentava organizar as ideias para saber por onde começar, sentiu uma presença próxima dele. Ergueu a cabeça e viu uma jovem baixa, loura e de olhos azuis, usando armadura e com uma coruja no ombro. Ele não teve dúvida: era Atena, deusa da sabedoria e da guerra, a protetora dos heróis. Curvou-se diante dela. 


- Levante-se, Micky Dolenz, filho de Zeus. Fez uma ousada declaração, e agora deve cumpri-la. Deve buscar a Medusa e decapitá-la. 

- Mas como farei isso? - Micky estava quase desesperado. - É quase impossível derrotá-la! 

- Falou bem. Quase impossível. - disse a deusa. - Hermes e eu ajudaremos em sua jornada. 


    Então Micky viu que um rapaz alto e magro, de longos cabelos negros, usando um capacete e um par de sandálias com asas, materializou-se. Era Hermes. 


- Forneceremos aquilo de que precisa, Micky Dolenz. - disse Hermes. 



     Atena fez surgir uma espada curva, com uma lâmina duríssima e resistente. 



- Com esta espada, cortará a cabeça da Medusa. - disse Atena. 

- Com minhas sandálias, será mais rápido do que as Górgonas. - Hermes descalçou suas sandálias e entregou-as a Micky, com a recomendação: - Tome muito cuidado, e devolva-as intactas. 

- É claro. - Micky assentiu. 

- Neste bornal, guardará a cabeça da Medusa. - Atena instruiu.

- Com o elmo das trevas de Hades, ficará invisível para sua inimiga. - Hermes explicou.

- E por fim, entrego-lhe meu escudo. - Atena o soltou de seu braço e deu-o a Micky. - Olhando por ele, poderá atacar a Medusa sem olhar diretamente para ela e acabar petrificado.

- Eu vos agradeço pela ajuda inestimável, Lady Atena e Lorde Hermes. - Micky fez uma respeitosa reverência. - Mas como encontrarei o covil da Medusa? 

- Minha coruja o guiará até as Gréias, as únicas que conhecem a localização do covil, e ajudará a identificar a Medusa entre as três Górgonas. - disse Atena com um sorriso.



  A coruja piou alegremente e voou em direção a Micky. Ele calçou as sandálias de Hermes, preparou seu equipamento, agradeceu mais uma vez aos deuses e seguiu a coruja pelos ares até o local onde viviam as Gréias. 

   No caminho, Micky encontrou outros três jovens, semideuses e aspirantes a heróis como ele, e acabou os ajudando em suas aventuras.

 Primeiro, sobrevoando a região de Lerna, conheceu Mike Nesmith, outro jovem filho de Zeus. Ele tinha a missão de aniquilar a Hidra, um monstro reptiliano de nove cabeças que assolava a região. O problema era que, a cada vez que uma cabeça era cortada, duas novas cabeças nasciam no lugar, e, além disso, uma das nove cabeças era imortal.

 Micky ajudou Mike ateando fogo aos tocos de pescoço antes que um novo par de cabeças nascesse, e depois enterrando a cabeça imortal, que ainda poderia expelir um veneno poderosíssimo mesmo após cortada, no mais fundo da terra. Mike agradeceu efusivamente a ajuda de Micky, e assim nasceu uma grande amizade entre os dois heróis filhos de Zeus. 

 Depois, Micky, sempre guiado pela coruja de Atena, passou por Esparta, onde ficou sabendo que o rei Edmund estava oferecendo a mão de sua filha mais velha, a belíssima Elinor, ao jovem que não só se provasse o mais habilidoso guerreiro em uma série de provas, mas também o mais inteligente… Descobrindo, entre as 50 moças mais formosas de toda a Hélade, reunidas no palácio de Edmund e instruídas a fingirem ser a filha dele, quem era realmente a princesa Elinor. 

  Sabendo que a beleza está nos olhos de quem vê, Edmund previa que, por mais que praticamente se igualassem em valor como guerreiros, cada um dos competidores teria sua preferida entre aquelas 50 lindas jovens, e dificilmente o vencedor da maioria das provas poderia apontar a verdadeira Elinor. Poderia acabar se apaixonando por outra pessoa e tomá-la pela princesa. E assim ele não precisaria se despedir de sua filha tão cedo.

  Mesmo que sua missão fosse encontrar a Medusa e decapitá-la, levando em seguida sua cabeça para o rei de Serifos na esperança de, assim, libertar a mãe do assédio dele de uma vez por todas, Micky decidiu tentar a sorte na disputa. 

  Não era todo dia que aparecia uma chance, ainda que remota, de se casar com uma jovem que, segundo diziam, era a mais bela de toda a Hélade.

   Micky participou de algumas das provas, mais para se divertir e mostrar seu valor como guerreiro do que para realmente conquistar a mão de Elinor. Acabou ficando amigo de um outro jovem herói, chamado Davy Jones, um descendente de Hermes que vinha de Ítaca. 

 Ele era incrivelmente astuto, e não só se mostrara um valoroso guerreiro, vencendo a maioria das provas, como já descobrira, entre todas aquelas beldades, quem era realmente a princesa Elinor. 


- Mas não me casarei com ela… Declinarei da mão da princesa Elinor em favor dos demais competidores.

- Por quê??? - Micky ficou extremamente surpreso. Como alguém poderia recusar a mão da princesa mais linda de que se tinha notícia em todo o país? 

- Porque… Eu me apaixonei por outra das moças. Por um momento, cheguei a pensar que ela era Elinor, em minha paixão desmedida. - Davy respondeu com um sorriso. - Mas consegui fazê-la revelar sua verdadeira identidade, e a levarei a Ítaca comigo para ser minha esposa.

   E assim Davy fez. Abriu mão da disputa pela bela Elinor, levando com ele a sua escolhida, Dianna Mackenzie, a princesa de Corinto. Micky não podia dizer que reprovava a decisão. Dianna também era linda, e Davy mostrou-se muito prudente ao desistir da mulher mais cobiçada e escolher aquela que era ideal para ele.        

    Micky também partiu, pois, a cada dia que se demorava, sua mãe sofria mais nas mãos do terrível rei. E seguiu viagem, até que, mais uma vez, parou para auxiliar outro herói. 

   Peter Tork, filho da musa Calíope, a bem da verdade, era mais um poeta e cantor do que um guerreiro. Mas ele recebeu a incumbência de abater o terrível Javali de Cálidon, e Micky encontrou-o perseguindo a fera. Ofereceu sua ajuda, e, juntando seus esforços, fazendo o que faziam de melhor, os dois conseguiram abater o monstruoso javali. 

  O canto de Peter era tão mavioso que fazia até as mais implacáveis feras se acalmarem. O monstro não era particularmente sensível à música, mas, de fato, ao ouvir Peter cantar e tocar sua lira, ficou um pouco entorpecido, o que facilitou para que Micky o atacasse com sua espada. Muito grato a Micky pela ajuda, Peter passou a lhe devotar grande amizade. 

 Depois de todas essas peripécias, Micky finalmente chegou à ilha onde moravam as Gréias. Eram criaturas de aspecto horrendo, pele coriácea e que dividiam um único olho. 

  Ele as observou escondido atrás de alguns arbustos, e, ao perceber que elas ficavam completamente aturdidas sem o olho, aproveitou o momento em que a Gréia que estava com ele tirou-o de sua órbita para entregá-lo a outra, e pegou o globo ocular. 

   Elas ficaram enlouquecidas ao se darem conta de que alguém tomara seu olho, e Micky disse: 


- Devolverei o olho se me disserdes onde as Górgonas se escondem! 

- Não podemos dizer! Devolva o olho! - grasnou uma das Gréias. 

- Já dei minha condição. - Micky estava irredutível. 


   Passaram-se alguns minutos, em que as Gréias tentaram de todas as formas recuperar o olho e Micky continuou a insistir que revelassem o esconderijo das Górgonas.

  As Gréias, em seu desespero para reaver o olho, finalmente se renderam e indicaram a Micky o caminho. Lá chegando, Micky cobriu a cabeça com o elmo das trevas, tornando-se invisível. Empunhou a espada e o escudo da deusa Atena. E adentrou o covil das terríveis criaturas, silenciosamente. 

   A coruja de Atena mostrou a ele qual das três Górgonas era a Medusa. Era exatamente a que dormia no meio. Pé ante pé, tomando muito cuidado para não pisar nos cabelos de cobra das outras irmãs e guiando-se pelo escudo, Micky caminhou até a Medusa. E cortou a cabeça dela com um rápido movimento da espada curva. Notou uma fumaça branca rolar do pescoço do monstro. E ficou impressionado: um belíssimo cavalo alado, com crina, cauda e cascos dourados, saiu voando pela janela. 

 Imediatamente, Micky guardou a cabeça da Medusa no bornal. E já se preparava para bater em retirada, quando uma das górgonas sobreviventes acordou e viu o corpo decapitado da irmã, acordando a outra. As duas criaturas passaram a procurar pelo culpado. Como Micky estava invisível, não o viram. Mas ainda podiam sentir seu cheiro. Com as sandálias de Hermes, Micky voou o mais longe que pôde. Só ousou tirar o elmo das trevas quando já estava há centenas de quilômetros de distância, sobrevoando uma ilha no norte da África. 

   E deparou-se com uma visão impressionante. Acorrentada a um rochedo, estava uma donzela. Seus longos cabelos loiros eram açoitados pelo vento, mas, ainda assim, ela continuava linda. Seus olhos azuis estavam pregados na direção do mar. Parecia que ela aguardava algo vindo de lá. E ela usava vestes de tecido diáfano que revelavam delicadas formas. Pareciam esculpidas pelo cinzel de um grande artista. 

 Sem que Micky percebesse, uma flecha de Eros, o deusinho do amor, filho de Afrodite, atingiu-o em cheio. E, mesmo sabendo que não podia demorar a voltar a Serifos, Micky decidiu que libertaria aquela garota das correntes e a levaria com ele para casa como sua noiva.

   Micky pousou na praia e perguntou a um pescador, que guardava suas redes: 


- Quem é a linda jovem acorrentada no alto do rochedo, meu bom homem? 



   O pescador respondeu, com um tom de pena em sua voz: 


- É Emma, a nossa princesa. Foi amaldiçoada, coitadinha. 

- Amaldiçoada? O que ela fez para merecer isso? - Micky espantou-se.

- Nada. - continuou o pescador. - A rainha, mãe dela, teve a infelicidade de comparar a beleza da filha à das nereidas… Dizendo que a princesa era muito mais bela. Nereu ficou furioso com esse ultraje às suas filhas e mandou um monstro marinho para assolar nossa ilha. O rei, desesperado, foi até Delfos. Lá, soube que a única forma de aplacar o monstro era oferecendo seu maior tesouro… a única filha. Desde então, a princesa Emma está lá acorrentada, aguardando sua morte. 

- Pobre moça! - Micky exclamou. - E ninguém tentou matar o monstro e libertá-la? 

- Muitos tentaram, meu rapaz. - disse o pescador, balançando a cabeça. - Nenhum teve sucesso. O monstro os devorou a todos. E acho que mais nenhum guerreiro no mundo tem coragem de enfrentar a criatura e libertar a princesa Emma. 


   "Bom… Eu tenho", pensou Micky. Ele se despediu do pescador e foi até o palácio, para solicitar uma audiência com o rei. 

     Encontrou o rei Harold e a rainha Lauren parecendo desolados. Via-se no rosto da rainha o profundo arrependimento por ter se vangloriado de sua filha. Ele fez uma reverência elegante ao casal real, e, ao se erguer, disse: 


- Majestades, solicitei esta audiência para me oferecer a libertar sua filha do terrível destino que a aguarda.

- Como, meu rapaz? - o rei perguntou, descrente. - Todos que já tentaram pereceram. Não há escapatória. Minha filha será comida pelo monstro, e ficaremos numa agonia sem fim até que isso finalmente aconteça. Já faz duas semanas que ela está lá no rochedo. 

- Acredite em mim, Majestade. Eu posso salvar sua filha. 



    O rei e a rainha sorriram diante da ingênua determinação do rapaz. Não tinham como saber que ele tinha a proteção dos deuses, e Micky sabia que não era conveniente alardear esse fato. Poderia se voltar contra ele. 

     Após receber a permissão dos reis para tentar liquidar o monstro e sua benção para se casar com a princesa caso conseguisse, Micky pegou seu armamento e foi até o rochedo, levado pelas asas das sandálias de Hermes. 

     Pousou diante da princesa. A princípio, Emma ficou assustada, e Micky percebeu. Afinal, não era todo dia que um homem surge do céu e pousa bem na sua frente.


- Não se preocupe, princesa. Eu vou salvá-la do monstro! - disse ele, gentilmente. 



     No mesmo instante, Eros flechou Emma. E ela se apaixonou pelo jovem herói.


- E eu posso saber o nome do meu salvador? - ela sorriu docemente.

- Micky. Micky Dolenz. Venho de Serifos. 


  Antes que ele pudesse falar mais, os dois ouviram gritos vindos da praia. Eram os pescadores, alarmados com algo enorme vindo pelo mar em direção ao rochedo onde a princesa estava acorrentada. Era o monstro. 

   O grito morreu na garganta de Emma. Apesar de ter se apaixonado por Micky no mesmo momento em que o viu, no fundo ela temia que ele fracassasse ao tentar salvá-la. E aceitou a morte.  

   Mas Micky não pensava assim. Ele correu para tomar impulso, empunhando a espada. Voou direto para a cabeça do monstro, enfiando a espada em seu olho e cegando-o. O monstro continuou tentando abocanhá-lo, mas Micky usava as sandálias para voar e confundi-lo. E por fim, conseguiu cortar sua cabeça. E, assim, o terrível monstro que devoraria a princesa Emma foi liquidado. 

  Micky libertou Emma das correntes e desceu com ela para o palácio dos pais dela. 


- Aqui está sua filha, Majestades! Sã e salva! - exclamou ele.

- Somos eternamente gratos. - disse o rei. - E pode desposá-la. 

- Se ela quiser, é claro. - interveio a rainha. Não queria que sua filha sofresse, nunca mais. 

- Eu quero, mamãe. - Emma sorriu e abraçou e beijou Micky.



  Houve uma grande festa para celebrar o casamento de Micky com a princesa Emma. Por um momento, pareceu que tudo estava indo por água abaixo, pois um antigo pretendente, um covarde que não fizera nada para tentar salvar Emma do monstro, apareceu reivindicando-a como noiva. E trouxe um exército com ele. 

   Mas Micky não hesitou um segundo antes de puxar a cabeça da Medusa do bornal e petrificar o pretendente rejeitado e seu exército. Assim, a festa transcorreu sem problemas. 

   Poucos dias depois, Micky e Emma aportavam em Serifos. George e Janelle ficaram felicíssimos ao ver o filho voltar vivo de sua jornada, e ainda por cima casado. 

   Micky foi até o rei de Serifos e depositou o bornal com a cabeça da Medusa aos pés dele.


- Abra, Majestade. - disse Micky. 



   O rei, achando que a cabeça da Medusa não podia mais transformar em pedra após cortada, abriu o bornal… E assim foi petrificado. 

   George Dolenz voltou ao trono que era dele por direito, casou-se com Janelle, por quem estava apaixonado fazia 20 anos, e Micky e Emma formavam um casal feliz.

   Mas, como ninguém pode escapar ao destino, Micky acabou cumprindo o que o oráculo previra, anos antes de ele nascer, embora sem querer. Um dia, ele foi participar dos jogos em Olímpia. Ao participar de uma prova de lançamento de disco, o rapaz lançou o disco tão longe que ele caiu aos pés de um velho homem que assistia às provas. O disco de bronze, muito pesado, acabou provocando um grande corte nos pés do homem. Tentaram de tudo para salvar o homem, mas ele não resistiu ao sangramento. Micky ficou arrasado. E só então descobriu que aquele era o velho rei de Argos… Seu avô. 

  Micky se tornou rei de Argos, ele e Emma tiveram muitos filhos e foram felizes juntos. Ele foi um rei justo e bom, e um valoroso herói. Mas, internamente, não se perdoava pelo que o destino o obrigara a fazer contra o avô…


      





sábado, 4 de junho de 2022

Little Girl (Fairy Tale)

 Boa tarde! Hoje faço minha primeira publicação de 2022. Essa é uma fic da série Fairy Tale que eu escrevi há muito tempo, acho que em 2017 ou 2018, e ficou esquecida no meu Google Docs até hoje. É bem simples, inspirada no conto da Polegarzinha. Espero que vocês gostem mesmo assim! Boa leitura! 



  Há muito tempo, havia um casal chamado Lawrence e Susan Mackenzie. Eles tinham um filho, um menino chamado Giles. Contudo, Susan sonhava ter uma filha, e rezava todos os dias pedindo a Deus que lhe desse uma filhinha.

   Um dia, uma fada veio até Susan, e lhe deu um grão de cevada, dizendo à mulher que o plantasse. Assim Susan fez, e depois de algum tempo, brotou uma flor. A flor se abriu, revelando uma linda menininha, do tamanho de um polegar. Apesar de ela ser tão pequenina, Susan estava muito feliz. Tomou a menininha em sua mão, e fez um bercinho diminuto para ela. Lawrence e Giles também se encantaram pela bebê, que recebeu o nome de Dianna.

    O tempo passou, e Dianna fez doze anos. Porém, ela continuava muito pequena, do tamanhinho de uma fadinha. Ela gostaria muito de ter o tamanho de uma pessoa normal. Tudo era muito difícil quando se era tão pequena. E ela chorava de tristeza por isso.




- Não fique triste, querida. - dizia Susan, pegando Dianna na mão para evitar que ela literalmente se afogasse nas próprias lágrimas. - Seu pai, seu irmão e eu a amamos muito, mesmo que você seja assim pequenina.

- Mas eu não conheço ninguém do meu tamanho… Que saiba como é difícil ser minúsculo.



   Uma noite, quando Dianna dormia em sua caminha, um sapo entrou pulando pela janela do seu quarto, e raptou a menina, com caminha e tudo.

    Quando ela acordou, viu-se sobre uma folha, descendo pela correnteza de um rio. Ao ver o sapo, deu um berro, e indagou:



- O que está fazendo? Para onde está me levando?

- Quero casar você com o meu filho.

- Me solte! Sou muito nova para me casar, e eu sou uma pessoa, não uma sapinha!

- Meu filho Peter vai gostar de você. - o sapo respondeu, simplesmente.

- Eu quero ir embora! - Dianna protestou, mas o sapo continuava irredutível. A menina chorou muito, esperando que com isso ele se sensibilizasse e a libertasse. 


    

    Mas não adiantou. Dianna pensou em pular da folha, no entanto, ela poderia se afogar, pois era muito pequena. Enquanto pensava em alguma alternativa, dois peixes se aproximaram e disseram, baixinho, para o sapão não ouvir:


- Não se desespere, menina. Vamos ajudar você.

- Vamos distrair o sapo e depois empurrar a folha para bem longe.



     

   Um dos peixinhos lançou para longe uma pedra. O sapo, que não era lá muito esperto, acreditou que se tratasse de uma mosca, e pulou da folha para persegui-la. Com isso, os peixinhos puderam empurrar a folha para bem longe dali, empenhando o máximo de sua força nisso.


- O velho Noone é muito burro mesmo. - riu um dos peixinhos. - Qual o seu nome, menina?

- Dianna. 

- Eu sou Michael, mas me chamam de Mike. E esse é meu amigo, seu nome também é Michael, mas o chamam de Micky. 

- Muito prazer. - a garota sorriu para os peixinhos.



     Depois de um bom tempo sendo empurrada rio acima, contra a correnteza, Dianna percebeu que seus amigos estavam ficando cansados. Entretanto, ela ainda queria voltar para a casa de seus pais. Então, ela viu uma bela borboleta, de grandes asas, e indagou:



- Senhorita, poderia puxar esta folha pelo rio de volta a minha casa?

- É claro. - respondeu a borboleta. - Eu sou Alice, e você?

- Dianna.



     A menina prendeu a haste da folha à borboleta, e ela foi voando e deslizando a folha pela água, com leveza.


- Adeus, Mike e Micky! E muito obrigada! - Dianna exclamou para os peixes.

- Até mais, Dianna, e boa sorte!



    

      Porém, quando Alice estava quase levando Dianna para a margem do rio, um besouro veio voando e levou a menina. Foi pousar num galho de árvore, onde havia outros três besouros.



- Que é que você tem aí, John? - quis saber um dos outros três besouros.

- Uma fêmea, Paul. - respondeu ele.

- Fêmea? - Dianna protestou. - EU SOU UM SER HUMANO, NÃO UM INSETO CASCUDO E FEIO!

- Cascuda não é, mas também é feia, não é mesmo, George? 

- Tem razão, Ringo. Se ela é uma fêmea de besouro, é a mais estranha que já vi. Não tem asas, nem antenas, e só duas pernas!

- É, você é mesmo estranha. - concordou John, olhando um pouco mais atento para Dianna. - Vai embora. Xô!



       Dianna ficou triste por ser chamada de esquisita, mas não fez nenhuma objeção a ir embora. Ela desceu pelo tronco da árvore, e seguiu seu caminho.

       A garota se sentia cada vez mais deslocada. Sua família a amava, mas eles não conseguiam entender como era a vida de alguém tão pequeno. E os seres pequeninos também pareciam não a aceitar assim tão bem.

      Ela encontrou uma árvore oca, que poderia servir muito bem como abrigo. Subiu até o buraco da árvore, forrou-o com muitas folhas e ficou morando ali, se alimentando de frutinhas e arranjando brigas feias com os animais que comiam as mesmas coisas que ela. Alguns esquilos até mesmo roubavam as nozes que ela conseguia juntar.

    Chegou o inverno e com ele a falta de alimento. Dianna precisou ir para outro lugar para encontrar o que comer. Andou, andou e andou, até que achou a toca de uma rata do campo. Pediu à rata, educadamente:


- Por favor, teria algo para eu comer? Estou morrendo de fome, não consegui achar comida no lado da floresta de onde eu vim.

- É claro, entre. Meu nome é Emma, e o seu?

- Dianna.



      A garota entrou, muito agradecida, e a ratinha cuidou dela muito bem. Alimentou Dianna e fez novas roupinhas para ela, pois as suas estavam esfarrapadas.

    Alguns dias depois, um vizinho muito rico de Emma veio visitá-la. Era uma toupeira e se chamava Peter. Ele ouviu Dianna cantarolando enquanto limpava a toca da ratinha, e ficou encantado por ela.

     Ele passou a visitar Emma e Dianna praticamente todos os dias, e após algumas visitas, tomou coragem e disse a Dianna que estava apaixonado por ela.


- Sr. Peter, eu fico lisonjeada pelo seu sentimento por mim, mas… Eu sou uma pessoa. Não… Não sou como você. - disse a garota.

- Isso não importa para mim. - respondeu a toupeira, categoricamente.



   

   Mesmo assim, Dianna sabia que jamais conseguiria corresponder ao amor de Peter. Ela sonhava secretamente conhecer outras pessoas pequeninas como ela, embora, muito provavelmente, fosse a única.

   Poucos dias depois, Peter convidou Dianna e Emma para um passeio, e disse:



- Só peço que não se assustem com a andorinha morta no meio do caminho.




      Após o passeio, Dianna voltou aonde tinha avistado a andorinha e colocou o ouvido em seu peito. Não estava morta, apenas desacordada. A garota cuidou da andorinha, que se chamava Louise, e elas se tornaram grandes amigas. Quando chegou a primavera, Louise foi embora, prometendo voltar na próxima primavera. 

     E assim foi. Várias primaveras passaram, e Dianna já não era mais uma menina, e sim uma jovem mulher. E ela continuava diminuta.

    Mais do que nunca, Peter, a toupeira, queria tornar Dianna sua esposa. Pediu-a em casamento, e Dianna, sem saber como dizer não, acabou aceitando o pedido. Emma ficou muito contente por sua amiga de tanto tempo, e ela mesma se encarregou de costurar o vestido de noiva e o enxoval, auxiliada por várias aranhas. 

     Dianna estava muito triste. Não queria ter que viver numa toca debaixo da terra. Mas não tinha solução. Seu único consolo era saber que em breve a sua amiga Louise estaria de volta.

     Na véspera do casamento, Louise finalmente chegou. E ficou muito preocupada ao ver Dianna tão triste.



- O que houve, Dianna?

- Aceitei me casar com Peter, nosso vizinho. Mas eu não quero morar debaixo da terra, só aceitei porque fiquei com pena. E não o amo, afinal… Ele é uma toupeira e eu sou uma pessoa. Eu queria tanto conhecer outras pessoas pequenininhas… Mas devo ser a única.

- Eu vou levar você para longe. E você vai ser muito feliz lá!

- Ah, Louise, obrigada, mas e Emma? E Peter?

- Eles vão entender. - garantiu Louise com um sorriso. - Vamos?

- Vamos!



  

   Dianna subiu nas costas da andorinha, que levantou vôo. Elas voaram por horas, até que Louise finalmente pousou, colocando Dianna sobre uma margarida.



- É aqui. - disse Louise, ofegante pelo cansaço.

- Onde estamos? - quis saber Dianna, olhando ao redor e não vendo outra coisa que não fossem flores, flores até onde a vista alcançava e além.

- O reino das flores. - respondeu a ave.

- O reino das flores? - Dianna ia pedir mais informações, contudo, no mesmo momento, percebeu um pequeno vulto em uma flor um pouco distante de sua margarida, e um ronco baixo. - Tem alguém ali! - ela exclamou, andando com cuidado entre as flores até o vulto.




    Louise sorriu. Era exatamente isso que ela queria. Qual não foi a surpresa de Dianna quando viu o que era o tal vulto! Era um rapaz adormecido, tão transparente que parecia feito de cristal, alado e… Pequenino como Dianna. 



- Eu… Eu pensei que eu fosse a única pessoa desse tamanho! Ele não é lindo? - Dianna suspirou, encantada.

- Sabia que seria boa ideia trazer você para cá. - Louise riu, e foi embora. Agora era a vez de sua amiguinha.



    Dianna continuou a observar o rapaz alado, indagando-se se não era um anjinho minúsculo. E suspirou um pouco alto demais, acordando-o.

    Envergonhada, ela se escondeu entre as pétalas de uma rosa repolhuda. O rapaz acordou, e olhou por todo lado, procurando quem havia suspirado.

     E deparou-se com um par de mãozinhas agarrando a ponta de uma pétala de rosa. Intrigado, ele voou até a flor e olhou lá dentro. Viu uma jovem mulher agachada, e disse:



- Olá! O que está fazendo escondida aí dentro?




      Dianna, mais vermelha que as pétalas, ergueu os olhos para ele. 



- Eh… Olá.

- Quem é você?

- Eu… Eu sou Dianna.

- Muito prazer. - disse o rapaz, estendendo a mão para Dianna e fazendo-a ficar de pé no interior da flor. - Eu sou Davy, o rei das flores. - e beijou a mão dela.

- O prazer é todo meu. - disse ela, ainda corada, e encantada pelo rei das flores.

- Não quero ser atrevido, mas você é a coisinha mais linda que já vi. - disse Davy, sem soltar a mão da garota.

- É, hã… Obrigada. - Dianna sorriu, tímida.

- Quer se casar comigo? - ele perguntou, para o grande espanto de Dianna.

- E você disse que não queria ser atrevido. - ela gracejou. - Mas… Sim. - e deu um lindo sorriso. Com certeza ele seria um marido muito melhor para ela do que a toupeira.



     Dianna se casou com Davy e foi coroada a rainha das flores. Ganhou do marido uma pequena coroa, e dos súditos dele, um belo par de asinhas brilhantes e transparentes como as do povo das flores.

   Agora, ela podia voar, vivia com pessoas do seu tamanho, que a entendiam, e tinha alguém para amar. Ela não podia estar mais feliz.


segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Grindhouse Drabbles - Mary Anne McCartney


                                    True Love


  Mary Anne McCartney saiu da escola apressada. Ela tinha um encontro marcado naquela tarde. 

    Bom, não deveria ter, se dependesse de seu pai e seu irmão mais velho, Paul. Mas seu outro irmão, Michael, disse que iria acobertá-la. 

     A adolescente de 16 anos estava apaixonada por George Harrison, um dos melhores amigos de seu irmão Paul, que tocava com ele na sua banda, os Beatles. Mary Anne estava desesperada. Os Beatles embarcariam para uma temporada de shows em Hamburgo, Alemanha, em breve, e ela não podia deixar que sua paixão fosse embora sem ao menos beijá-lo uma única vez. 

   Mary Anne e George se conheceram quando ele tinha 14 anos, e ela, 13, na primeira vez em que George foi à casa dos McCartneys. Ambos eram tímidos, e a marcação cerrada de Paul, que concordava com a determinação do pai de que Mary Anne não deveria namorar antes dos 18 anos, impediu que eles ousassem mais do que trocar olhares e sorrisos nos ensaios e shows dos Quarrymen, que mais tarde se tornaram os Beatles.

 Havia alguns meses, porém, que os dois adolescentes apaixonados passaram a trocar bilhetes e cartas de amor, entregues secretamente por Michael. Paul e o Sr. McCartney não podiam desconfiar. 

 Ela chegou ao local onde ela e George marcaram seu encontro. Ele já estava lá, em sua jaqueta de couro, o figurino completo de teddy boy, com topete e tudo. Sorriu para Mary Anne ao vê-la. 


- Temos que ser rápidos, George. - disse ela. - Se meu pai e meu irmão descobrirem, matam você. 

- Eu não acho que Paul faria isso, ou vão ficar desfalcados para os shows em Hamburgo. - ele riu. 

- Não brinque, George, eu tenho uma pergunta séria para te fazer. 

- Então faça, Mary Anne.



      A menina olhou no fundo dos olhos do garoto e perguntou: 


- George, você gosta mesmo de mim? 

- Que pergunta, Mary Anne! - George estava genuinamente espantado. - É claro que sim! 

- Então me beija… antes que você vá para Hamburgo, se apaixone por uma menina alemã e se esqueça de mim…

- Eu nunca poderia me esquecer de você, Mary, mesmo que quisesse. - disse ele, e atendeu ao pedido dela.


   Era o primeiro beijo de Mary Anne. E foi tão perfeito quanto ela sempre imaginou, talvez até mais. Mas como o tempo era curto, não podia ficar por muito mais tempo com seu amor. 


- Eu preciso ir, Joj. 

- Eu sei, ou seu pai vai ficar uma fera. Até logo, Mary Anne. - ele a beijou na testa. 

- Até logo, George. Se não nos vermos antes de você embarcar para a Alemanha… Boa sorte. Talvez sejamos muito jovens para dizer isso com tanta certeza, mas eu te amo… 

- Eu também te amo, Mary Anne. E juro que um dia vou ser seu marido.

- E teremos quatro filhos, duas meninas e dois meninos. - Mary Anne sorriu. 



  George e Mary Anne se despediram. Os Beatles foram para Hamburgo poucos dias depois. Dois anos mais tarde, Mary Anne foi estudar na Universidade de Oxford. Só voltou a ver George após se formar, em 1965, quando os Beatles estavam no auge. E foi então que o casal revistou aquele amor adolescente, que resistiu ao teste do tempo e da chegada da idade adulta, apesar dos outros relacionamentos que tiveram no meio-tempo. 

   E de fato, em 1966, George se tornou o marido de Mary Anne. Um ano depois, ela deu à luz o primeiro filho do casal, George Jr. A ele se seguiram duas meninas: Elizabeth, em 1969, e Corina, em 1971. Mary Anne achou que seu desejo de ter duas filhas e dois filhos não se realizaria, até que nasceu Dhani, em 1978. E Mary Anne e George viveram felizes e apaixonados, até que a morte os separou, em 29 de novembro de 2001.

   


segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Lay All Your Love On Me (What If)

 Olá! Voltamos com mais uma fanfic, dessa vez, da série "Casais Improváveis". Esse ship já foi sugerido no meu último drabble... Espero que gostem da leitura! 








  Eric Idle estava numa maré de azar no amor. Nos últimos dois anos, apaixonara-se por duas mulheres, mas nenhuma correspondeu aos seus sentimentos. A primeira foi Louise McGold, sua amiga atriz que fazia o papel de Catherine Earnshaw na série da BBC de O Morro dos Ventos Uivantes. O problema era justamente que Louise só via Eric como um amigo. Na época em que Eric se apaixonou por Louise, ela estava tendo um tórrido affair com Timothy Dalton, seu colega de cena. 

  O affair acabou tão rápido quanto começou, mas Eric nem teve tempo de comemorar, pois Louise logo se viu dividida entre o piloto de fórmula 1 James Hunt e o jogador de futebol alemão Gerd Müller. Sabendo que jamais poderia entrar na disputa, Eric deixou os sentimentos por Louise de lado. 

   Então Eric logo se viu apaixonado por Fanny Fitzwilliam, a "sétima Python". Fanny era professora de geografia e trabalhava numa escola próxima dos estúdios da BBC. Ela havia se formado em Cambridge, como Eric e seus amigos John Cleese e Graham Chapman. Eric conheceu Fanny ainda em Cambridge, quando ela assistia às apresentações dos Footlights, o tradicional grupo de comédia de Cambridge, do qual Eric era o presidente na época. 

  Anos depois, reencontrou-a em Londres e Fanny logo se tornou uma amiga íntima dos Pythons. Tão íntima que eles sempre davam um jeito de incluí-la nas esquetes. John e Graham até mesmo criaram uma personagem recorrente para Fanny. Conhecida como Lovely Girl, a personagem invadia as esquetes e as interrompia beijando algum dos homens no rosto, normalmente o personagem de Eric. Ele sabia perfeitamente bem que isso era uma provocação dos amigos, pois eles sabiam que Eric sempre tivera uma quedinha por Fanny. Mas ela não parecia perceber nada, só achava engraçado.

     De todos os Pythons, Eric era o mais íntimo e querido de Fanny. Tanto que ele foi o único para quem ela fez uma confidência: 


Eu amo Allan… - Allan Clarke, vocalista dos Hollies, era o namorado de Fanny. - Mas… Eu nunca contei isso para ninguém além da minha irmã, Elinor, e da minha prima, Emily… 

O que foi, Fanny? - Eric estava intrigado. 

Apesar de amar Allan, eu também amo outro homem. Meu melhor amigo. Bob Dylan. 


  Eric não sabia o que fazer com essa informação. Se o próprio namorado de Fanny corria risco de perdê-la para Bob Dylan, quem dirá ele, que era só um amigo? 

  Pouco tempo depois, Fanny foi pedida em casamento por Allan e aceitou. Eric suspeitava que talvez ela estivesse de todas as formas tentando fugir de seus sentimentos por Dylan. Ou talvez ela realmente amasse Allan e Dylan não fosse mais do que seu melhor amigo agora. Eric só queria que ela fosse feliz. Mas não conseguia evitar sentir que jamais seria amado por nenhuma mulher…


                                         *** 


   Fanny de fato havia aceitado o pedido de casamento de Allan. Mas estava longe de ter certeza se essa era a decisão certa. Gostava de Allan, ele era um namorado carinhoso e atencioso. Porém, já fazia algum tempo que percebia que seus sentimentos por ele haviam mudado. Ela nem sequer sabia explicar quais eram, mas certamente não eram sentimentos que se poderiam esperar de uma mulher a respeito do homem com quem aceitou, de livre e espontânea vontade, casar-se.

   Seus sentimentos em relação ao seu melhor amigo, Bob Dylan, também haviam mudado. Fanny ainda o amava, jamais deixaria de amar Bob. Apesar disso, seu amor por ele era agora fraternal. Bob, às vezes, era muito complicado, além de alguns anos mais velho. Nunca dariam certo como um casal. Mas como amigos, quase irmãos, davam mais do que certo. E era assim que continuariam. Fanny não queria que as coisas com Bob mudassem de jeito nenhum.

 Os sentimentos de Fanny estavam numa verdadeira revolução ultimamente. A maior mudança havia acontecido nos seus sentimentos por seu amigo mais próximo entre os membros do Monty Python, Eric Idle. Todos os Pythons eram-lhe muito queridos. Porém, as gentilezas e a doçura de Eric superavam as dos demais, e quase todos os dias a jovem ia visitá-los na BBC, aguardando ansiosamente para conversar com ele, e torcendo para Graham e John terem incluído a personagem da Lovely Girl na esquete, para poder beijá-lo, sob o pretexto perfeito da atuação cômica.

   Trabalhava de manhã contando as horas para o expediente fechar e ela poder ver seus amigos na BBC, seu coração palpitando de expectativa só de pensar no sorriso de Eric, capaz de derreter os corações mais duros. Sabia que ele a rodearia de atenções, como sempre. Sorria sozinha ao pensar nisso. 

  Mas não tinha coragem de contar a ninguém sobre o que se passava em seu coração. Nem a Elinor, nem a Emily, muito menos a Bob. Ser honesta com Allan e romper o noivado era impensável, sofria só de pensar em fazê-lo sofrer. Os preparativos para o casamento estavam indo de vento em popa e o dia fatídico estava cada vez mais próximo. Ela tinha que agir. 


                                     *** 


   Uma semana antes do casamento, os Pythons saíram para beber após mais um dia intenso de gravações. Graham Chapman, John Cleese, Michael Palin e os dois Terrys conversavam e riam animadamente, entre um gole e outro de cerveja. Eric, porém, estava muito quieto, e os amigos não podiam deixar de perceber.


O que você tem, Eric? - quis saber Michael, preocupado. - Está doente? 



 Eric bebeu longamente de seu caneco de cerveja e, em vez de responder Michael, chamou o garçom e pediu mais um. 


Anda, Eric, desembucha. - Terry Jones insistiu. 

Vocês não percebem? - Graham falou, em seu típico tom sério que enganava quem não sabia que ele era um comediante. - É claro que ele está doente. Doente de amor.

Doente de amor? - repetiram os outros. 

Fanny vai se casar em uma semana, esqueceram? 

Sim!! - Eric exclamou em tom lamentoso. - A garota dos meus sonhos vai se casar com outro cara! Se ao menos fosse o Dylan, eu entenderia, mas esse Allan Clarke… Ela nem o ama tanto assim, ela me falou…

Então você gosta mesmo da Fanny? Achei que você só quisesse dormir com ela… - Gilliam disse.

Eu amo a Fanny!!! - Eric já estava começando a se embriagar. - Eu amo a Fanny mais do que jamais amei qualquer outra mulher! Não sei o que vou fazer agora que vou perdê-la para sempre...

Mas, Eric… - John interveio. - Você nunca disse a ela que a ama, não é? 

Não… - Eric murmurou. 

Então não pode dizer que a perdeu. 

Ajudou muito, Cleese, prêmio de amigo do ano pra você. - Michael debochou. 

Já que nós fomos convidados para o casamento, por que você não se pronuncia na hora do "que fale agora ou cale-se para sempre", Eric? - sugeriu Jones. 

Terry, eu sou um comediante, mas não vou me prestar a esse papel ridículo. - Eric bebeu mais um longo gole sôfrego de cerveja. - Mesmo porque Bob Dylan deve ter pensado nisso também… A humilhação vai ser grande demais… 

E você vai ficar aí chorando, em vez de lutar pelo amor dela? - Graham provocou. 

Vou… 



    Os Pythons não sabiam mais o que sugerir para ajudar Eric. Apenas procuraram evitar que ele bebesse demais. 


                                          *** 



  O dia do casamento chegou. Fanny se arrumava para a cerimônia, tentando aparentar a expectativa e alegria de uma noiva. Era auxiliada por Elinor e Emily, além de sua mãe. Fanny queria mais do que tudo se abrir com a irmã e a prima, mas não conseguia. O que pensariam dela depois que executasse seu plano? Seu coração se apertava ao pensar na reação de Allan, mas não podia continuar daquele jeito. Só traria mais sofrimento para todos no longo prazo. Era melhor arrancar pela raiz. 

  Finalmente chegou a hora do casamento. Fanny aguardava para entrar na igreja, de braço dado com o pai. Só conseguia pensar no que faria logo em seguida. Não importava o que ninguém diria. Só importava que ela seria verdadeira consigo mesma. 

  As portas da igreja se abriram. Todos os olhares se voltaram para a noiva. Eric perdeu o fôlego ao olhar para ela. Os longos cabelos negros, os grandes olhos azuis, os delicados lábios rosados. Fanny estava séria, parecia uma pintura. Não só Eric, mas também Bob Dylan, se perguntaram o que passava na cabeça dela. Uma noiva deveria irradiar felicidade, e não era exatamente isso que Fanny transmitia naquele momento. Um ousou alimentar esperanças, mas outro sabia que estava derrotado. E ambos pensavam se deveriam tomar coragem de intervir… 

   Fanny foi entregue a Allan pelo pai. Os noivos se ajoelharam diante do padre. A noiva continuava séria, apenas dando um pequeno sorriso para Allan. "Será que ele percebeu?", pensava ela, tentando encontrar dentro de si a coragem necessária para o que precisava fazer. Então o padre começou o cerimonial: 


Estamos aqui reunidos para celebrar a união entre Frances Elizabeth Fitzwilliam e Harold Allan Clarke. Frances Elizabeth, você aceita Harold Allan como seu legítimo esposo, para amá-lo e honrá-lo, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza, até que a morte os separe?



     Fanny respirou fundo. O fato de que ela não respondeu imediatamente preocupou a todos. Bob Dylan estava sentado na beira de seu assento. Eric não tirava os olhos de Fanny. E então, finalmente: 


Não. 



      A igreja inteira se espantou. Os convidados, o padre e principalmente Allan. 


Fanny? O que… o que eu fiz de errado? - Allan parecia destruído. 

Allan, eu sei que é clichê, mas você não é o problema, sou eu. Eu.. eu não amo mais você. Já faz algum tempo que percebi que amo outro… Eu deveria ter sido honesta. Desculpa. 


 

   Fanny tirou o véu e desceu do altar. Todos continuavam chocados. Allan se virou na direção de Dylan. 


Você venceu, Dylan. Fanny é sua. 



    Dylan se ergueu no banco, acreditando que sua amada era finalmente sua. 



Bob… - Fanny pegou a mão dele. - Você é o meu amigo mais querido. Eu te amo… Mas como a um irmão.



        Ele não pôde disfarçar sua surpresa. 



Fanny, se não é por minha causa que está recusando o casamento… Quem é ele? Ele está aqui? 

Sim. - Fanny soltou a mão de Bob e caminhou até os bancos onde estavam os seus amigos Pythons. 



      O coração de Eric estava disparado no peito. Será que… Não, não podia ser… Ela devia estar apaixonada por Michael… 


Eric. - ela abriu um grande e doce sorriso para ele. - Eu não deveria ter levado tanto tempo para dizer que amo você. 



    Ele estava incrédulo. Seus olhos estavam ainda maiores.


Fanny? Você é muito engraçada, mas isso não é hora de piada… 

Não é piada, seu palhaço! - ela ficou na ponta dos pés e o beijou diante de toda a igreja. - Eu te amo, Eric Idle! Nunca conheci um homem mais adorável em toda a minha vida. E eu sei que… Você também me quer, não é? 



      Eric mal conseguia falar. Ele colocou as mãos na cintura de Fanny, relutante. 



Fanny, eu… Eu quero você mais do que qualquer coisa nesse mundo! Eu te amo… 



    Ela sorriu para ele. Teria que explicar tudo aos seus pais, pedir desculpas a Allan e sua família, cancelar a festa… Mas estar ao lado de Eric agora tornava tudo mais fácil. 

      

                                       *** 



    Aquela foi uma longa noite. Mas, por incrível que fosse, Allan foi compreensivo. Apenas lamentou que Fanny não tivesse sido sincera antes. Ele tentaria apaziguar os ânimos de sua família. 

 Os Pythons decidiram comemorar o "não-casamento" de Fanny. Foram todos para a casa de Graham Chapman. Ele e seu namorado, David Sherlock, preparam um jantar tardio para todos e várias bebidas foram consumidas. Eric e Fanny não se largavam um único segundo. Ela acariciava os cabelos ondulados dele, ele beijava sua testa afetuosamente. Até que todos, fartos de comer e beber, começaram a se recolher para os vários quartos da casa. 

    Fanny e Eric, entre langorosos beijos, entraram num dos quartos. Lá, se entregaram ao amor e ao desejo acumulados havia tanto tempo, certos de que um futuro de muita felicidade os aguardava.




quinta-feira, 3 de junho de 2021

Grindhouse Drabbles - Fanny Fitzwilliam

 



Grindhouse Drabble 1 - And Now For Something Completely Different



        Apesar da minha clara tendência à introversão, sempre tive facilidade para fazer amigos. Meus amigos mais antigos são minha irmã, Elinor, e nossos primos, John e Emily. No entanto, só conheci aquele que se tornaria meu melhor amigo já adulta, quando fui visitar meu então namorado, Paul Simon, na América. 

      Numa certa ocasião, Paul me apresentou a ele, o poeta, o trovador, o vagabundo: Bob Dylan. Naquela época eu era uma ardorosa fã de Bob e jamais sonharia me tornar sua melhor amiga. Porém, Bob e eu começamos a conversar e nos entrosamos melhor do que eu jamais poderia imaginar. Tão jovem, ele já atingira o status de gênio  e lenda. E me dizia que eu possuía doçura e inteligência raramente vistas. Os sentimentos de Bob chegaram a evoluir para algo mais forte do que amizade... Bob, eu também te amo. Mas não podemos ficar juntos. Temo não darmos certo e nossa amizade se perder para sempre. E eu prefiro morrer a deixar de ser sua amiga.  

        Ainda na América, fiz amizade com os Monkees. Fofos e divertidos, a companhia deles me faz muito bem. Mas sei que eu e eles jamais teremos a cumplicidade que tenho com minha irmã, meus primos ou Bob. 

          Voltei para a Inglaterra, para as aulas em Cambridge. Uma tarde, após a aula, fui ver uma esquete cômica que um grupo de alunos de Letras encenava no anfiteatro. Lá, encontrei Felicity McGold, outra amiga, que conheci numa greve estudantil. Ao fim da esquete, fomos conversar com os alunos que a encenaram. Voltei várias vezes para outras apresentações, até que um dia as esquetes não foram mais encenadas, pois o grupo obteve a graduação e foi embora. 

         Anos passaram e eu já não pensava mais no grupo cômico, embora lembrasse com nostalgia os tempos em que eles ainda estavam na universidade. Hoje, sou uma professora de Geografia em uma escola de ensino fundamental próxima dos estúdios da BBC. Estou feliz com meu namorado, Allan Clarke, vocalista dos Hollies. Bob ainda é meu maior e mais amado amigo. E agora minha lista de amigos aumentou. 

             Certo dia, eu saía da escola após o expediente, quando ouvi uma voz masculina um tanto aguda me chamar: 


- Ei, Frances Fitzwilliam!


            Virei-me na direção da voz. É muito estranho alguém me chamar de Frances. Será que era mesmo comigo, e não com outra Frances Fitzwilliam? 

             Quem me chamou era um rapaz louro, com uma carinha muito adorável, e uma expressão meio amalucada. Por algum motivo, ele me pareceu familiar. 


- Você é Frances Fitzwilliam, não é? - perguntou ele, agitado. 

- Sim, sou eu, mas...

- Eric Idle. De Cambridge, lembra? 


             É claro! Ele era um dos estudantes que encenavam as esquetes! Sorri para ele ao reconhecê-lo. 



- Claro que sim! - apertamos as mãos. - É um prazer te ver de novo, Eric.

- O prazer é meu, Frances. 

- Pode me chamar de Fanny. Eu prefiro. 

- Ok, então, Fanny. Escuta... Estaria interessada em atuar em uma esquete cômica? 

- Esquete cômica? - repeti, intrigada.

- Sim... Eu e os rapazes... Os mesmos que faziam as esquetes comigo na universidade... Graham, John, Michael... Bem, nós temos nosso próprio programa na BBC agora. 

- Mas isso é ótimo, Eric! - exclamei. 

- Bem... Obrigado. - ele corou. - O que eu gostaria de saber... Hã... Precisamos de uma garota para participar de uma esquete, mas a atriz que normalmente colabora conosco ficou doente de repente. Pode nos ajudar? 


               Eu? Atuar, ainda mais numa esquete cômica? Seria um fracasso. 


- Sinto muito, Eric. Nem mesmo em peças escolares eu atuei. Vou ter que deixar você na mão.

- Mas você só deve ter umas cinco falas na esquete toda. E são simples. Por favor, Fanny... O pessoal da BBC já estão no nosso pé. Temos que finalizar esse episódio, no mais tardar, amanhã. 

- Bem... Ok, vai. 


           Assim, eu fui até os estúdios com Eric e atuei como a acompanhante de Graham na esquete do garfo sujo, que integrava o episódio 3 da primeira temporada do Flying Circus

          Como eu trabalhava próximo dali, frequentemente ia ao estúdio, por convite dos rapazes, para ver os ensaios e gravações. Eu me divertia com as palhaçadas deles, em frente às câmeras e por trás delas também. Logo nos tornamos amigos. Cleese e Gilliam não eram muito próximos de mim, mas Graham, Terry, Michael e Eric eram uns amores, principalmente esse último. 

           Quase todos os dias, dois deles vinha me buscar após o trabalho para vê-los no estúdio. Sempre vinham Eric e mais alguém. Um dia, porém, Eric veio sozinho. E trazia flores. 


- Olá, Eric. - cumprimentei-o, alegre. - Para quê essas flores? E onde estão Michael, Graham, Terry? Não puderam vir? 

- Ah... Oi, Fanny. É que... Hum, estava pensando... Não gostaria de almoçar comigo? Sabe... Queria ficar a sós com você um pouquinho, e naquele estúdio jamais conseguiria isso. Além de que os caras fariam piada comigo. 


          Ah, não. De novo não. Já tinha visto esse filme, três anos antes. E, diferentemente do meu caso com Bob, eu realmente não sentia nada desse tipo pelo Eric. Ele era adorável e muito legal, mas só isso. Provavelmente não conseguiria pregar o olho à noite por tê-lo magoado, mas não havia outro jeito. 


- Eric... Eu fico lisonjeada por saber que você gosta de mim dessa maneira. E você è um dos caras mais fofos e legais que eu já conheci, mas...

- Mas você não gosta de mim da mesma maneira. Tudo bem, Fanny. 

- Eu poderia gostar, mas... É que eu já tenho namorado. - "E ainda tem o Bob", completei em meus pensamentos. 

- Oh! - ele estava genuinamente surpreso. - Fanny, eu... Eu lamento. Se eu soubesse que você tinha um namorado, eu jamais...

- Mas a culpa não é sua, Eric, é minha. Eu nunca mencionei o Allan para vocês. Você não tinha como saber. 


            Ficamos mergulhado naquele silêncio constrangido por uns poucos minutos. Eu o quebrei. 


- Mas... Eu aceito almoçar com você, Eric. Como amigos.


             Ele ainda ficou silencioso por uns instantes, contudo logo respondeu: 


- ... Claro, Fanny. Aceite as flores também. São um presente de um amigo. 

- Eu aceito sim, Eric. E agradeço muito. 


          Posso dizer, com muita alegria e orgulho, que sou amiga do sexteto mais excêntrico da Inglaterra. Principalmente de Eric Idle.