domingo, 29 de janeiro de 2023

Beautiful Girl (Fairy Tale)


Boa noite! Hoje temos nossa primeira postagem de 2023, e é mais uma oneshot da série Fairy Tale! O conto adaptado de hoje? Branca de Neve e Os Sete Anões. Espero que gostem! Boa leitura! 



 


Fairy Tale: George e Mary Anne (Branca de Neve)



   Há muito tempo, num reino distante, vivia um jovem príncipe chamado Paul. Ele contava os dias para completar 21 anos de idade e poder assumir o trono de seu pai, que morrera um ano antes. Enquanto Paul não subia ao trono, o reino era governado pela jovem rainha viúva. 

 A rainha, Patricia, era só um pouco mais velha que Paul e seus irmãos, Michael e Mary Anne, que eram gêmeos. Apesar de Patricia, ou Pattie, ter idade para ser sua filha, o falecido rei encantou-se por ela e a desposou. O casamento, porém,  não durou muito, pois o rei logo veio a falecer. 

 E coube a Pattie, que já tinha mais de 21 anos, assumir o cargo de regente enquanto o príncipe Paul aguardava seu 21° aniversário. 

 Pattie tinha uma beleza incomparável. Os nobres do reino não censuraram o rei por escolher uma esposa como ela. Em seus aposentos, ela tinha um espelho mágico que, quando a rainha lhe fazia a pergunta "Espelho, espelho meu, quem é mais bela do que eu?", sempre respondia: "Ninguém, sois vós a mais bela, Majestade". 

   No entanto, um dia, ao ser novamente perguntado, o espelho respondeu: 


- Famosa é a vossa beleza, Majestade. Porém, há uma menina entre nós, com tanto encanto e suavidade, que eu digo: ela é mais bela do que vós.


 - Quem é ela? Revela seu nome. - ordenou a rainha ao espelho, seu orgulho ferido.


- Lábios como a rosa, cabelos como ébano, pele branca como a neve. 



    A descrição poderia ser de qualquer jovem no reino, mas a rainha logo adivinhou de quem se tratava. 


- Mary Anne! 



   De fato, a princesa a cada dia se tornava mais bela. A rainha e sua enteada, pela proximidade de idade, se davam bem, mas agora Pattie a vigiaria muito de perto. Mesmo porque os interesses pessoais de Pattie estavam envolvidos. 

 Tinha um grande orgulho de sua resplandecente beleza, e além disso… Havia um amigo do príncipe Paul, George, príncipe do reino vizinho. 

  Ele era um rapaz sensível, generoso e atraente e, pelo que se comentava, estava encantado pela princesa. Se dependesse da rainha, ele se casaria com ela, não com Mary Anne. 


***




  Naquela tarde, a princesa Mary Anne estava recebendo a visita do seu pretendente, o príncipe George. Assim como Paul, ela aguardava o dia da coroação com ansiedade, pois, após o irmão se tornar rei, ela poderia se casar.

 Mary Anne era uma jovem inteligente e que gostava de se envolver diretamente na política do reino, embora muitos não considerassem isso adequado para uma princesa. Não que ela se importasse. 

  Por mais madura e independente que fosse, a princesa ainda era uma romântica. Assim, sonhava casar-se com seu príncipe, e já estava ficando impaciente. 

 Os dois caminhavam próximos a um poço que havia no pátio do castelo. George disse, aproximando-se dela:


- Quer saber um segredo, Mary Anne? Promete não contar?



    Ela sorriu para ele.



- Qual segredo, George?



     Ele sussurrou no ouvido dela:



- Estou apaixonado por você. 



      Mary Anne riu. 



Esse é o grande segredo? Eu já sabia. - ela colocou os braços ao redor do pescoço do amado e o beijou. 


- Nunca é demais dizer novamente à minha futura noiva que eu a amo. 



   Pattie observava tudo que se passava no pátio de uma janela dos seus aposentos, e já arquitetava um plano. 


*** 



   A rainha não havia nascido com má índole. Pelo contrário, era conhecida como uma moça doce e bondosa. Sabia que era bela, mas até então, tudo que sua beleza havia-lhe conseguido havia sido um casamento com um rei idoso, em que não foi feliz. 

  Perguntava-se por que o pai, um conde, havia concordado em selar um acordo com o rei oferecendo a mão dela em casamento ao próprio, e não a um dos príncipes, jovens e belos. Porém, o rei faleceu antes mesmo de completarem seis meses de casamento. Pattie já não era mais a mesma. Estava bem mais infeliz do que era antes de se casar. 

  Assumiu o cargo de regente enquanto Paul não podia subir ao trono, e pensava no que aconteceria depois que o enteado fosse coroado. Pensava em casar-se novamente, com outro nobre, mas que desta vez fosse jovem. Só queria buscar sua felicidade. 

   Um dia, Paul recebeu no castelo a visita de um amigo, um príncipe do reino vizinho. Ele se chamava George, era alto, de delicados sentimentos, belo e um exímio tocador de alaúde. 

  O príncipe apresentou o amigo à madrasta e à irmã. Se até então Pattie e Mary Anne tinham uma relação de amigas, a relação acabou ali. Pelo menos no que dizia respeito a Pattie. A jovem rainha apaixonou-se perdidamente pelo príncipe tocador de alaúde, mas todos podiam ver que ele só tinha olhos para a princesa. E que ela correspondia aos seus sentimentos.

 A partir daí, Pattie tornou-se ciosa de sua beleza. Tratava de realçá-la ainda mais com penteados diferentes a cada dia, maquiagem, joias e roupas cuidadosamente escolhidas. Contudo, nada disso parecia surtir efeito. O príncipe George continuava a olhar apenas para Mary Anne, cuja beleza aumentava a cada dia sem que a princesa fizesse esforço algum nesse sentido. 

  No dia em que o espelho finalmente disse-lhe que Mary Anne a havia superado em beleza e que viu sua enteada e seu amado trocando beijos e juras de amor no pátio do palácio, Pattie tomou uma decisão. O ciúme a havia transformado por completo. Decidiu que faria de tudo para livrar-se de Mary Anne e ficar com George.

  Chamou o caçador real e ordenou-lhe que levasse Mary Anne para um passeio na floresta. 


- E lá, meu fiel caçador… você a matará! - exclamou ela, um brilho cruel surgindo em seus olhos. 



    O caçador, impressionado e espantado com a mudança na rainha, protestou: 



- Mas, Majestade! A linda princesa! O que ela lhe fez? Sempre foram amigas… 


- Cale-se! Se falhar, será você quem morrerá!


- Sim, Majestade. - o caçador abaixou a cabeça, resignado. 


- E para eu ter certeza de que não houve falhas, traga o coração dela aqui! - e mostrou uma caixa belamente adornada, com um fecho de ouro imitando um coração transpassado por uma espada. Era uma bela peça, mas que provocou arrepios no caçador. 



    Com o coração pesado, o caçador fez como a rainha havia ordenado. Levou a princesa para um passeio. Mary Anne não entendeu porque precisava que ele a acompanhasse, mas como seu temperamento era avesso a conflitos de qualquer tipo, não disse nada. 

   No meio do passeio, a princesa deparou-se com um filhote de passarinho caído do ninho. Apiedada, ela prontamente se abaixou e ao levantar colocou o passarinho de volta no ninho. Enquanto ela estava de costas, o caçador cautelosamente se aproximou, de faca em punho. 

  Subitamente, ela se virou para ele, e ao ver a faca apontada para ela, gritou assustada. O caçador, vendo que estava prestes a fazer algo horrível, deixou cair a faca e prostrou-se diante da princesa.


- Não posso fazer isso! Perdoe-me, imploro a Vossa Alteza, perdoe-me!


Mas o que está acontecendo? Por que ia me matar? Não estou entendendo… 


- A rainha! Ela se tornou má, invejosa, nada pode detê-la! 

- A rainha! - Mary Anne repetiu, incrédula. Eram tão amigas, Pattie era quase como uma irmã para ela desde quando ficou noiva do rei...



 O que poderia ter motivado tão radical mudança? Então Mary Anne se lembrou de alguns olhares de Pattie para George… Entendeu e lamentou profundamente. 


- Vá, menina! - instou o caçador. - Fuja! Esconda-se na floresta! 



    Atordoada e assustada, Mary Anne atendeu ao apelo do caçador. Correu mata adentro, tropeçando na barra do vestido, amedrontada mas procurando se controlar. Animais da floresta, como coelhos, esquilos e passarinhos, a acompanhavam. Até que a jovem avistou uma cabaninha com telhado de palha. Cansada, foi até lá, imaginando que talvez o habitante da casa pudesse conceder-lhe abrigo e talvez algo para comer. 

   Ela bateu na porta várias vezes, mas parecia não haver ninguém ali. Então espiou pela janela empoeirada. Não viu vivalma.


- Não tem ninguém, e a janela está coberta de poeira… Será que está abandonada? - falou ela para os animais. 



   A porta não estava trancada. Ela entrou e se deparou com uma grande desordem. A julgar pelo estado da casa, de fato não devia estar ocupada. Porém, não havia outros indícios de que os moradores tivessem deixado a casa às pressas, por exemplo.


- Que estranho… Como uma casa tão suja pode estar habitada? Vou limpar isso aqui, e quem sabe a pessoa que mora aqui me deixe ficar pelo menos por esta noite… 



     E foi o que Mary Anne fez, ajudada pelos seus amigos animais. Logo a casa estava impecável. Ainda mais cansada, decidiu procurar uma cama para se deitar um pouco. 

    Entrou num quarto com sete camas pequenas, pareciam camas de criança. "Será que sete crianças vivem aqui sozinhas? Coitadinhas…". Então ela se deitou atravessada sobre três das camas, pois nenhuma delas lhe servia. 


**** 


    Distante dali, no palácio, os príncipes Paul e Michael estavam preocupados com a demora da irmã para voltar do passeio. O príncipe George, mais ainda. Tinha um pressentimento de que algo havia acontecido com sua amada. E a rainha, para manter as aparências, afirmava também estar aflita. 


- Se Mary Anne não aparecer até a hora do jantar, liderarei uma equipe de busca pelos arredores para encontrar minha irmãzinha! - declarou Paul. 


  "Pode liderar quantas equipes quiser, meu querido enteado. Tudo será em vão", pensou maleficamente a rainha. À noite, o caçador entregou à rainha a caixa que ela havia lhe dado. Porém, o que havia dentro dela não era o coração da princesa, e sim o de um veado. 

 Satisfeita, sem saber que estava sendo enganada, Pattie guardou a caixa. E já se preparava para fazer seus avanços com George no dia seguinte. 

    

                                 ***



    Na floresta, os donos da casa supostamente abandonada onde Mary Anne buscara abrigo voltavam para casa. Era um grupo de anões que trabalhavam numa mina de diamantes ali perto. Eram sete. Ao abrirem a porta e acenderem uma vela, depararam-se com a casa tão limpa que o piso refletia suas imagens como um espelho.


- Entraram na nossa casa! - exclamou Roger Daltrey, o mais irritadiço dos anões. - Aposto que roubaram a louça! A pia está vazia!


Se foram mesmo ladrões, foram muito gentis em limpar tudo para nós! - observou Mitch Mitchell, que estava sempre feliz, não importava o que acontecesse.


- Não, Roger, a louça não foi roubada. Está limpa e guardada no armário. - disse Paul Simon, o anão que compunha lindas canções.


- Estão ouvindo uma respiração? Parece alguém dormindo… - Davy Jones, o menor de todos os anões, perguntou. 


- Sim… - Bob Dylan, o líder, finalmente falou. - Vamos averiguar isso, rapazes. 



    Então, Roger, Mitch, Paul, Davy e os outros dois anões, Terry Jones e Ringo Starr, seguiram seu líder, Dylan, escada acima. Pé ante pé, para não alertar o invasor, se aproximaram de seu quarto. 

  Dylan abriu a porta, que estava apenas encostada, com um empurrão muito leve. Entraram no quarto, sempre na ponta dos pés, segurando a respiração. Perceberam um vulto de alguém deitado sobre suas camas.


- Mas esse invasor é muito do folgado… - resmungou Roger. Ringo o acotovelou para que ficasse quieto. 



    O líder dos anões trouxe a vela para perto do rosto do invasor, puxou muito devagar o lençol que o cobria… E, para o assombro dos anões, revelou uma jovem. Uma jovem tão linda que todos eles perderam o fôlego. 


- Como ela é linda! - exclamou Davy. 


- Belíssima… - concordou Simon. - Parece um anjo! 


- Anjo? - Daltrey resmungou outra vez. - Ela é mulher. Mulheres são traiçoeiras. - mesmo assim, ele não conseguia tirar os olhos dela, e isso o irritava ainda mais. 


- Não acho que uma garota como essa poderia fazer mal a alguém, Roger. - disse Mitch. 


- Não teria tanta certeza. - Roger insistiu. A maior prova de que as mulheres eram terríveis era que ele simplesmente não conseguia olhar para outra coisa naquele quarto que não a garota deitada nas camas. 


      

  Com o burburinho da conversa dos anões, a jovem abriu os olhos. E ficou espantada ao se ver subitamente rodeada de homenzinhos. Ela não pôde evitar uma exclamação de surpresa. E eles também se espantaram por ela ter despertado de repente. 


- Bem…. Boa noite. - disse ela, polidamente. 


- Boa noite, senhorita. - respondeu Dylan.


- Eu… Imagino que sejam os moradores desta casa. Então não são crianças, afinal. Sinto muito por invadir a sua casa assim, mas eu estava tão cansada de correr pela floresta...


- Correr pela floresta? - perguntou Terry. 


- E qual é o seu nome? - quis saber Ringo.


- Ah, sim, me desculpem! Meu nome é Mary Anne.


- Mary Anne? A princesa? - indagou Davy.


- Bem… Sim. - confirmou ela. 


- É uma honra receber a princesa em nossa humilde residência. - Dylan se curvou, no que foi imitado por todos os outros, até mesmo Roger. 


- Obrigada. - ela sorriu docemente. 


- Mas por que estava correndo, princesa? - novamente perguntou Paul Simon.


- Porque… Estava fugindo da minha madrasta, a rainha. 


- A rainha?! - os anões não gostavam muito da rainha. A mina de diamantes em que trabalhavam pertencia a ela e ela não era exatamente uma boa patroa. 


- Ela quer me matar… Só porque nos apaixonamos pelo mesmo príncipe, e ele me escolheu… - Mary lamentou. - Ela sempre foi minha amiga, até George aparecer… 



       Roger pensou que aquele príncipe devia ser um grande metido a besta. 


- Isso é mesmo muita crueldade. - Ringo disse.


- Posso ficar aqui? Eu cuido da casa para vocês. Lavo, passo, costuro, cozinho… 


- Você sabe fazer tudo isso, sendo uma princesa? - Mitch ficou surpreso. 


- Meu pai achou que era importante que eu aprendesse. - explicou ela. 


- Pode ficar, Alteza. - disse Dylan. - Mas não precisa se submeter a essas tarefas, não são dignas de alguém como a senhorita. 


- É o mínimo que posso fazer para retribuir a sua gentileza. - disse Mary Anne, sorrindo e se levantando. - Agora, que tal jantarmos? 



   E ela desceu as escadas em direção à cozinha, seguida pelos anões. Todos estavam encantados por ela, principalmente Daltrey, embora ele preferisse morrer a admitir isso… 


                             *** 



    Alguns dias depois, no palácio, os irmãos e o noivo de Mary Anne estavam desolados. Procuraram a jovem por toda parte, sem sucesso. 


- E eu cheguei a pensar que celebraríamos o seu casamento com ela, George… Jamais imaginei que faríamos um funeral. - Paul tentava conter as lágrimas. Ele amava muito sua irmã. 


- E nem sequer temos corpo para velar. - Michael fungou. - Se soubesse que aquilo ia acontecer…



 Os dois príncipes, furiosos com o desaparecimento da irmã, mandaram prender o caçador que a acompanhara em seu passeio naquele dia. 

   O caçador não tentou protestar, pois, apesar de não a ter matado, ele aceitou o encargo imposto pela rainha, o que era tão ruim quanto se de fato tivesse. 

  George estava ainda mais quieto do que o normal. Paul e Michael respeitavam a dor do amigo e evitavam falar sobre Mary Anne com ele. O príncipe passou a trajar apenas vestes negras, bem como os irmãos de sua amada.

 A rainha, apesar de também passar a se vestir de preto, parecia ser a que menos sofria. Seus dois enteados estranharam, pois Pattie sempre fora muito amiga de Mary. Mas cada um lida com o luto de forma diferente. O que não imaginavam é que Pattie não podia estar mais contente… 

 Ela não perdeu tempo para colocar seus planos em relação a George em ação. Um dia, vestida, penteada e maquiada com esmero, aproximou-se de George, que tocava uma triste melodia em seu alaúde. Qualquer outra pessoa perceberia que não era um bom momento, mas Pattie, cega em sua obsessão por George, não se deu conta disso, ou então não se importou. Provavelmente a segunda opção. 


- Anime-se, George. - disse ela, sedutora. - Tenho certeza de que Mary Anne iria querer ver você feliz, não sofrendo assim. Há muitas mulheres nesse reino que o desposariam sem hesitar… - "E eu mataria uma por uma", pensou ela. - A noiva ideal pode estar mais perto do que você imagina. 


- Acontece que não desejo desposar nenhuma outra mulher, Majestade. - respondeu George. - Serei fiel até que possa me juntar a ela. 



    A rainha ficou furiosa, mas não manifestou reação alguma àquelas palavras. Foi para seus aposentos, falar com seu espelho mágico. 


- Não é possível que ele continue me ignorando dessa maneira! Sou a mulher mais bela de todo este reino! Não sou, espelho? Quem é a mais bela de todas? 


- Sois belíssima, Majestade. - respondeu o espelho. - Mas não é a mais bela de todas. 


- Como assim? - a rainha esbravejou. 


- A princesa Mary Anne ainda vive. No meio do bosque, na casa dos sete anões, a beleza de Mary Anne floresce, protegida pela sombra das árvores. 


- Isso é impossível! Tenho o coração dela guardado em uma caixa! 


- O que o caçador vos deu foi uma caixa com o coração de um veado, Majestade. 



  Pattie jogou a caixa na lareira e, tomada de ódio, desceu para os subsolos do castelo, onde, escondida de todos, praticava magias malévolas. 




                               *** 



 Como dissera o espelho, a cada dia que passava, escondida na casa dos anões, Mary Anne ficava mais linda. A princesa era muito grata e ficou muito amiga deles… Exceto de um. Roger Daltrey continuava mal-humorado e a tratava de forma seca. Os outros anões tentavam fazê-lo ser mais gentil com ela.


- Mary Anne é a criatura mais doce do mundo e você a trata desse jeito, Roger! - Davy exclamava. - Como tem coragem? Isso é ingrato da sua parte, sabia? 


- Ela me irrita. - Roger respondeu. - E você é um coração mole, Davy. Não pode ver um rabo de saia que se derrete todo. Ela não está nem aí para você, só fala daquele príncipe. 


- Ah, eu sei. - Davy respondeu. - Fico feliz em ser amigo dela. Mas por que ela te irrita? Acho que já sei. É porque você também se derrete todo por ela e não quer admitir…



  Roger ficou vermelho, de raiva e de constrangimento. 


- Não é por isso! 

- Eu entendo dessas coisas, meu amigo. - Davy disse, e deixou Roger sozinho, pensando. 




                                   *** 




   Em seu covil nos subterrâneos do palácio, a rainha criava duas poções: uma era a Poção do Sono da Morte, para Mary Anne, cujo efeito só poderia ser quebrado com o beijo do amor verdadeiro….


- Que ela não vai receber, pois George já terá bebido a Poção de Amor N. 9! - ela ria maleficamente. - Os anões ou os irmãos vão enterrá-la viva! 



  A Poção de Amor N. 9 era perigosíssima, mas Pattie estava disposta a tentar. No amor e na guerra, valia tudo. Seu plano era fazer com que George bebesse a poção e se apaixonasse loucamente por ela antes que descobrisse que Mary Anne estava vivíssima e morando numa cabana no bosque. 

   Naquela noite, durante o jantar, Pattie derramou a poção disfarçadamente na bebida de George. Desavisado, ele bebeu. É claro que ele já havia percebido antes a incrível beleza da rainha… Mas agora ele sentia algo diferente quando a olhava… 

 No dia seguinte, Pattie se transformou numa velha e procurou a cabana dos anões. Mary Anne estava sozinha em casa…

 No castelo, seus irmãos perceberam que George estava muito estranho. Procurava por Pattie incessantemente, dizendo que precisava dela naquele exato momento. 


- Pattie? Como assim? - Paul ficou furioso. - Você já esqueceu minha irmã? 


- Sua irmã morreu, Paul! De que me adianta chorar por ela? E ela nem era tão bonita quanto Pattie… 



   Paul e Michael estavam estupefatos. Mas Michael notou que o brilho nos olhos de George não parecia normal. 


- Acho que ele está enfeitiçado, Paul. 


- Enfeitiçado? - o príncipe herdeiro era um tanto cético. 


- Só isso pode explicar como da noite para o dia ele se esqueceu de Mary Anne e passou a desejar Pattie! Ou isso, ou enlouqueceu. 


- Se ele estiver enfeitiçado mesmo, o que vamos fazer? - perguntou o irmão. 


- Dizem que existe uma bruxa nas redondezas, chamada Renée Chapelle. Ela faz magias benévolas… Desde que a paguem bem. Vamos procurá-la e pedir que quebre o feitiço! 




    Enquanto os príncipes se embrenhavam na floresta atrás da bruxa boa, Pattie batia à porta da casa dos anões. Mary Anne atendeu, e ao ver aquela velhinha, pensou se tratar de uma inocente vendedora. 



- Olá, minha menina. - disse Pattie, na voz mais doce do mundo. - Gostaria de comprar maçãs? 


- Maçãs? - Mary Anne olhou para dentro e percebeu que havia cestos transbordando de frutas na casa dos anões, inclusive maçãs. - Bem… Acho que não, obrigada. Temos muitas frutas, mal estamos dando conta de comer tudo…


- Ah, mas duvido que destas maçãs que concedem desejos vocês tenham em casa! 


- Concedem desejos? - Mary Anne ficou desconfiada.


- Exatamente… Aposto que esse jovem coraçãozinho tem um desejo muito bem guardado lá no fundo… Um rapaz que você anseia por reencontrar, talvez… 




      Mary Anne corou. De fato, sonhava todas as noites rever George, ao menos uma vez, mas tinha medo do que Pattie poderia fazer se ela voltasse ao castelo.


- Dê uma mordida, minha menina. Além de conceder desejos, esta é a maçã mais deliciosa do mundo… 



        Na cabana de Renée… 


- Pela descrição que fazem, o amigo de vocês foi envenenado com a Poção de Amor N. 9. 


- O que é isso? - perguntou Michael. 


- A poção de amor mais perigosa que existe, meu príncipe. O único antídoto é fazer com que seu amigo veja sua irmã outra vez… Desde que ela beba a Poção de Psiquê. É como a Poção de Adônis, mas atrai homens em vez de mulheres.


- Mas como vamos fazer isso, se nossa irmã morreu? - Paul protestou.


- Sua irmã não morreu, príncipe Paul. - respondeu a feiticeira. - Ela vive com um grupo de anões, do outro lado da floresta. 




   Renée instruiu os dois príncipes sobre como encontrar a cabana dos anões, e eles correram para lá, levando a Poção de Psiquê. Ao mesmo tempo, George cavalgava para lá, como se um ímã o atraísse, e os anões voltavam para casa após o dia de trabalho na mina. 

    Os primeiros a chegar foram Paul e Michael. Chegaram no exato momento em que Mary Anne caía desfalecida, após dar uma mordida naquela maçã, tão vermelha que era irresistível. A bruxa estava em êxtase. Gargalhava de forma assustadora. 



- Quem é você? O que fez com minha irmã? - Paul apeou do cavalo, já apontando a espada para aquela velha estranha.


-  Não me reconhece, entrado querido? - ela mais uma vez deu aquela risada maligna de dar arrepios na espinha. 


- Pattie?! - Paul e Michael se espantaram. 


- Eu mesma! Encontrei a sua irmã… E providenciei para que vocês tivessem um corpo para enterrar! Posso até providenciar um esquife para a velarem! - ela estalou os dedos e um esquife de ouro e cristal surgiu. 



   Os anões chegaram e todos ficaram alarmados ao ver Mary Anne caída, como se estivesse morta. Eles se amontoaram em volta de sua querida amiga, desesperados. Até Roger chorou. E Pattie aproveitou a confusão para tentar fugir. Mas Michael deu um puxão nas rédeas de seu cavalo e tentou persegui-la, enquanto Paul, resignado, se abaixou ao lado da irmã e fechou seus olhos. 



- Tão linda, parece estar dormindo. - suspirou Terry Jones. Paul concordou tristemente. 



  Ele não sabia o que fazer com a Poção de Psiquê. Era uma pena que não conseguira chegar a tempo de salvar Mary Anne. Mas não podia deixar George enfeitiçado para sempre… Pegou o corpo inerte da irmã com cuidado e virou o conteúdo do frasco em sua boca, delicadamente. O corpo dela ainda estava quente, pareceria viva se estivesse respirando.

  Seu plano era encontrar George, enquanto Michael perseguia Pattie, e levar o amigo para ver sua irmã no esquife. Assim, pelo menos, ele poderia se despedir da mulher que amava verdadeiramente. 

   Paul colocou Mary Anne no esquife e deixou Ringo, Davy e Mitch velando-a, em seguida montando em seu cavalo para procurar George. Dylan, Simon, Daltrey e Terry perseguiam Pattie com Michael. 

  Uma tempestade violenta começou a cair. A bruxa estava encurralada na escarpa de uma montanha. De um lado, o precipício. De outro, o príncipe e os anões que a perseguiam. Com a ajuda de um galho seco, ela tentou soltar uma pedra enorme para fazê-la rolar contra seus perseguidores… Mas um raio a atingiu e ela caiu precipício abaixo. 

  Embaixo da chuva torrencial, Paul encontrou George. 


- Paul… Pattie… Eu preciso vê-la…


- Há algo que você precisa ver ainda mais do que ela, meu amigo. Deixe-me levá-lo…



   Como a direção para onde Paul queria levá-lo era a mesma para onde George sentia em algum lugar dentro de si que precisava ir, deixou-se guiar. 

  Quando chegaram à região da floresta onde estava o esquife de Mary Anne, a chuva parara e o sol brilhava, iluminando o esquife, que resplandecia. George apeou do cavalo ao perceber quem estava dentro dele. 



- Mary Anne… - ele tirou o chapéu e o levou ao peito. - Mary Anne, meu amor… 



  Paul suspirou, aliviado. A Poção de Psiquê surtiu efeito. Michael e os anões, além dos animais da floresta, que rodeavam o esquife, abriram espaço para o noivo enlutado. Ele se debruçou sobre o esquife e chorou. Os príncipes e os anões assistiam à cena profundamente comovidos. 

  Mesmo sabendo que aquilo era um desrespeito, George abriu o esquife e beijou Mary Anne. Ele não conseguiu se conter, precisava beijá-la. Estranhamente, os lábios dela continuavam macios e quentes como eram em vida…

  Então, para o assombro de todos, ela abriu os olhos e chamou, com sua voz meiga:


- George? É você? 


- Mary Anne! 



     Ele a pegou nos braços e a beijou de novo. Os irmãos e amigos de Mary Anne mal conseguiam falar, de surpresa e felicidade diante do que parecia ser um milagre,  pois não sabiam que ela ingerira uma poção que apenas fazia parecer que ela estava morta.

      A princesa se preparou para voltar ao palácio com seus irmãos e seu noivo, mas antes, agradeceu aos seus amigos anões pela hospitalidade e pelo carinho, dando um beijo em cada um deles. Roger Daltrey foi o que corou mais fortemente. 

    A partir daquele dia, os anões deixaram de trabalhar na mina e se tornaram funcionários dos príncipes. Paul foi coroado rei, Michael viajou para um reino vizinho em busca de uma noiva e Mary Anne e George foram para o reino dele, onde se casaram, tiveram filhos e foram tão felizes quanto possível, até o dia em que a morte realmente os separou, muitos anos depois. 



domingo, 25 de dezembro de 2022

Oneshot: Unwrap You At Christmas

 Bom dia e feliz Natal! Hoje temos uma oneshot que eu quero escrever há muito tempo: uma versão do conto "O Presente dos Magos" com D&D. Espero que gostem, boa leitura! 




  Era véspera de Natal e o jovem casal Davy e Dianna Jones tomava café da manhã às pressas. 


- Hoje vai ter muito movimento na loja. - disse Davy, engolindo uma torrada com geleia de morango. Ele trabalhava em uma loja de discos de dia e tocava com a sua banda, os Monkees, em clubes noturnos, festas universitárias e casamentos. 

- Lá na livraria também. - Dianna bebeu seu café quase de um gole só. Além de ter seu emprego em uma pequena livraria, Dianna escrevia poemas e contos nas horas vagas, que enviava para revistas e editoras, mas até então não tivera sucesso. 

- Bom, preciso ir. - Davy se levantou e beijou Dianna rapidamente, mas com doçura. - Até a noite, meu amor. 

- Até a noite, querido. Logo vou sair também.



  Aquele era o primeiro Natal desde que se casaram. Dianna e Davy se amavam e eram felizes. Só havia um pequeno problema, que nem sempre os incomodava: não tinham muito dinheiro. 

  Mas, naquela véspera de Natal, a falta de dinheiro era o maior problema de todos. O casal gastara todas as suas economias para pagar as contas e garantir uma ceia decente, e não sobrara nada para presentes. 

  Pela janela do ônibus, a caminho do trabalho, Davy viu a vitrine de uma joalheria. E bem ao centro dela havia uma linda fivela de ouro com brilhantes cor de rosa. Ao vê-la, só conseguiu pensar em como aquela fivela reluziria nos lindos e longos cabelos dourados de Dianna. Seria um presente perfeito para sua amada esposa. Mas jamais teria dinheiro para comprar aquilo… 

  A livraria onde Dianna trabalhava ficava mais próxima da casa do casal Jones, e ela caminhava até lá todos os dias. No trajeto, ela passava por outra joalheria. E naquele dia uma bela corrente de ouro estava exposta na vitrine. Dianna pensou no relógio de bolso de Davy, o único bem de valor que ele tinha. Pertencera ao seu avô e ficava atado a uma tira de couro velha e gasta. "Se eu pudesse comprar essa corrente para o Davy… Mas jamais vou ter tanto dinheiro para gastar assim…". 

   O casal passou a manhã em seus respectivos empregos, vendendo discos e livros para pessoas que certamente deixariam seus entes queridos muito felizes com seus presentes. E pensar nisso os deixava desanimados, pois não teriam presente algum para trocar entre si. 

 Na hora do almoço, enquanto comia o sanduíche que Dianna preparara e embalara com tanto carinho, Davy teve uma ideia ao tirar o relógio do bolso para ver as horas… Ao sair do trabalho, passaria na joalheria. 

  Dianna escovava os cabelos no banheiro da livraria antes de voltar ao trabalho. Ao prender o cabelo com a fita vermelha esgarçada que sempre usava, a solução para seu problema surgiu em sua mente como um clarão… 

   Ela foi a primeira a chegar em casa naquele fim de tarde. Olhou-se no espelho. E se Davy ficasse irritado com o que ela fizera? Amarrou um lenço na cabeça para terminar de temperar a carne e colocá-la para assar. 


- Di, cheguei! - exclamou Davy ao abrir a porta. Ela estremeceu. Esperava que ele não ficasse triste. Ele entrou na cozinha. 

- Oi, Davy. - ela o beijou. - Chegou tarde hoje. O que aconteceu? Seu relógio parou de funcionar? 



      Ele pareceu ficar sem graça. 


- Ah… Meu chefe quis fechar um pouco mais tarde hoje, para ver se fazia mais alguma venda de última hora. Perdi o ônibus. 



      Dianna se convenceu. 



- E esse lenço na cabeça, Di? 



      Foi a vez dela de ficar sem graça. 



- Ah… É que… Não quero que meu cabelo fique com cheiro de carne assada. 



       Davy riu. 


- Cheiro de carne assada é muito bom, mas não em cabelos. Prefiro que seu cabelo tenha cheiro de lavanda. 




   Mais tarde, sentaram-se para cear. Estava tudo muito bom, valeu a pena terem gastado quase tudo que tinham nos ingredientes. Quando já estavam satisfeitos, tiraram os pratos, lavaram a louça e foram se sentar junto à lareira que ardia com pouca lenha, tomando chá. 


- Di… - Davy começou.

- Sim, meu amor? 

- Eu tenho uma coisa para você. Não é muito, mas eu espero que goste. 



   Ele tirou uma caixinha de dentro do bolso e o entregou a Dianna. Ela abriu, revelando a mais linda fivela de cabelo que ela já vira. Dourada com brilhantes cor de rosa.


- Davy! - exclamou ela. - Que linda! Como pode dizer que não é muito? É até demais!

- Você merece muito mais, querida. - ele sorriu. 

- Eu também tenho um presente para você. - disse ela, entregando a ele uma caixinha também. 



   Davy abriu a caixinha e tirou de dentro uma bela corrente de ouro… Perfeita para o seu velho relógio.



-Obrigado, Di! Não precisava…

-Claro que precisava. 

-Coloque a fivela, Di. Vai ficar ainda mais bonita em você. Aliás, não sei por que você ainda está com esse lenço. 



    Dianna não sabia o que dizer para o marido. 



- Colocar… A fivela? Mas ela é tão bonita, merece uma ocasião especial…

- É Natal, meu amor! Quer ocasião mais especial? 

- Bom… Tudo bem. Mas não fique bravo comigo. 

- Bravo? Por que eu ficaria bravo com você, Di, ainda mais no Natal? 



    Ela desatou o nó que prendia o lenço e… Deixou à mostra o pouco que restara de seus longos cabelos loiros. Antes batiam na cintura, agora mal cobriam a nuca.


- Di! Você cortou o cabelo? Por que não disse nada? - Davy estava sem palavras. 

- Sabia que você ia ficar triste. - disse ela, olhando para baixo. - Mas o único jeito de comprar essa corrente para o seu relógio foi vendendo meu cabelo para uma loja de perucas… O dono me deu uma boa quantia pelo comprimento, grossura e cor dos meus cabelos.

- Meu amor! - ele a abraçou. - Não precisava fazer isso… 

- Mas eu queria tanto te dar esse presente, Davy! Você é o melhor marido do mundo. 

- Eu agradeço muito, querida. - ele a beijou. 

- Agora, coloque a corrente no seu relógio. - pediu ela. 

- Ah.. Di, eu adoraria, mas como acha que consegui o dinheiro para comprar sua fivela? 

- Você vendeu o relógio, Davy? - Dianna estava incrédula. - Mas era do seu avô…

- Eu sei, meu amor. Mas acho que o vovô não ficaria bravo comigo ao saber que o vendi para dar um presente à mulher mais maravilhosa que já existiu.



    Dianna abraçou Davy e o beijou docemente. 


- Feliz Natal, Davy. Eu te amo. 

- Feliz Natal, Di. Eu também te amo. Você é meu maior presente. 

- E você é o meu… Mas, na verdade… Já ganhamos um presente há alguns dias, mas eu quis deixar para te contar hoje. 

- Que presente? - Davy ficou intrigado. 



    Ela colocou a mão de Davy sobre seu ventre. 


- Estou grávida. Acho bom economizarmos mais para o próximo Natal…



   Davy a abraçou ainda mais forte e beijou mais profundamente. 


- Esse é definitivamente o melhor presente de Natal que eu poderia ganhar, meu amor. 


sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Oneshot: Anti-Hero (Songfic)

Boa noite! Temos uma nova oneshot, e dessa vez é songfic. Diretamente inspirada pelo álbum Midnights da Taylor Swift, principalmente a música Anti-Hero. O ship? Emma Carlisle e Mike Nesmith. Boa leitura! 







- Nez…? - Emma se olhava no espelho, se analisando por todos os ângulos que conseguia ver. 

- Sim, Emma? - ele parou de dedilhar seu violão e olhou para a esposa. 

- Você acha que eu engordei muito desde que tive o Junior? 


     Mike colocou o violão de lado, se levantou e olhou para Emma de todos os lados, da cabeça aos pés, enquanto cofiava a barba.


- Hum… Não. Mas mesmo que sim, eu não me importaria. Você é linda de qualquer jeito, Emma. E o que tem de mais? Se uma mulher é linda, ela é linda e pronto. O peso dela não importa.

- A Di não engordou nada, e ela teve gêmeas… Minhas amigas são tão sexy, e eu me sinto um monstro na colina.

- Não entendo nada de biologia feminina, mas acho que cada mulher é de um jeito, não? E se você é um monstro, é o monstro mais sexy que eu já vi.

- É, mas…. - Emma olhou para baixo. Depois, voltou a olhar para o marido. - Nez, você tem certeza que me ama? 


     A pergunta pegou Mike completamente de surpresa. Não porque não amasse Emma, ele a amava, e muito. Mas nunca havia visto a esposa se mostrar tão insegura a esse respeito. 


- Emma, estamos casados há cinco anos. Nós temos um filho. Eu te amo demais, loirinha. 

- Mas, mas… Você não preferia ter se casado com outra mulher? 

- Não, claro que não! Emma, se eu te escolhi, foi porque amo você. 


        Emma estava com os olhos marejados.


- Nez… Você está enganado a meu respeito. Eu sou uma pessoa horrível. Vou acabar te decepcionando em algum momento. 

- Emma, você quer competir comigo, por acaso? Você sabe muito bem as merdas que eu já fiz nessa vida. Eu sou péssimo. 

- Não, Nez, você é maravilhoso! Eu sou o problema, sou eu. - ela o abraçou e beijou. - Você pode ter sido o Príncipe dos Corações Partidos um dia, mas hoje é o melhor marido do mundo.  

- Príncipe dos Corações Partidos… Gosto disso. - ele riu. - Logo eu, que sempre fui desajeitado e um guitarrista, compositor e cantor medíocre.

- Nez, para com isso! - Emma se irritou. - Não vou admitir que você se menospreze dessa forma.

- E eu não admito que você se menospreze dessa forma, Emma.

- É… - ela sorriu. - Nós dois ficarmos juntos foi realmente o karma agindo nas nossas vidas.

- E como. Juntando um inseguro crônico como eu e uma mulher igualmente insegura. - o marido retribuiu o sorriso. - Só assim consigo esquecer minhas próprias inseguranças. 

- Somos os anti-heróis das nossas próprias histórias… Você é meu porto seguro, Nez. - ela o abraçou novamente.

- E você é o meu, Emma. - ele também a enlaçou em seus braços e beijou a testa dela. - Vem, amor. Vou te mostrar o quanto eu te amo. 


     Ele a carregou até a cama. Tirou o vestido e a roupa de baixo de Emma com cuidado. Acariciou-a delicadamente, repetidas vezes, principalmente no baixo ventre. Emma abraçou Mike, trazendo-o para mais perto, enquanto ele pedia espaço entre as pernas dela…
    Quando terminaram, se aconchegaram nos braços um do outro.


- Mike… 

- Sim? 

- Você acha que, no futuro, nossa nora vai me matar por dinheiro? Eu sonhei com isso uma vez… 



     Ele bem que tentou, mas foi incapaz de conter a gargalhada.


- Ela vai ter que me matar primeiro, Emma. - e beijou-a. 




domingo, 31 de julho de 2022

Zero To Hero (Grindhouse Myth)

 Bom dia! Hoje, trago uma nova fic da série Grind Myth, inspirada no mito de Perseu. Espero que gostem! 


   Há muito tempo, na cidade de Argos, havia um rei. Ele era viúvo e tinha uma única filha, Janelle, que era muito bela e estava próxima da idade de se casar. O rei, contudo, se preocupava por não ter um filho varão que o sucedesse no trono. Foi, então, consultar um oráculo para saber se, caso contraísse novas núpcias, poderia vir a ter esse filho varão. 

   Diferentemente do que normalmente acontecia, o oráculo foi direto e reto: não. Mas, se a princesa tivesse um filho, ele mataria o avô. 

   Ser morto pelo próprio neto é um destino terrível, e, para evitar esse sofrimento para ele e sua filha, e até mesmo para o hipotético neto, o rei tomou uma decisão drástica: trancar a pobre moça numa torre, sem qualquer contato com o mundo exterior. 

   E assim foi feito. Janelle foi trancafiada na torre, com apenas uma ama, e recebendo visitas ocasionais do pai. Todos os dias, a jovem se sentava à janela para admirar o céu e a vista limitada da floresta e do mar, sonhando com o dia em que, talvez, seu pai se apiedaria e a libertaria. Ela tomou a resolução de recusar qualquer pretendente e não se apaixonar, para não trazer ao mundo o assassino de seu pai. 

   Mas o que ela não sabia é que também era admirada. E justamente pelo mais obstinado dos admiradores: o próprio rei dos deuses, Zeus. Zeus normalmente tomava a forma de animais para possuir as jovens que desejava. Mas, dessa vez, ele se transformou numa chuva de ouro, e assim Janelle ficou grávida. Nasceu um menino, que ela chamou de Micky.

  Por alguns meses, Janelle conseguiu esconder seu filho, até que, um dia, o rei apareceu antes da hora costumeira, quando o menino estava acordado. E ao ver que sua filha havia dado à luz um menino, ficou em pânico. Não acreditou na história da chuva de ouro, não quis saber se o menino era filho de Zeus, Poseidon, Apolo ou o deus que fosse. 

  Como não tinha coragem de matar sua filha e o neto, mesmo com medo, o rei mandou construir uma espécie de arca, em que colocou Janelle e o pequeno Micky, e lançou a arca no mar. 

  A arca encalhou na ilha de Serifos, onde foi encontrada por George Dolenz, o antigo rei da ilha, deposto pelo próprio irmão. Ele abriu a arca, e qual não foi sua surpresa ao encontrar dentro dela uma linda jovem e um bebê! 


- Quem… Quem é você, moça? - perguntou ele, surpreso. 

- Eu… Eu sou Janelle. - disse ela, sem saber muito bem se podia confiar nele. - E este é meu filho, Micky. Fomos lançados no mar pelo meu pai, que não acreditou que tive o filho de um deus.



  Penalizado pelo sofrimento da encantadora jovem, sozinha no mundo com um filho pequeno, ele a abrigou em sua casa. Não se casou com ela, mas deu ao menino seu nome, e o amou e criou como seu filho. E Micky Dolenz cresceu para se tornar um jovem belo, forte e corajoso.

  O atual rei, mesmo sabendo que seu irmão George amava Janelle e tinha planos de se casar com ela um dia, também queria a mãe de Micky para si, e não hesitava em pressioná-la. 

  Ela resistia bravamente, e Micky, indignado com o assédio sofrido pela mãe, um dia proferiu uma frase que, apesar de impensada, determinaria seu destino. 

  O rei de Serifos havia adotado a estratégia de fingir que não desejava mais Janelle e que ia se casar com outra mulher. E exigiu de seus cortesãos presentes de casamento finíssimos, inclusive de Micky. Micky e sua mãe moravam com George, que, apesar de ter sido rei, já não tinha mais nenhuma riqueza, pois seu irmão tomara tudo que possuía. Sem saber bem o que dizia, o rapaz afirmou: 


- Não tenho nada de meu para oferecer, ó rei, mas merece os melhores presentes… Posso trazer até a cabeça da Medusa…



    O rei, sabendo que a Medusa transformava todos que olhassem para ela em pedra e era praticamente impossível de derrotar, sorriu debochado. Dessa forma, o rapaz saía de seu caminho voluntariamente… E o caminho para se casar com a mãe dele ficava livre.


- Excelente ideia, Micky! Deve partir imediatamente. Esperarei apenas pela sua volta com meu presente para marcar a data do casamento com minha bela noiva. 



    Só então Micky pensou na gravidade do que dissera. Porém, não podia mais voltar atrás. Tinha que trazer a cabeça da Medusa para o rei de Serifos, e pensava em oferecê-la ao rei com a condição de que deixasse sua pobre mãe em paz definitivamente.

   O rapaz foi até a praia para pensar. E enquanto tentava organizar as ideias para saber por onde começar, sentiu uma presença próxima dele. Ergueu a cabeça e viu uma jovem baixa, loura e de olhos azuis, usando armadura e com uma coruja no ombro. Ele não teve dúvida: era Atena, deusa da sabedoria e da guerra, a protetora dos heróis. Curvou-se diante dela. 


- Levante-se, Micky Dolenz, filho de Zeus. Fez uma ousada declaração, e agora deve cumpri-la. Deve buscar a Medusa e decapitá-la. 

- Mas como farei isso? - Micky estava quase desesperado. - É quase impossível derrotá-la! 

- Falou bem. Quase impossível. - disse a deusa. - Hermes e eu ajudaremos em sua jornada. 


    Então Micky viu que um rapaz alto e magro, de longos cabelos negros, usando um capacete e um par de sandálias com asas, materializou-se. Era Hermes. 


- Forneceremos aquilo de que precisa, Micky Dolenz. - disse Hermes. 



     Atena fez surgir uma espada curva, com uma lâmina duríssima e resistente. 



- Com esta espada, cortará a cabeça da Medusa. - disse Atena. 

- Com minhas sandálias, será mais rápido do que as Górgonas. - Hermes descalçou suas sandálias e entregou-as a Micky, com a recomendação: - Tome muito cuidado, e devolva-as intactas. 

- É claro. - Micky assentiu. 

- Neste bornal, guardará a cabeça da Medusa. - Atena instruiu.

- Com o elmo das trevas de Hades, ficará invisível para sua inimiga. - Hermes explicou.

- E por fim, entrego-lhe meu escudo. - Atena o soltou de seu braço e deu-o a Micky. - Olhando por ele, poderá atacar a Medusa sem olhar diretamente para ela e acabar petrificado.

- Eu vos agradeço pela ajuda inestimável, Lady Atena e Lorde Hermes. - Micky fez uma respeitosa reverência. - Mas como encontrarei o covil da Medusa? 

- Minha coruja o guiará até as Gréias, as únicas que conhecem a localização do covil, e ajudará a identificar a Medusa entre as três Górgonas. - disse Atena com um sorriso.



  A coruja piou alegremente e voou em direção a Micky. Ele calçou as sandálias de Hermes, preparou seu equipamento, agradeceu mais uma vez aos deuses e seguiu a coruja pelos ares até o local onde viviam as Gréias. 

   No caminho, Micky encontrou outros três jovens, semideuses e aspirantes a heróis como ele, e acabou os ajudando em suas aventuras.

 Primeiro, sobrevoando a região de Lerna, conheceu Mike Nesmith, outro jovem filho de Zeus. Ele tinha a missão de aniquilar a Hidra, um monstro reptiliano de nove cabeças que assolava a região. O problema era que, a cada vez que uma cabeça era cortada, duas novas cabeças nasciam no lugar, e, além disso, uma das nove cabeças era imortal.

 Micky ajudou Mike ateando fogo aos tocos de pescoço antes que um novo par de cabeças nascesse, e depois enterrando a cabeça imortal, que ainda poderia expelir um veneno poderosíssimo mesmo após cortada, no mais fundo da terra. Mike agradeceu efusivamente a ajuda de Micky, e assim nasceu uma grande amizade entre os dois heróis filhos de Zeus. 

 Depois, Micky, sempre guiado pela coruja de Atena, passou por Esparta, onde ficou sabendo que o rei Edmund estava oferecendo a mão de sua filha mais velha, a belíssima Elinor, ao jovem que não só se provasse o mais habilidoso guerreiro em uma série de provas, mas também o mais inteligente… Descobrindo, entre as 50 moças mais formosas de toda a Hélade, reunidas no palácio de Edmund e instruídas a fingirem ser a filha dele, quem era realmente a princesa Elinor. 

  Sabendo que a beleza está nos olhos de quem vê, Edmund previa que, por mais que praticamente se igualassem em valor como guerreiros, cada um dos competidores teria sua preferida entre aquelas 50 lindas jovens, e dificilmente o vencedor da maioria das provas poderia apontar a verdadeira Elinor. Poderia acabar se apaixonando por outra pessoa e tomá-la pela princesa. E assim ele não precisaria se despedir de sua filha tão cedo.

  Mesmo que sua missão fosse encontrar a Medusa e decapitá-la, levando em seguida sua cabeça para o rei de Serifos na esperança de, assim, libertar a mãe do assédio dele de uma vez por todas, Micky decidiu tentar a sorte na disputa. 

  Não era todo dia que aparecia uma chance, ainda que remota, de se casar com uma jovem que, segundo diziam, era a mais bela de toda a Hélade.

   Micky participou de algumas das provas, mais para se divertir e mostrar seu valor como guerreiro do que para realmente conquistar a mão de Elinor. Acabou ficando amigo de um outro jovem herói, chamado Davy Jones, um descendente de Hermes que vinha de Ítaca. 

 Ele era incrivelmente astuto, e não só se mostrara um valoroso guerreiro, vencendo a maioria das provas, como já descobrira, entre todas aquelas beldades, quem era realmente a princesa Elinor. 


- Mas não me casarei com ela… Declinarei da mão da princesa Elinor em favor dos demais competidores.

- Por quê??? - Micky ficou extremamente surpreso. Como alguém poderia recusar a mão da princesa mais linda de que se tinha notícia em todo o país? 

- Porque… Eu me apaixonei por outra das moças. Por um momento, cheguei a pensar que ela era Elinor, em minha paixão desmedida. - Davy respondeu com um sorriso. - Mas consegui fazê-la revelar sua verdadeira identidade, e a levarei a Ítaca comigo para ser minha esposa.

   E assim Davy fez. Abriu mão da disputa pela bela Elinor, levando com ele a sua escolhida, Dianna Mackenzie, a princesa de Corinto. Micky não podia dizer que reprovava a decisão. Dianna também era linda, e Davy mostrou-se muito prudente ao desistir da mulher mais cobiçada e escolher aquela que era ideal para ele.        

    Micky também partiu, pois, a cada dia que se demorava, sua mãe sofria mais nas mãos do terrível rei. E seguiu viagem, até que, mais uma vez, parou para auxiliar outro herói. 

   Peter Tork, filho da musa Calíope, a bem da verdade, era mais um poeta e cantor do que um guerreiro. Mas ele recebeu a incumbência de abater o terrível Javali de Cálidon, e Micky encontrou-o perseguindo a fera. Ofereceu sua ajuda, e, juntando seus esforços, fazendo o que faziam de melhor, os dois conseguiram abater o monstruoso javali. 

  O canto de Peter era tão mavioso que fazia até as mais implacáveis feras se acalmarem. O monstro não era particularmente sensível à música, mas, de fato, ao ouvir Peter cantar e tocar sua lira, ficou um pouco entorpecido, o que facilitou para que Micky o atacasse com sua espada. Muito grato a Micky pela ajuda, Peter passou a lhe devotar grande amizade. 

 Depois de todas essas peripécias, Micky finalmente chegou à ilha onde moravam as Gréias. Eram criaturas de aspecto horrendo, pele coriácea e que dividiam um único olho. 

  Ele as observou escondido atrás de alguns arbustos, e, ao perceber que elas ficavam completamente aturdidas sem o olho, aproveitou o momento em que a Gréia que estava com ele tirou-o de sua órbita para entregá-lo a outra, e pegou o globo ocular. 

   Elas ficaram enlouquecidas ao se darem conta de que alguém tomara seu olho, e Micky disse: 


- Devolverei o olho se me disserdes onde as Górgonas se escondem! 

- Não podemos dizer! Devolva o olho! - grasnou uma das Gréias. 

- Já dei minha condição. - Micky estava irredutível. 


   Passaram-se alguns minutos, em que as Gréias tentaram de todas as formas recuperar o olho e Micky continuou a insistir que revelassem o esconderijo das Górgonas.

  As Gréias, em seu desespero para reaver o olho, finalmente se renderam e indicaram a Micky o caminho. Lá chegando, Micky cobriu a cabeça com o elmo das trevas, tornando-se invisível. Empunhou a espada e o escudo da deusa Atena. E adentrou o covil das terríveis criaturas, silenciosamente. 

   A coruja de Atena mostrou a ele qual das três Górgonas era a Medusa. Era exatamente a que dormia no meio. Pé ante pé, tomando muito cuidado para não pisar nos cabelos de cobra das outras irmãs e guiando-se pelo escudo, Micky caminhou até a Medusa. E cortou a cabeça dela com um rápido movimento da espada curva. Notou uma fumaça branca rolar do pescoço do monstro. E ficou impressionado: um belíssimo cavalo alado, com crina, cauda e cascos dourados, saiu voando pela janela. 

 Imediatamente, Micky guardou a cabeça da Medusa no bornal. E já se preparava para bater em retirada, quando uma das górgonas sobreviventes acordou e viu o corpo decapitado da irmã, acordando a outra. As duas criaturas passaram a procurar pelo culpado. Como Micky estava invisível, não o viram. Mas ainda podiam sentir seu cheiro. Com as sandálias de Hermes, Micky voou o mais longe que pôde. Só ousou tirar o elmo das trevas quando já estava há centenas de quilômetros de distância, sobrevoando uma ilha no norte da África. 

   E deparou-se com uma visão impressionante. Acorrentada a um rochedo, estava uma donzela. Seus longos cabelos loiros eram açoitados pelo vento, mas, ainda assim, ela continuava linda. Seus olhos azuis estavam pregados na direção do mar. Parecia que ela aguardava algo vindo de lá. E ela usava vestes de tecido diáfano que revelavam delicadas formas. Pareciam esculpidas pelo cinzel de um grande artista. 

 Sem que Micky percebesse, uma flecha de Eros, o deusinho do amor, filho de Afrodite, atingiu-o em cheio. E, mesmo sabendo que não podia demorar a voltar a Serifos, Micky decidiu que libertaria aquela garota das correntes e a levaria com ele para casa como sua noiva.

   Micky pousou na praia e perguntou a um pescador, que guardava suas redes: 


- Quem é a linda jovem acorrentada no alto do rochedo, meu bom homem? 



   O pescador respondeu, com um tom de pena em sua voz: 


- É Emma, a nossa princesa. Foi amaldiçoada, coitadinha. 

- Amaldiçoada? O que ela fez para merecer isso? - Micky espantou-se.

- Nada. - continuou o pescador. - A rainha, mãe dela, teve a infelicidade de comparar a beleza da filha à das nereidas… Dizendo que a princesa era muito mais bela. Nereu ficou furioso com esse ultraje às suas filhas e mandou um monstro marinho para assolar nossa ilha. O rei, desesperado, foi até Delfos. Lá, soube que a única forma de aplacar o monstro era oferecendo seu maior tesouro… a única filha. Desde então, a princesa Emma está lá acorrentada, aguardando sua morte. 

- Pobre moça! - Micky exclamou. - E ninguém tentou matar o monstro e libertá-la? 

- Muitos tentaram, meu rapaz. - disse o pescador, balançando a cabeça. - Nenhum teve sucesso. O monstro os devorou a todos. E acho que mais nenhum guerreiro no mundo tem coragem de enfrentar a criatura e libertar a princesa Emma. 


   "Bom… Eu tenho", pensou Micky. Ele se despediu do pescador e foi até o palácio, para solicitar uma audiência com o rei. 

     Encontrou o rei Harold e a rainha Lauren parecendo desolados. Via-se no rosto da rainha o profundo arrependimento por ter se vangloriado de sua filha. Ele fez uma reverência elegante ao casal real, e, ao se erguer, disse: 


- Majestades, solicitei esta audiência para me oferecer a libertar sua filha do terrível destino que a aguarda.

- Como, meu rapaz? - o rei perguntou, descrente. - Todos que já tentaram pereceram. Não há escapatória. Minha filha será comida pelo monstro, e ficaremos numa agonia sem fim até que isso finalmente aconteça. Já faz duas semanas que ela está lá no rochedo. 

- Acredite em mim, Majestade. Eu posso salvar sua filha. 



    O rei e a rainha sorriram diante da ingênua determinação do rapaz. Não tinham como saber que ele tinha a proteção dos deuses, e Micky sabia que não era conveniente alardear esse fato. Poderia se voltar contra ele. 

     Após receber a permissão dos reis para tentar liquidar o monstro e sua benção para se casar com a princesa caso conseguisse, Micky pegou seu armamento e foi até o rochedo, levado pelas asas das sandálias de Hermes. 

     Pousou diante da princesa. A princípio, Emma ficou assustada, e Micky percebeu. Afinal, não era todo dia que um homem surge do céu e pousa bem na sua frente.


- Não se preocupe, princesa. Eu vou salvá-la do monstro! - disse ele, gentilmente. 



     No mesmo instante, Eros flechou Emma. E ela se apaixonou pelo jovem herói.


- E eu posso saber o nome do meu salvador? - ela sorriu docemente.

- Micky. Micky Dolenz. Venho de Serifos. 


  Antes que ele pudesse falar mais, os dois ouviram gritos vindos da praia. Eram os pescadores, alarmados com algo enorme vindo pelo mar em direção ao rochedo onde a princesa estava acorrentada. Era o monstro. 

   O grito morreu na garganta de Emma. Apesar de ter se apaixonado por Micky no mesmo momento em que o viu, no fundo ela temia que ele fracassasse ao tentar salvá-la. E aceitou a morte.  

   Mas Micky não pensava assim. Ele correu para tomar impulso, empunhando a espada. Voou direto para a cabeça do monstro, enfiando a espada em seu olho e cegando-o. O monstro continuou tentando abocanhá-lo, mas Micky usava as sandálias para voar e confundi-lo. E por fim, conseguiu cortar sua cabeça. E, assim, o terrível monstro que devoraria a princesa Emma foi liquidado. 

  Micky libertou Emma das correntes e desceu com ela para o palácio dos pais dela. 


- Aqui está sua filha, Majestades! Sã e salva! - exclamou ele.

- Somos eternamente gratos. - disse o rei. - E pode desposá-la. 

- Se ela quiser, é claro. - interveio a rainha. Não queria que sua filha sofresse, nunca mais. 

- Eu quero, mamãe. - Emma sorriu e abraçou e beijou Micky.



  Houve uma grande festa para celebrar o casamento de Micky com a princesa Emma. Por um momento, pareceu que tudo estava indo por água abaixo, pois um antigo pretendente, um covarde que não fizera nada para tentar salvar Emma do monstro, apareceu reivindicando-a como noiva. E trouxe um exército com ele. 

   Mas Micky não hesitou um segundo antes de puxar a cabeça da Medusa do bornal e petrificar o pretendente rejeitado e seu exército. Assim, a festa transcorreu sem problemas. 

   Poucos dias depois, Micky e Emma aportavam em Serifos. George e Janelle ficaram felicíssimos ao ver o filho voltar vivo de sua jornada, e ainda por cima casado. 

   Micky foi até o rei de Serifos e depositou o bornal com a cabeça da Medusa aos pés dele.


- Abra, Majestade. - disse Micky. 



   O rei, achando que a cabeça da Medusa não podia mais transformar em pedra após cortada, abriu o bornal… E assim foi petrificado. 

   George Dolenz voltou ao trono que era dele por direito, casou-se com Janelle, por quem estava apaixonado fazia 20 anos, e Micky e Emma formavam um casal feliz.

   Mas, como ninguém pode escapar ao destino, Micky acabou cumprindo o que o oráculo previra, anos antes de ele nascer, embora sem querer. Um dia, ele foi participar dos jogos em Olímpia. Ao participar de uma prova de lançamento de disco, o rapaz lançou o disco tão longe que ele caiu aos pés de um velho homem que assistia às provas. O disco de bronze, muito pesado, acabou provocando um grande corte nos pés do homem. Tentaram de tudo para salvar o homem, mas ele não resistiu ao sangramento. Micky ficou arrasado. E só então descobriu que aquele era o velho rei de Argos… Seu avô. 

  Micky se tornou rei de Argos, ele e Emma tiveram muitos filhos e foram felizes juntos. Ele foi um rei justo e bom, e um valoroso herói. Mas, internamente, não se perdoava pelo que o destino o obrigara a fazer contra o avô…