sábado, 6 de dezembro de 2014

Fanny's Autumn Almanac - Capítulo 15

   Jenna aprontando, pra variar ¬¬




           Como minha irmã Elinor e minha prima Emily não puderam vir à minha festa de aniversário e eu não as via havia muito tempo, decidi visitá-las em Cambridge. Despedi-me de Ray e não contei nada às meninas. Queria fazer surpresa.
             Decerto elas ficaram muito surpresas por ouvir sua campainha tocar numa tarde tranquila de sexta-feira. Vi a maçaneta girar, e minha irmã, sorrindo, exclamar:

- Fanny! Que saudades! Emily, venha ver quem veio nos visitar!

                Enquanto eu abraçava minha irmã, senti algo roçar minhas pernas. Olhei para baixo e vi uma bola preta de pelos.

- Voltaire! – eu abaixei e peguei meu gatinho no colo. Ele já estava ficando grandinho e pesado.

- E então, Fanny, o que nos conta? – perguntou Emily, enquanto eu coçava atrás das orelhas de Voltaire carinhosamente.

- Bom, como vocês já sabem, estou morando em Londres para ficar mais perto do meu namorado.

- O famoso Ray Davies. – disseram Elinor e Emily.

- Sim. – eu falei, com um sorriso. – Sabe, ele é um namorado muito melhor do que o Simon. Mais carinhoso e menos ciumento. Mas ele tem uma prima que é uma chata de galocha.

- Ela não vai com a sua cara, maninha?

- Não. Nem eu com a dela, Elinor. Ela estragou minha festa de aniversário, a megera.


                        Relatei a Emily e Elinor toda a minha briga com Jenna no fim de minha festa. As duas ficaram indignadas com o comportamento da prima maluca de Ray, Dave e Evanna.  


- Como ela é ridícula! – exclamou Emily.

- Nem me fale. – resmunguei. – Em compensação, a outra prima de Ray, Evanna, é um amor. Ela é noiva do Pete Townshend.

- Mas quantos anos ela tem? – perguntou Elinor.

- A mesma que você e Emily. Vinte e dois.

- Caramba, tão jovem e já noiva! Enquanto eu...

- Nada de novo na sua vida amorosa, mana? – perguntei a Elinor.

- Não. Os caras de Cambridge não servem para mim. Tenho esperança de conhecer alguém interessante quando me mudar para Londres.

- Olha, caras interessantes é o que não falta em Londres, principalmente entre os conhecidos do Ray. – eu sorri maliciosamente para minha irmã. Então me virei para minha prima: - E o Syd, Emily? Como vai ele?

- Segurando a onda, eu acho. Tenho que livrá-lo daquele maldito ácido. Papai e mamãe já o achavam bizarro, agora que descobriram... – minha prima não concluiu a frase. Começou a chorar.

- Tio Edwin e tia Jackie descobriram que o Syd usa LSD, Fanny. Eles querem que Emily se separe dele de qualquer jeito.

- E você vai fazer isso, Emily? – perguntei.

- Não se eu puder controlá-lo. Estou com Syd desde que ele e eu entramos na universidade, Fanny. Faz quase quatro anos. Diga-me se terminaria tão fácil com alguém que está com você há tanto tempo, prima.

- Não. Isso não é nada fácil.


                Emily sentou-se na poltrona e enterrou o rosto nas mãos. Para animá-la, eu disse:

- Meninas, isso foi há meses atrás, mas consegui um autógrafo dos Beach Boys!

                As palavras “Beach Boys” funcionavam como ímãs para Emily, como eu quando ouço “The Monkees” ou “The Yardbirds”. Talvez a única coisa que interesse mais minha prima do que o grupo de Brian Wilson seja os Everly Brothers. Elinor também ficou muito interessada. Ela adora os Beatles e os Rolling Stones, mas também gosta bastante dos Beach Boys.

- Deixe-me ver isso! – exclamaram as duas ao mesmo tempo.

- Calma, meninas. – eu ri. Abri minha bolsa e tirei de lá o papel com o autógrafo do quinteto. Há quanto tempo aquilo havia acontecido! Eu ainda estava com Paul...
Mostrei a elas.

- Eu não acredito! – Emily sorria de orelha a orelha.

- Como conseguiu isso, Fanny? – quis saber minha irmã.

- Numa festa a qual eu fui com Paul e seu colega de dupla, Art. Foi muito legal ter conseguido isso, mas me lembrar dessa festa me traz algumas más recordações.

- Foi quando Simon surtou de ciúmes por causa de um dos Monkees, não foi?

- Foi. Por causa do Peter. – então lembrei o incidente envolvendo-o, além de Davy Jones e Dianna Mackenzie, em minha festa. O que Paul pensaria se visse aquela cena? – Enfim, isso é página virada na minha vida.

- Isso mesmo, prima. – disse Emily. – Você está com outro cara, e pelo visto ele é o ideal para você.

           “É mesmo?”, me peguei pensando. Eu não me via quase sucumbindo de saudade de Ray caso ficasse com outro cara, como era o caso de Dianna, que mal sabia disfarçar seu amor por Davy. E acho que Ray não viria atrás de mim numa festa, depois de rompermos, caso isso acontecesse, na primeira oportunidade.
             Por outro lado, eu estava morrendo de saudade de Bob. Seria ele o certo para mim? “Não seja ridícula, Fanny. Bob ama você, mas você o faria sofrer demais. Ficaria na mesma situação de Dianna, que evidentemente está com Peter por pura pena”.

               Decidi deixar aquilo para lá. Emily disse:

- Meninas, eu vou pedir pizza. De que sabor querem?

                 Quis pizza de champignon, porém, Elinor preferia frango. Então Emily disse que pediria uma metade de cada sabor. Sentamos no sofá e ficamos esperando pela pizza, conversando sobre tudo e sobre nada ao mesmo tempo. 
               Depois de comer a pizza, passamos a noite dançando ao som de nossas músicas favoritas. E passaríamos cerca de duas semanas assim, comendo de delivery e dançando até altas horas da noite. Era tão divertido!

                Ray me ligava todos os dias, mas, mais ou menos quando fazia uma semana e meia que eu estava em Cambridge, ele começou a agir de maneira diferente. Era mais seco ao falar comigo. Comecei a ficar intrigada com isso, e certo dia perguntei a ele:

- Ray, está tudo bem, querido?

- Claro que sim, Fanny. Por que não estaria?

- Sei lá, você está soando diferente ao falar comigo. Como se ficasse irritado ao falar comigo.

- Imagine! Que absurdo, Fanny! Estou só fazendo muitos shows. Ando cansado.

- Tem certeza, Ray?

- Absoluta.

- Está bem, se você diz...


             Mesmo assim, eu estava desconfiada de que havia algo errado. Quando voltasse a Londres, daria um jeito de investigar. Eu tinha o pressentimento de que Jenna estava aprontando alguma.

            Voltei. No mesmo dia que cheguei, quando desci na estação de trem, vi Pete Townshend de relance e tive a impressão de não enxergar a aliança de noivado em sua mão.

- Meu Deus. – murmurei. – Não é possível. Estou ficando louca.

                Então vi Ray. Depois de dar-lhe um selinho, perguntei:

- Ray, Evanna e Pete terminaram o noivado?

- Sim. O tratante estava traindo Evie com uma ex-namorada.

- Duvido, Ray!

- Jenna mostrou as fotos.

- Ah. Jenna. Isso explica tudo. – rosnei.

- Puxa vida, Fanny, as pessoas não podem ser boas ou ruins o tempo todo. Dê uma chance a Jenna.

- Ray, eu reconheço gente ruim quando eu vejo. Tenho uma ex-amiga que age de um modo muito parecido com a Jenna.

- Kathy, não é?

- A própria.

- Bom, todo mundo é inocente até que se prove o contrário. Ou, no caso do Townshend, culpado até que se prove o contrário.
- Continuo achando essa história muito mal-contada.


              Como eu não conseguia mudar a opinião de Ray, e nem ele a minha, deixamos aquilo para lá. Estávamos muito bem, até que sua “adorável” prima resolveu nos fazer uma visita.

- Ora, ora, Fanny, está de volta! Como está Bob Dylan? Com boa saúde, eu espero.

- Eu não estive com Bob durante esse tempo, Jenna, e sim com minha irmã Elinor e minha prima Emily.

- Sei, sei. Confesse que estava com seu amante, Fanny Fitzwilliam!

- Eu não estava com ele! E mesmo que estivesse, ele não é meu amante, Jenna Davies! Você acredita nela, Ray?

- Acredito.  – disse Ray categoricamente.


                Eu não acreditava naquilo.


- Eu ouvi bem? Você acredita nessa mentirosa, Ray?

- Sim, eu acredito.

- Ray! Você está louco!

- Sim. – Jenna deu um sorrisinho. – Louco de amores pela Nora Smith.


                 Nesse momento, eu quase caí da cadeira.

- O quê????

- Durante esse tempo em que você esteve fora com seu amante, Fanny, Ray te deu o troco. Ele está com Nora agora. Perdeu.

- Mas, mas...

                     Eu não aguentei mais.

- Saiam os dois do meu quarto agora! Nunca mais quero ver um Davies pisar neste hotel!

                      Ray e Jenna saíram. Ele mal olhou para mim. Já ela me encarou até eu fechar a porta, e juro que a maldita tinha um sorriso maléfico em seus lábios.  


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