Como minha
irmã Elinor e minha prima Emily não puderam vir à minha festa de aniversário e
eu não as via havia muito tempo, decidi visitá-las em Cambridge. Despedi-me de
Ray e não contei nada às meninas. Queria fazer surpresa.
Decerto
elas ficaram muito surpresas por ouvir sua campainha tocar numa tarde tranquila
de sexta-feira. Vi a maçaneta girar, e minha irmã, sorrindo, exclamar:
- Fanny! Que saudades! Emily, venha ver quem veio nos
visitar!
Enquanto eu abraçava minha irmã,
senti algo roçar minhas pernas. Olhei para baixo e vi uma bola preta de pelos.
- Voltaire! – eu abaixei e peguei meu gatinho no colo. Ele
já estava ficando grandinho e pesado.
- E então, Fanny, o que nos conta? – perguntou Emily,
enquanto eu coçava atrás das orelhas de Voltaire carinhosamente.
- Bom, como vocês já sabem, estou morando em Londres para
ficar mais perto do meu namorado.
- O famoso Ray Davies. – disseram Elinor e Emily.
- Sim. – eu falei, com um sorriso. – Sabe, ele é um namorado
muito melhor do que o Simon. Mais carinhoso e menos ciumento. Mas ele tem uma
prima que é uma chata de galocha.
- Ela não vai com a sua cara, maninha?
- Não. Nem eu com a dela, Elinor. Ela estragou minha festa
de aniversário, a megera.
Relatei a Emily e Elinor toda a minha briga com Jenna no fim de minha
festa. As duas ficaram indignadas com o comportamento da prima maluca de Ray,
Dave e Evanna.
- Como ela é ridícula! – exclamou Emily.
- Nem me fale. – resmunguei. – Em compensação, a outra prima
de Ray, Evanna, é um amor. Ela é noiva do Pete Townshend.
- Mas quantos anos ela tem? – perguntou Elinor.
- A mesma que você e Emily. Vinte e dois.
- Caramba, tão jovem e já noiva! Enquanto eu...
- Nada de novo na sua vida amorosa, mana? – perguntei a
Elinor.
- Não. Os caras de Cambridge não servem para mim. Tenho
esperança de conhecer alguém interessante quando me mudar para Londres.
- Olha, caras interessantes é o que não falta em Londres,
principalmente entre os conhecidos do Ray. – eu sorri maliciosamente para minha
irmã. Então me virei para minha prima: - E o Syd, Emily? Como vai ele?
- Segurando a onda, eu acho. Tenho que livrá-lo daquele
maldito ácido. Papai e mamãe já o achavam bizarro, agora que descobriram... –
minha prima não concluiu a frase. Começou a chorar.
- Tio Edwin e tia Jackie descobriram que o Syd usa LSD,
Fanny. Eles querem que Emily se separe dele de qualquer jeito.
- E você vai fazer isso, Emily? – perguntei.
- Não se eu puder controlá-lo. Estou com Syd desde que ele e
eu entramos na universidade, Fanny. Faz quase quatro anos. Diga-me se
terminaria tão fácil com alguém que está com você há tanto tempo, prima.
- Não. Isso não é nada fácil.
Emily sentou-se na poltrona e
enterrou o rosto nas mãos. Para animá-la, eu disse:
- Meninas, isso foi há meses atrás, mas consegui um
autógrafo dos Beach Boys!
As
palavras “Beach Boys” funcionavam como ímãs para Emily, como eu quando ouço
“The Monkees” ou “The Yardbirds”. Talvez a única coisa que interesse mais minha
prima do que o grupo de Brian Wilson seja os Everly Brothers. Elinor também
ficou muito interessada. Ela adora os Beatles e os Rolling Stones, mas também
gosta bastante dos Beach Boys.
- Deixe-me ver isso! – exclamaram as duas ao mesmo tempo.
- Calma, meninas. – eu ri. Abri minha bolsa e tirei de lá o
papel com o autógrafo do quinteto. Há quanto tempo aquilo havia acontecido! Eu
ainda estava com Paul...
Mostrei a elas.
- Eu não acredito! – Emily sorria de orelha a orelha.
- Como conseguiu isso, Fanny? – quis saber minha irmã.
- Numa festa a qual eu fui com Paul e seu colega de dupla,
Art. Foi muito legal ter conseguido isso, mas me lembrar dessa festa me traz
algumas más recordações.
- Foi quando Simon surtou de ciúmes por causa de um dos
Monkees, não foi?
- Foi. Por causa do Peter. – então lembrei o incidente
envolvendo-o, além de Davy Jones e Dianna Mackenzie, em minha festa. O que Paul
pensaria se visse aquela cena? – Enfim, isso é página virada na minha vida.
- Isso mesmo, prima. – disse Emily. – Você está com outro
cara, e pelo visto ele é o ideal para você.
“É mesmo?”,
me peguei pensando. Eu não me via quase sucumbindo de saudade de Ray caso
ficasse com outro cara, como era o caso de Dianna, que mal sabia disfarçar seu
amor por Davy. E acho que Ray não viria atrás de mim numa festa, depois de
rompermos, caso isso acontecesse, na primeira oportunidade.
Por outro
lado, eu estava morrendo de saudade de Bob. Seria ele o certo para mim? “Não
seja ridícula, Fanny. Bob ama você, mas você o faria sofrer demais. Ficaria na
mesma situação de Dianna, que evidentemente está com Peter por pura pena”.
Decidi
deixar aquilo para lá. Emily disse:
- Meninas, eu vou pedir pizza. De que sabor querem?
Quis
pizza de champignon, porém, Elinor preferia frango. Então Emily disse que
pediria uma metade de cada sabor. Sentamos no sofá e ficamos esperando pela
pizza, conversando sobre tudo e sobre nada ao mesmo tempo.
Depois
de comer a pizza, passamos a noite dançando ao som de nossas músicas favoritas.
E passaríamos cerca de duas semanas assim, comendo de delivery e dançando até
altas horas da noite. Era tão divertido!
Ray me
ligava todos os dias, mas, mais ou menos quando fazia uma semana e meia que eu
estava em Cambridge, ele começou a agir de maneira diferente. Era mais seco ao
falar comigo. Comecei a ficar intrigada com isso, e certo dia perguntei a ele:
- Ray, está tudo bem, querido?
- Claro que sim, Fanny. Por que não estaria?
- Sei lá, você está soando diferente ao falar comigo. Como
se ficasse irritado ao falar comigo.
- Imagine! Que absurdo, Fanny! Estou só fazendo muitos
shows. Ando cansado.
- Tem certeza, Ray?
- Absoluta.
- Está bem, se você diz...
Mesmo
assim, eu estava desconfiada de que havia algo errado. Quando voltasse a
Londres, daria um jeito de investigar. Eu tinha o pressentimento de que Jenna
estava aprontando alguma.
Voltei. No
mesmo dia que cheguei, quando desci na estação de trem, vi Pete Townshend de
relance e tive a impressão de não enxergar a aliança de noivado em sua mão.
- Meu Deus. – murmurei. – Não é possível. Estou ficando
louca.
Então
vi Ray. Depois de dar-lhe um selinho, perguntei:
- Ray, Evanna e Pete terminaram o noivado?
- Sim. O tratante estava traindo Evie com uma ex-namorada.
- Duvido, Ray!
- Jenna mostrou as fotos.
- Ah. Jenna. Isso explica tudo. – rosnei.
- Puxa vida, Fanny, as pessoas não podem ser boas ou ruins o
tempo todo. Dê uma chance a Jenna.
- Ray, eu reconheço gente ruim quando eu vejo. Tenho uma
ex-amiga que age de um modo muito parecido com a Jenna.
- Kathy, não é?
- A própria.
- Bom, todo mundo é inocente até que se prove o contrário.
Ou, no caso do Townshend, culpado até que se prove o contrário.
- Continuo achando essa história muito mal-contada.
Como eu
não conseguia mudar a opinião de Ray, e nem ele a minha, deixamos aquilo para
lá. Estávamos muito bem, até que sua “adorável” prima resolveu nos fazer uma
visita.
- Ora, ora, Fanny, está de volta! Como está Bob Dylan? Com
boa saúde, eu espero.
- Eu não estive com Bob durante esse tempo, Jenna, e sim com
minha irmã Elinor e minha prima Emily.
- Sei, sei. Confesse que estava com seu amante, Fanny
Fitzwilliam!
- Eu não estava com ele! E mesmo que estivesse, ele não é
meu amante, Jenna Davies! Você acredita nela, Ray?
- Acredito. – disse
Ray categoricamente.
Eu não
acreditava naquilo.
- Eu ouvi bem? Você acredita nessa mentirosa, Ray?
- Sim, eu acredito.
- Ray! Você está louco!
- Sim. – Jenna deu um sorrisinho. – Louco de amores pela
Nora Smith.
Nesse momento, eu quase caí da cadeira.
- O quê????
- Durante esse tempo em que você esteve fora com seu amante,
Fanny, Ray te deu o troco. Ele está com Nora agora. Perdeu.
- Mas, mas...
Eu não aguentei mais.
- Saiam os dois do meu quarto agora! Nunca mais quero ver um
Davies pisar neste hotel!
Ray e Jenna saíram. Ele mal olhou para mim. Já ela me encarou até eu
fechar a porta, e juro que a maldita tinha um sorriso maléfico em seus lábios.
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