Havia um longo tempo que o jovem
corsário Peter Tork estava sofrendo. Desde que havia conhecido uma linda jovem
em uma de suas viagens marítimas, ela nunca mais saiu de sua mente. O nome dela
era Erin, Erin Hudson. Ela vivia numa ilha nas Antilhas com os tios, os primos
e a mãe. O pai, de quem havia herdado tudo, havia morrido antes de Erin nascer.
Um dia, um amigo de Peter, Davy Jones, também
um corajoso corsário, fez-lhe um anúncio:
- Vou voltar àquela ilha nas
Antilhas e pedir a mão da srta. Mackenzie.
A srta. Mackenzie, amada por Davy, era a
prima de Erin. Uma linda moça, e dona de um dote formidável.
- Pedir a mão da srta. Mackenzie?
- Sim, sim. Sabe, Peter, acho que
você deveria me acompanhar. E tentar a sorte com a prima de Dianna, a srta.
Hudson.
- A srta. Hudson?!
- Ora, Peter, se sou conhecido
por algo além da minha baixa estatura, é por minha astúcia! Sei muito bem que
ama Erin Hudson.
- Está bem, eu confesso que amo
aquela moça.
- Venha comigo na viagem e peça a
mão da sua ninfa à mãe dela!
- Está bem, eu vou. – Peter por
fim concordou.
***
Os dois jovens corsários aportaram na
ilhazinha antilhana. Tomaram coragem e foram bater à porta da suntuosa casa da
família Mackenzie, onde também viviam as Hudson, mãe e filha. O falecido sr.
Hudson era irmão da sra. Mackenzie.
Quem os atendeu foi o mordomo, que
gostava muito deles e de seus amigos Mike Nesmith e Micky Dolenz.
- Ora, ora! Capitão Jones! E comandante
Tork! A que devemos a honra da sua visita?
Davy aproximou-se do mordomo e
cochichou no ouvido dele.
- Vim pedir a mão da srta.
Mackenzie, Cowper. E Peter tem pretensões quanto à srta. Hudson.
- Ah, espertinhos! – o mordomo
riu gostosamente. – As patroazinhas estão ainda mais bonitas do que seis meses
atrás.
“Erin ficar ainda mais bonita? Impossível!”, Peter pensou.
- Entrem. – disse Cowper. – Vou
anunciar sua presença.
Os rapazes se sentaram num elegante sofá.
Logo, os moradores da casa vieram recepcioná-los.
- Capitão Jones. – Dianna
Mackenzie sorriu para Davy. Desde que o havia visto pela primeira vez, estava
apaixonada por ele, e aguardava pacientemente que ele pedisse a mão dela ao
pai.
- Srta. Mackenzie, está ainda
mais encantadora do que antes. – disse Davy, beijando a mão da moça.
Os dois passaram os dias seguintes
flertando visivelmente. Não havia dúvida de que em breve Davy pediria a mão de
Dianna em casamento e seria aceito. Peter ainda não havia reunido a coragem
necessária para cortejar Erin. Apenas a observava de longe, admirando-a.
- Teve algum sucesso? – quis
saberDavy.
- Não, não. Sou um fracasso.
- Não, Peter! Você é tudo, menos
um fracasso! Veja quanta fortuna fez em tão pouco tempo! É corajoso! É bom! E
mais... Você é um ótimo poeta! Mostre a ela seus dons!
- Boa ideia, meu amigo. – Peter
sorriu.
Peter sentou-se em seu quarto e
deixou a inspiração fluir. Escreveu o seguinte soneto:
Eu vinha soturno pela floresta,
Partido o meu pobre coração cantor.
De que ama já minha ninfa outro pastor,
Chegou até mim a notícia funesta.
Tentando em vão sufocar a atroz dor...
Oh, mas que bela visão é esta!
Ninfa a afastar os cabelos da testa,
Bela, cuidando de uma pequena flor.
Tão belos como ela, os seus dedinhos
Às pétalas delicadas do botão
Enchiam de infindáveis carinhos.
Antes que se desviassem os caminhos
Ousadamente beijei sua mão
E vi aparecerem cupidinhos...
O corsário ficou satisfeito com sua obra.
Esperava que Erin também gostasse, afinal, ela havia sido a musa inspiradora.
Certa noite, após o jantar, a sra. Mackenzie indagou:
- Comandante Tork, estou enganada
ou seus amigos mencionaram, na primeira vez em que estiveram aqui, que o senhor
possui imenso talento poético?
- Eu não diria que é imenso, sra.
Mackenzie, mas sim, eu escrevo poesia.
- Poderia recitar algo para nós?
– perguntou Dianna. – Algum poema sobre amor, talvez? – ao dizer isso, ela
olhou para Davy.
- Bem...
Peter respirou profundamente e recitou
o soneto, olhando diretamente para Erin, sem tentar disfarçar. “Saiba que é
minha musa”, pensava ele ao recitar os versos. Erin deu um pequeno sorriso,
consciente de que ela havia inspirado aqueles lindos versos. A mãe, os tios e
os primos dela também perceberam. Nascia ali um grande amor.
Uma semana mais tarde, Davy finalmente
pediu a mão de Dianna ao sr. e a sra. Mackenzie, e eles concederam de bom grado
a mão da filha ao corsário que ela amava.
- Davy, me ensine o segredo de
como conquistar o coração de uma dama! – implorava Peter ao amigo.
- Peter, você já escreveu o
soneto para Erin e recitou-o olhando fixamente para ela! Por acaso não notou
que ela sorria para você? Ela sabe que inspirou o soneto!
O corsário poeta por um momento
ficou paralisado.
- Ela... Sabe...?
- Sabe! É claro que sabe! Agora
você deve procurá-la e fazer a corte!
- Está bem... Vou tentar.
No dia seguinte, de manhã cedo,
Peter saiu para caminhar no jardim, planejando como cortejar Erin. Encontrou-a
cuidando de algumas flores num canteiro. “Ela é mesmo uma ninfa!”, o rapaz
pensou.
- Olá, srta. Hudson. –
cumprimentou.
- Oh, olá, comandante Tork! – ela
retribuiu o cumprimento, erguendo os olhos para ele. – Eu... Gostei muito
daquele poema que recitou para nós a pedido de minha prima, algumas noites
atrás.
- Ah, bem, fico contente que
tenha gostado. – Peter ficou ruborizado.
- Sabe, se eu fosse sua
“ninfa”... Não pensaria duas vezes antes de aceitar sua corte!
- É mesmo? Bem, srta. Hudson,
devo deixá-la. Não quero atrapalhar seus cuidados com as flores.
Peter se afastou, sorrindo.
Aquela havia sido a deixa que Erin havia lhe dado para que ele seguisse em
frente e a cortejasse. E ele decidiu que faria isso da melhor maneira possível.
Antes de procurá-la no primeiro dia em que faria a corte a ela, tentou
vestir-se bem. Também colheu belas flores para ela. Sabia que a sua amada era uma
grande apreciadora de flores. Por fim, decidiu rezar a Afrodite, a deusa do
amor.
- Por favor, senhora Afrodite,
auxilie-me a conquistar aquela que para mim é a mais bela e perfeita das
mortais! Somente com ela poderei ser feliz, ó deusa! Pode ouvir e atender o meu
apelo, mais bela das imortais? Pode me conceder a mesma felicidade que concedeu
a meu amigo Davy? A de amar e ser amado?
A deusa de fato ouvia a prece de
Peter, e iria atendê-lo. Contudo, o destino guardava uma surpresa não muito
agradável para os jovens... Erin, parecendo adivinhar as intenções do rapaz,
foi até o jardim naquela linda tarde de sol. Peter também se encaminhou para
lá. Encontrou a moça sentada na grama, deliciando-se com a luz solar aquecendo
e iluminando-a. Para Peter, à luz do Sol a beleza de sua amada era realçada.
- Srta. Hudson? – ele chamou.
- Olá, comandante!
- Desculpe-me por incomodá-la,
mas eu gostaria de... Presenteá-la.
- Presentear-me? Quanta
gentileza! – ela deu seu lindo sorriso para ele.
- Aceite estas flores. – ele
entregou o ramalhete a ela.
- Flores? Comandante Tork, eu amo
flores! – disse Erin, muito feliz, aspirando o doce perfume das flores.
- Eu sei o quanto gosta delas.
Por isso mesmo, achei que nada seria um presente melhor para a senhorita.
- Nada mesmo... Porém...
- O que foi?
- Não quero mais que me chame de
“senhorita”. Pode me chamar de Erin.
- Está bem, eu passo a chamá-la
de Erin se passar a me chamar de Peter.
- Combinado! Estou muito grata
pelas flores, Peter!
- Fico feliz com isso, Erin.
Mais tarde, Davy e Peter conversavam.
- Bem, você escreveu um poema que
Erin sabe muito bem que é para ela. Agora você a presenteou com flores. Está
indo bem, Peter, mas não acha que poderia ser um pouquinho mais... Ousado?
- Ousado como?
- Não sei... Falar mais
diretamente com ela, talvez. Abordar o assunto de casamento, sabe? Não dizendo
que pretende desposá-la porque aí já estará sendo direto demais e isso não
seria bom. Mas dizendo que uma moça como ela deve ter muitos pretendentes e coisas
assim.
- Tem razão, Davy. E farei isso
logo, logo.
Mais uma vez, Peter rezou para
Afrodite.
- Bela e graciosa Afrodite,
permita-me conquistar aos poucos a minha doce Erin... Serei eternamente grato à
senhora...
Enquanto ele rezava, viu surgir diante de si
uma mulher esplendorosa. Uma mulher que surgia repentinamente e era tão bela...
Só podia ser a deusa!
- Divina Afrodite! – Peter
curvou-se diante dela.
- Levante-se, Peter Tork, filho
de Calíope. Saiba que ouvi cada uma de suas preces. E que conquistou minha boa
vontade.
- C-Conquistei, senhora Afrodite?
- Sim. Está na hora de associar
seu talento natural para a poesia e o canto a uma dádiva do Olimpo.
- Qual dádiva, minha senhora, se
me permite fazer tal pergunta?
- Uma lira. Idêntica à minha. Com
a diferença que pode ser tocada por um semideus. – Peter ouviu uma voz
masculina atrás de si.
Virou-se e viu um homem alto, forte, atlético,
de cabelos e olhos negros, barbado. Ele usava uma coroa de louros na cabeça e
carregava duas liras.
- Febo Apolo. – Peter curvou-se
outra vez. – O mais grandioso dos poetas, aquele que escolheu para suas
companheiras minha mãe e suas irmãs.
- Está na minha hora de agraciar
o filho de minha companheira Calíope. – disse Apolo. – Tome, rapaz. – o deus
colocou nas mãos de Peter uma das liras. – Com ela, sua belíssima poesia será
acompanhada da mais maviosa música. Homens, deuses, ninfas e animais, toda
criatura viva virá até você para ouvi-lo. Até mesmo as pedras e as árvores se
moverão. Os deuses-rios desviarão seus cursos apenas para correr por onde você
passar.
- Até mesmo ela me ouvirá? –
Peter indagava-se, esperançoso.
- Principalmente a moça. –
Afrodite garantiu. – Ela será a mais fiel de seus ouvintes.
- Ah, Erin... Minha
bem-amada...
- Vá até ela, Peter. Lance mão
de seu talento. – disse Apolo.
- E lembre-se de que tem a
benevolência dos deuses. – acrescentou Afrodite.
- Sou eternamente grato,
divinos senhores. – Peter curvou-se ainda mais uma vez, e quando se ajeitou, os
deuses já haviam desaparecido.
Ele suspirou profundamente.
- Erin... Se assim desejarem os
olimpianos, você logo será minha.
Não aguentava mais esperar. Foi até a parte dos
jardins onde ela costumava ficar.
- Erin?
- Olá, Peter. – ela sorriu
docemente, enquanto trançava flores para formar uma coroa.
- Não quero parecer
intrometido... Mas... Pensa em se casar?
Erin deu um pequeno suspiro
antes de responder.
- Sim. Eu apenas espero... Por
ele. O homem que amarei para sempre, com toda a
força de meu ser.
- E... Como seria tal homem?
- Oh, bem... Doce. Gentil.
Bonito... E um excelente poeta.
Peter deixou cair sua nova lira
com as últimas palavras ditas pela amada.
- Um... Um excelente poeta?
- Sim! Como você. – ela sorriu.
– Comandante Peter Tork, eu te amo!
- Eu... Eu... Erin... Eu também
te amo. – Peter envolveu Erin em um abraço e beijou-a longa e docemente. –
Aceitaria... Se casar comigo, minha bela ninfa? – ele indagou,
ao soltá-la.
- Sim! Sim, Peter, sim! – ela
sorriu e beijou-o outra vez.
***
Dois meses depois, realizavam-se nos jardins
da casa do diplomata Lawrence Mackenzie dois casamentos: o de sua filha Dianna
com o capitão David Jones e o de sua sobrinha Erin com o comandante Peter Tork.
A dupla cerimônia foi agraciada com a presença dos deuses olimpianos, que,
invisíveis, estavam ali para abençoar a união. No entanto, Himeneu, deus do
casamento, o único que se fez visível aos mortais na festa, antes de se juntar
a eles, teve uma discussão com seus colegas divinos.
- Não posso aparecer neste
casamento! Não com a desgraça que atingirá Peter e Erin em poucas horas!
- Mas não deve estar presente
apenas por eles! Davy e Dianna também acabaram de realizar os votos
matrimoniais! E faço questão de que abençoe as núpcias de meu mortal favorito!
– Atena disse.
- Esqueceu-se do que o destino
guarda para seu amado mortal e essa jovem, minha cara Atena? – Apolo retrucou.
Tinha certo ciúme do carinho que Atena sentia pelo mortal.
- Não, meu caro Apolo, eu não me
esqueci. Sei o que as Moiras reservam para Davy e garanto que elas também
reservam para ele um retorno ao lar e aos braços desta moça que agora olha para
ele cheia de ternura e sorri tomada de júbilo. Este casal foi flechado de tal
forma por Eros que nada pode abalar o amor existente entre eles.
- Exceto você, não é, Atena? –
Apolo falou, ironicamente.
- O que está insinuando, Apolo? –
a pequena deusa da sabedoria ofendeu-se.
- Ora! Está muito claro que essa
sua preferência por Davy Jones não se deve somente à astúcia dele...
- Cale a boca! Nada sinto por
este mortal que não uma predileção por ser ele o mortal mais digno das minhas
bênçãos!
- Será que podem parar com esta
discussão? – Zeus gritou, sua voz ribombando como um trovão, os cabelos loiros
e cacheados revoltosos e os olhos azuis faiscando.
- É claro, senhor Zeus. – Atena e
Apolo disseram em uníssono, calando-se.
- Ótimo. Himeneu, eu ordeno que
honre esta cerimônia com sua presença, mesmo que estes dois casais sofram muito
futuramente.
- Está bem, senhor Zeus, como
desejar.
Himeneu fez-se visível entre os
mortais. Davy e Peter viam-no como Bob Rafelson, um marinheiro que lhes ensinou
muitas coisas sobre o mar quando eram jovens. No entanto, por ele ter aparecido
tão repentinamente numa festa de casamento, todos os presentes adivinharam que
se tratava do deus Himeneu, que vinha abençoar as duas núpcias.
O deus sentou-se na cabeceira da
grande mesa onde os dois casais de nubentes se encontravam. Disse:
- Eu, Himeneu, tenho grande
prazer em prestigiar esta festa de casamento, e cubro com minhas bênçãos a
união destes dois casais. David e Dianna Jones, Peter e Erin Tork, que suas
vidas em comum sejam afortunadas. Que Afrodite faça com que o amor jamais se
esgote. Que Hera garanta uma fidelidade que levarão com vocês ao Hades. Que
Deméter lhes permita ter sempre mesas fartas. Que Ilítia acompanhe Dianna e
Erin em seus partos e nasçam crianças sadias.
Após
pronunciar estas palavras, Himeneu portou-se como um convidado comum, como era
seu hábito nas festas de casamento de que participava. Porém, normalmente só ia
embora ao raiar do sol. Ainda faltavam muitas horas para Apolo começar a
conduzir seu carro pelo céu quando Himeneu deixou a festa. Os dois casais perturbaram-se.
- Davy... Poderia ser este um mau
augúrio para nossa união? – Dianna sentia um nó na garganta.
- Não se preocupe, Di. Não há de
ser nada. – o jovem capitão acariciava os cabelos da esposa.
- Acha que deveríamos nos
preocupar, Peter? – Erin indagou ao marido.
- Bom... Acho um pouco inútil nos
alarmarmos agora. Vamos ficar tranquilos, nós quatro. – Peter disse.
- Tudo bem. – Peter concordou. –
Logo me juntarei a você.
Erin saiu, caminhando distraída
pelo jardim. Himeneu, disfarçadamente, acompanhou a moça com o olhar. E engoliu
em seco. Pobre rapaz...
Lá fora, a recém-casada estava
muito ocupada sentindo o orvalho na grama e olhando para as estrelas na grama.
Até que... Sentiu um par de mãos atrevidas em seus quadris. Ela deu um gritinho
de susto.
- Peter, você me assustou! Mas
desde quando te dei tanta liberdade para colocar as mãos tão embaixo? Podia
esperar até a noite de núpcias...
- Noite de núpcias? – retrucou uma
voz masculina, mas que não era a de Peter. Tinha sotaque alemão. Erin suou
gelado. – Por que esperar, se posso tê-la aqui mesmo?
- PHILIPP LAHM! – Erin bradou, ao
reconhecer o dono daquela voz. Ele era um antigo pretendente, que ela havia
recusado.
- Eu mesmo, meine Liebe. –
respondeu ele, com um sorriso malicioso. – Sentiu saudade?
- NEM UM POUQUINHO! ME LARGA!
- Não grite, senão aquele paspalho
do seu marido vai ouvir! – disse ele, tapando a boca de Erin. Ela mordeu a mão
dele.
- ESSA É A IDEIA! – e saiu
correndo.
Peter e os outros foram atraídos pelos gritos
de Erin, e foram para o jardim. Enquanto isso, ela tentava fugir de seu
perseguidor, mas sem dar muita atenção a onde pisava. Até que...
- AI! – ela gritou de dor no
calcanhar. Finalmente olhou para o chão. E viu uma cobra rastejando de volta
para sua toca. – Oh, não... – murmurou ela, tentando tampar os furos no
calcanhar com a mão.
Tarde demais. Ela só teve consciência
suficiente para ouvir Peter chamar seu nome. Mas não pôde responder.
***
Peter havia
deixado Lahm para enfrentar seus amigos Mike, Micky e Davy, e correu para
acudir Erin, pois ouviu seu grito.
- ERIN! – chamou por ela. – ERIN! RESPONDA, POR FAVOR!
Até que a
viu, caída na grama. Havia uma pequena poça de sangue ao lado do calcanhar
direito dela. Ajoelhou-se e tomou-a nos braços. Ela estava dura e fria. Poderia
estar dormindo... Não fosse a palidez de morte em seu rosto.
- Não... Meus deuses, não pode ser... Não esteja morta,
Erin, por favor...
Colocou o
ouvido no peito dela. Não ouviu nada. Desesperado, já chorando, Peter
perguntou-se se Lahm a havia matado, em sua raiva por ela ter se casado com
outro. Mas o único ferimento que ela tinha era no calcanhar... Analisou a
ferida. Picada de cobra.
Ele
entendeu tudo. Em sua pressa de fugir de Philipp Lahm, Erin não viu a cobra no
chão, a qual a mordeu fatalmente.
- NÃO, NÃO, NÃO! – gritou o rapaz. Mal casado, já estava
viúvo.
Lahm era fortemente
segurado por Mike e Micky. Davy e Dianna
já iam ver por que Peter tinha gritado, quando ele chegou aonde eles estavam,
carregando Erin nos braços. Ele chorava sem parar.
- Peter, o que... O que houve? – Davy indagou.
- Morta. Morta! – Peter gritou.
- NÃO! MINHA PRIMA! NÃO, MEUS DEUSES, NÃO! – Dianna estava
em choque, e quase desmaiou, se Davy não houvesse sido rápido e a segurado.
Lahm fugiu dali. Até mesmo ele estava
horrorizado. Peter carregou Erin para dentro da casa, e colocou o corpo inerte
sobre a cama em que iriam dormir em sua noite de núpcias. Ele se debruçou sobre
sua noiva morta, chorando sem cessar. Os familiares de Erin estavam em
desespero também, sobretudo a mãe. Os amigos de Peter não conseguiam pensar em
nada para dizer. Só ficaram ao lado dele a noite toda, velando o corpo.
No dia
seguinte, houve o funeral. E durante dias e semanas, Peter não teve ânimo para
nada. Não comia, não falava. Só bebia água, quando alguém lhe dava de beber à
força. Nem parecia o poeta sempre feliz de antes. Em sua lira, não entoava mais
poemas alegres, sobre as qualidades de sua amada e como ele era feliz ao lado
dela. Agora, só saíam de sua boca cantos fúnebres.
Ele estava
magro, cadavérico. Esperava ser enviado ao reino de Hades e Perséfone, onde ao
menos ele poderia ficar ao lado dela. Até que um dia...
- Eu vou ao Hades. Irei e voltarei vivo! E trazendo Erin
comigo!
- Peter, o louco aqui sou eu. – disse Micky.
- Não estou louco, Micky! E se eu conseguir convencer Hades
e Perséfone a me devolverem Erin?
- Hades? Devolver uma alma? – Mike estava duvidoso.
- Entendo sua estratégia, Peter. – Davy falou, sempre astucioso. – Vai cantar
e tocar para eles sobre sua dor?
- Exatamente. Disseram que não há uma criatura viva sequer
que não se comova com meus cantos fúnebres. Bom... Apesar de governarem os
mortos, Hades e sua mulher estão vivos.
Nada impediria
o poeta abençoado pelos deuses de trazer sua amada esposa de volta.
***
Peter
viajou para o bosque onde se dizia haver uma entrada para o Mundo Inferior. E
viu que os boatos não mentiam, pois, mal se embrenhou na mata, um grande
buraco, muito maior do que qualquer toca de coelho ou texugo, abriu-se no chão.
Peter entrou, e surpreendeu-se com o fato de que podia andar lá dentro
perfeitamente ereto.
Caminhou por um longo tempo, até que se viu
diante de um rio de águas cinzentas, onde estava atracado um barco. O Estige. O
barqueiro, Caronte, estendeu-lhe uma mão esquelética, pedindo o pagamento pela
travessia do rio. Peter pegou uma bolsinha de couro e tirou de lá um óbolo, que
o barqueiro pegou como que por mágica. Peter atravessou o píer e entrou no
barco. Navegou pelo que pareceram horas. Até que ele se viu diante de portões
de marfim, guardados por um gigantesco cão de três cabeças: Cérbero.
O poeta
pulou do barco de Caronte, ficando diante do cão. Sacou sua lira e tocou uma
bela canção. O cão monstruoso caiu adormecido como um filhotinho. Assim, Peter
pôde chegar sem problemas à sala do trono de Hades.
Tudo no palácio
era de marfim, prata e ônix. Quando ele se aproximou de imponentes portas de
marfim, elas se abriram magicamente, revelando um salão todo preto e prateado,
iluminado por archotes onde crepitavam chamas azuis. No fim do salão, havia
dois grandes tronos prateados. Sentados nesses tronos, estava um casal. Hades
tinha cabelos pretos e olhos azuis. Ele era alto, magro e pálido, vestia-se
inteiramente de preto, usava uma coroa de prata e seus dedos estavam cheios de
anéis do mesmo material. Sua esposa Perséfone tinha cabelos claros e olhos
escuros. Era um pouco menos pálida do que seu marido, mas sua vestimenta era
idêntica à dele.
- O que traz um vivo à morada dos mortos? – exigiu saber
Hades, muito surpreso por ver uma pessoa viva à sua frente. Estava ainda mais
surpreso pelo fato de se tratar de um mortal. Os únicos entes vivos a descerem
ao Mundo Inferior antes haviam sido todos deuses.
- Por favor, meu senhor Hades, devolva a minha esposa! Ela
morreu na mesma noite em que nos casamos, não pude sequer...
- Não posso fazer isso. – o deus cortou a fala de Peter. -
As Parcas determinaram que era o momento de cortar o fio da vida dela.
- Mas... E se eu tocar para o senhor e sua mulher sobre minha
grande dor?
- Nada do que disser ou cantar pode mudar o que as Moiras...
- Querido. – Perséfone colocou a mão sobre a do marido. –
Vamos ouvir o canto desse rapaz. Se ele conseguir nos comover, ele poderá levar
a mulher de volta com ele ao mundo dos vivos.
- Está bem... – murmurou o soberano do submundo. – Toque,
Peter Tork, filho de Calíope.
Peter
não precisou de uma segunda ordem. Tocou e cantou. Sua melancolia tocou no
fundo do coração do casal de governantes do Mundo Inferior. Quando ele terminou
de cantar, Hades falou:
- Está bem, meu rapaz, pode levar sua esposa. Você me
convenceu.
O poeta abriu um grande sorriso. Com um
movimento da mão, Hades fez o espírito de Erin surgir no meio do salão. Peter
não podia acreditar. Correu para abraçá-la, mas ela quase se dissolveu em
fumaça.
- Só vai poder tocá-la de verdade quando estiver de volta na
superfície. – explicou o deus. – Pegue-a pela mão, e só olhe para trás quando
já tiverem alcançado o mundo dos vivos.
- Está bem. – Peter concordou, oferecendo a mão ao espírito.
Sentiu a mão ficar gelada. Virou o rosto e começou a guiar a alma da esposa
para fora do palácio de Hades e Perséfone.
- Boa sorte. - Perséfone murmurou muito baixo, e sorriu. O
poeta havia conquistado sua amizade.
Sempre
conduzindo a alma de Erin, Peter refez o seu trajeto. Várias vezes esteve a
ponto de virar-se para olhar para ela, mas se controlou a tempo. Até que
finalmente viu a luz do Sol novamente.
Saíram
pelo mesmo buraco que havia servido de entrada para Peter. Peter deixou Erin ficar
no ponto onde batia mais luz do Sol. Ele viu, contente, a pele dela ficar
corada outra vez. Ela foi se acostumando à luminosidade do mundo dos vivos, e
finalmente olhou para ele.
- Peter. – ela sorriu.
- Erin. – ele a abraçou fortemente. Ficou extremamente
contente ao constatar que ela era sólida de novo.
- Você... Você foi me buscar no Mundo Inferior! Quantos
homens podem dizer que já fizeram isso?
- Ah, Erin, eu faria qualquer coisa por você. – ele respondeu
com um sorriso.
- Eu sou tão grata... A você por me salvar e aos deuses por
me darem você como marido. Eu te amo. – Erin beijou Peter ardentemente. – Você é
mesmo abençoado pelos deuses.
Os dois
retornaram ao seu lar. Por alguns anos, foram muito felizes. Tiveram um casal
de filhos, Sally e Alexander. Poucas semanas depois de Erin dar à luz o
terceiro filho, Thomas, Peter precisou partir em uma viagem e, devido a uma série
de aventuras que ele e seus amigos viveram, acabou atrasando seu regresso em
vinte anos.
Erin aguardou pacientemente. Pois se ele fez
algo tão grandioso quanto ir buscá-la no Mundo Inferior, era o mínimo que ela
podia fazer por ele. Quando enfim ele estava de volta, Erin engravidou uma
última vez, e nasceu uma menina, que ela e o marido chamaram de Miranda.
E Erin e
Peter foram tão felizes quanto se pode realmente ser durante o resto de suas
vidas. No momento certo, foram para o palácio de Hades e se reencontraram lá.

Nenhum comentário:
Postar um comentário