Alguns meses depois, Paul teve que voltar aos Estados Unidos para
visitar os pais e resolver alguns assuntos relacionados a uma música dele, The Sound Of Silence, que havia sido
alterada por um certo produtor musical e relançada. Eu, infelizmente, não tive como ir, pois
não podia me dar ao luxo de perder aulas na faculdade.
Tive como companhia a minha
irmã e a minha prima, além de meu gato, um persa negro ainda filhote chamado
Voltaire. Por incrível que pareça, Voltaire foi encontrado abandonado nas ruas
de Cambridge e levado para um abrigo de animais. Certo dia, passei na frente do
abrigo, vi o gatinho e soube que estava para doação. No mesmo dia levei-o para
o apartamento.
Como eu, Elinor ama gatos, mas nossa mãe
nunca nos deixou ter um. Já Emily tem adoração por cachorros, e, em Cambridge,
sentia muita falta do seu, o dachshund Byron, que morava na casa dos meus tios.
Mesmo assim, ela também não resistiu ao meu lindo gatinho iluminista.
Certa tarde, quatro dias antes do meu
aniversário de 18 anos, mais exatamente dia 10 de novembro, eu estava voltando
do veterinário com Voltaire. Assim que abri a porta do apartamento, dei de cara
com um lindo embrulho do tamanho de um disco em cima da mesa da sala.
Soltei Voltaire, sentei no sofá e
desembrulhei o pacote. Quase infartei quando vi o álbum: Bringing It All Back Home, de Bob Dylan. Paul sabia que eu era
doida por Dylan. Vi, então, que havia um pequeno bilhete colado na capinha de
plástico que envolvia a capa de papel do disco:
“Para Fanny, o meu Sol, um presente de
aniversário que sei que será muito apreciado.
Com amor,
Paul”.
Decidi que ligaria para Paul a
fim de agradecer assim que pudesse, já que ligações internacionais não são lá
muito baratas. Então fui para o meu quarto ligar a vitrola e ouvir o mais novo
disco da minha coleção. Acho que ouvi o LP umas três vezes seguidas.
Mostrei o presente a Emily e Elinor. Elas
adoraram, mas confessaram que prefeririam que eu tivesse ganhado o último disco
dos Beach Boys, Beach Boys’ Party!.
Passaram-se três dias, até que chegou o meu
aniversário. Meus pais e meus tios vieram a Cambridge justamente para a
ocasião. Fiquei muito feliz por vê-los. E papai ficou muito irritado com o fato
de que não poderia ser apresentado ao meu namorado. Contudo, creio que ele
aprovaria Paul.
Aproveitei muito o tempo que
passei com meus pais, minha irmã, meus tios e minha prima. Mas tudo que é bom
dura pouco, e depois de dois dias, papai, mamãe, tio Edwin e tia Jackie foram
embora. E fiquei muito irritada por Paul ainda não ter me ligado.
Pouco depois que Emily, Elinor
e eu chegamos da estação de trem onde meus pais e meus tios haviam embarcado de
volta, respectivamente, para Epsom e Benwich, o telefone tocou. Elinor atendeu.
- Alô? É Elinor quem está
falando. Ah sim, ela está sim, acabamos
de deixar meus pais e meus tios na estação de trem. Vou passar para ela, um momentinho.
– E, tapando o fone: - Fanny, é para você.
- É o Paul?
- Sim.
- Finalmente! – eu disse, enquanto
pegava o fone. – Alô? Paul?
- Oi, Fanny. – ele disse.
- Fiquei muito feliz com o disco,
não liguei antes porque ligações internacionais são caras, você sabe.... Mas
você só se lembrou agora do meu aniversário?
- Meu amor, não liguei no dia 14
pelo mesmo motivo que você não ligou antes para agradecer pelo disco. Eu não
esqueci.
- Está perdoado, então.
- Fanny querida, eu sinto muito a
sua falta, mas vou ter que ficar mais um tempo aqui nos Estados Unidos.
- Eu também sinto muito sua falta,
Paul.... Por que não pode voltar à Inglaterra?
- Eu devo ter me esquecido de
contar.... Art e eu resolvemos voltar com a dupla.
- Ah, isso é ótimo, Paulie!
- Nós vamos começar a gravar um
álbum... Mas não sei quanto tempo pode levar.... Só não peço a você que venha
para cá agora porque sei que não pode faltar na faculdade.
- Irei ver você nas minhas férias
de verão.
- Combinado.
- Eu te amo.
- Eu também te amo.
- Até mais.
- Até mais.
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