sexta-feira, 20 de junho de 2014

Fanny's Autumn Almanac - Capítulo 2

 

        “Isso é loucura”, eu dizia a mim mesma. Um triângulo amoroso em que ninguém é correspondido sempre acaba mal.  Eu me sentia mais ou menos como Fanny Price, protagonista de Mansfield Park, romance de Jane Austen. Chamo-me Frances por causa dela.
        A personagem se apaixona por seu primo Edmund Bertram, personagem austeniano em cuja homenagem meu pai recebeu seu nome. O primo de Fanny se apaixona por Mary Crawford, irmã da esposa do pároco local... Contudo, tudo termina bem para Fanny, como em todo livro de Jane.
      Mas eu não me chamava Fanny Price. Eu me chamava Fanny Fitzwilliam, e o Edmund que me amava era Edmund Fitzwilliam, meu pai.
      O equivalente de Edmund Bertram na vida real, Paul Simon, já tinha uma Mary Crawford em sua vida, e esta era minha prima Emily, com a diferença que minha prima não era uma moça pedante.
         Eu não aguentava mais sufocar o que sentia. Precisava desabafar com alguém. Escolhi a minha irmã.

-          Elinor, posso falar com você? – notei que ela estava lendo A abadia de Northanger, de Jane Austen, possivelmente pela décima vez, e não quis atrapalhá-la.
-          Você sabe que sim, Fanny. – disse Elinor, marcando a página com uma fita e fechando o livro. – Pode falar.
-          Bom... Você tem notado algo diferente em mim? Todos dizem que você é boa em adivinhar o que se passa com as pessoas ao seu redor.
-          Você tem estado um pouco mais quieta e reflexiva. Mas isso você sempre foi, irmãzinha.
-          O fato de que escuto Simon & Garfunkel o tempo todo não lhe diz nada?
-          Isso pode ser interpretado de várias maneiras. Você ama uma bela voz, isso não é segredo para ninguém. E também não se pode negar seu gosto por letras bem-escritas.
-          Justo você, Elinor! A eterna apaixonada sofredora! Não percebe quando alguém sofre do mesmo mal que assombrava você em relação a Jimmy há alguns tempos atrás?
-          Espere um pouco... Fanny! Você está apaixonada pelo sr. Simon, certo?
-          Exato. E ele está apaixonado pela Emily...
-          Oh, Fanny! Não desanime, irmãzinha... Paul sabe que Emily não vai terminar com Syd por ele.

-          Sim... Mas um verdadeiro apaixonado luta pelo que quer, não?
-          Ou tem tanto medo da rejeição que sofre calado, como ele. Ou como eu. Ou mesmo como você.
-          Ah, Elinor, o que vou fazer?
-          Eu não sei, Fanny. Ah, o telefone está tocando. – ela falou, levantando-se para atender. – Jimmy! – ela cumprimentou alegremente. Deixei-a na sala para falar ao telefone em paz, e fui para o meu quarto.

                         Eu não queria terminar como a minha irmã. Ela diz que superou o amor por Jimmy, e que ela agora sente por ele apenas a amizade de sempre. Mas eu duvido, pois todos os dias, por volta das cinco horas, ela se senta na poltrona ao lado da mesinha do telefone, esperando que ele ligue. E, quando, muito raramente, ele não telefona, ela fica morta de preocupação e até mesmo um pouco brava.
                      Precisava me esquecer daquele cara. Ele gostava da minha prima, e pronto. Se ele queria sofrer enquanto Emily vivia feliz e despreocupada ao lado de Syd, problema dele.
                     Ir às aulas me ajudava a tirá-lo dos meus pensamentos. Contudo, quando eu finalmente terminava de estudar e ia para a cama, eu me deitava e ficava contemplando o teto, divagando, sonhando com o dia improvável em que Paul Simon iria desistir de compor canções em homenagem a Emily para conquistá-la e notar que eu existia.

                   Num final de tarde qualquer, eu estava estudando tipos de rochas, um dos meus assuntos favoritos, quando ouvi minha irmã me chamar.

-          O que foi, Elinor? Espero que seja importante.
-          Claro que é! Jimmy vem me visitar!

                     Eu já me preparava para suportar uma possível recaída de Elinor. Jimmy apareceu em nosso apartamento dois dias depois.

-          Elinor! – ele exclamou, alegre.
-          Jimmy! – ela estava tão entusiasmada quanto ele.

             Eles se abraçaram com força, pois não se viam havia muito tempo. Eu não posso culpar a Elinor. Jimmy tem mesmo algo apaixonante. Ele é tão talentoso... E sua beleza é exótica, totalmente diferente do padrão inglês.
              Mas eu indiscutivelmente preferia Paul. Emily e eu ficamos observando a reação do “ex-casalzinho” por um tempo, para tentar adivinhar o que viria a seguir.


-          O que tem feito, Elinor? – ele quis saber.
-          O de sempre.
-          Estudar e ler, ler e estudar. – ele riu.
-          Exatamente. E você?
-          O de sempre.
-          Tocar guitarra e pegar garotas, pegar garotas e tocar guitarra. – ela deu um sorriso.
-          Eu não ficaria tão certo quanto às garotas. – ele disse. Reparei que ele segurava a mão dela. Ele próprio notou isso, e logo soltou a mão de minha irmã. – Desculpe, Elinor.
-          Tudo bem... – disse ela.

                        Jimmy ia ficar hospedado num hotel. À noite, nós conversávamos sobre rapazes. O assunto é trivial demais, não nego, mas minha irmã, minha prima e eu adorávamos abrir nossos corações uma para as outras.

-          Eu estou tão feliz... – Emily começou. – Syd é o melhor namorado que pode existir.
-          Por que vocês não assumem isso para todo mundo, não só para os amigos íntimos? – Elinor perguntou. – Vocês estão juntos há três anos, Emily!
-          É difícil, Elinor... Meu pai e minha mãe nunca aceitariam. Syd é tão...
-          Estranho? – eu sugeri, rindo.
-          Eu ia dizer “diferente”, mas “estranho” também serve, Fanny. – Emily riu, seguida de Elinor.
-          Você acha mesmo que tio Edwin e tia Jackie não iriam aceitar o namoro de vocês? – quis saber minha irmã.
-          Acho sim. Creio que eles gostariam de me ver acompanhada de um futuro engenheiro, ou médico, ou advogado, e não de um músico e artista plástico.
-          Mas o que interessa é o amor, Emily! – argumentei. – Não importa como Syd ganha seu pão, e sim se ele a faz feliz.
-          Sua fé no amor é muito louvável, Fanny... Mas você é tão jovem, prima. Vai saber um dia que certas coisas podem arruinar lindas histórias, mesmo que os protagonistas se amem mais do que tudo neste mundo. Mas já falamos bastante de mim. Vamos falar da Elinor.
-          De mim? – minha irmã perguntou. - Eu não tenho nada para contar...
-          É mesmo? A eterna apaixonada não tem mesmo nada para contar? – Emily alfinetou.
-          Eu não amo mais o Jimmy... – Elinor disse. – Eu lutei para superar, e consegui.
-          Mas ele tem dado pistas de que está carente... “Eu não ficaria tão certo quanto às garotas”, por exemplo. – eu provoquei.
-          Jimmy logo vai arranjar alguém. Ele não serve para mim. – Elinor suspirou. – É o meu melhor amigo, eu o amo como se fosse da família, mas ele jamais poderia me amar de uma forma que não essa. Oh, Deus... – os olhos de Elinor ficaram marejados. Ela ainda sofria um pouco por esse amor não-realizado, que ela sempre tentou sufocar dentro de si.
-          Não chore, Elinor! – pediu Emily. – E aquele cara com quem você saiu uma vez?
-          O Tommy? Ele é tão chato! Meu primeiro beijo foi ruim, diferente de tudo que sonhei.
-          Então por que você saiu com ele? – eu quis saber.
-          Porque... Eu queria esquecer o Jimmy.
-          Ah, Elinor... Você vai achar um amor para chamar de seu. Não foi o Jimmy, nem o Tommy. – disse Emily.
-          Mas eu nunca gostei do Tommy.
-          Poderia ter gostado... Mas a questão não é essa. – Emily prosseguiu. -  O que interessa é que o seu Mr. Darcy não foi o Jimmy, nem o Tommy, e pode não ser o terceiro cara que cruzar seu cruzar seu caminho... Tenha paciência e ele virá.
-          Você deveria ser escritora, Em, não eu.
-          Eu? - Emily riu. – Você e o Paul me dão um banho de talento.
-          Por falar no Paul, Fanny tem algo a dizer sobre ele, não tem, Fanny?

                    Por essa eu não esperava! Elinor não poderia ter me pego com calças mais curtas!

-          Hã... Bem... Sim, eu tenho.
-          É mesmo? – Emily, curiosa como ela só, quis saber. – O que é, Fanny?
-          Bom... Eu estou apaixonada por ele. – confessei, depois de um longo silêncio.
-          Sério? Eu jamais imaginaria! Você não deixa transparecer...
-          Não mesmo. – concordei. Eu estava prestes a revelar que não tinha esperanças, quando a campainha tocou. Elinor se levantou do sofá e foi atender.
-          Sr. Simon! Que surpresa! Pensei que ainda estava viajando! – ela exclamou.
-          Por favor, Elinor, posso falar com Emily? – seu tom de voz mostrava que ele estava nervoso. Nem sequer chamou minha irmã e minha prima de “srta. Elinor” e “srta. Fitzwilliam”.
-          Claro que pode falar, Paul! – Emily disse.
-          Eu não posso mais ficar calado, Emily! Escute minha canção.

                       E ele cantou “For Emily, Whenever I May Find Her”. Minha prima escutou tudo, e não disse nada quando ele terminou. Notei que ela parecia medir suas palavras, e por fim ela disse:

-          Paul, eu fico extremamente lisonjeada com esse seu sentimento, mas eu...
-          Você ama o Syd, eu sei. Eu não estou pedindo nada, só queria que você soubesse.

                        Com lágrimas brotando dos olhos, ele saiu correndo. E eu o segui.

2 comentários:

  1. Tive muita pena do Paul Simon mas fazer o que? ela ama o Syd mas isso vai acabar. Capítulo bom, porém triste.

    PS: que negocio é esse da Fanny ficar com meu barbudo? olha lá hein Maris! Fanny deve ser tão digna quanto a Rosie.

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  2. Eu estava falando da Elinor, kkkk. Ela e o Graham tiveram um caso em 1969, lembra?

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