A jovem estudante de Artes Cênicas Alberta Mann chegava naquela tarde a
Los Angeles, Califórnia, EUA. Ela, inglesa, havia pedido transferência de sua
escola de teatro em Londres para uma escola associada em L.A.
Ela queria ir embora da capital inglesa,
pois seu ex-namorado, Peter Noone, vocalista e líder da banda Herman’s Hermits,
a havia traído com uma fã e a mãe dela. Aquilo havia deixado Alberta chocada, e
ela jurava que se um dia pusesse os olhos em Noone outra vez iria saudá-lo com
um belo tapa no rosto.
Alberta chegou à escola de teatro onde
passaria a estudar. Ela ficaria morando em um apartamento próximo das
dependências da instituição com duas outras garotas. O processo de adaptação
foi fácil, e ela ficou muito próxima das suas colegas de apartamento, Joanna
Martin e Renée Chapelle.
O talento dela chamou a atenção de seus
professores. Um dia, um deles perguntou-lhe:
- Alberta, gostaria de ter um
pequeno papel em um episódio de Star Trek?
- Star Trek? Eu adoro essa série! – disse a jovem aspirante a atriz.
- Então posso levá-la para fazer
um teste?
- Claro que sim, prof. Wilkie! –
respondeu ela, entusiasmada. – Quando?
- Na próxima segunda-feira, às
16h.
- Está bem.
E lá foi ela, na segunda-feira
seguinte, ao estúdio de gravação de Star
Trek. Estava nervosa demais. E qual não foi sua surpresa quando soube que
quem a avaliaria seria o próprio criador da série, Gene Roddenberry!
- Bem, quem é esta garota, John?
Sua aluna? – perguntou Roddenberry.
- Sim. – respondeu o prof.
Wilkie. – Recém-transferida da Inglaterra, e muito promissora.
- Professor, fico lisonjeada, mas
não sou assim tão talentosa. – disse Alberta, vermelha.
- John tem um faro infalível para jovens atores talentosos,
moça. Qual é o seu nome?
- Al-Alberta Mann, sr.
Roddenberry.
- Bem, Alberta, aqui está o script da personagem para a qual veio fazer teste. Podemos começar?
- S-sim.
Ela se saiu muito bem no teste, e Gene
Roddenberry não teve dúvidas.
- O papel é seu, srta. Mann!
- T-tem certeza, sr. Roddenberry?
- Absoluta. Na quarta-feira pode
começar a filmar.
- Obrigada, sr. Roddenberry! Sou
uma grande fã da série!
- Eu que agradeço, Alberta.
***
Na quarta-feira, a estudante de
teatro estava ainda mais apreensiva. Ela teria que contracenar com seus ídolos.
William Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, Nichelle Nichols, James
Doohan, Majel Barrett, George Takei... E ele. Walter Koenig.
Ele interpretava Chekov, o
personagem favorito de Alberta na série. Se tivesse que contracenar com ele,
certamente Alberta meteria os pés pelas mãos de tanto pânico. Ironicamente, a
primeira cena que teve que filmar foi uma com ele e George Takei. Internamente,
ela lamentava que sua personagem fosse aparecer apenas naquele episódio.
Adoraria participar da série mais vezes apenas para ficar perto dele.
Não sabia por que se sentia tão
atraída. Davy Jones era mais bonito. Ela o havia conhecido através de Noone.
Contudo, Davy já tinha dona. Uma dona possessiva: a jovem historiadora Dianna
Mackenzie. Uma boa pessoa que, no entanto, tinha ciúmes quase incontroláveis.
Porém, ela não sentia nada de especial
pelo Monkee. Ela apenas o achava bonito. Com Walter era diferente. A
convivência com ele nos últimos dias havia proporcionado a Alberta algumas
palpitações e mãos trêmulas. “É ridículo que eu esteja apaixonada por ele”,
dizia a futura atriz em seus pensamentos. “Mal conversamos direito, e logo eu
não vou mais frequentar este estúdio de filmagem”. O que ela não previa era que
ele viria falar com ela nos intervalos de uma das últimas gravações.
- Olá... Alberta, não é?
- S-sim, sr. Koenig. – ela
desejava não ser tão propensa à gagueira.
- Sr. Koenig é meu pai, me chame
de Walter.
- T-tudo bem... Walter.
- Você gostaria de tomar um café,
Alberta?
“Ele está me chamando para sair, é
isso?”
- Bem... Acho que vou aceitar. –
ela sorriu, envergonhada.
***
- E então, Alberta, você é de Los
Angeles? – quis saber Walter.
- Não, não. Eu sou de Portsmouth,
Inglaterra.
- Ah sim. E o que a trouxe aqui?
- Queria ficar longe de Londres.
Tive uma experiência péssima por lá.
- Entendo.
- Sabe... Chekov é meu personagem
favorito.
- Ora, obrigado! Quer dizer que
você acompanha a série?
- Sim! Não perco nenhum episódio!
Não pude recusar quando meu professor se ofereceu para me trazer ao estúdio
para fazer um teste.
- É uma pena que você vá ficar só
mais um pouco, seria legal trabalhar com você regularmente.
- Bem, obrigada, mas eu ainda
estou cursando Artes Cênicas.
- Falta muito para concluir o
curso?
- Dois anos.
- Ah sim... E quantos anos você
tem?
- Vinte.
- Vinte? Que saudades do tempo em
que eu tinha essa idade!
- Saudades por quê? Você deve ter
tido essa idade há pouco tempo, no máximo há cinco anos!
- Quem me dera tivesse sido há
cinco anos! Foi há onze anos.
Alberta espantou-se.
- Há onze anos? Você tem trinta e
um anos??? Mas parece tão jovem...
- Me escolheram por dois motivos:
pareço aquele tal de Davy Jones e passo por garoto recém-saído da adolescência.
- Você de fato se parece com Davy
Jones... Eu o conheci.
- É mesmo?
- Sim. Por meio do meu
ex-namorado. Ele também é um vocalista de banda de rock.
- Sua péssima experiência em
Londres foi com ele?
- Sim, foi.
- Bem... Quer mais alguma coisa?
- Não, não.
- Então vou pagar a conta e vamos
embora.
- Nem pense em pagar a minha
parte!
- Eu insisto, Alberta!
- Eu não vou permitir, Walter!
- Você é uma garota decidida...
Tudo bem, não serei cavalheiro desta vez. Mas pensei que gostasse de
cavalheiros, já que é inglesa.
- E gosto... Porém, acredito que,
nos dias de hoje, o verdadeiro cavalheiro é aquele que sabe reconhecer a
independência de uma mulher.
Alberta não sabia disso,
entretanto, com aquela frase conquistou definitivamente o coração do intérprete
do alferes Chekov.
***
Chegou o último dia em
que Alberta iria ao estúdio de filmagem de Star
Trek. Nunca mais veria nenhum de seus ídolos, e isso a entristecia.
Especialmente no que dizia respeito a Walter.
Ela havia chegado a um
ponto em que não podia mais negar que estava apaixonada, mesmo ele sendo bem
mais velho e considerando o fato de que dificilmente se veriam dali em diante.
Walter procurou-a no intervalo.
- Bem... É o último dia. – disse ele.
- Pois é.
- Volto a lamentar que não
trabalharemos mais juntos.
- É... É realmente uma pena. –
Alberta disse, sem jeito.
- Sentirei sua falta.
- É, hã... Eu também.
Os rostos de Alberta e
Walter estavam muito próximos. E em segundos estavam trocando um beijo, que
começou como um selinho e ficou mais intenso. Alberta soltou-se de Walter e
afastou-se sem dizer uma palavra. Ele ficou sem saber se ela havia gostado do
beijo...
***
- Quer dizer que vocês se
beijaram? – Joanna perguntou.
- Sim, Jo.
- E o que você achou? Certamente
gostou. – disse Renée.
- Bem, eu... É, eu gostei.
- Eu sabia! – as duas amigas de
Alberta disseram, em coro.
- Mas não vai dar certo! Sou nova
demais para o Walter! Imatura demais...
- Para com isso, Al! Você é
bastante madura para uma mulher de 20 anos! E Walter gosta muito de você, isso
é evidente. – Renée observou.
- Sim, mas...
- Al, se você acha que Walter
será um segundo Noone na sua vida, é um grande erro! Se pensar isso sobre
qualquer cara que se mostrar interessado em você e em que você também tem
interesse, você não terá mais vida amorosa! – advertiu Joanna.
- Noone é passado, ok? – Renée
reafirmou.
- Meninas, obrigada pelos
conselhos, mas eu ainda... Preciso pensar.
Alberta foi para seu quarto,
pegou caneta e papel de carta e começou a escrever para a irmã, Melissa. Ela
era três anos mais velha, morava na Rússia e estudava para ser bailarina profissional
no Bolshoi.
Querida Mel,
Eu preciso de conselho. Eu consegui, graças ao meu professor, um
pequeno papel na minha série favorita, Star
Trek. Conheci Walter Koenig, intérprete de Chekov, meu personagem favorito,
e me apaixonei por ele. Nós saímos uma vez, e até nos beijamos... Mas agora eu
não vou mais participar da série, e não sei o que fazer.
As chances de que Walter e eu voltemos a nos ver são pequenas demais...
Eu devo insistir nesse sentimento, tentar algo com Walter? Ele também é 11 anos
mais velho... Será que não sou nova demais para ele? Minhas amigas dizem que
não, já que Walter parece ter no máximo 25 anos... E agora? Me ajuda, mana, por
favor!
Beijos,
Al

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