(Mike’s POV)
Amanhecia no acampamento das tropas das Terras do Norte e do Leste. Lord
Michael Nesmith acordou com o retinir das armaduras. O exército se preparava
para um ataque surpresa ao Forte Daltrey. O céu trocava o manto avermelhado da
aurora por um azul límpido. Um azul como o dos olhos de Lady Alice.
Ele estava tenso. Esperava que Lord Daltrey não oferecesse resistência e
devolvesse a princesa Mary Anne. Não era preciso aquela nova Guerra de Troia.
Quando todos os cavaleiros já estavam vestidos em suas armaduras e Lord Michael
Dolenz tinha conseguido parar em cima do cavalo, avançaram em direção à
fortificação. Os guardas nas ameias ficaram assombrados ao vê-los. Um deles
desceu, provavelmente para comunicar o ataque ao senhor do castelo. Começaram a
atirar flechas no exército. Uns e outros caíram da montaria, entre eles Sir
Peter Asher, das Terras do Norte, e Sir Bernard Calvert, das Terras do
Leste.
Logo,
os portões do forte foram abertos, e apareceram mais guardas, Lord Daltrey,
Lord Townshend, Lord John Entwistle e Lord Keith Moon. Os quatro lordes
partiram para cima, seguidos pelos guardas. Lord Townshend bateu-se com Sir
John Lennon; Lord John Entwistle, com o príncipe Paul; Lord Keith Moon, com
David Jones; e Lord Daltrey, com Sir George Harrison.
Se
aquela era uma nova versão da Guerra de Troia, Sir John Lennon era Aquiles,
Lord Townshend era Heitor, Sir George Harrison era Menelau e Lord Daltrey era
Páris. Lord Michael Nesmith, Lord Michael Dolenz e Lord Tork lutavam lado a
lado, derrubando muitos inimigos, mas sem matá-los. Tinham aversão por matar.
David
estava dando trabalho para Lord Keith Moon. Era pequeno, rápido e perspicaz.
Michael não sabia se ficava atento à luta entre eles, à luta entre Lord
Townshend e Sir John Lennon, à luta entre Sir George Harrison e Lord Daltrey ou
aos inimigos que o atacavam.
Sir
George estava furioso, e deixava isso transparecer. Às vezes parecia que já era
o marido da princesa Mary Anne, não seu mero pretendente, e que ela lhe havia
sido roubada. Michael não podia culpá-lo. Sabia que, se Lady Alice fosse
raptada, ele dispor-se-ia a salvá-la.
Por
que, por que ela tinha que estar prometida a um nobre germânico de quem nunca
vira o rosto? E por que, por que ele tinha que estar prometido a Lady Emma
desde o dia em que ela nasceu? Ela era belíssima, entretanto, não era sua
Alice. Como ele queria ter talento de trovador, para cantar a beleza de sua
amada!
Pensava em tudo isso enquanto se defendia e atacava. Até que, entre o
estrépito do choque entre as espadas, ouviu-se:
- Renda-se, Lord Daltrey! – era Sir George.
- Jamais! Morrerei defendendo meu forte, se preciso, contudo,
jamais me entregarei! Não sou um covarde!
- É sim um covarde! Roubou uma princesa sem mais nem menos!
- Ninguém me chama de covarde, Sir George Harrison!
- Eu chamo!
Lord Daltrey rosnou de raiva, e atacou o cavaleiro mais uma vez, que se
defendeu formidavelmente.
- Entregue a princesa! – exclamou Sir George.
- Eu entregaria... Se ela estivesse no meu forte.
Todos olharam chocados para
Lord Daltrey.
- O que quer dizer com isso, seu poltrão? – Sir George mais
pasmo do que qualquer um.
- Quero dizer exatamente o que disse. A linda princesa não
está mais sob meu poder.
O cavaleiro encolerizou-se
profundamente.
- E onde ela está?
- Isso eu não vou dizer. Terá que procurar por todas as
Terras do Sul e do Oeste se quiser encontrá-la!
Indignado, Sir
George ordenou às suas tropas que batessem em retirada e voltassem ao
acampamento. Ele reuniu seus principais oficiais: Sir John Lennon, príncipe
Paul, Sir Richard Starkey, Lord Tork, Lord Michael Dolenz e o próprio Lord
Michael Nesmith. Pelo seu grande desempenho na batalha, foi permitido a David
participar da assembleia.
- Teremos que revirar as Terras do Sul e do Oeste para
resgatar a princesa? Pois bem, é o que faremos! – disse Sir George. – Alguém se
opõe?
Ninguém se
manifestou.
- Ótimo. Partimos ao amanhecer.
Nada,
absolutamente nada, iria afastar Sir George de seu objetivo. Todos ali, Lord
Michael Nesmith incluído, tinham grande admiração por ele e sua inabalável
determinação.
Mais tarde, Lord Michael
tentava dormir, quando notou que David também estava tendo problemas para pegar
no sono.
- Na batalha de hoje foi excepcional, sr. Jones.
- Obrigado, milorde!
- Está encontrando dificuldade para dormir?
- Ah... Sim, estou. – ele suspirou. – Acho que sofro de
excesso de paixão por uma mulher.
- Eu o entendo, sr. Jones.
- Não, o senhor não entende. Sei que está apaixonado por uma
mulher com quem pode se casar, Lord Michael. Não é o meu caso.
- Não, eu não posso me casar com minha amada. Ela e eu
estamos comprometidos com outras pessoas.
- Minha amada não apenas casar-se-á com outro homem, como
também é uma dama! Sou apenas um escudeiro, um reles escudeiro. – David colocou
o rosto nas mãos. – O que vou fazer? Ela é tudo para mim, milorde. Se estou
nessa guerra, estou apenas por ela.
Lord
Michael Nesmith pensou ter descoberto quem era a amada de David.
- Ama a princesa Mary Anne, sr. Jones?
David Jones soltou uma risada.
- A princesa? Não, absolutamente não! Ela é belíssima, de
fato, mas sua beleza é ofuscada se comparada à de Lady Dianna Mackenzie!
O
jovem lorde estava pasmo.
- A noiva de nosso amigo Lord Tork?
- Ela mesma. Ela é o meu anjo, a minha senhora! Faço tudo por
ela! Estou lutando na tentativa de ser sagrado cavaleiro e assim poder
pretender desposá-la.
- Já que me confessou o nome de sua amada, confesso o da
minha. Lady Alice Stone.
- Eu já imaginava.
- Quando o feudo do pai dela foi atacado por bárbaros, ela
teve que se tornar noiva do filho do líder daqueles bárbaros para apaziguar os
ânimos e selar a paz. Isso me parte o coração! Por meu lado, há 21 anos que
estou prometido a Lady Emma Carlisle, ou seja, desde que ela nasceu e eu tinha
três anos. É sem dúvida uma linda mulher, de primorosa educação e finos modos.
Mas eu não posso amá-la, por mais esforços que faça neste sentido.
- Lady Alice sabe de seus sentimentos, milorde?
- Sabe. E os corresponde. Lady Dianna sabe dos seus? Ela os
corresponde?
- Sim, ela sabe que eu a amo, e me ama também.
- David...
- Sim?
- E se, após o fim da guerra... Fugíssemos com elas?
- Isso é loucura!
- Loucos apaixonados como nós fazem qualquer coisa, David!
- Eu esperaria um desvario desses de Lord Michael Dolenz, mas
não do senhor! Desejo do fundo do coração me casar com Lady Dianna, mas creio
que ainda esteja com o pouco de juízo que me resta!
- Ora, vamos, David!
- Eu vou pensar a respeito.
David bocejou e pediu licença a Lord Michael para tentar dormir. Este
ficou contemplando o céu, pensando se ao menos voltaria para casa para ver sua
Lady Alice. Ele temia ter a vida ceifada. Ou mais ainda, a de seus amigos.
(Erin’s POV)
Lady
Erin estava de volta ao Forte Mackenzie, onde ela e a mãe viviam desde que seu
pai, Lord Hudson, morrera. Ela estava preocupada com o tio, Lord Mackenzie, e o
primo, Lord Giles. Ela também via a preocupação em sua mãe, sua tia, sua prima,
nas amigas e em suas respectivas mães.
Naquela noite, Lady Hudson, mãe
de Erin, Lady Carlisle, madrasta de Emma, Lady Mackenzie, tia de Erin e mãe de
Dianna, e Lady Stone, mãe de Alice, ordenaram às filhas que se recolhessem aos
aposentos de Dianna e dormissem. Mesmo contrariadas, as quatro jovens
obedeceram.
Erin deitou-se na cama. Logo adormeceu. E teve um belo sonho.
Ela caminhava solitária
por um bosque escuro. Estava cansada, com fome e com frio. E começando a ficar
com medo. Sentiu mãos agarrarem-na.
- O que uma linda jovem
indefesa faz perambulando sozinha por esta floresta tão perigosa? Não sabe que
bandoleiros se escondem nestas matas? – disse uma voz que, de tão suave, era
aterradora.
- Largue-me,
largue-me... – ela suplicava. – Não tenho nada que possa interessar-te.
- É mesmo? E este colar
de ouro e rubis? Estou diante da filha de um nobre, estou certo.
- Por favor, deixe-me
ir! – Erin chorava.
- Apenas se me der este
colar.
- Jamais! – aquele
havia sido o último presente que Erin ganhara do pai antes da morte dele, nunca
se desfaria dele.
Até que...
- Solte a moça! – um
cavaleiro montado num cavalo cinzento ordenou.
- E por que eu faria
isso? – perguntou o bandido.
- Porque eu vou pagar.
– o cavaleiro jogou uma bolsinha de moedas de prata e ouro aos pés do
criminoso. – Se isso não o convencer, creio que o fio de minha espada o fará!
- Não, não, senhor, não
haverá necessidade disso. – o bandido soltou Erin, deixando-a cair, e apanhou o
saco de moedas, fugindo dali às pressas.
- Isso evitará que ele
roube mais pessoas por um bom tempo. – resmungou o cavaleiro, oferecendo a
mão
a Erin para que ela se levantasse. – Está bem, milady?
- Estou, muito
obrigada, milorde. – disse ela, se erguendo e limpando o vestido. – Pode erguer
o visor de seu elmo para que eu veja o rosto de meu salvador?
- É claro, bela
senhorita. – ele ergueu o visor, e Erin viu o rosto de um belo jovem, de
grandes e meigos olhos castanhos, cabelos louros e um sorriso gentil. Sentiu
uma estranha sensação tomar conta dela. Acreditou estar se apaixonando.
- Eu sou Lady Erin
Hudson. – ela se apresentou. – E o senhor é...?
Ele abriu a boca para responder,
quando Erin sentiu o ombro ser chacoalhado.
A jovem
abriu os olhos e encontrou os de sua criada.
- Desça para o desjejum, milady. – disse ela.
- Já estou indo, obrigada. – respondeu a jovem, com um
bocejo, desapontada por ter sido acordada no momento em que iria saber o nome
do nobre cavaleiro que a salvara.
Desceu. As ladies mais velhas já não estavam à mesa, mas Dianna, Alice e
Emma estavam. Cumprimentou as amigas e sentou-se. Estas logo perceberam que
Erin, sempre animada e expansiva, se encontrava quieta e pensativa naquela manhã.
- Não estou te reconhecendo, prima. – disse Dianna. – Sonhou
com algo ruim?
- Sonhei com algo bom, na verdade. – Erin deu um pequeno
sorriso.
- E o que foi? – perguntou Alice.
- Eu era salva de um ladrão por um belo cavaleiro... Ele era
louro, e tinha olhos castanhos tão doces e um sorriso tão meigo...
- É mesmo um belo sonho. – disse Emma. – Uma pena que
possivelmente ele seja apenas fruto de sua imaginação...
- Sim! Mas ao mesmo tempo, Emma, sinto que ele é real e que
um dia irei conhecê-lo!
- Um dia você conhecerá esse cavaleiro, Erin. – disse Dianna
com um sorriso.
As quatro
moças passavam dias quase tediosos no Forte Mackenzie. Suas mães as proibiam de
sair, pois temiam que elas fossem atacadas. O que as mães não sabiam era que
Erin e suas amigas estavam treinando por conta própria como se defender. Se o
Forte Mackenzie fosse invadido, juntar-se-iam aos guardas e lutariam por suas
vidas. Erin gostava da sensação de poder cuidar de si mesma. Contudo, não
negava que, se um dia aquele belo cavaleiro se oferecesse para protegê-la, ela
não recusaria a proposta.
- Oh, milorde, você é real? – ela murmurava. – Se for, onde
está? Qual o seu nome? Onde vive? Está... Está prometido a alguma dama? – ao
pensar nisso, o corpo dela estremeceu. Temia que ele já tivesse um compromisso.
Certa
noite, Erin acordou com o grito assustado de sua prima...
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