Alguns meses depois,
em abril de 1967...
Eu não
vou mentir dizendo que superei a perda de Ray facilmente. Eu não sou o tipo de
garota que fica chorando pelos cantos, porém, sofri muito. Eu tinha feito de
tudo para que meu relacionamento com Ray não tivesse o mesmo destino do meu
namoro com Paul, entretanto, meu esforço foi infrutífero.
Ficava
imaginando se poderia me apaixonar novamente e, dessa vez, acertar. Eu queria
poder encontrar alguém que gostasse de mim tanto como Bob costumava gostar, já
que eu não podia ter o próprio Bob. Ele já tinha a Alice, e eu também temia as
consequências que um possível namoro poderia trazer para nossa amizade.
Tentei
tocar a minha vida normalmente, com a universidade e meus amigos. Por um tempo,
consegui esquecer os meus problemas amorosos. Mas sempre, sempre, me assombrava
a pergunta “Existe mesmo um cara certo para mim?”. Eu temia pela resposta
negativa.
Certo
dia, recebi uma ligação de Felicity.
- Oi, Fanny. Nora e eu vamos cobrir um show dos Hollies no Ready, Steady, Go! no sábado que vem e temos direito de levar mais alguém
conosco. Quer ir?
- Bem... Acho que eu vou aceitar. – fazia algum tempo que eu
não ia a um show. Seria uma nova distração para a minha mente.
No
sábado, lá fomos nós três ao estúdio de onde o RSG era transmitido ao vivo. Sentamo-nos nas cadeiras da plateia
destinadas “às jornalistas da Rolling
Stone e sua ilustre amiga”. O show foi muito bom, e a plateia foi à loucura
quando os Hollies tocaram Bus Stop.
Já
íamos embora, quando um homem, que se apresentou como empresário dos Hollies,
disse que Allan Clarke, o vocalista, queria falar comigo. Fiquei muito
surpresa, mas fui falar com ele.
- Qual é o seu nome, linda menina? – ele me perguntou.
- Fanny Fitzwilliam. – eu disse.
- E eu sou Allan Clarke.
- Eu sei. – eu respondi com um sorriso.
- Espere... Seu nome não me é estranho. – disse Allan.
- Como assim?
- Nas festas da sociedade musical londrina, há alguns meses,
o grande assunto era o término de Ray Davies com uma tal de Fanny Fitzwilliam
para ficar com Nora Smith.
- Bem... Sim. Eu era a namorada de Ray Davies. – eu admiti,
corando.
- Não sei se essa Nora Smith é bonita, mas você é muito bonita. Não sei o que deu naquele
Kink para dispensar você.
- Tudo bem. Eu já esqueci. Nora é minha amiga.
- Você deve ter uma mente muito aberta, para não estar
sofrendo com isso.
- Eu estou, sr. Clarke, pode acreditar. Mas eu lido com isso
de uma maneira própria.
- Sr. Clarke é o meu pai. Pode me chamar de Allan.
- Tudo bem... Allan.
- Fanny, eu preciso ir, mas aqui está meu telefone. Ligue-me
quando puder. – disse ele, pegando um papel e uma caneta, escrevendo
rapidamente e me entregando a folha.
- Hã, ok.
Allan beijou meu rosto e se foi. Eu liguei para ele depois de uma
semana. Combinamos um encontro. E mais outro. E mais outro.... Depois de um mês
assim, Allan me pediu em namoro. Eu relutei um pouco, antes de aceitar, mas
acabei me rendendo ao charme de Allan. Além de tudo, o nome dele parecia ser um
bom sinal... O nome do meio de Bob é Allen.
Eu não me arrependi de ter aceitado o pedido de Allan. Ele era muito
gentil e atencioso, e diferente o bastante de Paul e Ray. E ao menos aparentava
não ter preocupações em relação a Bob, o que acrescentava mais alguns pontos
positivos no conceito que eu tinha dele. Se um cara é gentil, atencioso e não
tem ciúmes do meu melhor amigo, ele tem grandes chances de me conquistar.
Os meses se passaram, e Allan e eu não tivemos problema algum. Bob e
Alice estavam nos Estados Unidos, e ele estava gravando músicas novas. Ele me
mandou uma carta certa vez, dizendo que gravar sem a English Band como banda de
apoio e sem mim como espectadora fiel era muito esquisito. Eu também estranhava
ficar sem acompanhar as gravações dele.
Eu me lembrava de que Ray implicava com o fato de que eu sempre estava
nas gravações de Bob, mas não nas dos Kinks. Dessa vez, por não ter como
acompanhar as gravações de Bob, eu passava muito tempo nas gravações dos
Hollies. E qual não foi minha surpresa quando, um dia, Allan disse:
- Bem, pessoal, eu acho que nós deveríamos tocar uma música
que Fanny adora, e que a faz se lembrar de uma pessoa que é muito importante
para ela.
E
qual não foi a minha surpresa quando os Hollies começaram a tocar uma linda
versão de Just Like A Woman! A única
coisa que Allan não sabia era que eu própria havia sido a inspiração para
aquela música, que, segundo Bob, era uma reflexão sobre os meus
relacionamentos, nos quais eu agia como uma mulher, mas que, quando chegavam ao
fim, me levavam a ter uma reação típica de menina. Eu admito que é assim, pois
eu nem completei 20 anos ainda!
Recebi uma ligação de Fefe duas semanas depois disso.
- Oi, Fanny.
- Oi, Fefe, tudo bem?
- Eu diria que sim, mas poderiam estar melhores. Fanny, quer
vir assistir ao meu ensaio com o Paul Williams e o Biff McFly?
- Adoraria, Fefe. Quando?
- Nesta quarta-feira, às quinze horas, pode ser?
- Claro. É verdade que você vai tocar na Eurovision?
- É sim! Por isso estamos ensaiando! Também quero lançar
alguns singles, sabe?
- Entendo. Eu te vejo na quarta-feira, amiga. Até.
- Até.
Fui ver Fefe na Track Records no dia e horário combinados. Ela me
apresentou a Paul e Biff. Ao conhecê-los, me lembrei de Alana, Edward e Harry,
e quase chorei de saudade deles. Sentei-me para ver Felicity e sua banda de
apoio gravarem. Eles começaram a tocar All
I Have To Do Is Dream, dos Everly Brothers, uma das músicas de que mais
gosto. Então ouvi alguém entrar na sala. Virei-me para ver quem era. Pete
Townshend!
- Oi. – ele me cumprimentou. Acho que ele não se lembrava de
mim, mas tudo bem. – Conhece a cantora?
- Sim, ela foi minha colega nos tempos da faculdade em
Cambridge. Hoje estou na Universidade de Londres. Felicity McGold. Você deve
ser o Pete Townshend. – já que Pete não se lembrava de mim, fiz de conta que
nunca o tinha visto mais gordo na vida.
- Sim, sou eu. Qual o seu nome?
- Frances Fitzwilliam. Todo mundo me chama de Fanny, poupa
tempo e energia.
Contei a Pete que namorava Allan e morava em Londres. Que porcaria, ele
não se lembrava de mim mesmo. Mas não me importei. Depois que o ensaio
terminou, fui falar com Felicity. Pete foi embora. Depois de mais ou menos uma
hora, voltei para o hotel onde eu morava.
Mais tarde, eu estava lendo um pouco de Anna Karenina quando o telefone tocou.
- Fanny, sou eu, Emily! – minha prima tinha um tom desesperado
na voz.
- O que houve, Emily? Tá tudo bem? Meu pai, minha mãe,
Elinor, tio Edwin, tia Jackie, eles estão bem?
- Sim, sim, não é com ninguém de nossa família o problema.
Por um momento fiquei aliviada. Mas e se houvesse acontecido algo com
Bob?
- Lembra-se da Felicity McGold?
Senti um arrepio percorrer minha espinha.
- Claro que me lembro, Emily! Hoje mesmo estive com ela! O
que aconteceu?
- Bem, parece que ela saiu de uma gravação na Track Records
e ia de volta à redação da Rolling Stone
quando foi sequestrada por duas mulheres. Agora ela está no hospital, foi salva
pelo Pete Townshend.
- Deus abençoe o Pete! Diga-me o nome do hospital, Emily!
Minha prima disse o nome do hospital,
agradeci e desliguei. Pedi ao Allan para me levar até lá. Chegando ao hospital,
perguntei à moça da recepção:
- Por favor, o quarto da Felicity McGold?
- Quarto 15, segundo andar.
-Obrigada.
Peguei um elevador, e logo que cheguei ao segundo andar, disparei pelo
corredor. Vi Pete em frente a um quarto.
- Nossa, Pete! A minha prima Emily me ligou contando sobre
um sequestro e depois ouvi no rádio a caminho daqui. Como está a Felicity?
- Ela levou um tiro de raspão no ombro. Os médicos cuidaram
dela. Está ali no quarto. Entra lá, Fanny.
Eu não precisava de um segundo convite.
- Olá, Fefe! Olá,sr. McGold! – eu disse, ao entrar. – Como
está, amiga? – eu perguntei, enquanto o sr. McGold saía. Acho que ele foi falar
com Pete.
- Estou bem, graças ao Pete. – disse Fefe.
- Graças a Deus ele apareceu. – eu disse.
- Sim. Fanny, sabe quem me sequestrou?
- Não faço ideia. Quem?
- Jenna.
- JENNA DAVIES?
- A própria.
- Aquela, aquela... – não conseguia encontrar um insulto que
fizesse jus ao baixo nível daquela vaca da Jenna. Ela já havia acabado com o
noivado de Evanna e Pete e com meu namoro com Ray, agora ela me aprontava essa!
Eu não sabia quem odiava mais: Kathy ou Jenna.
- Está tudo bem agora. – suspirou Fefe. – Ela foi presa.
- Estava na hora. – eu disse. – Mas, me conte, o que Pete
Townshend tem com você?
Felicity me contou tudo: como conhecera Pete numa entrevista que ela e
Nora fizeram para a Rolling Stone,
como ficaram juntos, como Jenna os separou após anunciar na festa de
aniversário de Nora a falsa notícia de que estava grávida dele, como Evanna
revelou a verdade a ela, e os acontecimentos dos últimos dias. Estava ficando
tarde. Eu disse:
- Fefe, preciso ir agora. Estou torcendo muito por você e
pelo Pete! Vocês formam um lindo casal!
- Obrigada, Fanny. Sabe... Você e Allan são fofos juntos,
mas... E o Dylan?
Eu neguei com a cabeça.
- Não, Fefe. Bob e eu somos amigos, só isso. Quem sabe...
Quem sabe em outra vida?
Enquanto saía, dei de cara com o piloto sueco de Fórmula 1 Ronnie
Peterson. Será que ele também era admirador da Felicity? Dei de ombros. Entrei
no carro de Allan e fomos embora.
Mais
tarde, Allan e eu nos preparávamos para dormir. Eu pensava no que Fefe havia me
dito sobre Bob. A verdade era que eu às vezes me sentia como se o conhecesse de
outras eras, e que de quando em quando eu tinha a sensação de que ele e eu
deveríamos ter uma relação mais forte do que uma simples, ainda que grande,
amizade.
Porém, eu estava feliz com Allan, e Bob , com Alice.
Ademais, nós nos amamos como amigos. Ele sempre vai estar ali para mim quando
eu precisar, e eu para ele.
Eu me deitei ao lado de Allan. Enquanto fazíamos amor, eu pensava: “Bom,
talvez não seja necessariamente você com quem eu deveria ficar, Allan, mas eu
te amo. Espero que você me faça feliz”.
Esse merece meu comentário aqui. Adorei demais o final de Fanny e as referências a Love Sell Out. Ela tem chance de ser feliz com Dylan em Holiday.
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