Roger respondeu prontamente:
– Mas é claro que é, meu amor... Você deve ter trocado de perfume e não está se lembrando...
– Não me chame de "meu amor", seu cachorro! Eu conheço muito bem meu próprio cheiro, e não troquei de perfume! Seu vigarista... - ela praticamente rosnou.
– Ficar brava só te deixa mais sexy... - ele falou, com voz suave, abraçando Mary e espalhando beijos pelo pescoço e pelos ombros dela.
– Você é um sem-vergonha, Roger... É uma pena que eu goste tanto de você. - ela falou. - Eu vou te dar só mais uma chance. Se você sair da linha de novo eu vou te largar...
– Tá bem, tá bem... Agora, que tal você deixar seu cheiro em mim? - ele provocou.
– Você só me quer para isso, não é?
– Claro que não. Eu amo você, Mary.
– Aham, claro. - ela disse em tom sarcástico.
– Você me ama tanto que me odeia, certo?
– Exatamente. - ela suspirou.
Sem mais delongas, ele a beijou. Nos dias seguintes, Mary decidiu compor mais canções para os Parkers, além de dedicar-se aos estudos. Ela escreveu uma música chamada Should I Trust You?, cujo refrão era:
My love is getting stronger and stronger
I feel I could die
You look me deeply in my eye
And promise me it will not happen any longer
Should I trust you?
De fato, Roger jurava a Mary que aquilo não se repetiria. Ainda assim, ela já não o achava tão digno de confiança. Porém, seu amor por ele continuava tão grande que ela não conseguia sentir raiva por muito tempo. "Eu tenho que mantê-lo na linha... Mas ele não é tão desprezível assim...", ela dizia consigo mesma.
Chegou o ano de 1965, os High Numbers adotaram o nome de The Who, e os Parkers estavam se tornando mais populares. "It Will Never Be The Same"/ "All Shook Up" vendia como água, assim como o novo single do The Who, "I Can't Explain". Roger gostava de cantar, sussurrando, "I can't explain, I think it's love" no ouvido de Mary, o que a fazia perder a cabeça.
Enquanto isso, em Liverpool...
– Dani, você não acha que precisamos de um baterista? - Evelyn perguntou.
– Mas, Evy, eu não sei se esse negócio de banda vai dar certo...
– Como a gente vai saber, se não tentar?
– Ah, está bem, Evy... Você conhece algum baterista?
– É uma pena que o Richard Starkey já esteja curtindo o estrelato... - Evy provocou.
– O Jerry tinha um ciuminho do Ringo, era tão engraçado... - Dani recordou-se do falecido noivo.
– Bola para a frente, Dani. - Evy falou.
– Eu sei... Mas é foda.
– Eu entendo. Ei, você já ouviu aquela banda nova, The Who?
– Sim, os caras são uns lindos! - Dani exclamou. - E o som é ótimo...
– Aham... Lembrei-me de alguém...
– Quem?
– A Belle Martin... Aquela que a gente conheceu no show dos Quarrymen, lembra? A Mary ficou puta porque não conseguiu chegar perto do Harrison...
– Isso foi há séculos!
– Eu sei... Mas não custa tentar.
Evelyn entrou em contato com Belle alguns dias depois, e conseguiu uma resposta afirmativa dela. Quando ensaiaram pela primeira vez, o nome ideal para a banda surgiu quase como um insight na mente de Evelyn: Whereland.
Em Oxford, Mary estava em meio a um surto de criatividade. Esperava que os Parkers pudessem gravar tudo aquilo. Mostrou Strange Love a Tom, Andy e Rob. A música era claramente inspirada no namoro entre Roger e Mary, e dizia no refrão:
I love to hate you,
And I hate to love you
But I can't even wonder you far away from me....
My feelings have the strenght of a thunder,
I know yours are strong too,
However you make a fool of me...
It's a strange love.
– Nossa, Mary... Você se superou. - disse Tom. - Essas músicas são tão profundas, nem sei se vou conseguir transmitir o que você tem a dizer...
– Você não tem coragem de dizer isso ao Roger? - perguntou Andy.
– Nem um pouquinho. - Mary respondeu. - Fico corada só de imaginar...
– Mas ele realmente engana você, Mary? - indagou Rob.
– Não tenho certeza... E, sinceramente, prefiro não saber.
– Isso não é meio doentio? - questionou Tom.
– É sim... Doentio para cacete. Mas eu amo aquele salafrário... Ainda tenho esperança de conseguir mudar o comportamento dele.
– Enfim... Que tal a gente tocar essa música, só para testar? - sugeriu Andy. - Se ficar legal, pode ser nosso próximo single!
– Boa ideia. - os outros concordaram.
Algumas horas depois, Mary foi para casa. Roger não estava lá. "Tomara que você esteja no night club, cantando", ela pensou mordazmente.
Sentou-se no sofá, tirou a guitarra do estojo e começou a tocar algumas notas aleatórias, apenas para se distrair. O dia havia sido cheio, com aulas de manhã e ensaio à tarde. Seu telefone tocou.
– Alô?
– Oi, Mary. - ela reconheceu a voz de Evelyn.
– Oi, Evy! Puxa, que surpresa...
– Hehe. A Dani e eu conseguimos uma baterista...
– Legal! Na época em que eu morava aí em Liverpool era meio complicada quando a gente ia ensaiar, sempre trocávamos de baterista, toda semana... Quem é?
– A Belle Martin... Você se lembra dela?
– Acho que não...
– Ah, é mesmo, a Dani e eu conversamos com ela depois do show dos Quarrymen... Você já tinha ido para casa.
– Caramba, você se lembra com riqueza de detalhes daquele dia? Eu não...
– Eu estou ouvindo uma banda chamada The Who com muita frequência, e você?
– The Who? É a banda do meu namorado...
– Tá me zoando, né?
– Não... Eu sou a namorada do Roger Daltrey.
– Sério mesmo? Então você se esqueceu do boçal que te enganou...
– Hã, Evy... O boçal era o Roger.
– Depois eu sou a estranha... - Evelyn riu.
– Sim, Evy, você é estranha. - Mary riu também.
– Bom, se tudo der certo, as garotas e eu logo iremos para Londres.
– E eu espero que o Roger não me largue aqui em Oxford quando o The Who voltar para lá.
– Eu ainda não acredito que você namora o vocalista do The Who.
– Pois é, eu também não. E você estava certa, ele não é nenhum príncipe encantado... Está mais para um sapo.
– Finalmente você aprendeu!
– É. Finalmente.
– E você sabe que com caras como ele há que se ficar de olho aberto, não sabe?
– Sim, Evy... Caras como ele tem que ser encoleirados...
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